Copo de 3: Pelo Reino da Ramisco

07 maio 2014

Pelo Reino da Ramisco

Adega Regional de Colares - Tonéis 

A história do vinho de Colares é longa e perde-se nas páginas do tempo, os seus vinhos ainda hoje fazem parte das memórias dos seus apreciadores e são alvo de procura pelos mais dedicados e curiosos. Na verdade a região simplesmente perdeu o comboio da novidade, caiu no esquecimento com o respectivo abandonar da actividade por parte das gentes locais contribuindo isso em muito para que a quantidade de vinha que existia fosse desaparecendo. Hoje em dia, passo a passo a região começa a despertar por resultado do esforço e dedicação de alguns produtores, para além da Adega Regional o principal centro de vinificação da região ainda se juntam mais dois novos produtores, a Fundação Oriente e o Casal Sta.Maria. Centrando as atenções nos vinhos que são vinificados na Adega Regional de Colares e posteriormente vendidos em bruto e trabalhados nas respectivas adegas dos associados como é caso a Adega Viúva Gomes. 

Parte desse esforço, dessa saudável teimosia de revigorar a imagem e qualidade dos vinhos da região tem um rosto, o enólogo Francisco Figueiredo. Mostrando um brilho no olhar quando nos fala da região, dos seus vinhos e em especial da casta Ramisco, aquela que tanto gosto e defende. Foi toda uma manhã que apesar de ter começado chuvosa, se dedicou a explorar a região, os vinhos e as vinhas. 

Focando apenas nas vinhas de chão de areia, tivemos a sorte e privilégio de assistir à plantação de uma vinha de Ramisco (foto abaixo) sendo bem visível quer as barreiras em cana que protegem as vinhas dos ventos e da maresia, como nas macieiras anãs, tradicionais companheiras das vinhas de Colares. A proximidade ao mar tem enorme influência nos vinhos: frescura, mineralidade, toque salgado com algum iodo fazem parte dessa diferenciação tão própria da região. Um património tão rico e único, com uma forte componente tradicional a ele associada.

Plantação de uma vinha de Ramisco em chão de areia
Focando apenas na casta Ramisco, os vinhos a que ali dá origem destacam-se pela tonalidade aberta, pouco concentrados e nos melhores exemplares com longevidade assegurada. Vinhos de enorme elegância, muita harmonia com toque iodado a despertar nos mais longevos, enquanto novos mostram uma frescura muito boa, fruta viva e muito limpa com carga vegetal vincada numa estrutura assente em taninos que lhe garantem boa evolução. Bastante interessante o poder comparar a evolução após respectiva prova directamente da barrica do Ramisco 2011 (o mais aguerrido com carga vegetal e secura vincada) e 2008 (uma delícia de vinho a mostrar uma grande evolução no copo, fruta muito saborosa e fresca com boa estrutura e taninos ligeiramente domesticados) e o já engarrafado 2006 (mais pronto, no entanto também mais polido e delicado que o anterior).

Nas históricas instalações da Adega Viúva Gomes foi preparada uma prova com alguns vinhos memoráveis, um breve apanhado de diferentes colheitas e perfis, sempre desafiantes na altura da prova. Destacaram-se o Viúva Gomes 1999 (12€) cheio de classe e com um bouquet clássico e refinado, quase guloso com uma ponta de hortelã, o Adega Colares 1979 mais sisudo e misterioso embora cheio de vida, toque iodado característico e o mais concentrado de todos, terminando em grande com o Viúva Gomes Collares Reserva 1969 de classe mundial em invejável momento de forma. De realçar que todos os vinhos da Viúva Gomes aqui mencionados estão disponíveis para venda na pitoresca loja do produtor.

Tons de Ramisco (1969 até 2006)
Deixo para outra altura o relato sobre a Malvasia de Colares e os seus vinhos que também neste dia foram alvo de prova. Os vinhos mostraram na quase totalidade muita saúde e vontade de serem conhecidos, vinhos com muita alma e identidade cuja afirmação e reconhecimento deveria ser uma realidade entre enófilos. A invejável capacidade de brilharem à mesa torna-os em muitos casos demasiado apetecíveis para ficarem "esquecidos". 

4 comentários:

L. disse...

no 25 de abril de 2014 abri o viuva gomes 1974. nao estara como o 1969 mas deu muito prazer.

João Pedro Carvalho disse...

Penso que as condições de guarda sejam determinantes no resultado que nos cai no copo.

PS: O dar muito prazer está em equivalência ao 1969.

Anónimo disse...

são muito úteis essas informações sobre as colheitas mais antigas dos Colares, que são normalmente tão difíceis de obter! ainda me lembro de um Chitas '99 bebido já uns bons anos atrás mas que me ficou na memória como um dos mais encantadores Colares de sempre, tal como diz do Viúva Gomes, clássico e refinado. sempre fiquei na dúvida a que ponto esta experiência teve a ver com um passeio nas Azenhas do Mar que demos naquele dia, antes de abrir a garrafa, e nunca mais arranjei outro '99 para despistar. (aliás, gosto bastante de '99 também noutras regiões, apesar de não ter tido grande fama enquanto ano)

e dos Viúva Gomes mais velhos bebemos um 1967 o ano passado, mas diria que estava mais para o "interessante do ponto de vista histórico" do que propriamente "bom". nada que se compare p.ex. com os Chitas de '70 que acho míticos.

João Pedro Carvalho disse...

Gostei de provar um Colares Chitas 1999 incluído nesta prova embora tenha tido melhor prestação o Viuva Gomes por isso o seu destaque. Para mais tarde colocarei prova de cada um dos vinhos em separado, todos eles merecem como é óbvio.

Tive pena de não ter conseguido visitar a adega Colares Chitas... irei tentar novamente um dia destes.

 
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