Copo de 3: Medalhas de papel

04 fevereiro 2010

Medalhas de papel

Começo este texto a propor um teste, vamos supor que durante uns tempos andaram a treinar para falar sobre determinado assunto durante 3 minutos, sucintamente apenas tinham que dizer o vosso nome a idade e onde moram, depois a determinada altura são encaminhados para uma sala cheia de público onde vão ter de dizer durante os tais 3 minutos o que aprenderam. Obviamente que os melhores desempenhos até vão ter direito a um prémio pois foram os que melhor disseram em tão pouco tempo. Agora imaginem que vão para a mesma sala, mas afinal já não são 3 minutos que vão ter de falar mas sim durante 1 hora. É nessa altura que a vossa conversa se vai tornar repetitiva, enfadonha e muita gente vai sair da sala por já não aguentar mais a ladainha do nome, idade e morada. Resolvem então aprender mais algo que dizer, para que da próxima vez que forem à dita sala, já irem prevenidos e caso vos seja dado mais tempo, já vão saber dizer o tamanho da rua, como são as casas, o número da porta... Voltam então à dita sala cheios de expectativas e para vossa surpresa apenas têm os tais 3 minutos, pelo que são apanhados de surpresa e de tão envergonhados que ficam nem sabem por onde começar, nesse mesmo dia acabou por vencer um dos tais concorrentes que só tinha treinado para os 3 minutos. Agora façam este exercício como se em vez de vocês, estivesse um vinho.

Um concurso de vinhos é essencialmente uma prova onde os provadores tentam provar o maior número possível de vinhos num tempo determinado que por norma é sempre limitado e reduzido. Ou seja, é quase uma corrida contra o tempo onde os vinhos vão sendo literalmente empurrados, espezinhados e esmagados uns contra os outros. Isto para não falar no provador e na saturação do mesmo após provar digamos, 25 vinhos de seguida. O provador tem que num tempo recorde, conseguir avaliar os vinhos que lhe vão caindo no copo, o que contraria e de que maneira aquela indicação de que alguns vinhos antes de consumidos precisam de algum tempo para melhor se mostrarem.
Mas então quem fica a ganhar com isto ? Focando apenas nos brancos, tintos e rosés, apenas e só os vinhos de gatilho rápido, muitos deles feitos para este "negócio" das medalhas e prémios, que raramente mostram grandes dotes quando provados com muito mais tempo do que aquele que foram feitos para durar. Sim é exactamente a conversa do tornarem-se monótonos, chatos, repetitivos, cansativos...
A realidade é que todo e qualquer vinho que beneficie de uma prévia decantação, e todos sabemos que há vinhos que 30 minutos é pouco para dito efeito, acabam por ser claramente prejudicados nestas orgias do vinho, que são os famosos concursos.
Das vezes em que fui júri, sempre me fez confusão aquela roda viva que se monta no vai e vem de vinhos, acabando quase por os ditos cujos nem terem o tempo necessário para se mostrarem. É sempre invocado que há muito vinho para ser provado e como tal não se pode perder muito tempo... somos olhados de lado se dedicamos mais tempo a um vinho do que o necessário para a ocasião. Ali não interessa se determinado vinho vai ganhar algo com o tempo no copo, ali o que interessa são os números finais, o que nós achamos que aquele vinho que ainda mal "comunicou" connosco, vale. E mais uma vez a pergunta surge, quem tem a ganhar com isto ? Os tais vinhos de concurso, os vinhos que se escarrapacham todos no copo, bombas de fruta e madeira, mas que numa mesa a sério nos saturam ao segundo copo ou acabam por ficar sem conversa passado os tais minutos para que foram preparados.

Obviamente que os vinhos medalhados não são maus vinhos por Natureza, são apenas vinhos que despertam um interesse momentâneo, o que não chega a ser suficiente para chegar a outros níveis que uma medalha de ouro supostamente teria que premiar. Tudo isto não quer dizer que não mereçam aquelas medalhas de papel que lhes são atribuídas, pelos menos tem o mérito pois foram os que melhor dissertaram durante aqueles breves minutos. No entanto e como tudo na vida, temos também os exemplares que não pertencendo à categoria do gatilho rápido, pela sua qualidade bem acima da média, conseguem amealhar sem grande espanto medalhas aqui e ali, lembrando aqueles atletas de alta competição, com qualidade reconhecida por todos, mas que vão a vários meetings apenas e só para se irem mostrando ao público.
Hoje em dia as medalhas e os prémios atribuídos são cada vez mais, há vinhos que num desespero de causa chegam a ter colados 3 e 4 papelinhos a dizer olhem para mim que sou um campeão do gatilho rápido, perdendo-se um pouco aquela noção do que é a verdadeira noção de excelência. Hoje em dia por dá cá aquela palha, aparecem vinhos medalhados em tudo quanto é prateleira de hiper ou garrafeira, o consumidor menos prevenido compra porque tem medalha pensando que o tal Ouro premiou a excelência enquanto vinho, puro engano. Afinal quantos vinhos desses que ostentam medalhas são na realidade Grandes Vinhos ?

Portanto se procura vinhos que no imediato, digamos nos primeiros minutos depois de abertos, lhe causem boa impressão, mas que depois são mais do mesmo e que seguramente nunca vão chegar ao tal patamar de excelência, aposte em força nas medalhas de papel.

4 comentários:

Miguel Pereira disse...

Quantas vezes provamos um vinho medalhado e perguntamos como é que ele o conseguiu? Já aconteceu várias vezes. Basta prova-lo uns meses depois, quando perde o "aroma de prova".

João de Carvalho disse...

Talvez o único concurso que eu tenha em consideração seja o levado a cabo pela Confraria Enófilos do Alentejo, sei que os vinhos após prova do jurado são escolhidos os melhores que vão ser novamente postos em prova pelo júri final, como que sendo uma deliberação final.

Não que seja tudo mau, mas por onde já andei, tempo é coisa que não se dá aos vinhos, e depois admiram-se que os "melhores" não chegam aos lugares cimeiros.

Hugo Mendes disse...

Caro,
No CNVE, também os melhores são isolados e provados em conjunto no último dia (é daí que saem as medalhas de excelência).
Enquanto enólogo pergunto-me muitas vezes se vale a pena ir nesse sentido, fazer vinhos para as medalhas. Se a resposta “de gatilho” é um redondo não, já a que aparece depois do arejamento é talvez! E porquê? Porque a maioria do consumidor português só consegue avaliar até um padrão médio de qualidade, acima disso já é trabalho perdido! Mais, quando um consumidor dá 7€ por um vinho, num SM é porque quer levar um valor seguro para aquele jantar em que terá em casa alguém que quer impressionar. Se tiver medalhas, ninguém se arriscará a dizer que o vinho não presta.
Eu pessoalmente, entendo que essa coisa das medalhas já teve melhores dias,…

Miguel Vilas Boas disse...

João, mesmo qu e não dê direito a uma rótula de papel, também os vinhos nas Essências do Vinho têm dois "rounds"ao fim do primeiro já sairam muitos, muitos vinho e só no dia seguinte ou nos dias seguintes é que é feita a outra prova já com menos de três dezenas de vinhos (eu sei que pode parecer muito, mas tendo em conta a quantidade deles que entra a concurso até acabam por ser poucos, e noutros concursos haverá uma triagem ainda maior). Bom tudo isto para dizer que também depende do número de pessoas que estão a provar e de como é condzida a prova.
Eu acredito em pessoas isentas, mas que somos cada vez menos lá isso, somos....

 
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