Copo de 3

25 setembro 2011

Dona Berta Grande Escolha 2007

O tempo começa a pedir vinho tinto com um pouco mais de seriedade, aquele tipo de vinho com mais corpo e um pouco mais envolvente, que no Verão não apetece parar para pensar no que temos no copo nem o calor dá azo a que tal aconteça, mas direi que foi com este Grande Escolha e outros tantos vinhos junto de amigos que brindei a chegada do Outono.
Por entre o cheiro a fumeiro na mesa, daquele vindo de Lamego, coisa caseira feita pela família da minha mulher, os vinhos iam desfilando a bom ritmo, primeiro as "brincadeiras" para depois já com a comida a ser servida termos os vinhos certos para acompanhar os respectivos pratos... entretanto já tinha passado pela mesa um Quinta da Lixa Bruto que não me atrevo a descrever e muito menos a comprar, bom registo para um Arinto da Malhadinha a mostrar já a fruta com toque de geleia e a perder o vigor da juventude com que nos brindou no ano passado na altura do lançamento, sem dúvida que é vinho para usufruir assim que é colocado no mercado, deu-se seguimento ainda a um Altas Quintas Branco 2010, branco cheiroso com uma acidez empolgante na boca... a meu ver um pouco abaixo da anterior colheita, questão de gosto nada mais. No plano tinto um pré lançamento da AgriRoncão, o DR 2008 bem feito, algo espigado a precisar de um tempo em garrafa ou que alguém o meta no decanter uma meia hora antes de servir... preço atrativo num vinho que alia rusticidade e modernidade, mais um salto desta vez para um tinto da África do Sul da colheita 2000, vou-lhe dar mais atenção lá mais para a frente. A festa continuava, servido uma massada de bacalhau os vinhos foram tintos com boa acidez e estrutura mediana, o prato assim  pedia, mostrou-se melhor o primeiro vinho um Pinot Noir da Quinta de Sant´Ana, muito ao seu estilo um pouco mais carregado do que é normal, mas ligou muito bem e era isso que se pretendia, foi boa a surpresa cheio de fruta muito jovial e com toque de seriedade, a dar vontade de repetir certamente. O outro vinho que se colocou na mesa seria um valente enjoo, pessoalmente não gosto daquele estilo de vinho, ainda me fazem confusão os Pinot Noir super compotados que nascem no Douro, um vinho com tudo amontoado o Olho no Pé Pinot Noir. Já tínhamos deixado de brincadeiras, o arroz de pato estava na mesa (se repararem vou no segundo arroz de pato) até então nem um vinho tinha deixado saudade, aquela marca digna de registo ou motivo de celebração do que quer que fosse...

Abriu-se um Dona Berta Grande Escolha 2007, tenho vindo a seguir este carismático produtor desde os seus primeiros lançamentos, são vinhos que já aqui tive oportunidade de enaltecer mais do que uma vez, o factor Identidade a eles associado fazem com que sejam uma referência obrigatória na minha garrafeira. Nestas coisas dos vinhos, podendo estar melhores ou piores conforme o ano de colheita, nem sempre tudo corre como previsto os anos assim o determinam e o reflexo faz-se logo notar num branco com menor acidez... num tinto menos composto a nível de complexidade, variações que acontecem de forma natural sempre que se deixa falar mais a uva do que a mão do enólogo. Neste caso temos vinhos que arrisco chamar de Terroir, vinhos senhores do seu nariz, elegantes, com uma frescura muito própria daquela zona e com uma vontade muito própria... tudo isso se mostrou neste Grande Escolha 2007, um tinto de enorme categoria, frescura com a barrica em plena harmonia com a fruta de qualidade, ali mora algo de Douro, de rusticidade com travo vegetal mas que depois remete para algo mais arredondado e moderno. Um vinho que mostra uma nova faceta nos vinhos Dona Berta, pessoalmente gostei muito, quem o provou não lhe ficou indiferente e de todas as garrafas penso ter sido a única a ter sido bebida e não provada... é uma Grande Escolha e como tal merece ser procurado e comprado. 93 pts

18 setembro 2011

Lavradores Feitoria Grande Escolha 2007


O jantar estava marcado, desta vez deixei as facas a descansar e rumei a casa de mais um grande amigo... tinha escolhido uma garrafa de vinho para levar, fica sempre bem e esta já estava no cepo vai para longos meses, escolhi um Lavradores de Feitoria Grande Escolha da colheita de 2007, vinho exaltado e anunciado noutros lugares como Melhor do Ano. Dar importância a mais a estas coisas do Melhor lá do que seja é sempre causador de melindres na hora de provar o vinho, quase sempre as expectativas são colocadas mais altas daquelas a que o vinho realmente corresponde... não falha. O jantar seria Arroz de Pato no forno... prato delicioso que eu adoro, tanto fazer como comer, não dispenso os patos da Quinta da Marinha, para mim o melhor pato que se compra por aí... a gordura que larga durante a sua cozedura é a suficiente para depois passarmos à cozedura do respectivo arroz, sem falar nos aromas que podemos potenciar com o cravinho, algumas bolas de pimenta preta, meia cebola... coisas boas que fazem com que ligação com o vinho seja muito boa por sinal. Não esquecer que temos um Douro, boa frescura, esperada suficiente para combater a gordura do P(r)ato, estrutura para a carne com os aromas e sabores a combinar com os temperos, a nota artística vai-se buscar à cobertura de gema de ovo tostada com rodela de chouriço assado e a salsa fresca finamente picada, um cheirinho, a espalhar por entre a carne e o arroz, o tal lado vegetal impresso nos vinhos do Douro.

O vinho lá foi aberto e decantado uma boa meia hora, fez-lhe bem, mostrou boa complexidade, desenvolveu durante o tempo em que esteve à espera, fino e elegante desde a barrica que se notava a suportar o conjunto, à fruta madura e especiarias... apesar disto esperava um pouco mais de presença aromática, mais e maior envolvimento na boca apesar de uma entrada com frescura e presença de frutos negros, o vinho mostra ligeireza (não foi a primeira vez tendo o que já disseram por estes lados) e alguma quebra no final... cai sem avisar... perde-se no palato, perdendo encanto e caso fosse , pontos. Estrutura mediana, final de boca mediano para o curto... e eu que esperava bem mais de um vinho como este. Atenção que o vinho não é mau, é muito bom, mas fora de qualquer loucura enófila à sua volta, o preço ronda os 30€ para mim caro para o que mostrou... Provando este vinho em novo dá para entender o que se encontra depois nele passado uns anos... confirma-se com o Grande Escolha 2001. Ainda se foram abrindo outros vinhos a modos de complementar o jantar, saudável e grata recordação de um Quinta do Além Tanha Vinhas Velhas 2002... surpresa das surpresas o vinho mostrou-se em muito boa forma, talvez um bocado doce na maneira como a fruta se mostrou... de resto uma belíssima prova de nariz e de boca muito bem, começa ou vai já numa fase descendente, fazemos adeus e começar a pensar no Vinhas Velhas 2004. Num breve tira teimas ainda se abriu um Conde de Vimioso Reserva 2005 que espreitava por lá a um canto, a manter o nível dos restantes, com a fruta mais desembaraçada e fresca que no anterior caso, evolução nobre e com pernas para andar, apostar neste vinho parece valer a pena se levarmos em conta o exemplo deste 2005... são 6 anos de vida com vontade de uns tantos mais.Voltei ao Grande Escolha, sem melhoras, estável durante uma noite inteira... a quebra na prova de boca mantinha-se na mesma, não é defeito é feitio e se não fosse assim a conversa seria outra. 91pts

15 setembro 2011

Uvas Chumbadas ou talvez não ?

Tenho sérias dúvidas que depois de visualizar a reportagem que deu na TVI (O veneno nosso de cada dia), alguém tenha ficado indiferente e não se tenha metido a pensar no que realmente lhe andam a meter no prato. Isso mesmo, a meter no prato, com uma oferta cada mais afunilada nos dias de hoje as opções que nos restam de comprar determinados produtos empurram o consumidor para uma obrigatoriedade em consumir apenas deste ou daquele hiper ou super, o ritmo urbano a isso implica... infelizmente.
A procura pela subsistência, sobrevivência de cada um, as menores posses e o impedimento de chegar a esses locais leva ao surgimento das hortas sociais, das hortas urbanas... daquelas hortas colocadas num cocktail venenoso qual 2ºCircular em Lisboa. Ao ver estas situações que já conhecia devido a trabalhos que realizei na área no passado, lembrei-me que não muito afastado no tempo certo Município (Pombal) tinha plantado uma vinha em plena rotunda... isto foi na altura noticia de algo inovador , giro e porreiro e que até despertava curiosidade para que vinho iria sair dali... pelo que parece tem saído vinho em produção reduzida e até tem nome... Bagos do Marquês.
Dá para perguntar se as uvas ali colocadas são imunes à poluição que a rodeia, pergunto também se quem teve a feliz ideia de realizar vinho de uvas dessas tem noção disso mesmo... afinal de contas penso que ninguém queira andar a ingerir venenos seja em alfaces, couves... ou vinho. Haverá análises feitas a estas e outras vinhas em igual circunstância ? Com isto começo a recordar-me de todas as vinhas que ficam à beira da estrada, estradas essas movimentadas durante um ano inteiro, basta ver as vinhas situadas em toda a estrada nacional ou mesmo pela auto-estrada que vai desde Elvas até Lisboa... começando em Palmela pelas vinhas coladas à auto-estrada, por todas aquelas vinhas situadas entre Estremoz e Borba ali à beira da estrada nacional, recordo que é uma das principais ligações de Portugal a Espanha... será que tudo isso não afecta as uvas ? Há estudos/análises feitos tanto aos solos como às uvas que mostrem que afinal está tudo bem e nada a temer ? Alguém já se lembrou de questionar isso ? A taxa de tumores cresceu em Portugal desde 1981 cerca de 735% ... não se deve apenas a isto ou aquilo, deve-se a um todo e quando toca à saúde do consumidor todos deveríamos questionar se o que ingerimos/bebemos está dentro dos parâmetros normais da lei. Se uma maçã ou alface ou até carne estiver contaminada com valores acima da legal... o produto é pura e simplesmente proibido de ser colocado à venda... será que no vinho ninguém se preocupa ?

08 setembro 2011

Flor de Nelas Reserva 2008


Nesta procura do novo santo graal que é descobrir afinal de contas quem é o consumidor de vinho tantas vezes invocado por revistas, guias e produtores, dou comigo a pensar que o tal consumidor na dureza da palavra, será acima de tudo o povo... sim que o pedante enófilo não se mistura com a ralé nem compra vinho em hipermercado, compra a mulher que ele passa a vida nas provas nas garrafeiras da especialidade apesar de nunca comprar nada. Portanto é para o povo ao léu, para o consumidor normal, para todos aqueles que procuram beber bom e barato que este texto se destina... na verdade o vinho é vendido no LIDL, vinho que pela apresentação cativou-me mas aqui mais do que nunca o poster da promoção Compra 1 leva 2 foi o ultimato final para pegar em duas garrafas e dirigir-me à caixa. Pensava eu que um vinho que custava 3.99 e que assim ficou a custar 1.99 cada garrafa... como é possível ? Sim porque o vinho é um lote de Tinta Roriz, Alfrocheiro e Touriga Nacional e está bem apresentado, bonito rótulo, garrafa robusta, com um bocado de atenção ficamos a saber que teve direito a estágio em barricas de carvalho francês durante 6 meses e ainda mais 3 em garrafa... a rolha não é má... e custa 1.99€


Não resisti e abri uma garrafa mal cheguei a casa, mal o verti no copo fiquei a olhar, tinha bom aspecto o magano, na primeira cheiradela de imediato olhei para o rótulo e para o contra rótulo, tomei-lhe o peso... boa surpresa para o preço que paguei, esperava menos que isto, é um vinhito muito mas muito agradável, a passagem por madeira deu-lhe um toque extra de complexidade que se nota, ganha com tempo no copo, direi que é de mediano corpo, fresco, vinho do Dão ali de Nelas, mostra uma frutinha adocicada pelo meio... e sim é bem melhor que o Cabriz. Pelo preço revela-se uma obrigatoriedade para o consumo do dia a dia, penso que até seja bom demais para esse tipo de consumo... bom também para se deixar a marinar na garrafeira de casa por um anito que a coisa sempre melhora. Continuava a cheirar e a beber, dá gozo meter o nariz no copo, na boca passagem com alguns taninos no final, começou a pedir comida, os aromas a querer cativar sem grande alarido... gostei eu e gostaram todos lá em casa... cumpriu mais do que seria de esperar e é para isso mesmo que os vinhos são feitos.

05 setembro 2011

Cedro Mini Vinho Branco

Não faz muito tempo que foi lançada no mercado esta nova marca de vinho branco, o Cedro Mini, na realidade é uma ideia inovadora com toque de arrojo no conceito e também de alguma provocação, um puro branco de esplanada ligeiramente gaseificado (que vai saindo com o tempo de copo) e a preço mais do que convidativo. O objectivo parece ser o fazer com que se deixe de pedir uma imperial e venham para a mesa umas garrafitas deste branco, que simula o tamanho da Mini... da minha parte nada contra, uma vez que este branco sem ano de colheita, feito com Maria Gomes e Bical na Real Cave do Cedro (Anadia) com 11% Vol. não envergonha e até se mostra bem melhor do que alguns brancos com ano de colheita.
O que aqui temos é um vinho a beber fresco, muito fresco, em conversa ou sem ela, tornando-se um bom companheiro de esplanada, bebe-se descontraidamente, assenta na simplicidade e frescura de conjunto, tem lá o toque da fruta e do floral, todo ele agradável mas nada de mais... é o que é e a mais não é obrigado. E as pratadas de conquilhas agradeceram de que maneira esta nova companhia.

13 agosto 2011

Alonso del Yerro 2008

É dos vinhos que mais prazer me dá beber nos últimos tempos, abri a segunda garrafa e novamente um vinhaço no copo de encontro ao que já me acostumou nesta e nas colheitas anteriores, aqui mais concentrado e cheiroso que o 2007, pura classe com tempo pela frente para melhorar, mas desde o momento em que se serve até que a garrafa se acaba é um puro gozo estar de roda deste vinho produzido na Ribera del Duero.

Estes são os vinhos que procuro, compro, guardo e partilho com os amigos mais chegados, este é o vinho que me garante elegância, harmonia entre partes e boa longevidade, nada aqui é de excesso, nada aqui é de quebras nem falhas, é grande desde que se cheira até que se engole... é vinho que não sendo barato 22€ dá uma prova melhor que vinhos que custam o dobro... ou seja, comprar beber ou guardar o prazer esse é mais que garantido. Como diz a letra do famoso José Afonso:

"Venham mais cinco. Duma assentada. Que eu pago já. Do branco ou tinto. Se o velho estica. Eu fico por cá. Se tem má pinta. Dá-lhe um apito. E põe-no a andar"

Enche o nariz com frescura da fruta, fruta da boa e bem limpa com tons de cereja, morango e amora, depois vem banhada por especiarias, café moído e algum regaliz com floral em fundo. Mostra-se desde o primeiro instante um vinho que esconde uma belíssima complexidade, madeira no ponto, dá cacau e fina tosta, conjunto de enorme qualidade, em postura de quem tem a lição muito bem estudada, não se inventa nem se tapa defeitos com excesso de "pau".
Boca cheia e gulosa, fruta fresca forra o palato, tudo em conjunto como no nariz... o morango, a especiaria, algum toque de bálsamo, tosta... e tudo muito apelativo num longo final. 93

09 agosto 2011

Crónica dos bons malandros... o jantar estava marcado

Estou farto de debitar apenas e só notas de prova, acho isso chato, banal, coisa que qualquer bot programado faz às carradas e nem precisa de saber provar, dou por mim a despender o tempo que antes tinha para a prova a ser passado de volta do meu filhote... sente-se mudança no horizonte, sente-se que a coisa tem de mudar, esticar a vela para outro rumo, dar a volta por outro lado para sair do lodaçal banal que isto se anda a tornar... os cadernos de prova ficaram à porta, o relógio batia nas 20h e o cenário estava composto, é à volta daquele objecto de culto que é a mesa que tudo voltava a acontecer, mesa cheia mesa farta... à espera estavam os pratos a serem servidos e alguns vinhos que fui salvar do baú das memórias, vinhos esquecidos e ignorados força da moderna enologia, da infusão de madeiras e da fruta madurona temperada com colher de açúcar...
Penso que seja um dever de quem prova vinhos conhecer um mínimo do que é a nossa história como país produtor, ter provado um pouco do que melhor se fazia em determinados locais, vinhos que fizeram história e histórias que falavam sobre vinhos... tudo para entender o que antes se fazia e se deixou de fazer, motivos, causas e vontades, tudo isto com o olhar atento dos amigos de longa data e longa vida, assim os quero ter pois ainda há muito que provar, descobrir e conhecer.
Comecei por servir uma Salada de rúcula com vinagreta de frutos vermelhos, foie, nozes e Boffard ... a acompanhar um Quinta do Alqueve Colheita Tardia 2005. Resultou boa a harmonia entre prato e vinho, com o queijo a puxar pelos seus galões com imediato aconchego dado pela cremosidade do foie e limitado pela secura da rúcula. O vinho apesar de dar uma prova satisfatória mostrou-se tanto pela cor como pela prova que deu precocemente evoluído, cansado nos aromas e com falta de acidez na boca e frescura no nariz, nada ali cheira a novo, fruta desfeita e cansada, sem motivos para dormir mais tempo em garrafa.

Deu-se depois o salto para uns Mexilhões à Marinheira (Moules à la Marinière) em que o branco escolhido foi um branco seco, novamente uma tentativa de testar um vinho já com idade, retrocedi até 2003  troquei a volta aos convivas, e fui buscar o Dona Berta Rabigato 2003. Servido em prova cega o vinho deu que falar e permitiu enormes divagações no pensamento dos provadores, um branco de 2003 em grande forma é obra, são poucos os que o conseguem e ainda menos os que conseguem mostrar a mesma acidez, austeridade mineral a raspar na língua toques de vegetal seco e alguma lima... algum sinal de idade, vinho grande, vinho que não parecia ter a idade que tem, a fruta ainda na fase SIM todo ele melhor no nariz que na boca, a pedir comida por perto. Por graça ainda se abriram mais dois brancos, o primeiro um Maritávora Reserva 2009, pesado como a madeira que exalava a mais e fruta a menos, na boca perde-se a meio, falta substância e afirmação a este vinho, custa caro pois ronda os 25€ e tem pouco para oferecer por aquilo que dizem valer. Ao lado abria-se um Terrenus 2008, um branco de Rui Reguinga... um branco da Serra de São Mamede (Portalegre) que subjugou por completo o anterior, bem mais vinho, mais complexo e mais harmonia, todo ele em grande plano, é vinho com princípio meio e fim... essencial no meu ponto de vista. 

Feito um pequeno interregno no jantar, foram-se abrindo os tintos a bom ritmo e novamente em prova cega, e o primeiro vinho escolhido foi um Cooperativa da Granja 1988, pré CVRA portanto com uns fantásticos 12,5% Vol. , feito pelo enólogo António Saramago e pensava cá para mim, seria uma pequena marotice colocar este vinho em prova no qual não depositava grandes esperanças, tinha sido comprado por 0,50€ num lote de outros tantos vinhos velhos da região Alentejana, a rolha já empapada foi tirada a ferros, verti o vinho no copo, rodei cheirei e sorri... à magano que estás tão bom. Na mesa servia-se Carne do Alguidar com Migas à Alentejano... o vinho inicialmente algo confuso e torpe, tanto sono, que foi acordando e mostrando o que de bom tinha para mostrar... e ainda era muito, sentia-se frescura no nariz, nada de aromas secos e remeter para canto, fruta madura com destaque na ameixa bem redonda e sumarenta, envolvida em calda, os terciários faziam a festa de maneira harmoniosa, tabaco, couro e algum licor... boa a condizer, entrava docinho mas a saber a fruta madura, sem passa sem pressas... mais uma rodada e outro que saltava para a mesa. Alguém se lembrou de abrir um Casa Cadaval Trincadeira Vinhas Velhas 2006, vinho cativante pelo aroma adocicado da fruta com toques entre o vegetal e o apimentado, todo ele muito bem trabalhado mas algo cansativo durante a prova, entrou-se depois numa mini vertical de Má Partilha, o Petrus das Terras do Sado como já foi chamado na altura do seu primeiro lançamento no ano 1986, em prova o 1989 aquele que foi e é o primeiro Merlot a ser engarrafado em Portugal e continua a ser o melhor exemplar da casta... de velho não tem nada, a maneira com que se desdobrou no copo e mostrou tudo o que tem de bom remeteu para outros pensamentos, outras paisagens ainda que de maneira um pouco sonhadora. Mostrou-se em bela forma, com frescura e sem grandes notas de cansaço ou desmaio durante a prova, nada de aromas chatos e mortiços, vinho de gabarito. Abriu-se de seguida um 1999 que estava lixado de aromas, em queda precoce mas a guarda a que a garrafa tinha sido sujeita não terá permitido uma prova mais condigna, o 2001 mostrou-se melhor, a mostrar-se bem na onda do 1989 e com vontade de tentar a proeza de se mostrar em igual nível daqui por alguns anos.

A noite ia longa, a conversa com enorme animação os vinhos davam que falar, a reta final estava próxima, saltou uma Panacota com molho de Arando Vermelho, tentou-se ligação com um Lajido do Pico 1994, vinho difícil complicado e de nariz comprido, vulcanizado demais para o meu gosto... limparam-se os copos e partiu-se para um Graham´s Colheita 1961.

Até à próxima.

PS: Alguns dos vinhos serão alvo de uma nota de prova mais individualizada a ser colocada em tempo oportuno.

18 julho 2011

Marasmo vínico ou nem por isso...


Começo a olhar à volta e afogo-me quase sempre nos mesmos nomes, nos mesmos projectos, nomes e rótulos, falta por cá claramente a centelha da inovação e a vontade do ir mais além, do querer mostrar que é possível apostar em castas diferentes do normal mas que sempre cá moraram... há falta de empenho, falta de estudo, falta de dinheiro e falta de paixão por aquilo que se faz. Quantos senhores do vinho já apostaram a sério numa casta daquelas que nunca disseram ser possível fazer um grande vinho apenas porque dá trabalho ? Quanta juventude perdida nos caminhos do facilitismo da enologia em que a receita acaba por ser quase sempre a mesma... acabando-se por apostar em castas de fora quando raramente se dá uma hipótese ao que é de dentro... acostumado aos calores e frios, aos humores do tempo, castas nossas que correm o risco de desaparecer porque quem faz vinho pensa cada vez mais com a carteira e menos com o coração. Onde estão as conversas de que determinado jovem enólogo resgata uma vinha velha em determinada região e começa a lançar vinhos diferentes e que começam a despertar atenções ? Porque é que nós não temos disto por cá ?
Muito recentemente tive oportunidade de provar vinhos diferentes, vinhos feitos em Espanha e Itália, vinhos resultantes de mentes irrequietas, mentes jovens onde a aposta por demonstrar que daquela casta se pode fazer grande coisa e levaram o seu projecto adiante... os resultados começam a surgir, assiste-se a um despertar de mentalidades, de atenções para algo que surpreende, sem ter de investir muito... produções pequenas mas com garantia de qualidade. Aquilo que se devia pensar quando se faz vinho em Portugal, em vez de pensar no aumentar a produção para o dobro e depois afogarem-se em viagens ao estrangeiro a ver se despacham umas caixas pela Santa exportação... e enquanto isso acontece, os vinhos continuam por cá na mesma.

09 julho 2011

Quinta dos Avidagos Reserva 2007

A Quinta dos Avidagos é infelizmente a meu ver um produtor pouco falado, pouco discutido e raramente com vinhos a surgir na mesa das tertúlias enófilas... certamente os gostos andam cruzados ou virados para outros lados, há tanto vinho, e talvez até vinho a mais, que alguns acabam por escapar aos olhos de quem os procura. Aliás, estes vinhos andam tão cruzados que nas duas principais revistas do sector o gosto oscila entre um 15 e um 17... portanto se levarmos à letra a conversa ficamos sem saber o que pensar, ou sim ou sopas.
Em prova o Quinta dos Avidagos Reserva da colheita 2007, Tinta Roriz, Tinta Barroca e Touriga Franca e Touriga Nacional fazem o lote que foi a banhos durante 1 ano em barricas. O preço ronda os 9€ nas prateleiras do Continente.

Um vinho afinado, de mediana intensidade e centrado na fruta vermelha, com muito morango da Roriz e alguma cereja, ambos pingam frescura com a madeira bem entalada no conjunto, harmonioso, fumado e tosta suave com fundo de alcaçuz. Na boca equilibrado, elegante, mediano de corpo, boa passagem, novamente suave doçura da fruta a marcar presença com alguma secura em fundo.

Não tem o Douro chapado na cara, mas mostra-se um vinho fresco, equilibrado e fora de concentrações desmedidas, em que se nota que se apostou na frescura da fruta e se utiliza a madeira não para marcar ou tornar o vinho pesado, que não é, mas sim para ajudar a tornar o conjunto mais harmonioso. Está numa boa fase de consumo em que o verti por completo a acompanhar uma grelhada mista de novilho. 90 pts

08 julho 2011

Madrigal 2008

Mudou de visual este que é o grande branco da Quinta do Monte d´Oiro, agora mais aprumado e direi com aspecto mais sério este vinho surge aqui em prova com a colheita 2008. É um 100% Viognier, talvez mesmo o primeiro a surgir em Portugal e que já se tornou uma referência do que é feito neste cantinho da Europa. O vinho teve passagem por barricas novas de carvalho francês, saiu com 14% Vol. e um preço que ronda os 15€ ou até um pouco mais.

Encontrei um vinho acessível na prova, de fina e mediana expressão, com um suave baunilhado a dar as boas vindas, leve na frescura a mostrar grande harmonia de conjunto. Flores, boa fruta entre alperces e laranjas a abrir ligeiramente com as voltas no copo, em fundo com mineralidade ainda que tudo um pouco desfocado. Boca com bom ritmo, corpo mediano que entra com alguma frescura com sumo da dita fruta e alguma calda, fundo mineral num branco de comportamento homogéneo desde que entra até ao final da prova.

É o terceiro varietal desta casta feito em Portugal que aqui coloco nos últimos tempos, e sendo o último foi e é aquele que mais me agradou. Há por aqui algo que o torna diferente, delicadeza, frescura, uma boca com corpo mas ao mesmo tempo a refugiar-se na frescura e delicadeza da fruta... para mim falta-lhe mais alma, mais suco, mais frescura e esclarecimento, mas não estamos em Condrieu e sim na Estremadura e há coisas que por muito que se queiram não se conseguem replicar. Tal como a palavra Madrigal nos diz, é uma pequena composição poética, que exprime um pensamento fino, lisonjeiro e terno... 90 pts

04 julho 2011

Casa Casal de Loivos 2007

Este vinho vinificado por Cristiano Van Zeller da Quinta Vale D. Maria, juntamente com a enóloga Sandra Tavares da Silva, provém de uma pequena propriedade de 1,6 hectares de vinha com mais de 50 anos que abasteceu com uvas da mais alta qualidade a empresa Quinta do Noval, agora dá origem a este Casa de Casal de Loivos. É um erro pensar que este vinho é o entrada de gama do vinho Quinta Vale D.Maria, são vinhos bem distintos recaindo a minha opção pelo segundo, mero gosto pessoal a falar.

Aqui o peso da garrafa é proporcional ao peso do vinho, apesar da gulodice, da complexidade e da forma harmoniosa como a madeira se casa com tudo o resto, o vinho recai um pouco em alguns aromas quentes e adocicados, eu gosto dos Douro mais frescos e com fruta mais limpa, sem passa de preferência. Procuro aquela secura no final de boca, aquela garra e nervo, coisas que me acostumei a gostar e a procurar...

Vinho rechonchudo concentrado e pujante, são 15% Vol. que curiosamente não se fazem sentir, com frescura e fruta em enorme sintonia, sente-se algum peso, passada intensa, todo ele complexo com fruta negra do tipo cereja muito madura e alguma passa a dar toque adocicado, frescura suave com madeira integrada, especiaria doce, tabaco e cacau... na boca repetimos a dose, fresco, amplo e a tentar preencher toda a boca, sabe ao que cheira o que é bom, eu gosto disto, sente-se o rasgar da fruta pelo meio da boca rodeada de coisas boas. O final é persistente e longo,  um vinho que não é barato pois chega facilmente aos 25€, dá uma prova muito sólida, muito fácil de se gostar e de se beber... apesar de ser muito bom o vinho não me deixa vontade de repetir, encontrei por ali muita repetição, muito do que se costuma encontrar... e o preço face à qualidade não ajuda minimamente. 90 pts

02 julho 2011

Quinta de S.José 2008

Lembram-se dos Ázeo feito pelo enólogo João Brito e Cunha ? Este é também da sua autoria, portanto é uma certeza que iremos encontrar algo de bom. Duriense de gema, nasce nos 25 hectares de vinha para os lados do Pinhão, o lote de Touriga Nacional 45%, Touriga Franca 35% and Tinta Roriz 20% com metade do lote a ir 10 meses a banhos na madeira francesa de segundo ano.

Sente-se que é um Douro apesar de ter um toque a puxar para o fácil, tornando-o cativante para quem se aproxima pela primeira vez. Mediana complexidade e intensidade, com frescura da fruta preta madura, flores, desenvolve na complexidade para especiaria e algum bálsamo vegetal, envolto num tom achocolatado. Tudo muito bem integrado com a madeira, o mesmo caminho tem na boca, com a fruta bem fresca a fazer-se sentir, pimenta preta e chocolate, todo ele harmonioso, arredondado e com alguma secura no final de boca em boa persistência.

O preço que ronda os 9€ é um aliciante, afinal de contas o vinho está bem feito, é ao que eu chamo vinho de sexta à noite, quando se entra de fim de semana e apetece beber algo melhor a acompanhar também algo melhor... abrimos e bebemos um destes e ficamos satisfeitos, porque estamos cansados e não queremos perder tempo a pensar no que vai no copo... e tanta falta que fazem vinhos assim.  89 pts
 
Powered By Blogger Creative Commons License
This work is licensed under a Creative Commons Attribution-Noncommercial-No Derivative Works 2.5 Portugal License.