Copo de 3: Março 2015

31 março 2015

Gonzalez Byass Pedro Ximénez Muy Viejo

A Gonzales Byass foi fundada em Jerez no ano de 1835 por Manuel Maria Gonzalez quando tinha apenas 23 anos de idade. Uns anos depois entra na empresa um novo sócio então distribuidor no Reino Unido de seu nome Robert Blake Byass. O tempo passou e hoje a Gonzales Byass é apenas comandada pela quinta geração da família Gonzalez cujo grande legado dos seus antepassados resulta numa enorme quantidade de vinhos velhos de enorme qualidade. A empresa detém cerca de 800 ha de vinhedo com 95% Palomino e 5% de Pedro Ximenez, sendo este o único produtor de Jerez a produzir esta variedade. O processo de elaboração começa numa vindima tardia das uvas Pedro Ximenez que são submetidas ao processo do "soleo" onde se deixam as uvas sobre esteiras ao sol, neste caso foram 20 dias. O resultado final é um vinho extraordinariamente denso que irá passar mais de 30 anos na centenária Solera de Noé. Por ano apenas 2000 garrafas vêm a luz do dia, com preço de 55€ na loja do produtor. 

A pergunta inicial é quase sempre a mesma, o que esperar de um vinho com mais de 400 g de açúcar por litro? O melhor é apertar o cinto pois a experiência é sempre intensa, num vinho que se entranha e conquista de forma arrebatadora a nossa boca, todo o palato fica imediatamente refém. A complexidade aumenta conforme a qualidade e idade do vinho em questão, neste caso é um vinho com grande definição de aromas e sabores, com um balanço extraordinário de todas as componentes. Os aromas surgem por camadas com muito Bolo Inglês, as mais variadas frutas passificadas, caramelo líquido, café, caixa de charutos, muitas especiarias, muita frescura que aguenta todo o peso de forma brilhante. Boca poderosa, concentrado, muito saboroso, forra o palato, algum caril, toque do nougat, nozes, a doçura bem acompanhada por uma muito boa acidez, suave toque de nozes no fundo, longo e interminável final. Para acompanhar nada melhor que um fondant de chocolate ou uma bola de gelado de baunilha. Arrebatador. 95 pts

27 março 2015

Ramos Pinto 20 Anos

A casa Ramos Pinto foi fundada em 1880 por Adriano Ramos Pinto quando este tinha 21 anos de idade, cedo expandiu o seu negócio e um pouco depois entrou para a sociedade o seu irmão. O pioneirismo sempre se destacou na Ramos Pinto que sedo ficou conhecida pela qualidade dos seus vinhos, dos quais agora destaco este fantástico Tawny 20 Anos. A Ramos Pinto não comercializa Colheitas, deixando os seus Tawny envelhecer ao sabor do tempo para que com a mestria do lote se atinja a plenitude no blend final, que resulta na expressão máxima do que é a alma do Vinho do Porto. Neste caso é um lote cuja média de idades ronda os 20 anos, proveniente dos vinhos de uma das mais antigas quintas do Douro, a Quinta do Bom Retiro. Com preço a rondar os 50€ estamos perante um Tawny clássico, cheio de elegância, onde a frescura dos anos mais novos se mistura com a complexidade e magnitude dos vinhos mais velhos, alguns com mais de 100 anos. É um vinho de puro prazer, companheiro de escepção para o final da refeição ou por si só para beber e meditar. Mostra uma enorme complexidade de aromas, casco velho de Porto com fruta a fazer lembrar damasco e fruto seco, casca de laranja, caramelo, iodo, tudo de forma muito elegante e profundo. Na boca é fino e elegante, untuosidade com uma boa ponta de equilibrio entre componentes, sabores a ir ao encontro do já enunciado, num final longo e muito persistente. 95 pts

26 março 2015

Grande Rocim Reserva 2011

É o topo de gama da Herdade do Rocim, dá pelo nome de Grande Rocim Reserva e tem na alma a essência da casta Alicante Bouschet. Durante um ano e meio serenou em barrica com direito ainda a mais um ano de garrafa até ser colocado à disposição dos consumidores. Todo o tempo extra que continuar em garrafa só lhe fará bem, de momento está ainda muito novo, embora com grande frescura de nariz, início com fruta vermelha (bagas, amoras) muito sumarenta, toque herbáceo, cacau, conjunto coeso e profundo, lá no fundo uma ligeira nota de licor. Boca de grande impacto com enorme presença a mostrar um vinho poderoso, amplo, fresco, muito boa estrutura com fruta vermelha a explodir de sabor ao lado de algum bálsamo, quase que se mastiga, terminando longo com travo de especiaria. Tudo com grande detalhe, enorme estrutura num conjunto coeso, limpo e fresco com uma enorme vida pela frente, paga-se por tudo isto coisa de 50€ com a garantia que se leva para casa um dos melhores vinhos de Portugal. 95 pts

25 março 2015

Giroflé Alvarinho 2013

A aposta no consumidor mais jovem e irreverente, com vinhos onde acima de tudo o prazer está garantido à mesa e onde se destacam rótulos apelativos e até atrevidos, tem sido colocada em prática muito timidamente por parte dos produtores nacionais. É esse o caso do projecto Giroflé (FAP Wines) onde o enólogo João Matos, após a experiência acumulada em empresas como a VDS ou a Beyra Vinhos de Altitude, sem adega própria decidiu estabelecer parceria com produtores onde produz e engarrafa os seus Giroflé. João Matos posta claramente numa linha de vinhos que se enquadra em tudo o que já aqui foi dito, aliando um forte pendor gastronómico, neste caso o rótulo do Alvarinho é da autoria de António Queirós Design.

Um Alvarinho de 2013 cujo preço ronda os 10€, a mostrar-se algo tenso de início, precisando de algum tempo no copo. Desdobra-se em toques de fruta madura, citrinos com ligeiro apontamento tropical, alguma geleia, muita frescura num vinho jovial com rasgo fumado em fundo. Na boca alguma austeridade a marcar o início de prova, abertura para ponto de mel com toda a frescura da fruta, saboroso e com boa persistência final. Grande companhia de umas gambas al ajillo. 90 pts

24 março 2015

My Portugal: Recipes and Stories by George Mendes

My Portugal: Recipes and Stories by George Mendes 
(Stewart, Tabori & Chang Inc, 2004, 25,03€)

George Mendes é luso-descendente, a sua família foi para os Estados Unidos da América à procura do sonho americano corria o ano de 1969. Nasceu no Connecticut e aos 17 anos entrou para a Culinary Institute of America onde se formou. Passou quase vinte anos a aprender com alguns dos melhores chefs do mundo sendo hoje em dia dono do Restaurante Aldea (1 estrela Michelin) em New York. A sua paixão pela cozinha Portuguesa vem de longe, afinal o sangue de Portugal corre-lhe nas veias, sendo no seu restaurante onde dá a conhecer ao mundo um pouco dessa sua paixão. 

O livro My Portugal: Recipes and Stories demorou dois anos a ser criado, durante esse tempo George Mendes percorreu Portugal numa viagem gastronómica desde a terra dos seus pais, em Ferreirós do Dão, para descobrir as suas raízes. Como diz o título, é uma junção de receitas com muitas histórias e apontamentos de locais e visitas ou conselhos sobre este ou aquele ingrediente, tudo numa viagem muito bem documentada e ilustrada. Num objectivo claro de dar a conhecer ao mundo a Cozinha de Portugal, o livro mostra desde os pratos mais sofisticados do Aldea aos pratos mais clássicos que facilmente podemos recriar em casa,  mas sempre com o toque pessoal e criativo de George Mendes. Tudo isto num total de 125 receitas sempre bem acompanhadas por excelentes fotografias. Um livro cheio de alma, onde a vontade de mostrar o produto da terra fala mais alto, sem perder pelo meio uns ligeiros apontamentos sobre os vinhos de Portugal. 

18 março 2015

Duorum 2012


Em 2007 nasce o projecto Duorum, das mãos de dois enólogos que marcam a história do vinho em Portugal nas últimas décadas – João Portugal Ramos e José Maria Soares Franco. Este Duorum é desde que se estreou no mercado um dos vinhos que faço questão de ter por casa, a razão principal é a fantástica relação preço/satisfação que apresenta colheita após colheita. Digo isto porque para um vinho que se situa no patamar dos 9€ é daqueles que não engana, tanto pela qualidade ou mesmo pela maneira como mostra um Douro cheio de vida, com muita fruta carnuda e bem fresca, tudo muito bem delineado e envolvente. A juntar a tudo isto de realçar a facilidade de conseguir encontrar nas prateleiras de um supermercado quase sempre ao lado do seu irmão mais novo, o Tons de Duorum que também mostra ser uma escolha acertada embora situando-se num patamar qualitativo abaixo do Duorum.

Mas centrando a nossa atenção apenas no Duorum 2012, as castas que dele fazem parte são, Touriga Franca, Touriga Nacional e Tinta Roriz. Apresenta-se marcado pela fruta madura e musculada (groselha, amora, framboesa), bonitos os aromas florais a lembrar violetas que vão surgindo tal como a barrica bem integrada no conjunto. Todo ele elegante e cheio de vida, com o vigor normal da juventude, bom volume de boca, passagem com muito sabor a fruta, mostrando ainda ligeira secura na parte final, com tempo de vida pela frente. A beber agora em novo com pratos mais temperados, uma perna de cabrito no forno por exemplo, ou podendo ser bebido durante os próximos anos. 91 pts

17 março 2015

Perlarena rosado 2013


Conheci este vinho pela primeira vez na adega do Dominio del Bendito (Toro) com o vigneron Anthony Terryn, em 2009. O rosado que naquela altura ainda descansava na garrafa, mal tinha tido tempo para ser rotulado, um rosado que na passada do tempo e das colheitas tem vindo a refinar e a redefinir o seu percurso e perfil. Agora podemos afirmar que está melhor que nunca, para mim um dos melhores, cabe sem grande necessidade de questionar, nos três mais tendo em conta muito do que se tem bebido dentro e fora de portas. Custa coisa de 8€ e pode ser encomendado na loja online do produtor.

Na alma corre a Tinta de Toro (80%), Syrah (10%) e Verdejo (10%) proveniente dos solos arenosos de La Jara, o vinho fermentou em barricas, mostra-se com enorme frescura e elegância, cativa e conquista de imediato, a secura em boca catapulta o vinho para a mesa de forma categórica. Como se informa no contra rótulo, bebe-se como água bendita mas não o é, na verdade o vinho bebe-se com gosto e quando damos por ele acabou. Cheio de delicadeza e com fruta a mostrar muita framboesa, flores, ligeiro vegetal fresco e toque de anis estrelado, num conjunto que tanto se bebe fresco como a temperaturas de tinto, onde se transforma e mostra a garra da região. Pede saladas com marisco, peixe grelhado, carnes brancas, entradas das mais variadas, canapés, comida de forte tempero pois a acidez revigora o palato. Um grande rosado com a onde a capacidade de envelhecimento é natural. 93 pts

Adega de Pegões Colheita Selecionada branco 2013


Por vezes com a vontade de escrever sobre as novidades que entram no mercado ou sobre os inúmeros vinhos que fazem as nossas delícias, acabamos por esquecer e deixar de lado aqueles que no dia-a-dia nos fazem companhia à refeição. São os vinhos que bebemos em casa de forma completamente descomprometida, apenas porque nos apetece beber um simples copo à refeição, e que no caso dos brancos temos sempre uma garrafa pronta a abrir colocada no frio. São estes fiéis amigos que raramente têm um lugar de destaque perante tanta novidade e marca na ribalta. Um desses vinhos que me tem acompanhado ao longo da última década, ainda que com altos e baixos entre colheitas, tem sido o Adega de Pegões Colheita Selecionada branco.

Comprei este branco de 2013 no supermercado com um preço bem aliciante uma vez que não chega aos 3€, o lote teve ajustes e viu a certa altura a Pinot Blanc ser substituída pela Verdelho, de resto continua o blend de Arinto, Chardonnay e Antão Vaz, dos solos de areia da região de Pegões onde a respectiva Adega Cooperativa está localizada. Fermenta em barrica de carvalho francês onde estagia durante quatro meses com direito a batonage. A relação entre aquilo que custa e a satisfação que proporciona é elevada, ficando por vezes a pensar quantos vinhos de custo muito superior me deixaram renitente ou até defraudado com o tanto que custaram e o tão pouco que mostraram.

Um branco que acompanha bem pratos de carnes brancas ou peixe, mostra notas de fruta bem fresca por entre o tropical e frutos de pomar, ligeiro vegetal também fresco num conjunto a mostrar boa harmonia entre madeira e fruta, muito certinho com toque de ligeira baunilha que o envolve. Estrutura mediana com frescura, bem afinado, sente-se a fruta madura embalada por sensação de alguma cremosidade a meio do palato, final médio. 89 pts

12 março 2015

The Moro Cookbook by Sam and Sam Clark

The Moro Cookbook by Sam and Sam Clark
(Ebury, 2003, 20,74€)


Um bom livro de cozinha é aquele em que as receitas que nos fornece funcionam, ou seja, tudo aquilo que lemos é de forma simples capaz de ser replicado em casa sem grandes problemas. Acontece que muitos livros apenas funcionam para encher o ego do chef que assim pode dizer que tem um ou dois livros lançados no mercado, quando na prática as receitas que ali colocou nunca funcionam numa cozinha dita normal. 

Este The Moro Cookbook é um dos meus livros favoritos, é daqueles em que tudo o que lá vem dentro funciona e onde nos apetece experimentar/fazer tudo o que lá aparece e por vezes damos conta que aquela ou a outra receita são repetidas vezes sem conta, como a deliciosa sopa de beterraba e cominhos, um verdadeiro sucesso aqui em casa. 

Os autores Samuel e Samantha Clark são um casal apaixonado pela gastronomia de Espanha, Norte de África e Mediterrâneo Oriental. Após alguns sucessos de restaurantes em Inglaterra decidiram abrir em Londres o Moro, que literalmente significa Mouro, canalizando naquele espaço toda a sua paixão pelos diversos tipos de influências que foram recolhendo nas suas viagens. Em 2001 lançaram o seu primeiro livro, este Moro The Cookbook, que simplesmente é um recompilatório de quase 300 páginas das mais famosas receitas do restaurante. Um livro impregnado de sabores e aromas intensos, receitas fieis às origens onde apresenta alguns pratos de muito condimento e paixão, cheio de detalhes fantásticos com boas fotografias onde se explicam detalhadamente os mais variados ingredientes. As receitas funcionam muito bem e algo muito importante é a facilidade de encontrar os ingredientes necessários, o resultado é o prazer garantido à mesa. O livro é vasto e vem separado em várias secções, desde ensinar as mais variadas receitas de pão, ao fantástico Labneh um queijo  feito a partir de iogurte natural, à deliciosa sopa de beterraba e cominhos ou a Raia com vinagre de Jerez, entre muitas outras... 
Obrigatório para quem gosta de cozinhar.

10 março 2015

Aphros Loureiro 2013


Se falar em Casal do Paço Padreiro quase ninguém irá conhecer ou relacionar, embora se falar nos vinhos Aphros e no seu criador Vasco Croft já tudo se torna mais fácil de entender. Pois é bem perto de Arcos de Valdevez que são criados os vinhos Aphros pela dupla de enólogos Rui Cunha e Pedro Bravo. Neste caso falo do Aphros Loureiro 2013 (Vinho Verde), um vinho cujo preço ronda os 7€, mostrando-se fresco e convidativo, carregado de aromas de fruta (citrinos e algum pêssego), folhas de louro, flores de tília, tenso e muito limpo. Boa carga mineral, directo, no palato a mostrar-se com fruta (citrinos, pêssego) e rebuçado, num enorme reboliço com uma acidez de belo efeito, refrescando o palato a cada trago com uma boa secura de fundo. Boa companhia para pratos delicados à base de peixe ou marisco grelhado. 90 pts

09 março 2015

Covela Rosé 2013


Com a Primavera a espreitar, é tempo de limpar a grelha e dar inicio às festividades ao ar livre. E com grelhados nada melhor a acompanhar que um rosado de grande nível como este Covela Rosé 2013, para mim um dos melhores exemplares a ser feito em solo nacional. A Quinta de Covela voltou à ribalta, os vinhos mostram-se com alta qualidade ainda que com outras directrizes, no nível a que já tinham acostumado. Este rosado é 100% Touriga Nacional proveniente de entre Douro e Minho, um rosado de excepção que alia a intempestividade da casta com a frescura Minhota. Muita frescura com fruta vermelha, cheiroso, todo muito limpo, algum floral a compor o ramalhete, num fundo que nos brinda com uma boa austeridade mineral. Na boca é amplo, saboroso, bom corpo que o atira para acompanhar no imediato umas sardinhas assadas no carvão, com aquela secura no final a limpar o palato e a pedir mais um gole. O preço recomendado ronda os 8€, para comprar à caixa e ir bebendo, que este é dos que sabe esperar. 92 pts

Quinta dos Roques Encruzado 2004

Devemos celebrar o vinho enquanto tal, enquanto ainda nos transmite de forma eficaz e esclarecida a sua mensagem sem esquecimentos ou grande esforço. Os que o fazem dessa maneira, que parece simples, são os grandes vinhos, aqueles que sabem e aprendem com o tempo. Por vezes insistimos em escutar as palavras que já lá não moram, insistimos e inventamos, não por culpa do vinho mas por culpa nossa. Ora este Quinta dos Roques Encruzado de 2004, vai a caminho dos 11 anos de vida, é daqueles que merece ser escutado porque muito ainda nos tem para contar. É dito e sabido que a casta Encruzado (Dão) quando bem trabalhada, como é o caso, gosta de dormir uns bons anos antes de nos deliciar com todo o seu esplendor. 

Este 2004 mostra uma espetacular envolvência de nariz, complexidade numa onda de frescura com toque de mel, fruta bem madura e suculenta, ervas de cheiro, profundo e cativante, sério e a aguentar-se muito bem no copo. Boca a mostrar ligeira secura, fruta suculenta e fresca, tisana, rebuçado de limão, sensação de untuosidade e um pequeno apontamento de fruto seco no fundo, largo e persistente. Cativante, charmoso, a derradeira recompensa para quem sabe esperar. 95 pts

08 março 2015

Monte da Ravasqueira Reserva Branco 2013


Continuo a gostar bastante deste Reserva do Monte da Ravasqueira (Arraiolos) agora com a nova colheita 2013. Repare-se que o vinho "apenas" mostra 12,5% Vol. e está envolto num turbilhão de frescura e qualidade que o tornam bastante apetecível, com um preço que ronda os 12€. Nesta nova colheita notei todo o conjunto um bocado mais cheio, com mais volume  o que na realidade até é bom, tendo em conta se à nossa frente estiver um Pregado assado no forno. Quanto ao resto não haverá muito mais a dizer de diferente ao anterior Reserva 2012.

O vinho destaca-se pela frescura e pela elegância que consegue transmitir durante a prova, muito cheiroso de fina complexidade, limpo com a fruta (alperce, citrinos) em plano de destaque acompanhada de travo mineral. Muito bem balanceado entre as suas componentes, com a prova de boca a ir ao encontro do já aqui descrito, entrada com uma boa frescura, fruta bem presente a preencher o palato que se complementa com recortes de mineralidade, sentindo-se pelo meio algum arredondamento derivado da battonage e da passagem por madeira. Termina com alguma secura e boa persistência. 92 pts

06 março 2015

D´Avillez Garrafeira 1995

Em 1369 a família Avillez radicou-se em Portalegre, instituindo diversos morgadios. A partir de 1980, Jorge D’Avillez reestruturou as vinhas respeitando as castas tradicionais na região, e a vinificação passou a ser feita numa nova adega, na Quinta da Cabaça, de acordo com a moderna tecnologia. Em 1990 com a enologia da empresa José Maria da Fonseca, nascem as marcas D´Avillez e Morgado do Reguengo, os Garrafeira foram durante uma década símbolos do melhor que se produziu na região, tendo por direito próprio lugar entre os grandes vinhos criados em Portugal.

O último exemplar terá sido o Garrafeira 2000, já longe das performances dos seus antecessores, a estocada final foi dada com a venda da Quinta da Cabaça em 2005 para a Adega Cooperativa de Portalegre. A marca ficou no limbo, surgindo agora pelas mãos da Herdade dos Muachos, não tendo qualquer ligação com aquilo que foi no passado.

Este D´Avillez Garrafeira 1995 é um verdadeiro monumento, um daqueles vinhos arrebatadores e que nos mostra de forma clara o motivo pelo qual Portalegre é considerado um região com condições únicas para a produção de grandes vinhos. Nos 1,3 ha de vinha situada em solo xistoso, nasceu de um lote composto por Trincadeira (50%), Aragonês (35%) e Tinta Francesa (15%). Nos primeiros anos após lançamento no mercado, o vinho era compacto e austero, duro, com tudo ainda muito fechado e escondido. O tempo que passou por ele foi sabiamente lapidando este diamante que não sendo barato os seus preços variam bastante conforme o local, podendo chegar aos 50€, uma pechincha tendo em conta a qualidade e os preços de outros vinhos do mesmo patamar.

O que se destaca é a frescura que abraça todo o conjunto, tudo muito limpo e no mesmo patamar qualitativo, mostrando uma invejável harmonia de aromas e sabores. Fina e delicada complexidade, ervas aromáticas, fruta madura que quase se trinca (cereja, morango), leve ponta de licor com fundo terroso e especiado, Conquista a cada gole, puro deleite, profundo e delicado, um vinho adulto em plena forma, ombreando sem problema com o que de melhor se faz lá por fora. 97 pts

Publicado in Blend All About Wine

Casa da Passarella Enxertia Alfrocheiro 2011

Da Casa da Passarella (Dão) surge uma nova marca, uma nova vontade, que o melhor varietal de cada colheita se mostre ao público apreciador de bom vinho, cabendo as honras de 2011 ao Alfrocheiro. O vinho ronda os 12€ e está bastante atractivo de aroma, com muita fruta negra (amora, framboesa, bagas), muita vivacidade e harmonia com caruma de pinheiro, ligeiro toque químico (tinta de caneta) com especiarias em fundo. Conjunto complexo e fresco, elegante ao mesmo tempo que mostra uma estrutura que nos dá garantia de boa longevidade em garrafa neste que é um dos melhores exemplares desta casta. 91 pts

04 março 2015

Madeira: The Mid-Atlantic Wine by Alex Liddell



Escrevi recentemente para a Blend All About Wine, que recomendo visita, acerca deste fantástico livro que comprei após a minha visita à Madeira. Nada melhor para quem tem a necessidade de aprofundar os conhecimentos, do que esta segunda edição daquele que é considerado por muitos (eu incluído) o melhor guia sobre o fascinante mundo que envolve o Vinho da Madeira.

Um livro fascinante escrito por Alex Liddell, um reconhecido especialista no que a Vinho da Madeira diz respeito, editado pela primeira vez em 1986, estava literalmente esgotado e que felizmente passados quase 30 anos lança a segunda e tão aguardada edição do seu Madeira the Mid-Atlantic Wine.

O livro está extremamente bem organizado num total de seis capítulos onde o autor começa por contar a história da Madeira, desde os primórdios do vinho até aos dias de hoje. A abordagem é vasta, desde os solos, castas, vinhas, viticultura, vinificação, colocando ao dispor do leitor os mais variados mapas e quadros de estatísticas, pelo meio deixa algumas detalhadas notas de prova tal como uma ampla e histórica abordagem sobre os principais produtores, num livro que sofreu as necessárias atualizações face aos trinta anos que passaram desde a primeira edição.

É um livro técnico que está muito longe de ser enfadonho, até pela capa bem colorida que apresenta, correspondendo ao que se deve encontrar num livro deste tipo, um profundo conhecimento que neste caso o autor demonstra com toda a sua paixão e sabedoria numa escrita que cativa a ler mais e mais, transmitindo valiosa informação a cada página que se vai virando. Indicado para todos aqueles que procuram ficar a saber tudo sobre o Vinho Madeira, tornando-se desta forma imprescindível na biblioteca de todos os enófilos. Custou 25,62€ na BookDepository, a minha principal fonte no que a livros diz respeito.

Livros que acompanham vinhos


Surgiu de uma vontade, de algo que simplesmente apeteceu e que irei dentro do possível tentar dar continuidade neste campo das sugestões de livros cuja temática seja Vinho e Gastronomia. Por muito que se abordem as várias temáticas da gastronomia, por muito que se abordem temáticas de vinho, umas mais debatidas que outras (dependente da necessidade de atenção de quem as quer debater) os livros acabam quase sempre de forma silenciosa encostados a um canto. 

O que se pretende é uma simples abordagem, que no fundo mais não seja do que sugestões sobre alguns dos livros que vão chegando ao mercado ou nalguns casos obras já bem conhecidas que vou comprando ou me vão chegando às mãos, livros que gosto, livros que consulto, livros que em alguns casos são obras essenciais. E como um bom copo de vinho se pode acompanhar com um bom livro, não estranhem se em vez de um vinho surgir um livro aqui no Copo de 3.

Druida Reserva branco 2012


A figura do Druida, associada à mitologia Celta, detinha o saber das palavras e da escrita, tal como da cura, especialista nas práticas de magia, sacrifício e augúrio, baseado numa filosofia natural, procurava buscar o equilíbrio, ligando a vida pessoal à fonte espiritual presente na Natureza. Tendo como princípio esse mesmo respeito e ligação com a natureza e acima de tudo uma forte ligação à terra, surge este projeto de dois enólogos, Nuno do Ó e João Corrêa. Escolheram o Dão e a casta Encruzado com a vontade de criar um branco de topo, nascido de uma vinha com 40 anos de idade situada a 500 metros de altitude na Quinta da Turquide, ali bem perto da Serra da Estrela. Um projecto minimalista onde as produções são sempre muito limitadas como no exemplo do Druida tinto cuja produção se limitou a apenas 500 garrafas, com preço a rondar os 15€..

O Druida Reserva branco 2012 seguiu o seu percurso de forma natural, fermentando usando apenas leveduras autóctones e meditou em barricas de carvalho francês durante nove meses. Tal como a casta, o vinho é de caracter bem vincado, teimoso, envergonhado, diga-se de passagem que por vezes assume uma faceta de polimorfo tal e qual o Druida. A Encruzado é uma casta que precisa de tempo para se acomodar e poder então sim mostrar todo o seu esplendor, neste caso o vinho está ainda em crescimento precisando um pouco mais de paciência. A prova que dá neste momento coloca lado a lado uma complexidade ainda em fase de construção suportada por uma belíssima dose de frescura. A austeridade mineral ainda domina a fruta, tudo com uma madeira que surge com grande subtileza, num conjunto qual riacho pleno de frescura, com margens floridas, vai quebrando a pedra, lavando a fruta de pendor citrino, numa prova que nos transporta para o dito local com a Serra da Estrela em pano de fundo. 93 pts

Publicado em Blend All About Wine

Domingos Soares Franco Colecção Privada Moscatel Roxo Rosé 2013

Faz já parte da lista dos melhores vinhos rosados feitos em solo nacional e é com toda a certeza o mais sofisticado e exclusivo, dada a rareza da casta Moscatel Roxo. E não sendo esta a última vez que me torno a repetir, direi que a graciosidade com que rodopia no copo debitando aromas de Moscatel Roxo fazem com que o vinho produzido pela José Maria da Fonseca se torne lascivo desde o primeiro instante. De graduação contida a rondar os 12% Vol. o vinho mostra-se fresco com uma fina mas rendilhada complexidade, os aromas da casta mostram-se de forma ordeira num todo equilibrado, harmonioso, delicado e fresco. Dá uma boa prova conseguindo balancear leve docinho com ponta de secura, mediano no corpo, fruta e flores, sem exageros é delicado mas com boa presença. Um par fantástico a acompanhar um bisque de lagosta, o preço ronda os 10€ cada garrafa. 90 pts

03 março 2015

Alfaiate 2013

É na Herdade do Portocarro (Torrão),  situada entre a fronteira dos distritos de Setúbal e Évora, que José da Mota Capitão cria os seus vinhos. Na sua visão peculiar, no seu gosto particular, Mota Capitão cedo conquistou uma larga franja de consumidores com os seus tintos, basta lembrar nomes como o Herdade do Portocarro, Anima ou Cavalo Maluco. Ao sabor dos tempos os vinhos foram sofrendo os ajustes que o seu criador achou necessários até atingirem a sua satisfação plena. Este Alfaiate, um vinho desenhado e feito à medida do seu dono é uma das mais recentes criações. Elaborado a partir das castas, Sercial, Galego-dourado, Arinto e Antão Vaz com uma produção de 1600 garrafas com preço a rondar os 12,50€ por unidade.

A primeira vez que o bebi mostrou-se pouco convincente, tinha sido bebido numa esplanada virada para o mar a acompanhar uma nobre garoupa assada no forno, no meio da conversa e gargalhadas, com os olhares perdidos na deslumbrante paisagem o vinho acabou por não se conseguir destacar o suficiente para deixar um rasto na memória daqueles que o tiveram no copo. Tinha pois a necessidade de voltar a ele para  tirar a limpo todas as dúvidas com que tinha ficado e que na realidade apenas se tornaram em confirmações. Não peca em nada por ser pouco exuberante, envolto numa fina e delicada complexidade suportado por uma frescura que o salva de queda abrupta. A fruta aparece de forma fresca e de boa qualidade, ainda que espaçada, desde o pequeno ananás até ao fruto de pomar, o resto são ervas frescas e algum toque de madeira muito discreto. Digamos que o fato me pareceu ter ficado curto. 90 pts
 
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