Copo de 3

13 maio 2010

Altas Quintas branco 2008

Altas Quintas foi responsável pelo surgimento dos novos vinhos de qualidade na zona de Portalegre, uma qualidade que andava tímida e algo cabisbaixa, porém foi com o surgimento de um projecto sólido e ambicioso que Portalegre viu ressurgir a fama dos seus vinhos, principalmente os tintos. Neste caso não venho falar de um novo tinto Altas Quintas, venho sim falar na versão branco do vinho com o mesmo nome, o Altas Quintas branco. Construído sobre uma base nas castas Verdelho e Arinto, este vinho resultou de uma selecção das melhores uvas brancas de Altas Quintas. A fermentação decorreu em barricas novas de carvalho francês a uma temperatura de 14ºC e posteriormente o vinho foi deixado nas mesmas barricas em maturação durante mais seis meses. Ao longo deste período foi feita uma batonnage, progressivamente decrescente, para conferir ao vinho uma maior estrutura.

Altas Quintas branco 2008
Castas: Arinto e Verdelho - Estágio: 6 meses barricas carvalho francês - 13,5% Vol.


Tonalidade amarelo citrino com ligeiro reflexo dourado

Nariz a mostrar-se diferente logo na primeira abordagem, a tropicalidade da fruta surge embrulhada numa frescura que marca toda a prova, quer em nariz quer em boca. Madeira discreta (baunilha), sem mostrar grande presença num conjunto afinado, fresco e frutado, delicado mas com boa complexidade e alguma profundidade. Pelo meio ainda se encontram notas de citrinos e fruto de polpa branca, vegetal fresco, flores brancas e uma leve austeridade mineral, num vinho que nasceu a 600 metros de altitude.

Boca de entrada fresca, aqui novamente é a omnipresente acidez que toma conta do assunto, ponderada e correcta, com boa amplitude num todo onde se sente vegetal fresco com fruta citrina e alguma tropicalidade, sensação de arredondamento que vem da tal batonnage. Pelo meio e fim, temos a tal sensação mineral, aquele cascalho frio e húmido que ampara todo o conjunto, bastante curioso por sinal.

É no que toca a brancos o novo topo de gama deste produtor, que mostra seguir as pisadas dos tintos, sabendo aliar qualidade com uma boa dose de diferença. São por isso mesmo vinhos que nos dizem algo de novo, algo que foge daquela rotina de aromas e sabores que cada vez mais se vai instalando um pouco por todo o lado, primeiro porque vai buscar um improvável lote de Verdelho com Arinto onde o Verdelho está em maioria e o Arinto será o sal que ajuda a temperar o conjunto. Duas castas bem Portuguesas, onde o Antão Vaz não marca presença... a tal fuga para a frente e nunca para os lados que se procura. Gostei do vinho, gostei do impacto que causa aos menos atentos... alto lá o que é isto... e o preço não o impede que chega a um número alargado de mesas, penso que ronda os 14€. 16,5 - 91 pts

04 maio 2010

Campolargo 2007

Na vida tudo muda, tudo se transforma e nada se perde... recordo com boa memória e um sorriso no rosto a primeira vez que provei um Campolargo, colheita de 2002 num blend Pinot Noir (50%) e Baga (50%). Na altura o Copo de 3 estava a começar, eu acostumado a beber vinhos do Alentejo sabia lá o que era um Pinot Noir a "fazer lembrar" a Borgonha... uma Vergonha pois claro, mas para se saber primeiro temos de aprender e foi o que tenho feito e tentado fazer ao longo destes anos que passaram. Aprender com todos aqueles que sabem e mostram gosto em ensinar... e tanto que eu gosto de aprender com eles e estar na sua companhia. Na altura escrevinhei, penso que em 2005, que era um vinho que não tinha entendido muito bem, pouco concentrado de aromas, tímido e com aroma a framboesa e alguma madeira à mistura, com acidez na boca, alguma secura e não era do Alentejo... bruxo.
Pois bem, passaram 5 anos e tenho à frente o Campolargo 2007, um 100% Pinot Noir que deixou de ser um "desentendido" e passou a constar da minha lista pessoal, talvez até como o melhor exemplar desta casta a nascer em Portugal.

Campolargo 2007
Castas: 100% Pinot Noir - Estágio: Barrica de segundo ano e balseiros até 14 meses - 14,5% Vol.

Tonalidade granada de média/baixa intensidade.

Nariz a mostrar boa intensidade, fruto vermelho limpo e bem maduro (framboesa, groselha, morango) com algum rebuçado e notas vegetais em harmonia e delicadeza, chá verde, hortelã-pimenta, mato rasteiro, musgo, tudo bom de cheirar e de se gostar, num todo sempre fresco e com algum floral, violetas à mistura, poucas mas cheirosas com tabaco seco e um leve fumado de fundo. Mostra de forma bem clara a casta de que é feito, sem que a madeira por onde passou marque o vinho com extras supérfluos e maçadores, tudo muito harmonioso e embrulhado numa delicada complexidade, parece uma filigrana de apontamentos com o amparo da madeira que se sente mas passa ao largo.

Boca com corpo delicado mas não franzino, é estruturado e bem fresco, sente-se harmonia e solidez naquilo que tem para mostrar, com a fruta vermelha suculenta (framboesa, groselha e morango) bem madura com fumo e vegetal fresco a conferir alguma secura em segundo plano. Vinho muito limpo tanto de aromas como de sabores, com final fresco e de boa persistência

O que me apetece dizer depois de provar este vinho ? Quero mais, quero ter mais umas garrafinhas em casa e bem à mão para abrir com os amigos e cheirar vezes sem conta. Bebe-se muito bem e deixa-se beber ainda melhor, convida à mesa, gosta de se fazer acompanhar por requintados pitéus e que bem o sabe fazer. O preço até nem é alto, ronda os 20€, para uma produção pequena comparada com grandes volumes e tendo em conta alguns fantásticos barretes que se compram pelo mesmo preço vindos directamente da Borgonha por exemplo. É certamente um produtor a ter debaixo de olho, merecendo lugar de destaque na garrafeira pelo exemplo do bom que se faz em Portugal, eu pelo menos começo a aproximar-me cada vez mais. 17 - 92 pts

02 maio 2010

Vinha D'Ervideira Espumante Bruto 2007

O Espumante é cada vez mais aquele tipo de vinho que mais me apetece beber para acompanhar este tempo mais morno que se começa a querer instalar, ainda que timidamente. Pela sua leveza, frescura e secura é o companheiro ideal quer para abafar os calores ou mesmo para dar início a uma refeição, servindo de entrada, acompanhamento ou bebido a solo. O segredo da coisa neste caso, reside em conseguir encontrar aqueles exemplares que melhor prestação dão com o menor preço possível, a dita relação preço/qualidade que tanto se procura e exige.
Este é daqueles exemplos que conquista pela prova bastante satisfatória tendo em conta o preço por ele pedido, não mais de 6€. Um espumante que certamente não será dos mais falados por entre a falsa burguesia enófila que por aí se anda a querer instalar, no entanto é daqueles que conquistou um merecido lugar nas minhas escolhas, falo do Vinha D´Ervideira Espumante Bruto 2007.

Vinha D'Ervideira Espumante Bruto 2007
Castas: Perrum e Antão Vaz - 13% Vol.


Tonalidade amarelo citrino, levemente dourada com bolha fina e de boa persistência.

Nariz fresco, delicado, maduro e frutado (maçã, limão e ananás) num todo harmonioso com alguma geleia, a mostrar-se fresco. Na fina e delicada complexidade de conjunto mostra presença de biscoito, levedura, tudo isto com alguma consistência na forma como se apresenta, em fundo ligeiramente mineral.

Boca harmoniosa e de média espacialidade, passagem delicada em conjunto levemente frutado ao encontro da prova de nariz (citrinos, tropical) e com suave mousse, boa secura e frescura em final de persistência mediana, com toque mineral em fundo.

A produção ronda as 35.000 garrafas em que o preço é sensato, não me custou mais de 6€, o que permite portanto uma democratização do vinho em causa, estando disponível a solo ou em caixas de 3 garrafas, o que é mais que suficiente para se comprar e ir tendo por casa quando o espaço é pouco. Também não é fraquinho de cheiro nem frouxo de sabor, mas também não é daqueles que nos lembram uma gasosa rasca com sabor a limão. É sim um espumante de fácil agrado, com qualidade média, que acompanha lindamente entradas várias, pratos de peixe ou marisco e até mesmo bebido a solo, com um preço que considero bastante apetecível. 15,5 - 89 pts

25 abril 2010

3 Blogs Portugueses no 100 Top Wine Blogs...

Quem dedica um pouco mais de tempo e de vida a isto de ser blogger, um "trabalho" árduo e que o tempo tem sabido mostrar que não é para todos nem é qualquer um que tem estofo para tal, sabe que há certos locais na internet que funcionam quase como barómetros que avaliam o desempenho dos blogs, e que por si só se tornaram numa espécie de ferramenta de referência incontornável neste meio. Vem para o caso que muito recentemente o Rui Miguel (Pingas no Copo) chamou-me a atenção para o AlaWine.com, uma das principais referências no que toca a rankings internacionais de blogs de vinho e em que nos últimos dois anos a blogosfera Portuguesa esteve arredada de qualquer representante e que na última lista 100 Top Wine Blogs, aquela que é simplesmente a lista onde estão todos os pesos pesados da blogosfera internacional, é ver por lá Grape Radio, Jamie Goode, Spittoon, The Pour, Fermentation, Vinography, Wine Library TV... surgiram 3 blogs de Portugal, o Copo de 3, o Pingas no Copo e o de um produtor do Douro, Quevedo. São pequenas grandes conquistas que valem o que valem, tal como tantas outras listas que vamos vendo saindo ao longo do ano um pouco por todo o lado, mas que não deixam de ter o seu significado mesmo quando apenas é dentro de portas. Tudo isto à mistura com o autismo com que alguma gente ainda olha e lida com este meio de comunicação, os blogs, que se assumem cada vez mais como uma verdadeira alternativa de dar a conhecer o vinho às pessoas espalhadas por todo o mundo, quer no presente quer no futuro.
De forma sucinta estas pequenas conquistas têm uma especial importância para quem a "isto" se dedica, para quem cá anda e gosta de ver o seu trabalho de alguma forma compensado. É pois um motivo de alegria saber que entre os mais visitados, entre todos aqueles que se destacam pela sua popularidade e pela popularidade dos seus conteúdos nos principais motores de busca, estão 3 representantes de Portugal e em que dois deles escrevem em Português de Portugal. É bom saber que há um pouco de Portugal no que de melhor se faz a nível de blogs de vinho, resta-me por isso deixar os meus parabéns ao Rui Miguel e ao Oscar Quevedo, e quanto a mim é continuar sempre com a vontade de melhorar, e obviamente que nada disto seria possível sem os milhares de pessoas que visitam este e os outros blogs.

22 abril 2010

Vale D´Algares Selection tinto 2007

Depois do Selection Branco (colheita de 2008) é a vez do novo Selection Tinto (colheita de 2007) vir reforçar a presença da Vale D'Algares num segmento de mercado mais exigente, com uma gama que pretende situar-se entre o seu Guarda Rios e o patamar mais elevado da Marca (Viognier). O novo Selection Tinto é um vinho Regional do Tejo, do qual foram produzidas 6.400 garrafas a partir das castas Merlot e Touriga Nacional, distribuídas por uma área de 3,5 hectares de vinha, num vale de solos argilo-calcários.

Vale D´Algares Selection tinto 2007
Castas: 60% Merlot e 40% Touriga Nacional - Estágio: 14 meses em barricas novas de carvalho francês - 14,5% Vol.

Tonalidade ruby escuro de concentração média/alta.

Nariz a mostrar uma boa intensidade, prende pelo interesse que despoleta logo de inicio, com um aroma a chamar a atenção, direi diferente e até moderno, com grande entrosamento entre as duas castas e a madeira, a mostrar-se muito bem ligada com todo o conjunto, notas leves de tosta, e baunilha com bálsamo vegetal, violetas, cacau, conjunto a mostrar vivacidade e alguma pujança, com muita fruta (ameixa, framboesa) madura e fresca e levemente compotada.

Boca de boa espacialidade, amplo, estruturado, com macieza, taninos afinados, fruta bem presente ao nível do encontrado no nariz, especiaria doce, um vinho guloso, que dá prazer beber, boa ligação com a madeira a conferir alguma cremosidade e envolvência ao conjunto, com o equilíbrio da acidez a proporcionar boa dose de frescura, em final de boca de boa persistência.

Este Selection tinto segue as pisadas do Selection branco, mostrando-se como um vinho de ar moderno, com toque inovador e respectiva dose de originalidade, cativante, muito bem feito e capaz de acompanhar bem uma refeição, o preço indicado para a qualidade apresentada, mostra-se bastante sensato, rondando neste caso os 15€. 16,5 - 91 pts

18 abril 2010

DFE SIGNATURE 2007

"Os vinhos DFE Signature são um exemplo inquestionável da mais alta qualidade daquilo que o Douro é capaz de produzir. Clássico, intenso, complexo, elegante e rico são alguns dos adjectivos aos quais podemos recorrer para descrever aquele que é a epítome dos vinhos DFE."

DFE Signature 2007
Castas: tradicionais do Douro - Estágio: barricas de carvalho francês - 15,5% Vol.

Tonalidade ruby escuro de concentração média/alta.

Nariz coeso e algo preso no arranque, apesar disso mostra uma boa intensidade com barrica em primeiro plano a debitar tosta, baunilha, chocolate preto, especiaria... num todo onde a fruta negra bem madura e fresca surge depois, com resina e flor de esteva à mistura. Não tão fresco nem tão equilibrado como o DFE Premium, este mostra-se mais "carregado" nos seus atributos, onde a frescura tem um papel importante e que não permite ao vinho tornar-se demasiadamente pesado.

Boca boa de corpo, concentrado e estruturado, sente-se robustez e ao mesmo tempo uma vontade de querer mostrar-se elegante e fresco. Mais fruta e percepção da madeira, chocolate preto e especiaria, também aqui se mostra algo sisudo, pouco conversador, desenvolve pouco, precisa da rodagem que só o tempo lhe pode dar. Os taninos jogam ao esconde-esconde, com um final a deixar novamente espreitar o álcool (que bom seria que fosse passando despercebido) quando a temperatura começa a subir um pouco mais, tornando o vinho algo pesado e perde assim algum interesse. O final é longo e de boa persistência.

Um mais que merecido destaque para a bonita e elegante apresentação da garrafa. Como topo de gama é claramente o mais complexo, o que requer mais tempo de copo e de garrafa para melhor se mostrar, sólido de estrutura, tem qualidade indiscutível em que o único senão será a meu ver a excessiva graduação que apresenta, 15,5% Vol. A acidez ainda que presente, compensa até certo ponto, pois a determinado momento a temperatura sobe e o álcool parece querer mostrar-se e tomar conta da conversa... pessoalmente é coisa que não aprecio num vinho. Seria possível fazer este vinho com menos álcool ? Não seria isso mais prazenteiro na altura da sua prova ? Se os vinhos cada vez mais se querem frescos, equilibrados e com uma graduação comedida, porquê tanto álcool ? O que incomoda é a sua presença a quando da prova, pode fazer parte do vinho e não se notar minimamente, mas fosse este o caso, a nota seria claramente mais alta. 16 - 90 pts

16 abril 2010

DFE PREMIUM tinto 2007

"Os vinhos DFE Premium são vinhos de perfil contemporâneo, intensos, elegantes, generosos, criados para reflectir a versatilidade e a actualidade apaixonante dos vinhos do Douro."

DFE PREMIUM 2007
Castas: tradicionais do Douro - Estágio: passagem por madeira - 14,5% Vol.

Tonalidade ruby escuro de média concentração.

Nariz coeso e com boa intensidade, sente-se um pouco fechado ao início, com fruta preta bem madura (ameixa, cereja e groselha) em conjunto com madeira que se mostra desde já bem integrada, alguma tosta, frescura de conjunto, chocolate preto, café, baunilha, tudo a dar uma sensação de algum aconchego em conjunto com boa frescura presente. Segundo plano com esteva e algum ainda que leve, bálsamo vegetal.

Boca de entrada fresca, com boa estrutura e mediana espacialidade, a mostrar-se com ligeira austeridade vegetal que é prontamente compensada pela presença da boa fruta madura, aqui com alguma compota, e da madeira que dá ao conjunto uma certa envolvência e macieza, num final de persistência média, onde o álcool parece querer despontar ainda que muito ligeiramente.

Com um preço a rondar os 12€, é um vinho de fácil empatia, um Douro moderno, bem feito e bastante correcto, a mostrar que pode ser consumido desde já, ou que poderá ser guardado por mais algum tempo, tem estrutura suficiente para tal. O único senão da prova, terá sido a presença de algum álcool, mais no final de boca que na prova de nariz, não incomoda muito é certo, mas para mim é motivo mais que suficiente para que a nota final seja um pouco penalizada. 15,5 - 89 pts

DFE Classic tinto 2006

"Os vinhos DFE Classic Douro tinto são vinhos leves e elegantes que aliam o perfil e sabor clássico dos vinhos tintos do Douro à enorme versatilidade do consumo diário que proporciona o sabor a partir única e exclusivamente de castas portuguesas naturais do Douro."

DFE Classic tinto 2006
Castas: tradicionais do Douro - Estágio: inox e garrafa - 13,5% Vol.

Tonalidade ruby escuro de concentração média/baixa.

Nariz com aroma de mediana intensidade, cativa nos primeiros instantes, muito directo, fruta vermelha madura (morango, framboesa, amora), algum vegetal seco (esteva), especiaria e toque de compota. Com o tempo no copo e a subida de temperatura, esmorece um bocado, tornando-se algo apático e sem a mesma vivacidade e alegria, o que antes nos animava é agora motivo de alguma preocupação.

Boca com entrada gentil e de corpo mediano, frescura ligeira com fruta vermelha madura em conjunto que vai no seguimento do encontrado na prova de nariz. A esteva parece aqui querer mostrar-se um pouco mais em segundo plano, com um final de média persistência.

O ano de 2006 foi daqueles anos para esquecer, a mim pelo menos poucos ou nenhuns vinhos de 2006 me conseguiram convencer a morar na minha garrafeira. Este foi mais um desses exemplos, não mostrou encantos suficientes na colheita 2006 apesar de que numa futura colheita, 2007, a coisa deverá mudar para melhor. Pessoalmente acredito que sim, que o 2007 será bem melhor que este 2006, que se apagou um pouco durante a prova, mostrando-se algo confuso na fase final. Pelo preço pedido (4,50€) merece bastante atenção para um consumo do dia a dia, com os olhos postos na colheita 2007. 14,5 - 86 pts

15 abril 2010

DFE CLASSIC branco 2008

DFE CLASSIC branco 2008
Castas: tradicionais do Douro - Estágio: carvalho francês durante 6 meses, com posterior estágio em garrafa - 12% Vol.

Tonalidade amarelo citrino com leve laivo dourado.

Nariz a mostrar um conjunto com frescura e mediana expressividade com uma mão cheia de fruta nos destaque mais para citrinos (limão, lima), melão, pêra verde e ananás, com segundo plano a mostrar algum vegetal fresco (erva cortada) e alguma calda de fruta resultante da passagem por madeira que está mas não está (direi bastante discreta), num final que se mostra com componente mineral.

Boca com entrada fresca, fruta presente à medida do encontrado no nariz, mediana espacialidade com uma acidez cítrica que nos guia durante toda a passagem de boca, travo vegetal fresco com barrica a conferir ligeiro arredondamento ao conjunto que sem esmorecer na frescura, nos guia por um final que se mostra com apontamento mineral e de mediana duração.

Um branco fresco, com frutos citrinos, polpa branca e algum tropical, vegetal e fundo mineral em conjunto que se mostra sem grande complexidade. Todo ele bastante directo apesar de alguma envolvência que lhe confere a madeira por onde passou. Na boca é mediano de corpo, com dose de mineralidade e boa frescura citrina presente. Bem agradável na prova que dá, com bastante frescura num conjunto de porte médio/baixo. Para pratos de marisco, peixe, saladas e massas. Embora não vá muito de encontro ao meu gosto, o rótulo mostra um look muito fresh, muito ar de esplanada de praia, mas talvez resida aí o objectivo. Preço a rondar os 7,50€ num total de 9000 garrafas. 15 - 88 pts

DOURO FAMILY ESTATES (DFE)

Quatro produtores lançaram um projecto inédito no Douro, pela primeira vez, quatro quintas juntaram-se e criaram uma empresa para comercializar os seus vinhos, tendo em vista, sobretudo, o mercado de exportação. Chama-se Douro Family Estates (DFE) e é uma "associação" de pequenas famílias produtoras de vinhos de quinta, detida em partes iguais e constituída pelas Quinta dos Poços, Quinta do Soque, Quinta das Bajancas e Brites Aguiar. Para além de promover e divulgar os seus vinhos, também comercializa os vinhos e tem como objectivo principal a de potenciar a capacidade de vinificação instalada nas quatro quintas, com um objectivo futuro de cada produtor manter uma marca própria com valor acrescentado elevado, concentrando esforços numa marca comum, a DFE, nas suas três variantes: Classic, Premium e Signature. A ideia é fazer vinhos com uma grande relação qualidade/preço seguindo um procedimento simples: até 31 de Agosto de cada campanha são fixados os preços e a quantidade que cada produtor disponibiliza para cada um dos vinhos. Posteriormente, a equipa de enologia (2PR), composta por António Rosas e Pedro Sequeira, define a possibilidade de os produtores poderem ou não completar a sua quota em função do vinho que desejam criar.
Em conjunto, o grupo possui 92 hectares de vinha. Os produtores Brites Aguiar, Quinta do Soque e Quinta das Bajancas estão localizados na zona de Trevões, no concelho de São João da Pesqueira, e as vinhas (71 hectares) situam-se entre os 230 e os 500 metros, nas margens do rio Torto. A Quinta dos Poços, com 21 hectares de vinha, situa-se em Valdigem, no concelho de Lamego.
As exposições e os solos de todas as quintas são muito variáveis, para além de que se localizam em zonas bem diferentes da região: as três primeiras na sub-região do Cima Corgo, a quarta na sub-região do Baixo Corgo. Esta diversidade, aliada à existência de um elevado número de castas regionais, constitui uma mais valia importante, pois permite seleccionar as melhores uvas das várias quintas em função das características climáticas do ano. Para 2010, ano de arranque da comercialização, a quantidade de vinho disponível é de 55 mil garrafas, divididas pelas marcas DFE, de branco e tinto. Mas o objectivo é subir em três anos a fasquia para as 200 mil garrafas, existindo vontade de chegar, com o tempo, ao limite de 500 mil garrafas.

Vinhos provados:

DFE Classic branco 2008
- 9000 garrafas - PVP : 7,5€
"Um branco fresco, citrinos e tropical com vegetal e fundo mineral em conjunto sem grande complexidade. Boca mediana de corpo, mineralidade e boa frescura citrina presente" 15 - 88 pts

DFE Classic tinto 2006 - 9600 garrafas - PVP : 4,5€
"Tinto correcto e directo, frutos vermelhos, esteva, especiaria. Perde graciosidade após algum tempo no copo. De corpo médio com ligeira secura vegetal em final de média persistência." 14,5 - 86 pts

DFE Premium 2007 - 17200 garrafas - PVP : 11,5€
"Coeso, fresco e apelativo, frutos silvestres e esteva em boa intensidade com reconforto da madeira bem integrada. Boca com frescura, boa espacialidade, alguma macieza em final de boa persistência." 15,5 - 89 pts

DFE Signature 2007 - 5000 garrafas - PVP : 17€
"Boa complexidade, compacto e algo fechado, boa intensidade, barrica, resina de esteva e flor, chocolate preto e fruta negra madura e fresca. Boca estruturada, concentrado, interacção com prova de nariz com ponta álcool na subida de temperatura" 16 - 90 pts

13 abril 2010

Clan Charco Las Animas Rosado 2009

Depois de já ter falado aqui sobre este vinho, o Clan Charco Las Animas Rosado, para os amigos mais conhecido como o Clan Rosado, chega a vez da colheita de 2009.
Neste caso tudo bem até pegar na garrafa e ver escarrapachados no rótulo os 14% Vol. com que este 2009 se apresentou, é logo um motivo mais que óbvio para me deixar de pé atrás, é que se há coisa que aprecio num vinho rosé, ou rosado, é que se apresente com baixo teor alcoólico aliado a uma boa frescura de conjunto e se possível com alguma complexidade. Vejamos então como se portou este rosado de 2009.

Clan Charco Las Animas Rosado 2009
Castas: 100% Prieto Picudo - Estágio: Fermentação com passagem por carvalho francês e inox - 14% Vol.

Tonalidade granada vivo a lembrar sumo de romã.

Nariz com mediana intensidade, ou digamos a cheirar não tanto como o 2008, mais preso, menos exuberância e menos intensidade embora siga o retrato do anterior, com aromas que variam entre o vegetal fresco (rama de tomate, esteva) com fruta vermelha (groselha, framboesa, cereja) bem madura e limpa, algum rebuçado de morango. Ramalhete a mostrar-se sério e bem composto, frescura e a desenvolver um ligeiro toque fumado devido à passagem por madeira, que não chega nem de perto nem de longe a dar sinais durante a prova do vinho. Se até aqui a nota de prova poderia ser semelhante à anterior, eis que com o aumento de temperatura os 14% se fazem notar, há por ali algo que incomoda que não fica quieto e que distrai para o mau sentido... é o ponto menos bom desta colheita, infelizmente digo eu.

Boca com entrada a mostrar-se fresco, seco e novamente a mostrar que tem polivalência à mesa. Sabe a cereja, framboesa e groselha madura, com um leve apontamento vegetal pelo meio, como se tivéssemos trincado ao mesmo tempo a rama da framboesa. Também aqui o álcool se mostra com vontade de ser o rei da festa, parece aquele árbitro que faz para se destacar num jogo de futebol, quando o seu papel é passar o mais despercebido possível. Tem alguma envolvência, garra, apesar da ligeira goma de fruta vermelha, sabe a vinho e não a doce, que o rosé não é para saber a doce, com o final de boca a mostrar uma bela persistência mesmo com alguma presença dos 14%.

Não gostei tanto deste 2009 como gostei do 2008, penso que a excessiva graduação tirou o encanto que antes lhe tinha notado. Consegue dar algum prazer à mesa, sem dúvida, mas não tanto quanto daria se em vez de 14 tivesse 12 ou mesmo 13. Talvez a culpa tenha sido de um ano mais quente, mas que contraria tudo aquilo que eu espero encontrar num vinho deste tipo, disso não tenho qualquer dúvida. 15 - 88 pts

12 abril 2010

Saber esperar é uma virtude


É cada vez mais normal ouvir dizer que determinado vinho ainda está muito novo e a precisar de garrafa, ou que está ainda muito fechado, que os taninos precisam de ser domesticados, que a madeira ainda não se integrou no conjunto, etc.
Tudo isto se repete quando falamos de vinhos que estão a entrar no mercado, convém fazer sempre uma ressalva para as excepções, mas a verdade é que vinhos que supostamente deveriam estar prontos para dar prazer não o estão a proporcionar e a prova fica sempre refém ou de uns taninos mais rebeldes ou de uma madeira que ainda não se integrou, ou mesmo de um conjunto que precisa de tempo para se “arranjar”.
A culpa é em certa parte da pressão exercida pelos agentes do mercado sobre os produtores que se vêm quase que obrigados a lançar um vinho à pressa para satisfazer esses mesmos pedidos. No meio disto tudo e com uma certa dose de culpa, estão todos aqueles consumidores sedentos de provar tudo o que é novidade, qual coleccionador de cromos a preencher uma caderneta.
Centrado a conversa apenas e só na gama média e alta, grande parte deles são consumidos cedo demais, não estando à venda na sua melhor forma. São estes exemplares que podem e devem ser guardados durante algum tempo, para que na altura de consumo em vez de desculpas e lamúrias, as palavras sejam de alegria e satisfação.
Uma das desculpas que os consumidores de hoje costumam dar para não guardar vinho em casa, é que não têm as condições ideais de guarda no apartamento e que por isso não vale a pena ter sequer uma pequena garrafeira. Às pessoas que pensam desta maneira, gostava de perguntar como é que grande parte dos vinhos velhos que hoje fazem as delícias de muitos, chegaram até aos dias de hoje, sabendo que as caves climatizadas não existiram sempre. Sem sequer falar nas condições de guarda “duvidosas” de certas garrafeiras e nem sequer mencionar as grandes superfícies comerciais.
Infelizmente o conceito de garrafeira está cada vez mais em perigo de extinção, enquanto que o conceito de vinho de guarda vai perdurando, ainda que ignorado pela maioria.
Admitindo que se pode tornar um pouco confuso, saber quantos anos pode durar este ou aquele vinho, os palpites são sempre dados sem certezas absolutas, desde que me dediquei a este fascinante mundo do vinho que encarei o guardar os vinhos como algo natural e que só pode trazer vantagens. Enquanto os vinhos (brancos, tintos e rose) de entrada de gama opto por um consumo no primeiro ano após o seu lançamento, no que toca aos vinhos de gama média e gama alta a abordagem é diferente.
Sempre que possível o melhor é provar-se um vinho antes de comprar, e dessa forma tentar perceber se precisa de mais algum tempo ou não. Sendo um pouco generalista e mais uma vez com ressalva para as inúmeras excepções, no que toca aos vinhos de gama média, não vejo problema algum em que se guardem na garrafeira durante 1 a 2 anos após entrada no mercado. Já os topos de gama, na sua maioria refinam e ganham complexidade com 2 a 4 anos em garrafa.
Normalmente quando mais recente for o ano de colheita, mais tempo o vinho deverá repousar, quando mais antiga for a colheita, mais probabilidade temos de encontrar um vinho num ponto óptimo de consumo e como tal precisa de pouco ou nenhum tempo de guarda.
Saber esperar e tirar o melhor partido possível de um vinho é ao mesmo tempo um enorme prazer como também é o justificar e dar como bem empregue o dinheiro nele investido… porque afinal de contas, saber esperar é uma virtude.

Texto da autoria de João Pedro de Carvalho publicado originalmente na Revista Divinum (Jornal Público) nº4 Novembro 2009.
 
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