Copo de 3: Tapada de Coelheiros tinto 2004

06 abril 2009

Tapada de Coelheiros tinto 2004

A excitação enófila tomou conta de Portugal nos últimos anos, fruto de uma maré de novidades que colocou os apreciadores de vinho numa autêntica roda viva, querendo provar o máximo possível dos novos aromas e sabores que inundaram o mercado.
Hoje em dia a coisa parece que anda mais calma, os aromas que antes eram novos tornaram-se quase que triviais e novos aromas e sabores são cada vez mais difíceis de encontrar e o consumidor tem vindo a acalmar no que toca à sua avidez enófila de conhecer tudo e todos.
Dá-se nova ''febre'' e eis que do nada se aponta para os vinhos do passado, e o novo motivo de conversa passam a ser os ''vinhos velhos'' , capazes de nos transportar para outra dimensão de prova e conhecimento, onde evidentemente os aromas e sabores são novamente diferentes do que se andava a provar nos últimos tempos com os amigos.
No meio de tudo isto, foram ficando algumas marcas que de certa forma foram sendo ultrapassadas, colocadas de lado, face a um interesse que deixou de morar naqueles rótulos. Vinhos que conquistaram lugares de destaque e respeito, foram preteridos pelas novidades ou pelos vinhos mais velhos... quase que pairam no limbo do que se pode chamar Clássicos.
O vinho que agora coloco em prova é um fiel exemplo de um produtor com nome consolidado no mercado, terá sido mais falado em seu devido tempo e terá os seus fieis seguidores nos dias de hoje, mas na roda viva do dia a dia quase que desapareceu de circulação. Nome respeitado em muita mesa, o Tapada de Coelheiros foi daqueles vinhos que sempre segui com respeito e admiração, nome grande do Alentejo, invocou a glória com um excelso Garrafeira 1996.
A verdade é que também eu me deixei levar pelas febres das novidades e me fui afastando destes vinhos, os preços ''puxados'' não ajudam. O último exemplar que me lembro de ter bebido foi o Tapada de Coelheiros tinto da colheita 1999, voltando às provas deste clássico alentejano agora com a colheita de 2004.

Tapada de Coelheiros tinto 2004
Castas: Cabernet Sauvignon 50%, Trincadeira 25%, Aragonês, 25% - Estágio: 12 meses em casco de carvalho francês (30% novo) e 12 meses em garrafa - 14% Vol.

Tonalidade ruby escuro de concentração média.

Nariz de boa intensidade, a mostrar-se com fruta vermelha bem madura envolta em especiarias do reino das pimentas e o toque vegetal fresco a recordar pimentos, não dos verdes mas sim pimentão, daquele que se esfrega no aroma a carne maturada que exala ao de leve. Complementa a sua passeata com uma brisa de tosta, reveladora de um trabalho de madeira de grande nível (norma a que nos acostumou esta casa) sempre vigiada de perto por um bálsamo vegetal, fresco e tonificante, mas sem excessos.

Boca acima de tudo a mostrar um vinho elegante, com espacialidade controlada e ao mesmo templo com ligeira delicadeza. Assenta na frescura da fruta vermelha com toques de tosta, mais uma vez sentimos sintonia entre a prova de nariz e a prova de boca, mostrando um conjunto fino e aprumado. Complementa-se com vegetal fresco, novamente nas pimentas e em nuance de cacau semi-frio, prolongando-se num final de boca médio/longo.

É daqueles vinhos intemporais, fora de modas ou de tendências. É dono do seu nariz, mostrando-se sério e muito bem feito, mas ao mesmo tempo sereno e conquistador. Depois de o provar, fico a pensar em qual será o motivo que leva o consumidor a andar atrás de vinhos cheios de efeitos especiais, quase que adeptos do tunning vínico, quando temos por preço semelhante vinhos de qualidade e com aquela identidade que muitas vezes procuramos e teimamos em não encontrar.
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4 comentários:

Miguel Pereira disse...

Um clássico que, lamentavelmente, anda esquecido.
Está a acontecer a muitos e bons produtores.

Mas o que é bom, mais cedo ou mais tarde, volta à ribalta.

Abraço

Copo de 3 disse...

Recentemente encontrei Tapada Coelheiros 96 e 97, que um dia destes combinamos e derrubamos as ditas.

Miguel Pereira disse...

ui, ui

Anónimo disse...

Tu és um lindo rapaz- vê-se que foste educado

 
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