Copo de 3

25 abril 2010

3 Blogs Portugueses no 100 Top Wine Blogs...

Quem dedica um pouco mais de tempo e de vida a isto de ser blogger, um "trabalho" árduo e que o tempo tem sabido mostrar que não é para todos nem é qualquer um que tem estofo para tal, sabe que há certos locais na internet que funcionam quase como barómetros que avaliam o desempenho dos blogs, e que por si só se tornaram numa espécie de ferramenta de referência incontornável neste meio. Vem para o caso que muito recentemente o Rui Miguel (Pingas no Copo) chamou-me a atenção para o AlaWine.com, uma das principais referências no que toca a rankings internacionais de blogs de vinho e em que nos últimos dois anos a blogosfera Portuguesa esteve arredada de qualquer representante e que na última lista 100 Top Wine Blogs, aquela que é simplesmente a lista onde estão todos os pesos pesados da blogosfera internacional, é ver por lá Grape Radio, Jamie Goode, Spittoon, The Pour, Fermentation, Vinography, Wine Library TV... surgiram 3 blogs de Portugal, o Copo de 3, o Pingas no Copo e o de um produtor do Douro, Quevedo. São pequenas grandes conquistas que valem o que valem, tal como tantas outras listas que vamos vendo saindo ao longo do ano um pouco por todo o lado, mas que não deixam de ter o seu significado mesmo quando apenas é dentro de portas. Tudo isto à mistura com o autismo com que alguma gente ainda olha e lida com este meio de comunicação, os blogs, que se assumem cada vez mais como uma verdadeira alternativa de dar a conhecer o vinho às pessoas espalhadas por todo o mundo, quer no presente quer no futuro.
De forma sucinta estas pequenas conquistas têm uma especial importância para quem a "isto" se dedica, para quem cá anda e gosta de ver o seu trabalho de alguma forma compensado. É pois um motivo de alegria saber que entre os mais visitados, entre todos aqueles que se destacam pela sua popularidade e pela popularidade dos seus conteúdos nos principais motores de busca, estão 3 representantes de Portugal e em que dois deles escrevem em Português de Portugal. É bom saber que há um pouco de Portugal no que de melhor se faz a nível de blogs de vinho, resta-me por isso deixar os meus parabéns ao Rui Miguel e ao Oscar Quevedo, e quanto a mim é continuar sempre com a vontade de melhorar, e obviamente que nada disto seria possível sem os milhares de pessoas que visitam este e os outros blogs.

22 abril 2010

Vale D´Algares Selection tinto 2007

Depois do Selection Branco (colheita de 2008) é a vez do novo Selection Tinto (colheita de 2007) vir reforçar a presença da Vale D'Algares num segmento de mercado mais exigente, com uma gama que pretende situar-se entre o seu Guarda Rios e o patamar mais elevado da Marca (Viognier). O novo Selection Tinto é um vinho Regional do Tejo, do qual foram produzidas 6.400 garrafas a partir das castas Merlot e Touriga Nacional, distribuídas por uma área de 3,5 hectares de vinha, num vale de solos argilo-calcários.

Vale D´Algares Selection tinto 2007
Castas: 60% Merlot e 40% Touriga Nacional - Estágio: 14 meses em barricas novas de carvalho francês - 14,5% Vol.

Tonalidade ruby escuro de concentração média/alta.

Nariz a mostrar uma boa intensidade, prende pelo interesse que despoleta logo de inicio, com um aroma a chamar a atenção, direi diferente e até moderno, com grande entrosamento entre as duas castas e a madeira, a mostrar-se muito bem ligada com todo o conjunto, notas leves de tosta, e baunilha com bálsamo vegetal, violetas, cacau, conjunto a mostrar vivacidade e alguma pujança, com muita fruta (ameixa, framboesa) madura e fresca e levemente compotada.

Boca de boa espacialidade, amplo, estruturado, com macieza, taninos afinados, fruta bem presente ao nível do encontrado no nariz, especiaria doce, um vinho guloso, que dá prazer beber, boa ligação com a madeira a conferir alguma cremosidade e envolvência ao conjunto, com o equilíbrio da acidez a proporcionar boa dose de frescura, em final de boca de boa persistência.

Este Selection tinto segue as pisadas do Selection branco, mostrando-se como um vinho de ar moderno, com toque inovador e respectiva dose de originalidade, cativante, muito bem feito e capaz de acompanhar bem uma refeição, o preço indicado para a qualidade apresentada, mostra-se bastante sensato, rondando neste caso os 15€. 16,5 - 91 pts

18 abril 2010

DFE SIGNATURE 2007

"Os vinhos DFE Signature são um exemplo inquestionável da mais alta qualidade daquilo que o Douro é capaz de produzir. Clássico, intenso, complexo, elegante e rico são alguns dos adjectivos aos quais podemos recorrer para descrever aquele que é a epítome dos vinhos DFE."

DFE Signature 2007
Castas: tradicionais do Douro - Estágio: barricas de carvalho francês - 15,5% Vol.

Tonalidade ruby escuro de concentração média/alta.

Nariz coeso e algo preso no arranque, apesar disso mostra uma boa intensidade com barrica em primeiro plano a debitar tosta, baunilha, chocolate preto, especiaria... num todo onde a fruta negra bem madura e fresca surge depois, com resina e flor de esteva à mistura. Não tão fresco nem tão equilibrado como o DFE Premium, este mostra-se mais "carregado" nos seus atributos, onde a frescura tem um papel importante e que não permite ao vinho tornar-se demasiadamente pesado.

Boca boa de corpo, concentrado e estruturado, sente-se robustez e ao mesmo tempo uma vontade de querer mostrar-se elegante e fresco. Mais fruta e percepção da madeira, chocolate preto e especiaria, também aqui se mostra algo sisudo, pouco conversador, desenvolve pouco, precisa da rodagem que só o tempo lhe pode dar. Os taninos jogam ao esconde-esconde, com um final a deixar novamente espreitar o álcool (que bom seria que fosse passando despercebido) quando a temperatura começa a subir um pouco mais, tornando o vinho algo pesado e perde assim algum interesse. O final é longo e de boa persistência.

Um mais que merecido destaque para a bonita e elegante apresentação da garrafa. Como topo de gama é claramente o mais complexo, o que requer mais tempo de copo e de garrafa para melhor se mostrar, sólido de estrutura, tem qualidade indiscutível em que o único senão será a meu ver a excessiva graduação que apresenta, 15,5% Vol. A acidez ainda que presente, compensa até certo ponto, pois a determinado momento a temperatura sobe e o álcool parece querer mostrar-se e tomar conta da conversa... pessoalmente é coisa que não aprecio num vinho. Seria possível fazer este vinho com menos álcool ? Não seria isso mais prazenteiro na altura da sua prova ? Se os vinhos cada vez mais se querem frescos, equilibrados e com uma graduação comedida, porquê tanto álcool ? O que incomoda é a sua presença a quando da prova, pode fazer parte do vinho e não se notar minimamente, mas fosse este o caso, a nota seria claramente mais alta. 16 - 90 pts

16 abril 2010

DFE PREMIUM tinto 2007

"Os vinhos DFE Premium são vinhos de perfil contemporâneo, intensos, elegantes, generosos, criados para reflectir a versatilidade e a actualidade apaixonante dos vinhos do Douro."

DFE PREMIUM 2007
Castas: tradicionais do Douro - Estágio: passagem por madeira - 14,5% Vol.

Tonalidade ruby escuro de média concentração.

Nariz coeso e com boa intensidade, sente-se um pouco fechado ao início, com fruta preta bem madura (ameixa, cereja e groselha) em conjunto com madeira que se mostra desde já bem integrada, alguma tosta, frescura de conjunto, chocolate preto, café, baunilha, tudo a dar uma sensação de algum aconchego em conjunto com boa frescura presente. Segundo plano com esteva e algum ainda que leve, bálsamo vegetal.

Boca de entrada fresca, com boa estrutura e mediana espacialidade, a mostrar-se com ligeira austeridade vegetal que é prontamente compensada pela presença da boa fruta madura, aqui com alguma compota, e da madeira que dá ao conjunto uma certa envolvência e macieza, num final de persistência média, onde o álcool parece querer despontar ainda que muito ligeiramente.

Com um preço a rondar os 12€, é um vinho de fácil empatia, um Douro moderno, bem feito e bastante correcto, a mostrar que pode ser consumido desde já, ou que poderá ser guardado por mais algum tempo, tem estrutura suficiente para tal. O único senão da prova, terá sido a presença de algum álcool, mais no final de boca que na prova de nariz, não incomoda muito é certo, mas para mim é motivo mais que suficiente para que a nota final seja um pouco penalizada. 15,5 - 89 pts

DFE Classic tinto 2006

"Os vinhos DFE Classic Douro tinto são vinhos leves e elegantes que aliam o perfil e sabor clássico dos vinhos tintos do Douro à enorme versatilidade do consumo diário que proporciona o sabor a partir única e exclusivamente de castas portuguesas naturais do Douro."

DFE Classic tinto 2006
Castas: tradicionais do Douro - Estágio: inox e garrafa - 13,5% Vol.

Tonalidade ruby escuro de concentração média/baixa.

Nariz com aroma de mediana intensidade, cativa nos primeiros instantes, muito directo, fruta vermelha madura (morango, framboesa, amora), algum vegetal seco (esteva), especiaria e toque de compota. Com o tempo no copo e a subida de temperatura, esmorece um bocado, tornando-se algo apático e sem a mesma vivacidade e alegria, o que antes nos animava é agora motivo de alguma preocupação.

Boca com entrada gentil e de corpo mediano, frescura ligeira com fruta vermelha madura em conjunto que vai no seguimento do encontrado na prova de nariz. A esteva parece aqui querer mostrar-se um pouco mais em segundo plano, com um final de média persistência.

O ano de 2006 foi daqueles anos para esquecer, a mim pelo menos poucos ou nenhuns vinhos de 2006 me conseguiram convencer a morar na minha garrafeira. Este foi mais um desses exemplos, não mostrou encantos suficientes na colheita 2006 apesar de que numa futura colheita, 2007, a coisa deverá mudar para melhor. Pessoalmente acredito que sim, que o 2007 será bem melhor que este 2006, que se apagou um pouco durante a prova, mostrando-se algo confuso na fase final. Pelo preço pedido (4,50€) merece bastante atenção para um consumo do dia a dia, com os olhos postos na colheita 2007. 14,5 - 86 pts

15 abril 2010

DFE CLASSIC branco 2008

DFE CLASSIC branco 2008
Castas: tradicionais do Douro - Estágio: carvalho francês durante 6 meses, com posterior estágio em garrafa - 12% Vol.

Tonalidade amarelo citrino com leve laivo dourado.

Nariz a mostrar um conjunto com frescura e mediana expressividade com uma mão cheia de fruta nos destaque mais para citrinos (limão, lima), melão, pêra verde e ananás, com segundo plano a mostrar algum vegetal fresco (erva cortada) e alguma calda de fruta resultante da passagem por madeira que está mas não está (direi bastante discreta), num final que se mostra com componente mineral.

Boca com entrada fresca, fruta presente à medida do encontrado no nariz, mediana espacialidade com uma acidez cítrica que nos guia durante toda a passagem de boca, travo vegetal fresco com barrica a conferir ligeiro arredondamento ao conjunto que sem esmorecer na frescura, nos guia por um final que se mostra com apontamento mineral e de mediana duração.

Um branco fresco, com frutos citrinos, polpa branca e algum tropical, vegetal e fundo mineral em conjunto que se mostra sem grande complexidade. Todo ele bastante directo apesar de alguma envolvência que lhe confere a madeira por onde passou. Na boca é mediano de corpo, com dose de mineralidade e boa frescura citrina presente. Bem agradável na prova que dá, com bastante frescura num conjunto de porte médio/baixo. Para pratos de marisco, peixe, saladas e massas. Embora não vá muito de encontro ao meu gosto, o rótulo mostra um look muito fresh, muito ar de esplanada de praia, mas talvez resida aí o objectivo. Preço a rondar os 7,50€ num total de 9000 garrafas. 15 - 88 pts

DOURO FAMILY ESTATES (DFE)

Quatro produtores lançaram um projecto inédito no Douro, pela primeira vez, quatro quintas juntaram-se e criaram uma empresa para comercializar os seus vinhos, tendo em vista, sobretudo, o mercado de exportação. Chama-se Douro Family Estates (DFE) e é uma "associação" de pequenas famílias produtoras de vinhos de quinta, detida em partes iguais e constituída pelas Quinta dos Poços, Quinta do Soque, Quinta das Bajancas e Brites Aguiar. Para além de promover e divulgar os seus vinhos, também comercializa os vinhos e tem como objectivo principal a de potenciar a capacidade de vinificação instalada nas quatro quintas, com um objectivo futuro de cada produtor manter uma marca própria com valor acrescentado elevado, concentrando esforços numa marca comum, a DFE, nas suas três variantes: Classic, Premium e Signature. A ideia é fazer vinhos com uma grande relação qualidade/preço seguindo um procedimento simples: até 31 de Agosto de cada campanha são fixados os preços e a quantidade que cada produtor disponibiliza para cada um dos vinhos. Posteriormente, a equipa de enologia (2PR), composta por António Rosas e Pedro Sequeira, define a possibilidade de os produtores poderem ou não completar a sua quota em função do vinho que desejam criar.
Em conjunto, o grupo possui 92 hectares de vinha. Os produtores Brites Aguiar, Quinta do Soque e Quinta das Bajancas estão localizados na zona de Trevões, no concelho de São João da Pesqueira, e as vinhas (71 hectares) situam-se entre os 230 e os 500 metros, nas margens do rio Torto. A Quinta dos Poços, com 21 hectares de vinha, situa-se em Valdigem, no concelho de Lamego.
As exposições e os solos de todas as quintas são muito variáveis, para além de que se localizam em zonas bem diferentes da região: as três primeiras na sub-região do Cima Corgo, a quarta na sub-região do Baixo Corgo. Esta diversidade, aliada à existência de um elevado número de castas regionais, constitui uma mais valia importante, pois permite seleccionar as melhores uvas das várias quintas em função das características climáticas do ano. Para 2010, ano de arranque da comercialização, a quantidade de vinho disponível é de 55 mil garrafas, divididas pelas marcas DFE, de branco e tinto. Mas o objectivo é subir em três anos a fasquia para as 200 mil garrafas, existindo vontade de chegar, com o tempo, ao limite de 500 mil garrafas.

Vinhos provados:

DFE Classic branco 2008
- 9000 garrafas - PVP : 7,5€
"Um branco fresco, citrinos e tropical com vegetal e fundo mineral em conjunto sem grande complexidade. Boca mediana de corpo, mineralidade e boa frescura citrina presente" 15 - 88 pts

DFE Classic tinto 2006 - 9600 garrafas - PVP : 4,5€
"Tinto correcto e directo, frutos vermelhos, esteva, especiaria. Perde graciosidade após algum tempo no copo. De corpo médio com ligeira secura vegetal em final de média persistência." 14,5 - 86 pts

DFE Premium 2007 - 17200 garrafas - PVP : 11,5€
"Coeso, fresco e apelativo, frutos silvestres e esteva em boa intensidade com reconforto da madeira bem integrada. Boca com frescura, boa espacialidade, alguma macieza em final de boa persistência." 15,5 - 89 pts

DFE Signature 2007 - 5000 garrafas - PVP : 17€
"Boa complexidade, compacto e algo fechado, boa intensidade, barrica, resina de esteva e flor, chocolate preto e fruta negra madura e fresca. Boca estruturada, concentrado, interacção com prova de nariz com ponta álcool na subida de temperatura" 16 - 90 pts

13 abril 2010

Clan Charco Las Animas Rosado 2009

Depois de já ter falado aqui sobre este vinho, o Clan Charco Las Animas Rosado, para os amigos mais conhecido como o Clan Rosado, chega a vez da colheita de 2009.
Neste caso tudo bem até pegar na garrafa e ver escarrapachados no rótulo os 14% Vol. com que este 2009 se apresentou, é logo um motivo mais que óbvio para me deixar de pé atrás, é que se há coisa que aprecio num vinho rosé, ou rosado, é que se apresente com baixo teor alcoólico aliado a uma boa frescura de conjunto e se possível com alguma complexidade. Vejamos então como se portou este rosado de 2009.

Clan Charco Las Animas Rosado 2009
Castas: 100% Prieto Picudo - Estágio: Fermentação com passagem por carvalho francês e inox - 14% Vol.

Tonalidade granada vivo a lembrar sumo de romã.

Nariz com mediana intensidade, ou digamos a cheirar não tanto como o 2008, mais preso, menos exuberância e menos intensidade embora siga o retrato do anterior, com aromas que variam entre o vegetal fresco (rama de tomate, esteva) com fruta vermelha (groselha, framboesa, cereja) bem madura e limpa, algum rebuçado de morango. Ramalhete a mostrar-se sério e bem composto, frescura e a desenvolver um ligeiro toque fumado devido à passagem por madeira, que não chega nem de perto nem de longe a dar sinais durante a prova do vinho. Se até aqui a nota de prova poderia ser semelhante à anterior, eis que com o aumento de temperatura os 14% se fazem notar, há por ali algo que incomoda que não fica quieto e que distrai para o mau sentido... é o ponto menos bom desta colheita, infelizmente digo eu.

Boca com entrada a mostrar-se fresco, seco e novamente a mostrar que tem polivalência à mesa. Sabe a cereja, framboesa e groselha madura, com um leve apontamento vegetal pelo meio, como se tivéssemos trincado ao mesmo tempo a rama da framboesa. Também aqui o álcool se mostra com vontade de ser o rei da festa, parece aquele árbitro que faz para se destacar num jogo de futebol, quando o seu papel é passar o mais despercebido possível. Tem alguma envolvência, garra, apesar da ligeira goma de fruta vermelha, sabe a vinho e não a doce, que o rosé não é para saber a doce, com o final de boca a mostrar uma bela persistência mesmo com alguma presença dos 14%.

Não gostei tanto deste 2009 como gostei do 2008, penso que a excessiva graduação tirou o encanto que antes lhe tinha notado. Consegue dar algum prazer à mesa, sem dúvida, mas não tanto quanto daria se em vez de 14 tivesse 12 ou mesmo 13. Talvez a culpa tenha sido de um ano mais quente, mas que contraria tudo aquilo que eu espero encontrar num vinho deste tipo, disso não tenho qualquer dúvida. 15 - 88 pts

12 abril 2010

Saber esperar é uma virtude


É cada vez mais normal ouvir dizer que determinado vinho ainda está muito novo e a precisar de garrafa, ou que está ainda muito fechado, que os taninos precisam de ser domesticados, que a madeira ainda não se integrou no conjunto, etc.
Tudo isto se repete quando falamos de vinhos que estão a entrar no mercado, convém fazer sempre uma ressalva para as excepções, mas a verdade é que vinhos que supostamente deveriam estar prontos para dar prazer não o estão a proporcionar e a prova fica sempre refém ou de uns taninos mais rebeldes ou de uma madeira que ainda não se integrou, ou mesmo de um conjunto que precisa de tempo para se “arranjar”.
A culpa é em certa parte da pressão exercida pelos agentes do mercado sobre os produtores que se vêm quase que obrigados a lançar um vinho à pressa para satisfazer esses mesmos pedidos. No meio disto tudo e com uma certa dose de culpa, estão todos aqueles consumidores sedentos de provar tudo o que é novidade, qual coleccionador de cromos a preencher uma caderneta.
Centrado a conversa apenas e só na gama média e alta, grande parte deles são consumidos cedo demais, não estando à venda na sua melhor forma. São estes exemplares que podem e devem ser guardados durante algum tempo, para que na altura de consumo em vez de desculpas e lamúrias, as palavras sejam de alegria e satisfação.
Uma das desculpas que os consumidores de hoje costumam dar para não guardar vinho em casa, é que não têm as condições ideais de guarda no apartamento e que por isso não vale a pena ter sequer uma pequena garrafeira. Às pessoas que pensam desta maneira, gostava de perguntar como é que grande parte dos vinhos velhos que hoje fazem as delícias de muitos, chegaram até aos dias de hoje, sabendo que as caves climatizadas não existiram sempre. Sem sequer falar nas condições de guarda “duvidosas” de certas garrafeiras e nem sequer mencionar as grandes superfícies comerciais.
Infelizmente o conceito de garrafeira está cada vez mais em perigo de extinção, enquanto que o conceito de vinho de guarda vai perdurando, ainda que ignorado pela maioria.
Admitindo que se pode tornar um pouco confuso, saber quantos anos pode durar este ou aquele vinho, os palpites são sempre dados sem certezas absolutas, desde que me dediquei a este fascinante mundo do vinho que encarei o guardar os vinhos como algo natural e que só pode trazer vantagens. Enquanto os vinhos (brancos, tintos e rose) de entrada de gama opto por um consumo no primeiro ano após o seu lançamento, no que toca aos vinhos de gama média e gama alta a abordagem é diferente.
Sempre que possível o melhor é provar-se um vinho antes de comprar, e dessa forma tentar perceber se precisa de mais algum tempo ou não. Sendo um pouco generalista e mais uma vez com ressalva para as inúmeras excepções, no que toca aos vinhos de gama média, não vejo problema algum em que se guardem na garrafeira durante 1 a 2 anos após entrada no mercado. Já os topos de gama, na sua maioria refinam e ganham complexidade com 2 a 4 anos em garrafa.
Normalmente quando mais recente for o ano de colheita, mais tempo o vinho deverá repousar, quando mais antiga for a colheita, mais probabilidade temos de encontrar um vinho num ponto óptimo de consumo e como tal precisa de pouco ou nenhum tempo de guarda.
Saber esperar e tirar o melhor partido possível de um vinho é ao mesmo tempo um enorme prazer como também é o justificar e dar como bem empregue o dinheiro nele investido… porque afinal de contas, saber esperar é uma virtude.

Texto da autoria de João Pedro de Carvalho publicado originalmente na Revista Divinum (Jornal Público) nº4 Novembro 2009.

30 março 2010

CHEVAL DES ANDES 2004

O vinho que se segue foi uma das melhores surpresas que tive nos últimos meses. O prazer da descoberta, do conhecer novos mundos, leva a momentos de partilha entre enófilos, momentos em que vão sendo colocados vinhos em prova e onde alguns se destacam mais que outros... como em tudo na vida há bons e maus momentos, mas também temos os momentos de plena satisfação, aquelas alturas em que tudo parece parar à nossa volta e ali estamos nós com um sorriso aparvalhado a olhar para o que seja, neste caso era para uma garrafa de vinho... e que vinho, um Cheval des Andes 2004.
A origem do vinho em prova, Cheval des Andes, nasce de uma parceria entre dois nomes de prestígio a nível mundial, o Château Cheval Blanc (St. Émilion - Bordéus) e Terrazas de Los Andes, com a enologia a cargo dos seus enólogos Pierre Lurton e Roberto de La Mota. Enquanto o nome Cheval Blanc dispensa apresentações, deixo um pequeno lamiré sobre as Terrazas de Los Andes, que nascem nos finais de 1950, quando o produtor Moët & Chandon estabelece em Mendoza a sua primeira filial fora de França, a Chandon Argentina (veremos mais tarde que também tem uma no Brasil). Foi apenas em 1990 que as Bodegas Chandon se voltaram para a produção de vinhos de alta qualidade fora da linha dos espumantes, sob a designação de Terrazas de Los Andes. Localizado na região do Vale do Uco, no sul de Mendoza, nos contrafortes da cordilheira dos Andes, onde a altitude dos solos varia entre os 1060 e os 980 metros, compostos essencialmente por areia e pedra. Dos 38 hectares, 16 ha são de Malbec plantado em 1929, 20 ha de Cabernet Sauvignon e 2 ha de Petit Verdot. Como nota curiosa, o cavalo surge no rótulo, agora é uma questão de o conseguir encontrar.

CHEVAL DES ANDES 2004
Castas: 55% Malbec, 43% Cabernet Sauvignon, and 2% Petit Verdot - Estágio: 16 meses barrica - 13,5% Vol.

Tonalidade granada escuro, limpo e de concentração média/alta.

Nariz a mostrar um vinho de requintada complexidade, aromas limpos e com boa profundidade a prometer bastante desde a primeira aproximação. Destaca-se a maneira como a fruta limpa, fresca e madura (groselha, amoras, cereja), se envolve com uma barrica muito bem integrada, desdobrando-se em aromas florais (violetas), tosta, baunilha a conferir sensação de cremosidade, tabaco de enrolar, camurça, chocolate de leite, aroma a lembrar bolo de passas com rum e canela. Um conjunto muito harmonioso, capaz de durar e durar, durante toda a prova e mesmo durante toda a refeição.

Boca com entrada equilibrada, harmoniosa, bem estruturada e de corpo médio. Sente-se força mas ao mesmo tempo elegância, num todo muito afinado em completa sintonia com a prova de nariz, e que dá muito prazer beber. Boa amplitude, fruta madura e sumarenta com perfeita integração com a madeira, num toque morno de aconchego que se esbate na frescura da fruta. Novamente a especiaria, a ligeira sensação de bolo de passas com rum, bálsamo vegetal ligeiro, taninos finos e presentes a darem garantia de uma boa longevidade num vinho com final de boca elegante e de persistência média/alta.

É descrito como um Grand Cru do Novo Mundo, aliando toda a força e vigor do Novo com a elegância e requinte do Velho. É daqueles vinhos que é difícil não gostar, a boa complexidade que mostra ter, permite-lhe ir evoluindo durante a refeição, tornando-se um cesto de surpresa sempre que a ele voltamos para mais uma cheiradela. Tem muitos e bons modos, fruto da escola que frequentou pois claro, requerendo para ele alguma atenção pois é muito o que tem para dizer. Um daqueles vinhos que se vir à venda compre sem pensar duas vezes, o prazer está mais que assegurado. 17 - 93 pts

29 março 2010

Clos de los Siete 2004

É de Mendoza (Argentina) que chega o vinho em prova, fruto de um projecto chamado "Campo de Vista Flores" do qual Los Siete faz parte. Escolheu-se uma área de 850 hectares ao sul de Mendoza, solos de areia, barro, com calhau e onde apenas metade da área está plantada com domínio da casta Malbec com metade da plantação, Cabernet Sauvignon e Merlot arrebatam 17% cada uma e a Syrah 16%. A totalidade da área foi posteriormente dividida em sete parcelas, uma para cada um dos sócios (parece que já não são sete mas sim seis) com alta densidade no que a vinha diz respeito (5500 plantas por ha) sendo a vinha tratada com todos os mimos tal como se fosse em Bordéus. Cada um dos sócios tem a sua própria adega, vinha, e equipa enológica respectiva... mas é Michel Rolland que domina todo o conjunto e é também Michel Rolland que elabora o blend final utilizando vários lotes de cada um dos 7 produtores, uma maneira de aumentar a complexidade e individualidade a cada um dos vinhos em separado e que obviamente dá mais complexidade ao lote final.

Clos de los Siete 2004
Castas: 50% Malbec, 30% Merlot, 10% Cabernet Sauvignon, 10% Syrah - Estágio: 11 meses em carvalho Francês novo (2/3) e restante (1/3) em inox - 15,2% Vol.

Tonalidade ruby escuro de concentração média/alta.

Nariz cativante e de boa concentração, direi até de agrado fácil tal a maneira descarada como se mostra, num conjunto arredondado com boa intensidade, dominado grande parte do tempo por notas de fruta negra e vermelha (cereja, amora, framboesa) bem madura, alguma ponta de sobre maturação com compota que lhe confere doçura moderada. Madeira presente, baunilha, envolvência com alguma cremosidade mas muito mais para o lado da geleia do que do batido de Mocha, bem embrenhada com a fruta, fina complexidade com torrado, pimenta preta, leve terroso/mineral em fundo. Pelo meio e quase como coluna central, tem uma aragem fresca que contrabalança com o peso/doçura da fruta.

Boca com boa amplitude, peca a meu ver na falta de um pouco mais de profundidade (de igual modo no nariz) e mesmo de uma estrutura suficiente para amparar tanta fruta que se mostra aqui na mesma forma concentrada que mostrou no nariz. Compotas, especiaria, novamente fruta e cacau, com taninos a conferirem ligeira secura final num vinho que fica a meio caminho entre o equilíbrio e a força bruta, em final de boa persistência. Apesar da frescura não deixa de ter um pendor mais "adocicado" para o meu gosto, com o álcool a passar completamente despercebido ou direi maquilhado ?!?

É um vinho muito bem feito, muito apetecível e de fácil agrado pela forma provocante como se manifesta durante toda a prova, tem aquele perfil que muitos chamam de jammy. Contudo não me cativou o suficiente, tornando-se ligeiramente repetitivo passado algum tempo dentro do copo... este é a meu ver o mal destes vinhos, não conseguem ter uma conversa que dure toda uma refeição, cativam apenas durante o início mas passado 15 minutos já ninguém os consegue aturar. Merece a pena ser conhecido, ser provado e discutido entre amigos, para vinhos made by Rolland fico sem sombra de dúvidas com Château Le Bon Pasteur. 16 - 90 pts

25 março 2010

DOW´S 10 Anos

Não é de estranhar junto dos meus amigos mais chegados que se tiver de escolher diante de um Porto Vintage e um Porto Colheita, a minha escolha recaia quase sempre para o estilo Tawny, ou seja, para o Colheita. Para muitos ao lerem isto pode parecer um sacrilégio, como é possível trocar um Vintage por um Colheita ? Simplesmente uma questão de gosto pessoal que me leva a comprar em número bastante superior este tipo de vinho do que propriamente LBV ou mesmo Vintage. O vinho que se segue é o resultado de mais uma das minhas deambulações pelas mais variadas garrafeiras à procura sabe-se lá... mas que sempre acabo por encontrar algo, e neste caso é um tawny datado, 10 anos, da Dow´s.
A família Symington, radicada no Porto desde 1882, possui várias firmas que, no seu conjunto, constituem um dos maiores grupos produtores e exportadores de Vinho do Porto (certamente o maior ainda sob o controlo e gestão familiares). Uma das mais importantes e prestigiadas firmas que constituem este grupo é, sem dúvida, a SILVA & COSENS, titular da marca DOW'S. Fundada em 1798, a Dow´s é integralmente gerida pela quarta geração da família Symington, produtores de Vinho do Porto desde o século XIX. Com uma experiência de mais de 100 anos, a família é responsável por todas as fases de produção dos vinhos, desde os vinhedos, vinificação, até à lotação final dos mesmos. A Dow´s é proprietária de duas das mais emblemáticas quintas do Douro - a Quinta do Bomfim e a Quinta da Senhora da Ribeira. Estas propriedades foram adquiridas em 1896 e 1890 tornando a Dow´s numa das primeiras empresas a investir em vinhedos de grande qualidade.

Dow´s 10 anos
Castas: n/d - Estágio: Lote com uma média de 10 anos - 20% Vol.

Tonalidade âmbar brilhante com rebordo latão.

Nariz inicial com alguma redução resultante dos anos de clausura em garrafa, neste caso foram 23. Desperta aromas de belo encanto, frutos secos, tabaco de enrolar, caramelo, bolo de noz, toffee, couro fino, ligeiro vinagrinho, especiaria, armário velho, cera de abelha, passa de figo, fruta cristalizada, sentindo-se uma boa frescura e sensação de rezina (esteva) que envolve todo o conjunto, bem harmonioso e de refinada complexidade.

Boca de entrada reveladora de um corpo mediano e bem balanceado pela boa dose de frescura presente, com suavidade, complexo e a mostrar alguma profundidade. Dá boas sensações, doçura moderada bem contrabalançada com acidez, num todo com qualidade e a dar bastante prazer, sente-se frutos secos (noz) com uma ligeira oleosidade/untuosidade a meio palato com mais amêndoa torrada, especiaria, passa de figo, tudo em sintonia com o encontrado no nariz. No final acaba ligeiramente seco e com uma longa persistência.

É um vinho que não esconde os seus encantos e sabores, um 10 Anos que me fez as delícias, ainda por mais sabendo que não tive de pagar muito por ele, custou-me 12€ e pena tive de na altura não ter comprado mais. Certamente que os novos 10 Anos da Dow´s não se vão mostrar como este se apresentou, não sei se com a idade vão chegar ao nível que este chegou, afinal de contas os lotes que deles fazem parte vão mudando. 17- 92 pts
 
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