Copo de 3: Outubro 2015

31 outubro 2015

Quinta do Poço do Lobo Rosé Reserva 2014

Só os grandes têm a capacidade de se reinventar com o passar do tempo, só os grandes têm a capacidade de deixar saudade e de certo modo ficarem reféns de décadas de glória onde lavraram a letras douradas o que de melhor se produziu em determinadas regiões. As Caves São João (Bairrada) são um exemplo disso mesmo, um gigante que se deixou adormecer e parece estar a acordar calmamente do sono profundo a que foi submetido no inicio da década de 90. Este vinho rosado junta a Baga com Pinot Noir, com fermentação parcial em barrica avinhada e batonnage que o catapultou para outro nível de sensações. É com todas as palavras um grande rosé, fresco, delicado e ao mesmo tempo muito elegante que junta a fruta vermelha muito limpa com flores e ligeira sensação de arredondamento a embalar o conjunto. É delicado mas na boca confirma além da frescura a boa secura que um conjunto muito bem estruturado, saboroso e de enorme prazer. O preço ronda os 12€ em garrafeira num vinho rosado que ombreia com os melhores exemplares nacionais. 92 pts

Madeira: The Islands and their Wines by Richard Mayson


Madeira: The Islands and their Wines by Richard Mayson
(Infinite Ideias, 2015, 39.12€)

O autor é Richard Mayson, conceituado escritor e crítico de vinhos bem conhecido por obras como Portugal’s Wine and Winemakers, The Wines and Vineyards of Portugal ou o best-seller Port and the Douro. É um profundo conhecedor dos vinhos de Portugal e um especialista em fortificados. Fruto de décadas de provas e de inúmeras viagens à Madeira, com muita visita e conversa com produtores, foi possível o lançamento do seu novo livro de nome Madeira: the islands and their wines.

Richard Mayson desmistifica como poucos o Vinho da Madeira, num registo de fácil entendimento e que torna o livro de tal forma delicioso que neste momento já o estou a ler pela segunda vez. O autor começa por fazer uma introdução histórica sobre a Madeira com um espaço dedicado aos nomes daqueles, que segundo ele, ajudaram a moldar a Madeira naquilo que é hoje enquanto região produtora de vinho. Conta ainda com uma breve introdução acerca das ilhas, aborda o factor social, governo, clima, terminando na agricultura. A lição continua com a abordagem às castas e os seus vinhedos, numa visão daquilo que já foram e a sua perspectiva de como poderá vir a ser no futuro. Sem perder o interesse somos conduzidos de forma simples por todo o processo de vinificação onde são explicadas as várias categorias de Vinho da Madeira.

E é a partir deste ponto que quanto a mim este livro faz toda a diferença e se torna ainda mais indispensável a todos os apreciadores de Vinho da Madeira. Não só pela detalhada abordagem feita aos vários produtores, mas pela exaustiva e surpreendente vasta lista de vinhos apresentados. Diga-se de passagem que o autor num registo impressionante aborda desde as mais recentes novidades numa viagem pelo tempo até aos vinhos do séc. XVIII. A complementar as notas de prova encontra-se no final do livro uma muito interessante descrição dos aromas que caracterizam o Vinho da Madeira, tal como um pequeno guia de viagem pela ilha e uma pequena secção onde se aborda a ligação do Vinho da Madeira/Gastronomia. Um livro sem dúvida alguma imprescindível.

29 outubro 2015

Quinta do Cardo Espumante Bruto Touriga Nacional 2010

O primeiro espumante lançado pela Quinta do Cardo (Beira Interior) é um Touriga Nacional da colheita de 2010, com direito a 36 meses de estágio em garrafa e com o primeiro degorgement a ser feito em Junho de 2014. Mostra um aroma marcado pela fruta vermelha bem fresca em tons de morango, framboesa, floral ligeiro, biscoito numa delicada e bonita envolvente. Boca com bonita prestação, fruta a marcar o compasso com boa acidez presente, mostra uma boa secura no final persistente num espumante cujo preço aponta para os 8€ e se revela uma aposta de qualidade acima da média para a nossa mesa. 90 pts

26 outubro 2015

Touriga Nacional da Peceguina 2013

Da Herdade da Malhadinha Nova (Beja) sai este Touriga Nacional fora de modas, diferente, fresco e com energia suficiente para se conseguir afirmar no copo, sem desmaios nem enfado. É nesta altura um vinho dominado pela juventude e frescura da fruta escura e muito compacta, ligeiro floral num tinto vigoroso com a austeridade que costuma andar de mãos dadas com a casta. Mas neste caso é a frescura que lhe toma a alma e que muitos poderão estranhar encontrar num vinho do Baixo Alentejo, algo que os solos dominados pelo xisto ajudam em muito a explicar. Exemplar que nos pede pratos de forte tempero, cujos aromas e sabores precisam de um vinho com energia para os conseguir acompanhar, qual barriga de porco no forno ou mesmo umas bochechas de novilho estufadas em vinho tinto. Pode ser comprado com preço de 22€ na loja online do produtor. 92 pts 

21 outubro 2015

Guia dos Restaurantes Certificados do Alentejo


Guia de Restaurantes Certificados do Alentejo  

A Entidade Regional de Turismo do Alentejo lançou muito recentemente este Guia de Restaurantes Certificados do Alentejo que visa a valorização da gastronomia regional e de toda a sua cadeia de valor. 

O guia editado e com concepção gráfica da Caminho das Palavras, encontra-se disponível em espanhol, inglês, francês e português e é uma obra pioneira no conteúdo que nos dá a conhecer diferentes espaços de restauração espalhados pelo território Alentejano. 

No total foram 84 os restaurantes que conquistaram a Certificação, um selo que nos garante a excelência tanto dos produtos como do serviço prestado. O processo de certificação está ainda aberto a outros restaurantes interessados que queiram propor-se ao processo de certificação.

Os diferentes espaços foram separados pela sua abordagem ao receituário em Tradicional, Típico, Familiar e Contemporâneo podendo ser encontrados ao longo das quatro sub regiões criadas, Norte Alentejo, Alentejo Central, Alentejo Litoral e Baixo Alentejo. Vai estar disponível na Fnac e Bertrand ou na sua versão electrónica que pode Descarregar aqui

Deixe-se guiar pelo palato e parta à descoberta de um Alentejo que aposta na genuína arte de bem servir à mesa!

19 outubro 2015

Cartuxa branco 2013

Depois de uns anos a fio de costas voltadas voltei a provar os "novos" vinhos da Cartuxa. Não que ali tenham sido criados novos vinhos mas porque aquilo que as novas colheitas me mostraram, foi um perfil retocado e enquadrado dentro dos parâmetros de qualidade que desde os primeiros anos me acostumaram.
No que ao Cartuxa branco diz respeito, perdeu claramente aquele perfil mais clássico e que hoje podemos dizer que se encontrava fora de uso e onde as notas de oxidação cedo lhe faziam companhia. Este novo "modelo" surge com as formas mais arredondas, Antão Vaz e Arinto com Roupeiro apenas quando o ano o permite, muita e boa frescura dos citrinos que bailam no copo, nervo, muito boa energia com fruta de polpa branca num conjunto coeso e tenso, o suficiente para que uns anos em garrafa lhe façam maravilhas.Boca a condizer com muita fruta, boa estrutura a encher a boca de sabor com tudo no sítio, acidez cítrica a tomar conta do final de um vinho que dá muito prazer a ser bebido agora mas que poderá vir a envelhecer muito bem por mais uns anos. 92 pts

15 outubro 2015

Quinta do Cardo Síria 2014

Nasce na Beira Interior pela mão da Companhia das Quintas, na Quinta do Cardo. Um vinho que de certa forma tem sido um estandarte dos brancos da região. A sua fama vem de longe muito por causa das características tão peculiares que costuma apresentar. Também o novo rótulo a fazer a diferença, diga-se que tanto o rótulo como o vinho encerram muitos e bonitos detalhes. Um vinho refrescante, mineral (pederneira), perfume floral, sente-se tenso e com nervo, limão, lima, maçã, boa frescura. Boca com ligeira untuosidade de início que se esbate numa saborosa passagem com final onde domina a austeridade mineral. 90 pts

13 outubro 2015

Soalheiro Espumante Bruto Alvarinho 2013

Eu "Soalheirófilo" me confesso, na verdade não há vinho que seja criado nesta adega que me consiga até à data, já vão uns valentes anos, dar uma nega no palato. Neste espumante de belo efeito encontro um Alvarinho acutilante, com uma energia que revigora o palato e o prepara à mesa para acompanhar na perfeição uma qualquer refeição a solo ou entre amigos. Tentei no último jantar arriscar, coloquei este espumante a acompanhar uma sopa de beterraba com cominhos pretos e o resultado foi a meu ver conseguido, o que apenas diz bem da qualidade e versatilidade deste Alvarinho em versão Espumante Bruto. Não vou perder tempo em aromas e sabores, a qualidade que tem e o prazer que dá são mais que suficientes para o classificar como um belíssimo espumante nacional. O preço ronda os 13€ em garrafeira. 92 pts

12 outubro 2015

Fiuza rosé 2014

Imagem reformulada neste rosé Ribatejano da Fiuza (Tejo) onde a dupla de castas neste caso se mantém inalterável no dueto Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon a darem o corpo ao manifesto que se traduz neste rosé colheita de 2014. Como já tinha escrito, a imagem aparece agora renovada e para melhor, eu pelo menos gosto mais da maneira como se mostra tanto por fora como por dentro. Há um salto de qualidade e o vinho parece aparecer de cara lavada, mais pálido mas curiosamente os aromas surgem agora de forma fresca e cativante, sem mostrarem aquele ar de enfado que tira por tantas vezes a "graça" a um vinho. É por isso um bom vinho rosado para acompanhar entradas, sopas de peixe de temperamento mais delicado ou porque não uma lata de sardinhas em tomate. 87 pts

05 outubro 2015

Ramos Pinto – Duas Quintas 25 anos de História

A casa Ramos Pinto foi fundada em 1880 por Adriano Ramos Pinto ao qual se juntou o seu irmão António. Numa casa onde a inovação e a mentalidade empreendedora sempre andaram de mãos dadas, destaca-se para o caso o nome de José Ramos Pinto Rosa que executou em conjunto com o seu sobrinho João Nicolau de Almeida o importante projecto da selecção das cinco castas recomendadas para o Douro, tanto para Vinho do Porto como para vinho de mesa. Inspirado no seu pai, Fernando Nicolau de Almeida, criador do Barca Velha, João Nicolau de Almeida cedo entendeu que parte do segredo seria juntar uvas de altitude (mais acidez) com uvas de maior maturação, provenientes de cotas mais baixas. Desta forma juntaram-se as uvas da Ervamoira (150m de altitude) com Bons Ares (600m de altitude), o nome pois claro seria Duas Quintas e após alguns ensaios seria lançado pela primeira vez com a colheita de 1990.
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Vinhas de Ervamoira – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados
O Duas Quintas foi à época uma inovação e um desafio que uniu às mais modernas técnicas de vinificação os tradicionais lagares, num projecto pensado de raiz e mais uma vez pioneiro na região e catalisador do surgimento de um “novo Douro”. Em 1991 iria surgir o Duas Quintas Reserva e em 1992 o Duas Quintas branco. Ao longo de 12 vinhos fomos tomando pulso aos 25 anos de História que a mestria de João Nicolau de Almeida nos ia traduzindo em vinhos e palavras.
Num breve apanhado pelos vinhos que mais me marcaram a prova começou com um magnífico Duas Quintas branco 2000 apresentado numa bela e esguia garrafa renana, decantado e servido o vinho no imediato deixou todos literalmente boquiabertos. Uma combinação entre frescura e toques de lápis de cera, com tisana e flores onde a fruta combina alternadamente entre a frescura e os toques mais untuosos da geleia. É daqueles vinhos que apetece beber e ter em casa mais umas quantas garrafas guardadas. Ao seu lado foi apresentado o Duas Quintas branco 2014 que mostrou toda a genica da sua juventude, quiçá irreverente onde dá para antever que o seu futuro também será de grande categoria.
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Duas Quintas 1990 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados
Demos entrada nos tintos, com o primeiro de todos, aquele que foi o início, o Duas Quintas 1990. Um vinho muito bonito, cheio de vida e onde a fruta parece rejubilar de alegria com tanto morango e framboesa fresca, muita energia com aromas terciários de muito bom-tom, cantos bem arredondados mas cheio de finesse e com uma presença de boca de fazer inveja. Um clássico em toda a linha tal como o eloquente Duas Quintas Reserva 1991 que foi o primeiro Reserva e teve a capacidade de elevar o patamar da qualidade muitos furos acima do que existia para a época na região.
Da colheita de excepcional qualidade, 1994, surgiram em prova os dois tintos. Comparando o Duas Quintas 1994 com o 1990, mostrou-se a meu ver melhor e com mais presença da fruta, algum vegetal num todo muito equilibrado. Já o Duas Quintas Reserva 1994 num perfil clássico de um grande tinto do Douro, nobre e cheio de carácter, muito complexo a combinar a frescura da fruta com um toque de caramelo de leite, uma delícia.
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Os vinhos em prova – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados
O final da prova seria com os vinhos do novo milénio, tal como o branco também o Duas Quintas Reserva 2000 mostrou ser um colosso a caminho do estrelato, denso, coeso e com muita frescura, tudo em grande onde só o tempo o poderá domar. O último vinho, Duas Quintas 2013 é bastante tentador, amplo de aromas com bonito perfume, tudo muito novo e cheio de energia, dentro do carácter e perfil que os vai guiando nesta fantástica viagem que começou em 1990.

03 outubro 2015

João Portugal Ramos, Vinhos

João Portugal Ramos licenciou-se em Agronomia pelo Instituto Superior de Agronomia em 1977. Estagiou no Centro de Estudos da Estação Vitivinícola Nacional de Dois Portos, após o que iniciou em 1980 no Alentejo a actividade de enólogo-gerente da Cooperativa da Vidigueira. Sairia passado pouco tempo, passando pela Casa Agrícola Almodôvar onde em 1982 ganha o prémio de Melhor Vinho na Produção com o tinto Paço dos Infantes 1982. Daria o salto para a Adega Cooperativa de Reguengos de Monsaraz onde ajudou a criar a marca Garrafeira dos Sócios. A partir da experiência acumulada, João Portugal Ramos constituiu no final da referida década a sua primeira empresa de nome Consulvinus com o objectivo de dar resposta às inúmeras solicitações de vários produtores, no seu percurso de glória criou alguns dos míticos Tapada do Chaves, Quinta do Carmo ou Cooperativa de Portalegre. A partir de 1989, a Consulvinus alargou a sua actividade para além do Alentejo, chegando ao Ribatejo, Península de Setúbal, Dão, Beiras, Estremadura e Douro.
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A Adega © Blend All About Wine, Lda
Em 1990, João Portugal Ramos plantou os primeiros cinco hectares de vinha em Estremoz, onde vive desde 1988, dando início ao seu projecto pessoal. A construção da adega em Estremoz, no Monte da Caldeira, iniciou-se em 1997, tendo sido ampliada em 2000. O sucesso e os prémios acumulados pelos “seus” vinhos ao longo da sua carreira valeram-lhe o reconhecimento nacional e internacional como um dos principais responsáveis pela evolução dos vinhos portugueses. Fruto da sua mestria têm nascido alguns dos grandes vinhos de Portugal, muitos deles ainda feitos em talha, vinhos que fazem parte da história e que têm tido a capacidade única de marcarem tanto percurso enófilo como foi o meu caso. Os exemplos são vários e na sua quase totalidade, incluindo os da década de 80, ainda mostram uma invejável forma na hora da prova.
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A gama de vinhos © Blend All About Wine, Lda
Muito recentemente face aos pedidos do mercado investiu nos Vinhos Verdes, já antes tinha no Douro juntamente com o enólogo José Maria Soares Franco criado o projecto Duorum. Passados 13 anos sem lançar uma nova marca de vinho alentejano, tirando os topos de gama, criou a marca Pouca Roupa com um enorme sucesso de vendas. Como tem vindo a ser hábito e não podia ser de outra forma, são os consumidores a ditarem o sucesso deste nome incontornável da enologia.

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Vila Santa Reserva 2012 & Vila Santa Reserva 2009 © Blend All About Wine, Lda
Na mais recente visita à adega e em animada conversa com o Engº João Portugal Ramos, foram colocadas em prova as mais recentes colheitas no mercado com um destaque para os brancos de 2104 que brilham alto fruto de um ano de excepcional qualidade. Foi proposto logo de início provar lado a lado a colheita mais recente com uma colheita anterior onde se começou pelo Vila Santa. O Vila Santa tinto nasceu na colheita de 1991, na altura ainda feito em talha, afirmando-se desde muito cedo como uma das grandes relações preço/satisfação existentes em Portugal. A qualidade assegurada colheita após colheita num perfil que tendo sofrido os necessários ajustes mas onde se tem sabido preservar o “estilo” Vila Santa que tanto prazer dá quando em novo como o 2012 ou mesmo com uns anos em garrafa como tão bem se mostrou o 2009.
De seguida provamos os Quinta da Viçosa, a meu ver os vinhos mais irreverentes do produtor e que nos oferecem a cada colheita o blend das duas melhores castas. Em prova o Quinta da Viçosa 2012 (Aragonês/Petit Verdot) e o 2011 (Touriga Nacional/Cabernet Sauvignon). Nota-se acima de tudo o cunho bem pessoal do enólogo, o espaço de destaque que a fruta ganha, limpa e sempre fresca, desempoeirada e inserida num conjunto sempre com bastante vigor, o tal vigor que permite sem exageros prolongar todos os seus vinhos numa linha de tempo muito acima da média. Quanto aos vinhos, o 2012 ainda muito vigoroso, demasiado novo o que me faz inclinar para o 2011, aquele travo de Cabernet Sauvignon a fazer lembrar Bordéus conquista-me no imediato, embora os dois ainda muito novos e a precisar de tempo em garrafa. Para estes dois tintos a escolha seria óbvia, carne de porco ou novilho com bom tempero, ligações com javali, veado ou caça grossa serão sempre vencedoras.

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Marquês de Borba Reserva 2012, Estremus 2001 & Quinta da Viçosa 2007 © Blend All About Wine, Lda
A fase final da prova contou com a presença daquele que é um dos “novos” clássicos do Alentejo, o Marquês de Borba Reserva que desde que saiu pela primeira vez na colheita 1997 conquistou por direito próprio lugar entre os grandes vinhos da nação. A evolução deste vinho é algo notável, comprova-se provando o 1999 que está num momento de forma magistral e ainda com muita vida pela frente. Terá sido este 1999 o melhor de todos até à data para o seu criador, eu irei juntar ao 1999 o 2012. Embora o 2013se encontre em momento pré-escolar a prova que dá é de um vinho ainda na fase de arrumos, tudo muito espalhado, muita caixa por abrir, precisa de tempo. Enquanto isso o 2012 já se mostra algo mais esclarecido, dá mostras de um conjunto luxuoso ao qual não se consegue ficar indiferente. A envolvência entre fruta/madeira confere um elevado grau de sensualidade e elegância ao vinho, no palato confirma tudo o que tem vindo a ser dito. Por esta altura são os pratos mais nobres e delicados que brilham, uma Perdiz Estufada é o casamento perfeito.
Para o final fica aquele que é de momento o topo de gama do produtor, o Estremus 2011, ainda que se tenha tido um vislumbre do que será a sua nova edição. Mas é no 2011 que as atenções se prendem com razões de sobra para que tal aconteça, o vinho que nem sequer nasce em vinhedo velho é um monumento de classe e raça. Muita finesse com a fruta num patamar de definição e frescura muito acima da média, no fundo sente-se a pujança e nervo de um grande vinho, um gigante adormecido com muitas alegrias para dar nos tempos futuros. A prova que dá esbarra numa saudável austeridade no palato, os tais taninos que ainda não se acomodaram, no nariz a cada rodopio no copo a complexidade vai-se desenrolando. Mais uma vez a enologia de João Portugal Ramos a conseguir lançar um vinho grandioso, como tem sido seu costume ao longo das últimas três décadas. Uau.

Publicado em Blend - All About Wine

01 outubro 2015

Adega da Cartuxa - No Reino do Pêra Manca

Passados quase 15 anos voltei à Adega da Cartuxa, ali paredes meias com o Mosteiro da Cartuxa onde vivem desde 1598 os monges Cartuxos. A Adega da Cartuxa, propriedade da Companhia de Jesus, foi nacionalizada após a revolução liberal do século XIX e adquirida em 1869 por José Maria Eugénio de Almeida. Apenas em 1950 a adega viria a ser modernizada por Vasco Maria Eugénio de Almeida, conde de Villalva, tendo entrado para os bens da Fundação em 1975. Foi a partir dessa altura que se começou a encarar a produção vinícola, com plantação de novo vinhedo entre 1982 a 1985, numa perspectiva completamente diferente, com ligação desde o início à Universidade de Évora através da equipa na altura chefiada pelo saudoso Engº Colaço do Rosário, a quem os vinhos do Alentejo muito devem. Foram marcantes as colheitas dos finais dos anos 80 como o Cartuxa branco 1987 estagiado em madeira em destaque ou em 1990 com o surgir do primeiro Pêra Manca tinto.
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Adega da Cartuxa © Blend All About Wine, Lda
Os motivos que me levaram a afastar dos vinhos da Cartuxa prendem-se com as evidentes mudanças de perfil que os vinhos começaram a sofrer com a entrada de uma nova equipa de enologia. Com isto viria um reformular dos rótulos e o meu total afastamento dos vinhos que deixei de encarar com a mesma paixão que então tivera muito por causa do Pêra Manca 1995, aquele que é o vinho mais marcante do meu percurso enquanto enófilo. Passado tanto tempo seria altura de voltar a tomar contacto mais de perto com a realidade vínica que hoje é criada na Adega da Cartuxa. As expectativas não saíram furadas, os vinhos saíram daquela fase confusa após mudanças na enologia, certamente que foram precisos algumas colheitas para assentar o perfil desejado com os necessários retoques.
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Tonéis © Blend All About Wine, Lda
Todos os vinhos provados mostraram um nível muito acima da média, a atenção apesar de tudo o que foi provado ficou centrada apenas nos Cartuxa que terminam em apoteose com os vinhos comemorativos dos 50 Anos, para atingir a apoteose com os Pêra Manca. O Cartuxa branco 2013 resultante de um lote de Arinto e Antão Vaz, destaca-se pela boa frescura e pureza da muita fruta madura (citrinos, pêra, ananás) num conjunto algo tenso com uma passagem de boca muito saborosa e séria, tudo no sítio, com uma acidez cítrica a tomar conta do final. No copo ao lado já estava o Pêra Manca branco 2012 a mostrar uma muito boa exuberância com um certo arredondamento, bonita evolução com tempo de copo que o teve e bastante. Harmonioso e envolvente, enche a boca de sabor e classe, frescura tem a suficiente que abraça todo o conjunto de forma equilibrada de maneira a que não temos por ali pontas soltas. O trabalho de madeira está nesta altura completamente integrado, um novo perfil que me agradou neste belíssimo branco.
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Os brancos © Blend All About Wine, Lda
A grande surpresa estaria guardada para o final da prova com um vinho que em conjunto com outros foi criado para comemorar os 50 anos da criação da Fundação Eugénio de Almeida por Vasco Maria Eugénio de Almeida. O Cartuxa 50 Anos branco 2012 é um branco cujo lote de vinha velha com as castas Arinto, Assario e Roupeiro fermentou com curtimenta completa durante 25 dias. Se tivermos em conta os vinhos que fizeram história nesta casa sempre foram no seu aparecimento autênticas irreverências perante o consumidor menos atento, desta vez a provocação surge logo pela tonalidade com nuances alaranjadas. O vinho tem uma complexidade fantástica, um ramalhete de aromas distinto, muito limpos de fruta madura, laranja, limão, ervas de cheiro, anis, muito cativador e diferente de tudo o resto, pelo meio junta-se a frescura que a tem e em muito boa conta, peso e medida.
Com um nível muito alto colocado na mesa era altura de mudar a tonalidade da prova e os tintos tomaram conta do palco. A conversa inicia com o enólogo Pedro Baptista a apresentar o Cartuxa 2012, que nos mesmos modos da versão branco vê centrar todas as suas atenções na qualidade e pureza da fruta madura, a remeter para aquele perfil mais clássico a que esta zona do Alentejo nos acostumou. Ainda cheio de vigor cheio de especiarias com apontamento vegetal, na boca replica a prova de nariz, amplo e atrevido a espicaçar os sentidos com muita vida e uns taninos marotos ainda por polir no final de boca. O salto que se deu foi em direcção ao Cartuxa Reserva 2012 a mostrar-se mais sério como seria de esperar, embora mantendo a toada clássica, juntando a energia do Alicante Bouschet com a generosidade do Aragonez, alguma gulodice com notas de alcaçuz, fruta madura num conjunto com frescura embora se mostre mais polido e com maior envolvimento. No palato é saboroso mostrando-se num patamar acima do anterior, uma diferença que se sente a todos os níveis.
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Os tintos © Blend All About Wine, Lda
O culminar da prova de tintos seria atingido com a apresentação do Cartuxa 50 Anos tinto 2011 onde a Alicante Bouschet brilha em conjunto com a Syrah. Este vinho em tudo especial mostra-se denso, escuro, misterioso e com uma complexidade que se vai desenrolando no copo de forma fantástica. A fruta carnuda e sumarenta aparece fresca, bem delineada, um deleite para os sentidos, a explodir de sabor no palato em conjunto com algum herbáceo, cacau entre outros. Um verdadeiro colosso com anos de vida pela frente que fez as minhas delícias preenchendo os mais altos requisitos. Fantástico. No copo ao lado estava o expoente máximo da Adega da Cartuxa, nascido pela primeira vez em 1990, o Pêra Manca tinto 2010. Sem comparações possíveis com o vinho anterior, diametralmente oposto pois aqui o que comanda é a finesse e harmonia de componentes, tudo numa toada de pura classe com frescura e fruta de grande gabarito. Diga-se que é dos que se bebem com imenso prazer, sem cansar e apetece sempre mais um copo e outro até que a garrafa fica vazia. É a todos os níveis um grande vinho, que se soube reencontrar no caminho das estrelas e mostra-se ao melhor nível a que a marca me tinha acostumado.

Terras da Gama Reserva 2012

O Terras da Gama Reserva 2012 apresenta-se como sendo o topo de gama deste produtor, cujo preço por garrafa oscila entre os 10/15€ garrafa. Um vinho Ribatejano, agora Tejo, feito a partir de Touriga Nacional e Alicante Bouschet, cheio de fruta muito madura com ameixa e frutos do bosque, ligeiramente especiado com aconchego morno da barrica a envolver um conjunto apelativo e convidativo. Com uma prova de boca cheia de sabor onde a fruta mostra ter ligeiro apontamento doce, alguma compota, novamente as especiarias em corpo estruturado com cantos arredondados. Final de boca com boa persistência num vinho fácil de gostar que mostra ter a acidez suficiente para acompanhar uma lasanha no forno. 90 pts

 
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