Copo de 3: 2012

21 dezembro 2012

Nectar PX Gonzales Byass

Ainda nos vinhos da Gonzales Byass, salta para o copo o Nectar, um vinho doce elaborado a partir da uva Pedro Ximenez. Desta vez estamos na denominação de Jerez, onde o processo de passificação ao sol se mantém, beneficiando do clima e do terroir, com estágio neste caso que rondou os 8 anos. Volto a escrever que é vinho doce, para muitos bastante doce, chega a ser meloso no copo devido à alta densidade provocada pela quantidade de açúcar presente. 

O que o difere por exemplo do já aqui falado Alvear ? Este é mais fresco, menos pesado e menos denso, surge doce mais mais delicado na prova que dá. No aroma cheio de praliné, uva passa, café e caramelo. Lá no fundo o amparo da madeira velha, aquele toque do bombom de licor. Somos rodeados de aromas doces, na boca a entrada é redonda e ampla, frescura suficiente, depois é uma passagem com untuosidade, rola sobre a língua e deixa sabores de tâmaras, caramelo, avelâ, dando um final largo e com boa persistência. É vinho que se bebe a qualquer altura do dia, liga bem com chocolate preto, liga bem misturado com um gelado de nata e frutos secos. Embora mais fresco não me conseguiu cativar tanto como outros exemplares que conheço, fica a sugestão que se consegue comprar por cerca de 8€. 91pts

Leonor Palo Cortado Gonzales Byass

Foi lançamento recente, foi coisa que deu que falar e muito, a sua apresentação com respectiva prova comentada pelo enólogo foi realizada online, com apoio de meios como Twitter e Facebook. Foram enviadas amostras para vários provadores, eu fui um dos que o recebeu e deixo aqui o meu testemunho sobre mais um fantástico Palo Cortado, desta vez elaborado pelas Bodegas González Byass. A minha inclinação por este tipo de vinhos não é recente, vai para muito que os bebo (mais que provar) e sempre à mesa com amigos à volta, tornando-me a repetir digo que são vinhos para a mesa, altamente gastronómicos e reis e senhores da harmonização com o impossível e toda a parafernália de tapas, pintxos e petiscos que se possam colocar antes e durante a refeição.
Depois a malta gosta de complicar aquilo que é simples, num vinho como este o que liga bem será sempre um queijo Manchego em modo Reserva, tipo Boffard ou para esticar a corda um bom torrão de gema tostada, delicadamente surpreendente.

Dotado de um rico e complexo aroma, mistura o nariz de um amontillado com a boca de um oloroso, passou 12 anos em estágio e o preço ronda os 20€. Delicioso, incisivo com notas de verniz e profundo, especiarias com caixa de charutos, amêndoa torrada, avelã que lhe confere quase um toque cremoso tanto em nariz como na boca, aquela madeira velha em tom morno com algum caramelo, prazenteiro com fruta cristalizada, bom de cheirar, toque salino e iodo Todo ele transpira harmonia, boca com boa presença e uma belíssima entrada, preenche todo o palato, vincado, seco, longo, com frutos secos, belíssima acidez, ao mesmo tempo suavidade na sua passagem, baunilha, salinidade em fundo com final longo e de boa persistência. Um exemplar a ter muito em conta. 93 pts

20 dezembro 2012

Vinhos em conta para o Natal.

Oh meu deus! Oh meu deus! Oh meu deus! Estamos quase no Natal e não sei ainda que vinhos escolher, caramba que nem sequer tenho tempo de andar de loja em loja a ver das referências xpto e o dinheiro na carteira não é assim tanto. Ora por causa disto mesmo aqui ficam as mais que costumeiras e que brotam um pouco por todo o lado, as sugestões de Natal para todos aqueles que sem gastar muito possam beber bem e em conta.
Entre as grandes superfícies comerciais (ou garrafeira) escolhi os que abaixo coloquei, podiam ser outros mas foram estes, vinhos que gosto e que costumo beber, certamente alguns deles vão fazer parte do meu Natal. E num tom de provocação o tinto para o bacalhau/polvo e o branco para o peru, que o Moscatel/Porto liga sempre bem com a doçaria da época ou com um bom chocolate/torrão.

Até 5€
Espumante: Caves São João Reserva Bruto (Continente)
Brancos: Herdade Grande Colheita Seleccionada 2011 (Continente)
Tintos: .Com 2011 ou Casa da Passarela 2008 (Continente)
Sobremesa: José Maria da Fonseca Alambre 2007 / JP Moscatel 2007

Até 10€
Espumante: Quinta do Boição Bruto Reserva (Continente)
Branco: Vila Santa Reserva 2011
Tinto: Burmester Reserva 2009 / Dona Maria 2009
Sobremesa: Quinta do Infantado Reserva Dona Margarida

Viña Tondonia Reserva 2001

Mais um pequeno momento de luxo à mesa, o vinho é proveniente das Bodegas Lopez Heredia (Rioja), um clássico, um modelo do passado tornado presente. O ano da colheita foi considerado excelente pela entidade reguladora da Rioja, dormiu durante 6 anos e veio recentemente para o mercado a rondar os 20€ por garrafa. Não escondo o gozo tremendo que me dá poder comprar um tinto de 2001 sabendo que tem em pleno todos os seus atributos, que é feito em quantidade apreciável (290.000 garrafas) e cuja graduação se situa nos 12,5%Vol. Tudo isto apenas mostra que é no tempo que os grandes vinhos se mostram, é nesse mesmo tempo que esses vinhos precisam de ficar adormecidos, embora este quando colocado à disposição do consumidor ainda tenha larga vida pela frente... é assim a árdua vida de um grande vinho.

O vinho em causa vai buscar o nome à vinha que lhe dá origem, Tondonia, nos seus mais de 100ha onde o lote de que resulta é composto por Tempranillo (75%), Garnacho (15%), Graciano e Mazuelo (10%). Complexo, fresco, fruta vermelha (amora, framboesa, morango) madura em perfeita sintonia com a madeira por onde passou. Pelo meio finas ervas, toque mineral com especiaria fina, todo ele de fino recorte e bom de cheirar, muito preciso na forma como se apresenta. Dá aquela sensação de aconchego, elegante na boca, muita serenidade apesar de ter nervo e mostrar-se com bastante vivacidade na fruta, a frescura nunca o abandona, em final de grata memória. Sabe ao que cheira e cheira ao que sabe, pura classe numa experiência que se torna de imediato num amor à primeira prova. São vinhos muito especiais que todos os apreciadores deveriam beber pelo menos uma vez na vida. 95 pts

19 dezembro 2012

Quinta de Sant'Ana - Vertical Tintos


Foi a convite do produtor que me desloquei no passado dia 27 de Novembro à Quinta de Sant´Ana (Mafra) situada na vila de Gradil, para a apresentação dos novos tintos, porque apesar dos brancos da casa ali também se produzem tintos, belíssimos por sinal. É um casario com história, cujo passado remonta a el Rei D. Luís, na passada do tempo a Quinta foi comprada pelo Barão Gustav von Fürstenberg e nos dias de hoje os destinos da Quinta de Sant'Ana são comandados pela filha Ann Frost e pelo seu marido James Frost. O génio da criação ficou a cargo do enólogo António Maçanita, entusiasta, estudioso e que conquista pela forma apaixonada e didáctica como fala sobre o que faz.

É um local fantástico onde reina uma acalmia reconfortante com a Real Tapada de Mafra em pano de fundo, os 10 hectares de vinha ondulam de forma graciosa na paisagem. No seu todo são vinhos marcados pela frescura, onde brilham castas como Riesling, Sauvignon Blanc ou Pinot Noir, num total de cinco brancos e cinco tintos, dos quais seis são monovarietais. Após explicação detalhada de solos, castas e modo de vinificação,  teve lugar a prova vertical dos tintos ali produzidos.


Começou-se com o Quinta de Sant'Ana Pinot Noir, direi que foi uma belíssima surpresa, encontrei aqui os melhores exemplares de Pinot tendo em conta aquilo que é costumeiro por terras de Portugal. Sente-se de imediato o Pinot no nariz, com muita frescura, deliciosa fruta com boa definição, tem aquele travo vegetal e a secura no palato que o remete para um nível muito interessante. Preço que ronda os 12€ num conjunto que vale a pena guardar um par de anos. Notou-se que o 2009 mais vegetal e a dar menos lugar à fruta, esta mais delgada e em tons de cereja. Ainda cheio de vida será para beber ou guardar. O 2010 dá mais lugar à fruta com toque vegetal, mais presença de boca, mais cheiroso, todo ele com bastante harmonia e os nervos de quem pede mais um pouco de tempo em garrafa, foi a meu ver um salto de qualidade em relação ao anterior, talvez fruto da afinação do perfil pretendido. Por último o 2011, mais moderno, com menos arestas e mais cheio, fruta gorda e sumarenta sempre com a frescura e a delicadeza de conjunto presente, barrica muito bem integrada. Aquele que melhor conjuga todos os componentes, com mais músculo, intensidade e postura da fruta.


Já no Quinta de Sant'Ana Reserva, preço a rondar os 15/20€, provou-se a primeira colheita 2005 que é 100% Aragonez. Produção pequena que rondou as 2300 unidades,  com boa frescura, mais cerrado com fruta e madeira em sintonia, hortelã-pimenta, na boca com boa densidade da fruta com um toque de gulodice envolvente com secura no final. A colheita 2006 (60% Touriga Nacional, 40% Aragonez) mais fácil, intenso e guloso, notas de barrica a puxarem pela fruta escura, densa e sumarenta, boa complexidade e  final de boca de boa persistência. A colheita 2007 foi promovida a topo de gama pelo que se passou para o Reserva 2008, um vinho temperamental, menos fácil na sua abordagem, com algum café, pimenta, fruta sólida e delineada, vegetal, fresco, carnudo e cheio de vida. A pedir tempo, um vinho que gostei bastante.

Passagem pelo topo de gama da casa, o Homenagem*, primeiro na colheita 2007, entende-se a razão de ser o topo da casa. É resultado de um lote de Merlot a partes iguais com Touriga Nacional, a preço que ronda os 25€ num vinho complexo, charmoso e fresco. É naquela contagiante harmonia entre vegetal em versão ervas de cheiro com fruta madura e limpa que o vinho nos conquista, depois a madeira está em plena harmonia, contribui com aconchego de tons fumados, cacau... resulta um vinho de grande categoria que dá um gozo tremendo beber por estas alturas. Já a sua versão 2009 se mostrou mais madurão, apesar da harmonia de conjunto a fruta mais doce, menos coeso e mais espaçado, não será certamente um vinho no ponto de consumo, embora não o encontre ao nível do anterior. O 2010 vai de encontro ao 2007, desponta o Merlot, num todo apertado com muito por aparecer, fruta sólida com pimentas, vegetal e alguma barrica. Boca mais ampla que o 2009, fruta e carga vegetal a dar secura... precisa de tempo, para brilhar ao mais alto nível.

Durante a prova foi ainda apresentado o Quinta de Sant'Ana Touriga Nacional 2011, um vinho que promete dar que falar, aliando frescura com uma boa definição de conjunto, sem cair no mais do mesmo que muito varietal desta casta se transformou. Um vinho gingão, cheio de coisas boas para dar e mostrar... vamos ficar atentos. O objectivo fora cumprido, seria tempo de ir almoçar... a prova de brancos ficará para outra altura. 

18 dezembro 2012

Viña Tondonia Reserva Branco 1996

Antes de começar que se entenda que este Reserva 1996 é um puro Clássico, daqueles a sério e não apenas de nome, completamente imune a modas ou pressões de consumidores histéricos por beberem tudo quanto é novo e amantes de cheiro a borracha e shampoo barato. Claro que não é vinho para meninos, torna-se à partida complicado para muita gente entender que um vinho seja colocado no mercado passados 6 anos da sua colheita. É na sua essência e na essência de quem o faz, um vinho para gente que sabe ao que vai e sabe o que quer. Falar de Lopez Heredia (Rioja) é falar de um saber acumulado vai para mais de um século, começaram naqueles lados por volta do ano 1883, produzindo vinhos de características únicas, que seguem a tradição à risca e que conquistaram por direito próprio um lugar muito especial no panorama vínico mundial, tornando-se autênticos vinhos de culto. A produção deste Reserva Branco 1996 (Malvazia, Viura) ficou limitada a 20.000 unidades, preço a rondar os 20€ e digamos que interesse é o que não falta quando temos um branco como este no copo, um autêntico desafio e um despertar de sensações onde a fina complexidade própria de um grande vinho se deixa logo notar. A dizer que acima deste Reserva ainda vem o Gran Reserva que tem direito a 10 anos de estágio... uma autêntica provocação pois quando sai para o mercado já grande parte da vizinhança morreu de velha. 

E o que podemos esperar encontrar num branco como este ? Antes de tudo quero destacar a garrafa, transparente e a mostrar com orgulho o que leva lá dentro. Quanto ao vinho, uma frescura deliciosa para a idade, com um bouquet característico onde o bailado após algumas voltas no copo começa a despontar fruta madura com algumas notas de geleia fina (citrinos, pêssego, nectarina), aroma envolvente com óleo de noz, flores brancas, baunilha, alguma resina e ramo de cheiros em fundo. Muita subtileza, nada de excessos num perfil muito bem conduzido com uma intensidade moderada. Na boca uma bela presença, acidez que lhe garante energia suficiente no palato, filigrana entre componentes, muito detalhado, travo ligeiro a mel, toque de limão e uma envolvente sensação de untuosidade, flores brancas novamente e uma profundidade muito boa com final de boca de boa persistência. Um branco com classe, vinho fino, com alma e que ainda vai durar e durar... foi bebido juntamente com uma garoupa de nobre porte assada no forno com tudo aquilo a que dito exemplar tinha direito. 93pts

17 dezembro 2012

Ferrer Bobet Vinyes Velles 2010

Há projectos que nascem como que destinados ao sucesso ao mais alto nível. Obviamente que nada acontece por acaso e a mestria de quem mexe, faz e cria, tem muito que se lhe diga, é o caso dos Ferrer Bobet que nasceram para o estrelato e a cada colheita que passa são cada vez mais objectos de cobiça face à alta qualidade apresentada. Depois de ter aqui falado do 2009, agora com a nova fornada surge o 2010 também Vinhas Velhas. Novamente a mostrar-se um vinho tremendo, uma força da natureza, um poderio enorme regulado desde já por uma deliciosa harmonia e frescura. Uma abordagem de classe, que o distingue da grande maioria dos seus conterrâneos do Priorato. Um vinho que nos diz que ainda está muito longe do seu melhor momento, apesar de proporcionar desde já uma prova de grande gabarito pois tudo parece nos seus devidos lugares mas ainda por catalogar ou com luz suficiente para que se possa vislumbrar de forma correcta. É por isso um vinho ainda com muito tempo pela frente, 20 anos à vontade, todo ele assente numa estrutura com muita frescura e taninos em fase de acomodação. Depois numa boa intensidade de aromas, é despejar frutos do bosque, muita baga sumarenta e compacta, framboesa, com a madeira ainda a marcar presença mas já com algum entrosamento e elegância. Chocolate, balsâmico, baunilha e pimenta preta, muita frescura. Boca cheia, ampla, profundidade de aromas e sabores, chocolate negro, denso, fumo, muito saboroso e em final longo com toque mineral. Fez-se uma pausa, uma vénia, falou-se de vinho e do vinho, os convivas elogiaram o que tinham no copo, durante largos minutos ganhou novos cheiros, pedia tempo, muito tempo, vamos fazer-lhe a vontade. Enquanto isso o Ensopado de Lebre acompanhava de forma magistral, quando este acabou foi altura de abrir outra garrafa mas isso é conversa para outro post... O vinho que aqui falo tem preço a rondar os 28€, não sendo barato também não é caro face à qualidade. Não é vinho para gente apressada, é vinho de guarda, de longa guarda... para que daqui a 10 anos se mostre como adulto e não como uma criança com os sapatos do pai. 94pts

14 dezembro 2012

Alion 2003

Foi bebido com enorme prazer por um pequeno grupo de amigos, em noite grande este foi um dos que ajudou a abrilhantar a festa. Para os mais distraídos este vinho é pertença do grupo Vega Sicilia, que decidiram vai para largos anos produzir um vinho mais moderno mas de inegável qualidade, mais acessível e que proporcionasse bastante prazer ao consumidor. Nasceu assim o Alion nas Bodegas Alion, também ele filho da Ribera del Duero, proveniente de vinhedo 100% Tempranillo com idades compreendidas entre os 25/30 anos. Passou 13 meses em barrica e o restante estágio em garrafa, vinho sumptuoso e de enorme classe. Gosto de vinhos com esta pureza de aromas, onde se sente a fruta de forma limpa, sem nada em cima ou ao lado, está ali e pronto, depois venha o resto com muita harmonia e boa presença. Aqui é isto que temos, a fruta, framboesa, cereja, coisas boas, com acidez presente que se acopla ao refinado bouquet, café expresso bem cremoso, leve ponta vegetal a recordar chá preto, cacau e algum regaliz no fundo. Dá gosto rodopiar no copo e voltar a cheirar, todo ele muito detalhado e refinado, refinado bouquet com a entrada de boca a mostrar-se amplo e frutado, a ocupar todo o espaço, todo o palato preenchido por um vinho que dá um gozo tremendo a beber. Sente-se que tem presença, mas ao mesmo tempo é sedoso e fresco, sumarento e guloso... um deleite para os sentidos. Final longo e persistente. Ainda sou do tempo em que se comprava com alguma facilidade na casa dos 35€... hoje em dia a procura aumentou e o vinho passou para a casa dos 45€. Resultado da fama aliada a uma invejável consistência, colheita após colheita, porque este... é dos que duram. 95 pts

11 dezembro 2012

Quinta de São Sebastião branco 2011

Voltando aos vinhos da Quinta de São Sebastião ali em Arruda dos Vinhos, falo do branco colheita 2011 de que gosto particularmente e que resulta de um lote de Arinto com Sercial. Agradou-me acima de tudo pela frescura, pela mineralidade e até pela diferença que não o empurra na direcção "mais do mesmo". O preço na casa dos 5€ faz dele um alvo muito apetecível, há mais caros e que não dão tão boa conta de si nem do que temos na mesa, por entre os seus aromas citricos  e de fruta amarela, mora uma leve ponta doce a lembrar mel que lhe confere ligeira sensação de untuosidade na boca. É este gato e rato entre acidez e toque mais gordo que lhe atribuem uma graciosidade salutar. Nota-se que ainda está algo tenso, poderá melhorar na garrafa, é algo que vou querer seguir de perto, enquanto isso na boca todo ele com boa frescura, acidez limonada, rasto mineral numa boa amplitude com final frutado e persistente. Uma belíssima surpresa que casou na perfeição com umas Ameijoas à Bulhão Pato. 90pts

Herdade do Rocim branco 2011

Mantendo as provas nos brancos e ainda pelo Alentejo, falo do Herdade do Rocim branco da colheita de 2011, branco que sofreu mudança no seu rótulo que agora se mostra bem mais apelativo. O vinho é um lote composto por Antão Vaz, Roupeiro e Arinto, o resultado ficou longe do esperado, a culpa foi do tinto que se mostrou de forma garbosa e acima dos anteriores lançamentos. Aqui encontramos o oposto do tinto, é um vinho que cheira a pouco, demasiada finura, com a fruta contida e bastante compacto e achatado, comunica pouco o que não abona muito a seu favor uma vez que ou é branco de guarda (o que não creio) e apenas se vai mostrar daqui por uns anos, ou então é contenção a mais e não me agradou. A fruta presente mas sem grande estímulo, nota de folha de limoeiro e ligeira sensação de arredondamento com boa frescura pelo meio. É um vinho de médio corpo com final médio\curto cujo preço anda na casa dos 7\8€. 87 pts.

06 dezembro 2012

Esporão Reserva Branco 2011

Clássico de longa data e daqueles que por menos de 10€ (excelente opção para o Natal) nos enche de satisfação em formato branco que ora se bebe em novo, ora podemos dar-lhe uns anos em cima que não se chateia minimamente. Tem havido por aqui alguma agitação no perfil, afinação aos tempos que correm talvez, o vinho em si já se mostrou de maneira diferente, talvez a minha maneira de olhar para ele fosse outra. Fala-se que é da madeira, mas essa sempre  dele fez parte, sempre a teve, sempre por lá passou... tal como na minha garrafeira. É Reserva 2011, branco, com os aromas e sabores dos vinhos brancos do Alentejo, o trio Antão Vaz, Arinto e Roupeiro mostram-se à grande com toque de Semillon à mistura. Frutas frescas, doidivanas, com a madeira a meter ordem na sala e a aconchegar tanto nariz como palato. Todo ele fresco, muita fruta, alguma mais fresca (citrinos) outra mais madura com carga de tropical, depois o amanteigado ligeiro, rebola no palato com algum peso, frescura muito boa que o faz perdurar a bom termo no final de boca. Gosto de brancos assim... 91 pts

Vinho/Comida e agora ?

É o derradeiro momento, a harmonização entre vinho e comida. Por norma e como em tudo na vida, temos a tendência para complicar coisas que na realidade são fáceis e quase triviais, devemos pois seguir o instinto, o gosto pessoal leva-nos quase sempre a escolher algo que se adequa ao pretendido. Mas o que é isso de harmonizar ? Simples, é Conseguir tirar o maior proveito da ligação Vinho/Comida sem que nenhum dos dois saia prejudicado, fazendo sobressair o que há de melhor na comida realçando ao mesmo tempo as subtilezas do vinho (regra nº1).

Muito se escreve, escreveu e continuará a escrever sobre este tema, as abordagens são variadas, algumas fazem-se querer mais verdadeiras que outras, embora seja tudo muito subjectivo pois baseia-se pura e simplesmente no gosto de cada um.... aqui e em breves linhas tentarei de forma simples explicar por onde me guio na tentativa de combinar aromas e sabores. 

AVISO: Não há a harmonização perfeita, apesar daquelas bem clássicas tantas vezes ouvidas e feitas, pela mesma razão que a prova de um vinho é algo tão subjectivo que varia de provador para provador. A percepção do gosto doce, salgado, amargo e ácido varia de pessoa para pessoa, portanto o que para mim pode estar salgado para a pessoa ao meu lado pode não estar, logo o vinho a servir poderá à partida ser diferente. Algumas noções a ter em conta:

-a cozinha regional tem como melhor aliado os vinhos da sua região. O que não implica que vinhos de outras zonas consigam também um resultado positivo.

-Uma maneira fácil de entender a "coisa" é a partir do momento da confecção em que devemos tentar encontrar pontos de comunhão entre vinho/comida. Começar pela base do prato, se é vegetal, carne, peixe, caça... depois disto o leque de escolhas começa de imediato a reduzir, apenas conjugar os aromas e sabores essenciais do prato com os do vinho.

- Pratos leves devem ser acompanhados por vinhos leves.
Vinhos jovens, redondos, frescos ligam bem com pratos mais simples, salgados e com alguma acidez. 

- Pratos ácidos devem acompanhar vinhos leves e com boa frescura. No entanto se a acidez de ambos for levada a extremos, anulam-se por completo, daí a complicação de harmonia com pratos mais avinagrados. Nos pratos onde surge o molho de tomate, pedem-se vinhos com uma boa acidez, brancos ou tintos.

- Pratos gordurosos e untuosos precisam de vinhos com taninos mais potentes e acidez alta (que corta a gordura do prato) uma nobre feijoada de javali ligará sempre na plenitude com um vinho encorpado, de boa acidez onde os taninos marcam presença, enquanto um vinho jovem e delgado seria por completo arrasado.

- Pratos com sabor amargo (rúcula, espargos) implica que se evitem ligações com vinhos de pendor mais herbáceo. Caso seja uma salada, pode entrar em jogo o queijo, fruta, e neste campo começar-se a pensar de imediato em vinhos frutados, ligeiros e com boa acidez, juntar-se uns gomos de laranja ao encontro dos aromas mais citrinos do vinho ou uns cubos de pêssego caso o vinho seja mais dominado por este tipo de fruta. Aumentar um pouco mais a complexidade se a salada levar um molho mais cremoso e uma carne branca ou mesmo camarão na chapa, então poderemos pensar por exemplo num branco com leve estágio em madeira, um tinto fresco, jovem de boa acidez.

Continua...

04 dezembro 2012

Grandes Quintas Reserva 2009

A Casa d´Arrochella é nos dias de hoje um dos produtores do Douro cujos vinhos faço questão de ter por perto. Gosto da apresentação, gosto do preço praticado em toda a gama e acima de tudo o que encontro dentro da garrafa dá-me bastante prazer à mesa. O vinho que agora falo é o topo de gama, o Grandes Quintas Reserva do ano 2009, vinho que é produzido a partir de mais de 80% de vinhas velhas e cujo preço ronda os 15€, numa produção total que rondou as dez mil unidades, da responsabilidade do enólogo Luís Soares Duarte. Gosto da maneira como se combina a austeridade e imponência do Douro com o toque de leve modernidade, sempre com a frescura em grande plano. Este é um vinho cheio de coisas boas, fruta bem delineada, limpa e airosa, a madeira muito bem trabalhada e em grande sintonia, muito apelativo na sua complexidade, nos toques de esteva e especiarias. Na boca é todo ele elegante, fresco, balsâmico tal como no nariz, tabaco, leve tosta, taninos finos com leve presença no final. Tudo muito bem estruturado, capaz de aguentar mais uns anos em garrafa onde irá refinar o apelativo bouquet que agora apresenta. Pede pratos bem temperados, com alguma gordura que combine com a boa acidez que o vinho tem, é vinho que ganha com algum tempo de copo, decantar meia hora antes de servir será sempre uma boa opção. 92 pts

Mina Velha Selection 2010

Este produtor é uma das boas surpresas que tive nos últimos tempos no que a vinho diz respeito, os vinhos  nascem em Arruda dos Vinhos aqui bem perto de Lisboa, na Quinta de São Sebastião (Sociedade Agrícola de Arruda, Lda). Desconhecia por completo a sua existência, valeu uma simpática mensagem que mostrava interesse em que eu os provasse, aceitei curioso com o projecto e com os vinhos que me tinham sido então apresentados. O primeiro de todos é o Mina Velha Selection 2010, vinho de Touriga Nacional e Tinta Roriz em que o estágio foi parcial durante 6 meses em barrica de carvalho francês.
É vinho de aroma guloso, fresco, bom de se beber e cheirar, muita fruta gorda e gulosa, cheia de sabor, com madeira bem integrada a dar toques fumados, bem integrados e em grande harmonia no conjunto. Depois é macio, passagem prazenteira, de cantos arredondados apesar de um final ligeiramente seco que pede comida por perto, um vinho que dá muito boa conta de si. Preço a rondar os 5€. 89 pts

22 novembro 2012

Diálogo 2010

Nasceu com nome estrangeiro de Fabelhaft corria o ano de 2002, em 2007 surge com nome Díalogo no mercado Português. Este poderá ser apelidado como o vinho de combate da Niepoort, é o vinho mais barato e que segundo o produtor nos informa, sem pretender ser o melhor vinho do mundo é um vinho que apetece beber, fresco, jovem e apelativo. Nele a madeira é tida em pequena quantidade, apenas 25% do vinho estagiou em madeira por um período de 14 meses, numa produção que ronda as 50.000 garrafas e o preço ronda os 5€. O vinho é todo ele centrado na fruta vermelha, muita e bem sumarenta, fresco com toque vegetal seco, alguma especiaria no aconchego da madeira. Correcto e bem feito, franco, na boca tem boa presença com estrutura mediana, boa frescura... pouco mais a acrescentar ou dizer. Gostei mais do tinto que do branco, embora o veja de forma estranha e fora do contexto qualitativo a que estou acostumado nos vinhos Niepoort. 88 pts

Bétula branco 2011

Nova colheita deste branco Regional Duriense, renovo as palavras que já escrevi sobre ele, o vinho em causa dá pelo nome de Bétula, surge na Quinta do Torgal (Douro), Freguesia de Barrô, margem esquerda do Douro e é da colheita de 2011. Vinhas plantadas em 2006, enologia a cargo de Francisco Montenegro (conhecido pelos seus belos vinhos Aneto), num lote improvável no Douro com 50/50 de Viognier/Sauvignon Blanc. O preço recomendado ronda os 14€, algo que mais uma vez se mostra desajustado face à qualidade apresentada. Mais afinado e apertado no conjunto que as anteriores versões, é um branco com enorme vontade de querer ser algo que não é, centrado num aroma a lembrar azedas, fruta fresca de fino recorte nos toques exóticos, algum pêssego amarelo e ligeira mineralidade em fundo. Boca em harmonia e melhor que o nariz, saborosa e com frescura, sumo da fruta, toque herbáceo e novamente o toque de pedra molhada (se não sabe o que isto significa basta meter um seixo do rio na língua para encontra a dita sensação) no final de mediana persistência com envolvimento da madeira por onde passou parte do lote. Um vinho que deu um ligeiro salto qualitativo desde a sua primeira colheita, gostei mais, o suficiente para subir um degrau na escala, falta ver se aguenta por cá muito tempo. 90pts

21 novembro 2012

Quinta do Crasto Reserva Vinhas Velhas 2005

É nos dias que correm um valor seguro em qualidade e consistência, o Crasto Reserva Vinhas Velhas tem o seu lugar entre as melhores relação preço/qualidade que temos em Portugal. Um excelente exemplo do bom trabalho que tem sido desenvolvido na Quinta do Crasto chegou quando este que agora falo, ficou em 3º lugar na lista dos melhores vinhos segundo a WineSpectator. O preço ronda quase sempre os 25€, a meu ver mais que justificado e com garantia de total satisfação. É proveniente de vinhedo velho, mais de 70 anos, em que o estágio em barrica rondou os 18 meses, numa madeira que apenas se sente nos primeiros anos e que depois se desvanece, resultando um vinho do Douro muito sereno, com raça mas acima de tudo com uma prova de nariz e boca de elevada elegância e cumplicidade com a região. Abri e servi sem decantar, que os copos são grandes e largos o suficiente para o deixar rodopiar de forma airosa, o tempo foi-lhe dado durante toda a refeição... longo tempo portanto, direi que foi com meia hora de copo que atingiu o seu ponto alto, depois manteve até ao fim da sua existência. De aroma complexo e refinado, dá um gozo tremendo no copo, uma modernidade do Douro associada a todos os bons aromas dos vinhos da região, uma combinação de fruta sólida com toque de esteva, algum licor de cereja, cacau morno que lhe dá certa gulodice e a frescura que embala todo o conjunto. Equilíbrio, elegância, frescura, boa presença na boca com largura e profundidade, presença muito boa, saboroso e persistente com final longo e especiarias. No ponto em que está não lhe darei muito mais tempo de guarda... 92 pts  

14 novembro 2012

Quinta do Javali Reserva 2009

Nos vinhos como na vida há uma coisa que todos temos de saber ter, paciência. É esta mesma paciência que quando em falta não permite a tanta gente apreciadora de vinho usufruir dos vinhos que compra no seu melhor momento de consumo (porque não os guarda) ou simplesmente porque não os acompanha condignamente. Conhecia o produtor da Quinta do Javali apenas pelos seus LBV que comprava espontaneamente para consumo descomprometido aqui por casa, recentemente conheci a sua gama de vinhos de mesa, vinhos que tal como já aqui falei, precisam que se tenha paciência pois precisam de tempo. É comprar para guardar ou caso gostem de ligações fortes e pecaminosas façam como eu, convidem uns amigos para jantar e ofereçam uma feijoada de javali com esta Reserva 2009, o resultado é excepcional.
Mas falando do vinho, um Douro com raça, fruto de um blend de Tinta Roriz, Touriga Franca, Touriga Nacional e Tinto Cão, com passagem por madeira (ano e meio em carvalho francês) e que se mostra tal qual javali raçudo e de tenra idade. É vinho pujante, com boa intensidade de aromas da fruta (bagas, muitas bagas azuis e negras) madura e fresca, grosso e corpulento,  intenso, expressivo, ervas de cheiro ali do monte, esteva, rosmaninho, depois especiarias com as pimentas em destaque, o vinho é coeso, ainda algo fechado, o álcool confere sensação de doçura/licor, compensada pela estrutura e acidez que na boca embalam o conjunto de bom porte. Explosão de sabores, tudo na sintonia de nariz, a madeira pouco chateia, o vinho demonstra na sua complexidade e estrutura que tem muito mato que correr, é dar-lhe tempo ou que se abra com uma fantástica feijoada de javali. O Carlos Janeiro aprovou. O vinho em causa tem um preço que ronda os 17€ e irá melhorar com algum tempo de cave. É distribuído pela Quinta Wine Guide. 93 pts

12 novembro 2012

Vila Santa Reserva branco 2011

Ora cá está um branco que encheu de certo modo as medidas, certo que andava algo de costas voltadas para os brancos do Engº João Portugal Ramos (Estremoz), terei provado em algum momento quando o branco de topo da casa se passou a chamar Vila Santa, na altura não gostei, perdi-lhe o rumo e voltámos a encontrar passado algum tempo. Agora o que rodopia no meu copo é um Vila Santa Reserva, branco de nova roupagem, menos pesada, mais fresca e apelativa, recordo o rótulo negro a imitar pedra quando ainda era apenas Antão Vaz (que saudades deste vinho). Neste a coisa mudou radicalmente, Arinto, Alvarinho e Sauvignon Blanca, quem diria, o certo é que o blend dá um vinho do qual gostei bastante, com parte a fermentar em barrica (Arinto) que lhe confere um toque de aconchego, com alguma complexidade e boa harmonia. Todo ele bom de cheirar, com frescura da fruta, citrinos, toque vegetal fresco a lembrar folha do limoeiro, baunilha, frescura e mais frescura em fundo mineral. Boca harmoniosa, frescura, saboroso e envolvente, sente-se que a madeira está bem integrada, tudo calmo com a fruta que se vai esmagando no palato, toque vegetal novamente com final convidativo a mais um trago. Uma excelente aposta, ronda os 12€, para peixes no forno e alguma carne branca, por exemplo em modo lowcost uns bifinhos de perú com natas e cogumelos. 92pts

Conde de Vimioso Colheita Seleccionada branco 2011

Situando quem lê, é claramente abaixo do Tons de Duorum branco 2011 e do Lóios branco 2011, um vinho simples e sem grandes pretensões, pouco interesse. 84 pts.

Sanchez Romate Palo Cortado Regente

Se algo define a magistral arte que é o vinho de Jerez, o nirvana é atingido no Palo Cortado. Se fosse possível definir ou condensar toda aquela magia, todo aquele saber secular, é na genialidade de um Palo Cortado que eu o tentaria fazer. Este vinho vive no limbo entre o Amontillado e o Oloroso, numa fina e misteriosa linha, e é sem dúvida alguma o mais complicado estilo de vinho para se ser explicado, a sua classificação envolve um saber que passa de geração em geração, o que para uns poderia ser para outros não é, varia de adega para adega, quase que poderei afirmar que varia de família para família. Um vinho muito singular, cuja prova não deixa ninguém indiferente. Volto novamente aos Sanchez Romate para falar do Palo Cortado Regente, um vinho Reserva Especial que passou mais de 15 anos em bota e cuja prova conquista pela fantástica finesse, complexidade e elegância de nariz com boa intensidade e expressão, profundo, triviais frutos secos, verniz, aqui alguma passa branca, baunilha, toque fumado. Um nariz que recorda por momentos um Amontillado embora de perfil mais fino e mais macio. Na boca complementa-se muito bem, mais cheio, com bom volume, seco, fruta passa, fruto seco, frescura, finura e presença, muito boa definição, final com sensação de ervas aromáticas, rosmaninho, tomilho, tudo muito suave e com um final de belíssima persistência. Ligações pecaminosas com guisados ou até mesmo com um bom queijo curado velho. Mesmo sendo este aquele que durante a prova que organizei mais se destacou entre os presentes, pessoalmente o meu eleito foi o Amontillado, gosto pessoal a trabalhar. 94pts

Sanchez Romate Amontillado NPU

Continuarei a falar sobre os vinho de Jerez, desta vez um Amontillado classificado como Reserva Especial  das Bodegas Sanchez Romate, fundadas em 1781 e até aos dias de hoje uma das mais importantes referências dos vinhos de Jerez. O vinho de que falo é um Amontillado cujo tempo de estágio em bota é superior a 30 anos, acima destes ainda vem a gama alta com os Old & Plus. Pessoalmente é o estilo Amontillado que faz as minhas delícias nos vinhos de Jerez, a par dos Palo Cortado, é também dos produtores que mais prazer me proporciona com os seus produtos, cujos preços se revelam excelentes face à qualidade apresentada, este rondou os 10€. Repito mais uma vez, são vinhos que precisam de comida por perto, que gostam de ter companhia, são vinhos ignorados e subvalorizados pelos enófilos, vinhos que quando são descobertos se revelam fantásticos. Este "menino" não fugiu à regra e deu bastante que falar durante a prova, admiração, espanto, deixa lá provar outra vez que a complexidade é grande e o vinho é muito bom, só custa isso, onde se compra... Non Plus Ultra. Para quem desconhece, um Amontillado é um Fino que teve um estágio extra sem a camada de leveduras "flor" presente, o vinho entrou por isso num lento processo de oxidação, com resultados fantásticos como é o caso.
É um vinho envolvente, que nos abraça com aromas mornos, muita harmonia com avelã e amêndoa torrada, laranja cristalizada, caramelo de leite, café, belíssima intensidade e definição de aromas, profundo e complexo. O vinho cativa, toque salino no final, pelo palato é largo e todo ele guloso, entra com uma sensação de leve untuosidade, ao mesmo tempo fresco e seco, envolvente e saboroso. Final longo e muito persistente, muita finesse com grande interligação com a prova de nariz. Entre um bom curry ou um risotto de cogumelos faz as minhas delícias. 95pts

07 novembro 2012

Pinhal da Torre - Uncutted


No passado Sábado provou-se por A+B que o melhor Syrah até hoje feito em Portugal e que bate o pé a outros tantos lá de fora, é do Ribatejo, é Quinta do Alqueve e é de 2001.
Durante a prova fui pensando nos vinhos desta casta feitos em Portugal que anteriormente já tinham sido provados por mim, vinhos que conheci e conheço, que iam sendo recordados num jogo de comparações à medida que o líquido escorria copo acima e copo abaixo... no final nenhum desses nomes me deu prova tão satisfatória em algum momento como este que agora aqui falo. Foi no final da ordem de trabalhos que estava à minha frente um vinho que veio demonstrar a razão pela qual o produtor Paulo Saturnino Cunha aposta na casta Syrah, em conjunto com a Touriga Nacional e a Tinta Roriz.

Falo de um vinho de aroma limpo e nada atabalhoado, com fruta negra bem fresca e de respeitável vivacidade, um vinho onde a frescura ainda marca presença, onde a fragrância perfumada e quase feminina invade o copo. A complexidade, a inegável complexidade e profundidade, a firmeza que apresenta na boca, tudo isto num vinho que brilha passados 11 anos ao mais alto nível. Felizes pois aqueles que ainda o tenham, invejosos aqueles que o desejam agora encontrar e provar. 
Foi uma prova às claras, limpa de segredos ou enredos, onde cada um dos presentes opinava de peito aberto sobre os vinhos que tinha no copo. A parada foi alta, sem medos, eu gosto de produtores que não receiam colocar os seus vinhos ao lado de nomes consagrados no planeta para que depois se prove e se opine lado a lado. Quando vi passar à minha frente nomes como Jamet, Jasmin e Torbreck, a tentação de ficar rendido à força dos rótulo foi imediata, durante a prova os vinhos do Paulo iriam conquistar pelo próprio pé o seu lugar por entre todos os outros. Olhei para o Paulo e vi um ar sereno, ao mesmo tempo o sorriso no rosto mostrava que estava feliz por todo aquele momento, eram os seus vinhos que se mostravam... e que bem se mostravam. 

Dos vinhos em prova irei dar o merecido destaque isoladamente, a seu tempo e um a um, aqui e agora apenas farei um breve apanhado. Enquanto o Syrah Alqueve 2001 brilhava no copo, o reboliço era enorme, o Côte-Rôtie Domaine Jasmin 2001 passou despercebido e seria o que menos interesse despoletou em toda a prova. Saltando para a marca Quinta de São João onde o Syrah se instalou, provou-se o 2007, um vinho fechado, conciso, marcado por um novelo muito enrolado e apertado, sente-se que mora por ali matéria de qualidade para o fazer evoluir até ao nível do 2001, questão de aguentar as garrafas mais uns anos, por agora não é aquele que melhor brilha mas é inegável que o seu conjunto dá uma prova de grande gabarito. Ao seu lado um gigante Australiano das mãos do actual enólogo da casa, Torbreck Les Amis 2006, um puro Grenache que se mostrou num ponto alto de consumo, contrastou com excelente afinação, frescura, doçura no contra ponto... enorme vinho mas que para o meu gosto começava a desesperar após dois copos. Tenho convicção que já o Les Amis partiu e o 2007 São João estará pleno de saúde. No meio seria colocado o Quinta de São João Syrah 2008, para mim o que menos gostei, o mais guloso, rechonchudo, fruta em modo gordo e sumarento, tabaco, cacau, fumados, é de todos os que provei aquele que escolheria para abrir agora. Enquanto ainda rodopiava o 2008 já se falava na outra ponta da sala, dois gigantes, de um lado Quinta de São João Syrah 2009 (ainda não está no mercado mas muita cuidado com este menino) e do outro um colosso de nome Domaine Jamet da colheita 2009. Aqui a maldade do Paulo foi total, de um lado um vinho mais tradicional, direi mais rústico, muito tempo pela frente que suplica estar fechadinho em cave escura. O Jamet está duro, compacto, carga de taninos e pouca definição, abrutalhado mas de uma cagança de alto nível... e foi a vez de provar o Syrah Ribatejano, o Syrah que causa uma empatia imediata, mais cativante e de igual modo a pedir tempo, outro que não quer saltar já da garrafa, deixem-no dormir, fruta com bela definição e que ainda não conta tudo o que sabe, enologia com trabalho estrelado, o vinho convida a mais um copo, a frescura, os taninos, a boca cheia e com estrutura firme, longo e persistente. Caramba dizia eu, enquanto o rodopiava no copo e dava  uma cheiradela no 2001 que tinha pousado na mesa, enquanto isso os últimos exemplares da prova eram apresentados. Se por um lado o 2Worlds Reserva 2009 é outro mundo, outra realidade, mais ready to drink e mais amigo do gosto fácil com toque do Ribatejo pelo meio. Seguia o 2Worlds Premium 2009 (este vinho foi provado como Quinta de São João Grande Reserva 2009 no ano passado), um vinho que ainda está cru, não gostei tanto desta vez, algum lácteo presente, muita concentração, muito que esperar a ver como se vai desenrolar este novelo. No final foi aberto o Quinta do Alqueve Special 2009, que repito mais uma vez o que sobre ele disse anteriormente, a qualidade, finesse e maneira como conjuga elegância com vigor, força e frescura mas ao mesmo tempo fácil de beber e no modo como se comporta à mesa, não cansa e convida sempre a mais um trago tamanha a qualidade com que nos presenteia. Depois disto foi fechar o caderno e preparar para almoçar. Nada mais a dizer, 

31 outubro 2012

Dona Maria Rosé 2007

Tenho procurado insistentemente por um vinho rosado (rosé) que me preencha os requisitos essenciais a modos de fazer parte da minha garrafeira, que tenha estrutura, acidez e qualidade na fruta mais que suficiente para o poder consumir em novo mas que dure algum tempo na cave, eu gosto de um rosé com algum tempo de cave, como este por exemplo. E para encontrar um que consiga atingir aquilo que quero, esta tarefa tem sido algo complicada, os vinhos que vou escolhendo por mais que me agradem nunca me chegam a convencer na sua totalidade, então quando bate o açúcar residual a coisa é logo encaminhada para o esquecimento. 
Depois do Covela, que era Palhete, se ter extinguido andei à deriva, prova aqui prova acolá, assentei finalmente no rosé da Dona Maria (Estremoz). Um vinho que vi "nascer" e vi como no passar dos tempos tem vindo a ser melhorado a cada ano que passa, é hoje para mim o rosé que mais prazer me dá, aquele que faço questão em ter e que se dá maravilhosamente bem com uns anos em garrafa. O vinho de que falo é o Dona Maria Rosé 2007, já passaram 5 anos e o vinho continua em grande forma, cheio de saúde, muito perfumado, mais sereno mas com uma elegância que acho fantástica, a acidez ainda está presente, a suficiente para em conjunto com umas excelentes lulas servidas no Solar dos Pintor (Loures) me deixar plenamente satisfeito. Porque aquela untuosidade da lula combinava na perfeição com a frescura do vinho, tanto de aromas como de paladar tudo se casava em grande harmonia. Estava para não atribuir qualquer nota, mas ainda dizem que tenho dualidade de critérios e como tal aqui ficam os 17 valores, arriscando mesmo em afirmar que está melhor agora do que quando saiu para o mercado. Fica pois o aviso, se por sorte o encontrar perdido numa prateleira não o deixe fugir... eu já ando a tentar caçar mais algumas.
Foto by Nuno Ciríaco

Fino La Ina

Na essência deste vinho mora a invejável apetência para ligar com bichos do mar, azeitonas, anchova, jamon ibérico e pasme-se, é fantástico com sushi entre tanta outra iguaria... O estilo Fino, o mais seco de todos, é isto tudo e muito mais, para tal basta ter no copo um dos meus vinhos favoritos, o Fino La Ina. Este vinho antes pertença Domecq, faz agora parte das Bodegas Lustau que comprou não só a marca mas também todas as botas da solera que a compõem. O vinho para espanto de muitos, provém de uma solera criada em 1919, portanto é fruto de um complexo, sábio e moroso processo acumulado saca após saca até aos dias de hoje. Falo mais uma vez de um vinho cujo preço ronda os 5€, que a solo se torna complicado para o mais desatento mas que é na pura petisqueira que melhor se manifesta. Rico no aroma, amêndoa torrada logo no início, pujança e elegância, muita mesmo, bom toque da "flor" a envolver tudo, invocação de ervas de cheiro, maçã fresca, todo ele com um perfume intenso, pleno de harmonia e com boa profundidade. Boca com entrada fresca e marcante, ligeiramente arredondado nos cantos, depois muito equilíbrio, frescura, marca o palato no médio corpo com secura mas apresenta harmonia num final persistente e a lembrar amêndoas salgadas. Um vinho extremamente polivalente, que exige mesa, cujas harmonias com comida por vezes resultam excelentes quando outros nem lá perto conseguem chegar. 93 pts

30 outubro 2012

San León Manzanilla

Enquanto vou fatiando uma bela "mojama" de Atum Catraio vou bebericando um copo deste fantástico San León Manzanilla da Bodega Herederos de Argüeso. O encanto não é novo, já vem de longe, desengane-se o tolinho que pense que é esta a minha última descoberta no campo enófilo, não é. Como ia escrevendo, Jerez ganhou vai para largos anos, bem mais de 10 anos, um cantinho muito especial nos meus vinhos de eleição, naqueles vinhos que gosto de beber sozinho ou bem acompanhado, costumo ter sempre por perto umas garrafinhas deste e de outros. O vinho de Jerez é singular, complexo e ao mesmo tempo apaixonante na história e mistério que encerra, é o derradeiro vinho de terroir, o vinho da maturidade e o grande embaixador de uma região esquecida ou forçosamente ignorada por aqueles que se dizem "amantes" do vinho, os enófilos. Recentemente tive oportunidade de realizar uma prova de iniciação a esta fantástica realidade, o vinho de Jerez, apresentei e dei a provar a doze enófilos curiosos e ávidos em descobrir a verdadeira essência de Jerez, as emoções fruto do prazer da descoberta durante toda a prova são reflexo do sucesso da mesma. Ora enquanto escrevo isto, a mojama ou muxama, acabou de ficar cortada, fina, regada com um fio de azeite e a Manzanilla rebola e gira no copo, fresquíssima e como se quer, boa intensidade com  aquela brisa de frescura e elegância, frutos secos (amêndoa torrada) , flores na trivial camomila, o travo presente da fermentação debaixo do véu de flor no seu toque de levedura e aquele iodado a lembrar o mar. Tudo à sua vez, sem amontoados desnecessários, na boca a sua presença é marcante, ligeira, presença seca com toque de amêndoa, levemente "salgada" no final e bastante persistente. Bebe-se sem se dar conta, é o vinho com que se começa o petisco, a acompanhar um peixe frito, um arroz de marisco, uma mojama ou tantas outras coisas que a polivalência destes vinhos é enorme... custou cerca de 5€ e vale cada cêntimo. 91 pts

29 outubro 2012

Ferrer Bobet Vinyes Velles 2009

Enquanto continuas a bater com a cabeça na parede uma e outra vez, do outro lado aparecem coisas tão belas e boas como os vinhos Ferrer Bobet (Priorato). Projecto criado em 2002 que apenas em 2008 começou a lançar os seus primeiros vinhos no mercado, conquistou e maravilhou tudo e todos, a brincadeira não é para menos e em menos de nada os vinhos tornaram-se objecto de cobiça tamanha a qualidade e prazer que proporcionam, aliado claro está ao potencial de guarda, somando ainda por último o preço mais que aliciante que apresentam. Dito isto o aviso fica feito, depois não digam que ninguém avisa ou sugere vinhos de topo a preço sensato face à qualidade do dito... este custa apenas e só 27€. O que temos no copo é uma versão do Priorato com frescura, elegância e nada de explosões mal controladas que nos enchem a boca de taninos. O vinho todo ele é elegância, apesar da pujança e raça que obviamente não podia deixar de ter, até pela uva e mesmo a região imprime nos respectivos vinhos. As vinhas são velhas, Cariñena e Garnacha, 15 meses em barrica de carvalho francês e 11 meses em garrafa. Ainda bastante jovem permite uma prova de grande qualidade e prontidão, elegância e frescura, intenso, sedutor, a fruta negra ainda algo tapada com compota com toque de licor que por aqui costumo encontrar, o regaliz que tanto gosto e bálsamo, ainda alguma especiaria. A conivência com a madeira é grande e faz-se notar, em boca repete a prova de gabarito que fornece no nariz, enche a boca, largo e profundo, elegante, já com macieza apesar da estrutura lhe permite ainda caminhar uns longos anos, é uma gulodice na boca, mineralidade em fundo longo e muito persistente. A evolução no copo foi tremenda, beneficiava claramente de uma decantação, o tempo foi-lhe dado no copo... e foi um luxo enquanto durou. 95 pts

Quinta Sardonia 2006

Volto de novo ao Quinta Sardonia, desta vez o 2006, mais uma vez bebido em ambiente festivo com gente boa à sua volta, grandes vinhos são para ser homenageados desta forma. A apresentação deste projecto já foi feita a quando da prova do 2004, aqui. Sobre este em particular pouco mais a dizer, o ano quente 2006 fez-se sentir, do que me lembro do anterior este 2006 mostra-se mais morno, mais redondo embora igualmente explosivo e intenso, apesar de mais controlado. Claramente menos fresco que o 2004, mais doce e menos frescura, a subtileza dos aromas continua presente, complexo e muito pronto a beber, direi no ponto de marcha. Trincam-se as bagas sumarentas, aromas de cacau, café expresso, leve bálsamo e plena integração de uma madeira plena de harmonia com creme de baunilha. Na boca é desfrute pleno, um regozijo de macieza com fruta madura e sumarenta, envolvida em especiarias doces, boa estrutura com corpo médio e final longo. É um belíssimo vinho mas que não chega ao nível do 2004, mantem intacta a sua apetência e vontade de brilhar ao mais alto nível no copo e na mesa, a chanfana de vitela não apresentou qualquer queixa. 93 pts

26 outubro 2012

Herdade do Peso Reserva 2005

Se havia coisa que gostava de ver numa garrafeira eram as antigas garrafas dos vinhos da Herdade do Peso. Todo aquele colorido fazia-me recordar as várias paisagens do Alentejo nas várias estações do ano. Agora por obra da moda em que se pega no que as pessoas já se tinham acostumado e se apresenta a "cousa" com nova roupagem acaba-se por estranhar e pensar que temos algo de diferente à frente do nariz. Vendo bem, talvez seja este um dos objectivos da mudança de visual, o novo look mais sério, pesado e sem a alegria que tinha antes... o vinho continua o mesmo. Tipicamente Alentejano, ali da Vidigueira, já com uns anos em cima que apenas o ajudam a acomodar-se melhor no copo, Aragonez, Alicante Bouschet e Alfrocheiro nadam em barrica durante 12 meses e mais 12 meses em garrafa por causa das teimosias. Da frutaria vermelha e preta com amoras, framboesa, ameixa redonda com toque de geleia, tem cacau fino, bálsamo e algum couro. Notei um ligeiro espaçamento a meio da prova, por vezes dava impressão que o vinho ficava meio perdido... na boca repete a gracinha, bom de sabor, suave na frescura com compota, toque morno com passagem suave no palato. Ganha claramente a boca ao nariz, mas esperava dele um pouquinho mais pelo que já me tinha acostumado anteriormente, aguenta mais uns aninhos mas sem grandes deslumbres face ao apresentado. 90 pts

24 outubro 2012

ALVEAR PEDRO XIMÉNEZ 1927

Este vinho das Bodegas Alvear não deixa ninguém indiferente (como por exemplo o Carlos Janeiro), para muitos é o chamado amor à primeira prova... é guloso, doce, espesso e com uma belíssima acidez que lhe percorre o interior e que convida sempre a mais um sorvo, que este é para se beber devagar e pouco de cada vez. Tudo começa na uva Pedro Ximenez, uva que tanto origina vinhos secos como o Fino CB, até colossos de doçura natural proveniente de uvas deixadas a passificar ao sol que posteriormente terá direito a um estágio de 5 anos no sistema de "criaderas y soleras" típicos da região. A doçura que apresenta é extrema, com o açúcar a rondar os 405 g/L, num vinho que se deve servir a 10º-12ºC, a sua ligação brilha ao mais alto nível com chocolate negro ou como base de um gelado de baunilha, depois a imaginação também nos permite utilizar o dito para reduções em alguns pratos. Uma gulodice a preço bastante apetecível a rondar os 8.50€. Nariz potente e repleto de açúcar queimado, lembra o creme brulee, tâmaras, avelã, bolo inglês, sensação de corpo e de untuosidade que se confirma na boca intensa e explosiva que se agarra ao palato com enorme persistência. 94 pts

Niepoort Projectos Moscatel Dócil 2010

Este vinho faz parte da gama Niepoort Projectos e é o típico vinho para quem gosta de mimos. Desde que começa até que acaba, não há forma de dizer que não se gosta, que já chega ou que já nos fartámos, é daquelas coisas boas da vida que dá prazer beber num jantar com a nossa cara metade. Esta versão lamechas do Moscatel da Niepoort, 11,19€ , consegue com a sua subtileza e graciosidade da fruta, boa frescura e igual presença de boca, com ligeiro toque de untuosidade, cativar tudo e todos. A produção é reduzida, 500 garrafas de um vinho que será curioso guardar algumas para ver como se comporta em garrafa, bastante polivalente na mesa, permitindo ser servido com entradas, pratos de cozinha oriental ou mesmo com sobremesas, como por exemplo uns Pêssegos assados com xarope de baunilha. 91pts

20 outubro 2012

Casa da Urra 2008

Este Casa da Urra é produzido na Herdade do Carvalhal, na aldeia de Urra com Portalegre à vista. É vinho de um projecto recente, resultante do lote das castas Alfrocheiro, Alicante Bouschet, Aragonez, Touriga Nacional e Trincadeira, com direito a estágio de 10 meses em barricas novas de carvalho francês. Nunca tinha ouvido falar deste projecto, a imagem é muito apelativa, gostei da simpática avezinha que de olho esbugalhado aparece no rótulo. Quanto ao vinho foi uma feliz surpresa acima de tudo pela harmonia e frescura que mostra ter, um perfil mais moderno que se tem instalado por Portalegre, no seu médio corpo com fruta (ameixa, morango, amora) sumarenta e madura sem ser demasiadamente pesada em doçura e contraposta por uma frescura que a torna mais leve. Vinho de fácil abordagem, suave, elegante num todo, passagem macia com toque de chocolate de leite, leve tosta, baunilha e pimenta preta. Tanto no nariz como na boca a presença é convidativa a mais um copo, porque os taninos já se acomodaram, não mostra quebras no palato e o vinho está em grande ponto de consumo, com final longo e de boa persistência. O preço rondará os 7/8€ em garrafeira, é daqueles vinhos que eu chamo de fim de semana, quando sem se gastar muito se consegue ter um vinho de qualidade para abrilhantar a refeição. 90 pts

17 outubro 2012

Gonzalez Byass "Vina AB" Amontillado


Volto com um Amontillado das Bodegas Gonzales Byass, fundadas no ano de 1835 em Jerez (Andaluzia) e que nos dias de hoje estão nas mãos da quinta geração da família fundadora. O vinho como não podia deixar de ser é feito de Palomino Fino, cujas uvas são provenientes do "Jerez Superior" dominado pelos solos brancos chamados de "Albariza". Em palavreado muito simples, um Amontillado é um Fino que vê desaparecer a flor deixando de estar em ambiente redutivo para pasar para um lento processo de oxidação. Não é nem nunca foi um vinho de consenso, um vinho de agrado fácil ou que todos provem e fiquem delirantes com o que encontraram... diz-se que o vinho de Jerez é o vinho da maturidade, um vinho que requer alguma capacidade para que se consiga entender o porquê de ser como é. Para muitos é o derradeiro vinho de terroir , um vinho de extremos onde a super polivalência com a mesa é esmagadora e o transforma os vinhos de Jerez em verdadeiras máquinas de combate. O vinho que agora falo é barato para o que nos mete à disposição, relembro que o preço rondará os 10€ para um vinho que estagiou no sistema de criaderas e soleras durante 10/15 anos até ver a luz do dia. Um vinho cuja uva provêm de solos muito especiais, direi únicos, cujo processo de elaboração foi refinado durante séculos e cuja peculiaridade de todo o processo o transforma em algo único e inimitável. Destaca-se pelo aroma expressivo e ao mesmo tempo delicado e complexo nos variados matizes que apresenta, faz lembrar frutos secos com predominância da amêndoa e avelã, algum citrino caramelizado, verniz, notas salinas e camomila. Tudo isto com seriedade, tal como a secura que se instala com uma boca cheia de força, largura, saborosa, untuosidade ligeira que parece ter e toques salinos, amêndoa e avelã,  num final longo e bem persistente. Um vinho que servi com uma salada de mojama regada previamente com umas pingas de azeite, canónigos, amêndoa torrada e ananás. Uma perfeita ligação de contrastes... 92 pts
Foto by Miguel Pereira

16 outubro 2012

Séries Rufete 2010


A casta Rufete é uma das mais antigas castas autóctones do Douro e segundo consta terá sido praticamente abandonada. Muito recentemente surge pelas mãos da Real Companhia Velha o projecto Séries, um conjunto de ensaios que ao mesmo tempo que visam recuperar um património esquecido também lhe tenta imprimir uma nova abordagem, castas como Tinta Francisca, Donzelinho Tinto, Cornifesto e Malvasia Preta têm vindo a ser estudadas e quem sabe possam também elas ser o próximo Séries a entrar no mercado. Em 2010 nasceu este Rufete proveniente de vinhas com 6 anos das quintas das Carvalhas e Cidrô, produção de 5 mil garrafas com preço a rondar os 7€
O vinho tem a sua dose de arrojo, de diferente, a garrafa surge com um cacho de uva em 3D e o próprio vinho sugere ser servido a baixa temperatura com sugestão do produtor a recair nos 10ºC. Capta de imediato o olhar pela uma tonalidade mais aberta da que estamos acostumados num tinto do Douro. É um aroma silvestre, carregado de fruta fresca e toques de ervas cheirosas (cidreira, hortelã). Boca muito fresca, fruta com boa acidez (groselha, cereja) que quase apetece trincar, taninos finos a dar secura numa estrutura que sem ser muito ampla tem a firmeza suficiente para abrilhantar uma boa petiscada. 90 pts.

15 outubro 2012

Pêra Manca 2003

Mataram o Pêra Manca.
Foi a completa desolação após aqueles 5 segundos que me levaram do céu ao inferno, o vinho que tantas boas memórias me faz invocar no pensamento, literalmente morreu, não é mais o mesmo... aquela enxovia que se prostrou no meu copo não podia ser Pêra Manca. Nada ali me fazia recordar o 94, 95, 97 ou mesmo o tremideiro 98. Não chego a entender as razões da mudança, o porquê da mudança, afinal de contas este 2003 é um vinho a preto e branco que por azar encontrei no meu copo naquela fatídica noite, um vinho sem a graça que os anteriores mostravam ter, falta de alma e daquela fantástica solidez de fruta e madeira exótica que nos envolvia o nariz e o a palato, nada ali mostrou ser o que já foi, resulta triste mas apesar da qualidade que tem é apenas igual a tantos outros que ficou cansado, de aroma desgastado pelo tempo e com uma boca mortiça e sem chama, pouca definição ou complexidade e fugaz presença no final... deixou de ser o clássico do Alentejo para ser um mutante travestido de velho clássico. Paz à sua alma...

09 outubro 2012

Copo de 3 recomendado pela redacção da revista Prazeres da Mesa

A redacção da revista Prazeres da Mesa, uma das publicações Brasileiras mais respeitadas na área da gastronomia, elaborou recentemente uma lista de blogs recomendados em diversas categorias, com especial destaque para a categoria Bem Beber (Vinho) onde o blog Copo de 3 está inserido. É com bastante prazer e alegria que recebo esta notícia, vem dar ânimo e ainda mais vontade de continuar, aumenta a responsabilidade e é sinal de que o trabalho aqui realizado é lido, visto e tido em conta do outro lado do Atlântico. Muito obrigado.

03 outubro 2012

Sentido 2009

Continuo empoleirado na janela a olhar lá para fora, novamente para Espanha e desta vez um Ribera del Duero produzido pelas Bodegas Neo onde brilham as criações do enólogo Isaac Fernández Montaña. É assumidamente um gosto e praticamente um vício que tenho, o de ser curioso com o que se faz lá fora, esta faceta de enobisbilhoteiro sempre a querer conhecer um pouco mais sobre os aromas e sabores lá de fora leva-me a encontrar no copo vinhos diversos que por vezes gostamos mais e por vezes nem gostamos assim tanto. Sobre o vinho que agora escrevo, preço a rondar os 6/10€, não terei muito que dizer ou afirmar, de forma até bastante sucinta direi que é um perfeito exemplo da moderna enologia que se instalou na Ribera del Duero, em duas palavrinhas Smooth & Supple. Um 100% Tempranillo com 12 meses em barrica, suave de taninos com corpo mediano que rebola  muito bem na boca, especiaria doce com fruta negra gorda e saborosa envolta em toque de cacau, denso com bálsamo a dar frescura. Um vinho extremamente apelativo e formatado ao gosto fácil pela suavidade dos taninos e a macieza e candura da fruta. 89pts

02 outubro 2012

LZ 2010

Enquanto apanho um pouco de ar fresco lá fora, olho de esguelha pela janela e dou de caras com esta proposta vinda da Rioja, o LZ 2010, cujo produtor Telmo Rodriguez é bastante conhecido pela sua Compañia de Vinos estabelecida em 9 regiões de Espanha. Com uma aposta nas variedades específicas de cada zona de origem (neste caso um 100% Tempranillo sem direito a madeira), a gama de vinhos na Rioja é composta por três tintos, este será o mais básico e funciona como entrada de gama cujo preço ronda os 7,80€. Sem muito mais que dizer, passou de supetão pelos copos dos convivas, um vinho básico, simples mas carnudo, de aromas directos e francos, muita especiaria (pimenta) com nota terrosa, fruta vermelha e azul (morangos e bagas). Boca de corpo mediano, frescura, fruta redonda com especiaria e toque seco no final. É vinho com grande apetência para a mesa, carne de novilho grelhada, poderá eventualmente melhorar um pouco mais com algum tempo em garrafa, no final resulta um bom vinho com preço algo puxado para o que mostrou. 88 pts

28 setembro 2012

Tapada de Coelheiros Garrafeira 2007


Estar a escrever sobre um vinho da Tapada de Coelheiros é ao mesmo tempo estar a recordar com agrado os meus primeiros anos de enofilia e os primeiros grandes vinhos que me chegaram ao copo naquela altura. Foram vinhos como o Pêra Manca 1995 ou o Tapada Coelheiros Garrafeira 1996, os responsáveis por estar aqui hoje a escrever. Mas quem fala em tintos também fala em brancos sem esquecer aquele fantástico Chardonnay de planície que na altura tanto prazer me dava. A fama conquistada face à qualidade apresentada naqueles anos deram-lhe o peso e gabarito que ainda nos dias de hoje ostenta junto do consumidor Português. Aqui brilha ao mais alto nível a mão do enólogo, António Saramago, cujos vinhos apresentam um cunho meio bordalês que se vai refinando com alguns anos de garrafa. Na verdade nem todas as colheitas resultaram em vinhos brilhantes e passados alguns anos meio no limbo, a prova do Tapada Coelheiros 2004 mostrou que os altos e baixos acontecem a todos, volto agora com o Garrafeira 2007, vinho que enaltece o que de melhor se faz naquela casa e na planície Alentejana.

O lote é composto por Aragonez e Cabernet Sauvignon, 18 meses em casco de carvalho francês 100% novo e 18 meses em garrafa. Pelo que mostra, tanto se bebe agora com acompanhamento a condizer ou podemos guardar por mais uns tempos que ele não faz má cara. A prova é de grande categoria, cheio e vigoroso, ainda algo fechado, sente-se fruta negra bem redonda e opulenta, pimentão com pimenta, barrica já muito bem encostada, conjunto com algum peso e a pedir tempo. E com tempo vai aparecendo bálsamo vegetal com chocolate negro em fundo. Na boca é de grande amplitude, bom de corpo, enche o palato de fruta, um saber estar de grande nível ainda com taninos algo vigorosos, com frescura suficiente que percorre a boca, especiarias e toque de chocolate negro no longo e persistente final. Acompanhou com mestria um Cozido de Grão à Alentejana. 94pts

26 setembro 2012

Castrillo de Duero 2010

No seguimento das provas que tenho realizado dos vinhos do produtor Bodegas y Viñedos Maestro Tejero, termino a sequência com aquele que mais gostei, o Castrillo de Duero 2010. Este vinho é um 100% Tempranillo com passagem de 12 meses por barrica de carvalho francês, resultando 3,600 garrafas cujo preço por garrafa varia pelos 8-10€. Aqui notou-se mais uma vez um ligeiro upgrade qualitativo em relação ao vinho anterior, o Viña Almate, mostrando-se mais sério e ao mesmo tempo a dar uma prova envolvente com nariz bastante atraente, em que se sente frescura, qualidade e quantidade da fruta vermelha fresca e bem delineada, ligeiro bálsamo com toque de mocha em fundo. Dos três vinhos provados deste produtor foi o que se mostrou mais arredondado e convidativo, grande harmonia de conjunto, corpo mediano, tudo a condizer entre frescura e macieza, transporta-se para aqui aquela suavidade da baunilha e cacau num final que é prolongado e saboroso. Um vinho que dá prazer, que evolui muito bem no copo mostrando uma faceta bastante gastronómica e amiga da mesa. 91 pts

24 setembro 2012

Viña Almate 2011

Vem no seguimento da prova do A dos Tiempos 2011, do produtor  Bodegas y Viñedos Maestro Tejero, desta vez um vinho produzido em Valtiendas (Segovia) com vinhas situadas praticamente a 1000 metros de altitude, é exclusivamente Tempranillo com direito a estágio de 4 meses em barrica usada de carvalho francês que resulta em 10.000 garrafas com preço a rondar os 6€ cada.
Tanto cá em Portugal como lá fora as boas surpresas têm sempre lugar em qualquer bom copo, neste caso falo de vinhos acessíveis (tanto pela prova descomprometida como pelo preço) que dão um gozo tremendo a beber e o seu modo de estar é à mesa em amena cavaqueira com quem com eles deseje trocar umas palavras. Este Viña Almate 2011 apresentou-se ligeiramente mais sério que o anterior, com a fruta menos exposta mas com mais macieza e complexidade conferida pela madeira, aqui a limpeza de aromas é novamente bastante boa, frescura, bálsamo, especiaria doce e algum mineral lá no fundo. Corpo mediano com fruta fresca, baunilha a dar sensação de cremosidade envolta em frescura e taninos a conferir secura no final com boa persistência. É um vinho que se bebe muito bem, renovo o destaque da grande maleabilidade à mesa, deixando água na boca para os topos de gama deste produtor. A comprar sem receios... 90 pts
 
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