Copo de 3

23 dezembro 2011

Vila Flor tinto 2009 e branco 2010

O administrador da Casa d’Arrochella, Bernardo de Arrochela Alegria, é o grande impulsionador deste projecto. As vinhas da Sociedade Agrícola Casa d’Arrochella – Quinta do Cerval, Quinta do Nabo, Quinta das Trigueiras, Quinta de Vale d´Arcos e Quinta da Peça – estendem-se ao longo de 115 hectares. O centro de vinificação encontra-se na Quinta da Peça em Vila Flor e tem capacidade para a produção de cerca de 300 000 litros, com dois lagares de granito e cubas de fermentação em inox.

É da Quinta da Peça e da autoria do enólogo Luís Soares Duarte que saem estes novos vinhos, o Vila Flor tinto 2009 a ter uma produção de cerca de 80.000 garrafas, 13%Vol. e um preço simpático a rondar os 3,99€. Feito a partir de Touriga Franca, Tinta Barroca, Tinta Roriz e Touriga Nacional, mostrou-se um vinho jovem e bastante directo nos seus atributos frescos e cheirosos, boa intensidade sendo muito centrado na fruta madura e vermelha a rodar com algum vegetal, cacau e nota de fumo. Na boca complementa-se à prova de nariz, uma vez mais um vinho que quer mostrar a boa fruta com algum toque de vegetal, macio e arredondado a meio palato sempre com boa acidez e uma ligeira secura de taninos no fundo que pedem comida na mesa, bastante agradável sem ter de se gastar muito €€€€. 89 pts
O Vila Flor branco 2010, com 12,5%Vol. num total de 6.000 garrafas resultantes do conjunto da Malvasia Fina, Gouveio e Rabigato é um branco cheiroso e harmonioso, algo guloso no toque de maturidade da fruta, boa por sinal, citrinos, maçã e leve tropical, com mineralidade em fundo. Boca com entrada bem saborosa e frutada, arredondamento sentido com a acidez bem metida, mediano de corpo e final entre a mineralidade e a acidez do limão com algum prolongamento. 89 pts

Gostei destes novos vinhos, dois vinhos divertidos e que são duas óptimas escolhas para um consumo diário e que valem muito bem que se aposte neles. Bons amigos da mesa, optei por acompanhar umas Iscas de novilho cortadas bem finas e fritas com o Vila Flor branco, sim sempre gostei de acompanhar iscas com um copo de vinho branco e não se torna tão maçadora a refeição, aqui o resultado correspondeu com as expectativas, visto que a acidez do branco liga muito bem com a gordura e peso da isca enquanto prato, depois o toque da fruta tanto em nariz como na boca ajuda a contrabalançar, no final o toque de salsa fresca cortada ligou também muito bem. No tinto a conversa foi outra, e acompanhou uma simples Tajine de Frango pouco condimentada mas o suficiente para o tinto se portar à altura, na sua leve gulodice que apresenta com toda a sua frescura aguentou-se bastante bem.

21 dezembro 2011

Quinta do Crasto Vinha Maria Teresa 2007


Está quase a chegar o Inverno, comemora-se às 5:30 do dia 22 de Dezembro com o Solstício de Inverno e em jeito de comemoração antecipada começo por brindar a todos com um dos melhores vinhos de mesa feitos em Portugal, o Quinta do Crasto Vinha Maria Teresa 2007.

A Quinta do Crasto fica situada no Douro, produtor de topo que tem acostumado os apreciadores a uma qualidade constante nos vinhos que lança no mercado, com o Maria Teresa a coisa atinge o ponto máximo, podendo ser discutível a par do seu irmão Vinha da Ponte, são dois vinhos especiais feitos cada um de uma única parcela que dá o respectivo nome ao vinho. 
Basta ir ao site da Quinta do Crasto para ficar a saber que:

 "A Vinha Maria Teresa com cerca de 90 anos é uma das mais antigas da Quinta do Crasto. Apesar da baixa produtividade de uma vinha velha, conseguimos com as uvas desta vinha niveis elevadíssimos de concentração que nos permitem obter um vinho muito complexo."

As vinhas velhas têm mais de 90 anos nas quais residem mais de 30 variedades diferentes, este é o cerne da magia que as vinhas velhas transportam para os vinhos tão apreciados, um lote composto por pequenos detalhes desta e daquela casta que num conjunto harmonioso atinge patamares de invejável qualidade nas mãos da equipa de enologia da Quinta do Crasto. A produção é limitada e condicionada pelo tamanho da parcela em causa, o vinho tem direito a pisa em lagar tradicional e estágio em barricas novas 80% francês e 20% americano durante 20 meses, do que resulta um caldo com 15% Vol. numa quantidade que ronda as 8.000 garrafas, não vale o que se pede por ele cá dentro valendo quase sempre a compra lá fora... não preciso dizer mais nada.

De aroma luxuoso embora ainda ligeiramente marcado pela madeira, todo ele de bela complexidade, fruta bem madura com toque extraído de bom calibre e sem exagero a rolar bem no copo. Bálsamo vegetal, especiaria fina, tremendo na complexidade que debita, surge com uma camada de vegetal seco a lembrar chá preto, folha de tabaco, ramo de cheiros do monte... dá-me gozo cheirar este vinho. Muita harmonia, cheio e de enorme espacialidade, chocolate preto com fruta fresca a chamar pelo seu nome, cereja, groselha, amora preta... tudo marcado pela finesse e pela bondade da madeira num fundo de recorte mineral.. Na boca repete com a fruta em igual prestação, saboroso na entrada, cheio, estruturado, largo e profundo a completar todos os recantos do palato. Sente-se energia da fruta fresca com a madeira a dar corpo ao manifesto, barrica paciente mas não mordente, rasto fresco e profundo com final muito bom e longo num vinho luxuoso. 95 pts

Valbueña 5º Año Reserva 2004


Nome maior da estratosfera vínica Mundial, leia-se Bodegas Vega Sicilia, fundada em 1864 e com localização na vizinha Espanha na D.O. Ribera del Duero... ainda continuo nos vinhos que nascem no berço do Douro/Duero. Este foi servido novamente entre amigos e em grandioso jantar de Caça que organizo anualmente em Vila Viçosa... sempre regado com grandes vinhos e rodeado de grandes amigos, voltou a ser memorável mais um ano.


Não sendo um vinho barato, o efeito procura faz com que o preço suba quase sempre, mas com atenção consegue-se encontrar este vinho na casa dos 68-88€ o que por vezes é quase metade do preço que algumas lojas o colocam à venda em Portugal. Lamentavelmente continua-se a querer ganhar dinheiro à conta dos vinhos estrangeiros em Portugal, não em todos mas em alguns casos é mais que evidente... o mais grave é que se abusa da "ignorância" de quem compra e paga mais caro porque ou desconhece ou simplesmente o dinheiro não lhe custa a sair da carteira e não lhe interessa encontrar locais mais baratos. Dito isto prossigo com o vinho, um senhor entrada de gama que não fosse o seu irmão mais velho a elevar ainda mais a fasquia, seria um normal topo de gama em qualquer outra adega.
Resultante de um lote de Tinto Fino (90%) e Merlot e Malbec nos restantes 10% do conjunto, passa por barricas novas (60% Americano e 40% Francês) durante 16 meses, posteriormente passa a barrica avinhada (7 meses) para voltar a depósitos de madeira, antes do seu engarrafamento, com lançamento no mercado 5 anos após a colheita.

Não fosse o preço e seria vinho que gostaria de ter mais vezes no copo, a maneira como se desenrolou  durante todo o jantar foi algo de notável, um vinho que de inicio pede decanter, pede tempo para estender todo o seu bouquet, um vinho de perfil clássico, todo um senhor muito bem aprumado, a fruta fresquíssima com pureza e certeza, intenso e ao mesmo tempo suave, o resto é festa bem animada ainda com tempo pela frente, se bem que foi apanhado num belíssimo momento de forma. Aromas secos no fundo, algum chá preto com toques depois de mineralidade em fundo, café bem escuro com algo de cremosidade e continua a brincar e a dar que falar... com o ir e voltar da fruta bem madura e limpa, de enorme pureza.
É na boca que se confirma tudo o que foi dito, corpo médio/largo, com entrada fresca e a saber a fruta em enorme harmonia com o restante conjunto, madeira a dizer que vai amparar o jogo durante muito tempo, taninos calminhos com ligeiríssima secura e prolongado final... pede mesa, pede pratos ricos e apaladados... apesar de durar por mais uns bons anos. Perfil todo ele muito refinado, tudo o que mostra é de categoria, pode falhar apenas um pouco na complexidade ou na finesse do trato algo que certamente será matéria abordada pelos seu irmão mais velho, mas neste patamar está a marcar por isso mesmo, senhor do seu nariz e a não cansar e a convidar sempre para mais um copo... e o vinho é para isto que se quer. 94 pts

20 dezembro 2011

Quinta Sardonia 2004

No passado Sábado juntei aqui por casa, gente que estimo e que tenho o prazer de ter como amigos, para um Guisado de Javali  e optei por acompanhar com uma mini série de tintos 2004 em que a única regra que tive na escolha dos meus vinhos foi que todos os exemplares em prova tivessem tido algures uma nota superior ou igual a 17 valores, os vinhos e a prova será debatida mais lá para a frente... ou seja, quando calhar. Por agora apenas quero falar sobre aquele que considerei sem qualquer dúvida como o melhor em prova, vinho que pelo aroma se destacou claramente de todos os restantes... confirmando-se depois na boca. Afinal a qualidade sente-se quando sentada no meio da mediania. Destaquei este vinho em prova cega como não sendo de produção nacional, havia algo naquele aroma que não é normal aparecer por cá, nem nos nossos melhores vinhos... o tempo que ganhou na garrafa de um dia para o outro só veio confirmar que precisava de uma boa e larga decantação.

O resultado final foi estarmos perante um Quinta Sardonia 2004, projecto da sociedade Viñas de la Vega del Duero, nascido à beira do rio Duero em Sardón de Duero na Granja Sardón corria o ano de 1998, de seguida entra Peter Sisseck como consultor e da sua mão veio Jerôme Bougnaud na responsabilidade de enólogo e trabalho na vinha onde foi desenvolver estudo dos vários solos que encontrou, depois escolheu as variedades que achou melhor para cada tipo de solo e plantou nessas mesmas parcelas 17 ha de vinhedo com as castas (tinto fino, cabernet sauvignon, merlot, syrah, petit verdot e malbec ) apoiado na Biodinâmica

"No me interesa que la cabernet sepa a cabernet, sino que exprese el suelo calcáreo en el que se desarrolla, que sirva como vector de transmisión de su entorno" Jerôme Bougnaud

Esta colheita de 2004 com 15% Vol. que se mostraram perfeitamente integrados no perfil do vinho sem sequer se notarem durante a prova,  resultou num lote final de 36% Tinto Fino, 30% Cabernet Sauvignon, 20% Merlot, 5% Syrah, 5% Cabernet Franc, 3% Malbec e 1% Petit Verdot com 16 meses de repouso em barricas de carvalho francês, novas (45%) e usadas (55%), clarificado com clara de ovo e ligeiramente filtrado.
É no nariz que o encanto começa, o conjunto é luxuoso, muito envolvente na complexidade e frescura que emana com fruta muito pura e fresca aliada a notas de licor de cassis, balsâmico fino, notas de torrefacção, bela amplitude aromática, dá um gozo tremendo cheirar este vinho... que continua a evoluir no copo, especiado, alfazema, cacau, baunilha e muita frescura com a barrica sempre no suporte, fazendo dele também um vinho cheio. Na boca, em perfeita sintonia com o nariz, é amplo e saboroso, com muita fruta fresca e limpa a fazer-se sentir, quase que as bagas e os frutos do bosque nos rebentam na língua, à mistura um leve travo adocicado numa passagem de grande nobreza, requinte e , complementado com uma bela acidez de conjunto com belíssima presença e passagem, profundo com harmonia plena da madeira no conjunto em final apimentado e bem prolongado. O preço faz com que seja acessível, bastante até pois ronda os 30-35€. Enorme no seu estilo. 95 pts

PS: Já me esquecia, a ligação com o Guisado de Javali foi perfeita...

15 dezembro 2011

Quinta da Covela ... ganha nova vida



A Quinta da Covela está de volta... é isso mesmo que acabam de ler, a Quinta que foi responsável por alguns dos vinhos que eu e outros tantos enófilos gostavam e que por motivos que agora não interessam acabou por fechar portas, está de volta.
Recebi esta notícia com um sorriso, está confirmado e a Quinta vai voltar ao activo já no próximo ano, desta vez com novos donos, um trio formado por um brasileiro Marcelo Lima, pelo holandês Erwin Russel e pelo inglês Tony Smith, que compraram a Quinta num leilão. Pelo que me foi dito pelo próprio Tony Smith, um dos sócios, vai passar a morar em Portugal na própria Quinta para tomar conta de todo o processo. A reconstrução da adega e da equipa de enologia já foi levada a cabo e o enólogo Rui Cunha volta a uma casa que tão bem conhece, pela informação a adega está como nova após alguns anos parada. Desta maneira está previsto que para 2012 arranque novamente a produção dos vinhos que tanto prazer deram... e pelos vistos vão continuar a dar. Há apenas um encostar ao lado da Biodinâmica e uma nova imagem para os vinhos. Sobre mais detalhes o tempo o dirá, mas fica-se a saber que há vida na Quinta da Covela.

13 dezembro 2011

FIUZA PREMIUM branco 2010


Com o tempo a passar e os vinhos a saltitarem de copo em copo, dei por mim com um Fiuza Premium branco da colheita 2010, um branco que por aqui não é novidade pois já tinha falado dele na colheita de 2006. Se antes o casalinho era composto por Fernão Pires e Sauvignon Blanc, o divórcio consumou-se e surge desta vez o Fernão Pires ao lado da Chardonnay.

O vinho nesta colheita de 2010 mostrou-se ligeiramente mais atrevido a nível aromático onde todo ele ganhou mais algo de consistência, a barrica onde fermentou contribui com alguma presença no conjunto ainda que de maneira algo discreta, a fruta bem presente num misto de fruta tropical com notas de lima/limão a juntar algumas flores brancas com mineralidade em fundo.
Na boca novamente não me chega a convencer, apesar de algum arredondamento que a barrica confere ao conjunto, a fruta entra toda ela bem madura e cheia de frescura mas apenas até meio palato porque de meio até ao final o vinho parece que se esquece de nós e vai embora, deixando apenas algum cascalho como recordação. 

Reconheço que é um branco bem feito e de fácil agrado, será que o termo neste caso é tecnologicamente bem feito ? Apesar disso não faz minimamente o meu estilo pelo que não é um vinho que me dê vontade de ir comprar, o preço que pedem por ele a rondar quase os 10€ também não ajuda muito. 87 pts

11 dezembro 2011

Altas Quintas branco 2010 e tinto 2007

O que dizer de um produtor que nos acostumou a uma constante de qualidade nos seus vinhos ? O que dizer de vinhos que são feitos com agrado e para agradar ? É dito e mais que sabido que este projecto ainda recente, sempre teve pernas para andar e um passo atrás de outro foi tomando forma ali ao lado de Portalegre, ganhando o seu merecido espaço face ao que nos mostram e dizem os seus vinhos. Os exemplares que agora aqui coloco são os últimos Altas Quintas que saíram para o mercado, branco e tinto... 

Começando pelo branco, Altas Quintas branco 2010, achei-o menos formoso que o da anterior colheita, menor acidez e perde-se na falta de temperamento em boca... dito isto temos um lote de Verdelho e Arinto com fermentação em barrica e posterior estágio de 4 meses, a barrica nota-se muito pouco dando largura suficiente para as castas se mostrarem. O aroma fresco com fruta madura de predominância citrina, leve vegetal verde na folha de limão e relva com um fundo de baunilha a aconchegar. Na boca para o meu gosto com alguma falha na maneira como se comporta, direi algo soft, pedia-lhe um pouco mais de frescura, de esclarecimento e um pouco mais de nervo, mas é como é, melhor no início a lembrar fruta madura, herbáceo e numa passagem fresca que se vai tornando cada vez mais vazia e fina... 89 pts

Enquanto noutros lados se apressa em lançar novidades frescas e ainda de fraldas no mercado, há produtores que vão lançando agora a colheita de 2007 como novidade, é o caso Altas Quintas que colocam no mercado o Altas Quintas 2007, um vinho que vem dentro daquilo que já acostumou os seus apreciadores, eu sou um deles, pois sendo um vinho de Portalegre consegue aliar modernismo na maneira como se mostra, uma piscadela de olho ao trânsito internacional mas a frescura da Serra lá colocada. Frescura de uma fruta pura, madura e bem escura, algo fechado a precisar de tempo, o lote é 100% Alentejano com Trincadeira, Aragonez e Alicante Bouschet e o respectivo estágio de 18 meses em barrica com anterior passagem por balseiro. Tudo isto deu complexidade, afinou e refinou, a fruta ficou com frescura embora alguma nota de chá preto, secura vegetal, a madeira muito bem trabalhada e integrada a contribuir com alguma tosta... marca da casa que tanto me agrada. Depois na boca é o que se pretende de um bom vinho, bem comportado na mesa, prontidão num consumo imediato mas possibilidade de evolução, tem aptidão gastronómica, frescura com harmonia e corpo suficientemente capaz para uns pratos mais condimentados. 91 pts

08 dezembro 2011

O "meu" abafado de Talha...

O vinho de que me apetece falar é um daqueles vinhos que não tem rótulo, nasceu sem nunca o ter tido ou alguma vez ter sido pensado em ter. Um vinho fora do circuito "normal" apinhado de devoradores de marcas e nomes, gente que olha com desconfiança sobre tudo o que não domina ou desconhece, infelizmente conheço alguns. O que temos aqui mostra-se como aquilo que é, adulto e bastante sério na maneira como se mostra, dispensa histórias de um hipotético embalar enófilo, não precisa nem nunca precisou pois aqui o conto não é nem nunca foi necessário. A sua história nunca foi necessária ser contada para que desde sempre fosse alvo de admiração e elogios, é uma estrela que guardo com carinho e nos dias de hoje será um dos últimos Moicanos pelo que representa e sempre representou.

Um vinho carregado de valor sentimental, apenas sentido por aqueles que privaram com o seu autor, um amigo que recordo com saudade, todos os outros ficam despidos deste sentimento, apenas são confrontados com aquele "algo diferente" de boa concentração, a água que perdeu conferiu-lhe um toque mais concentrado, dando aquela gulodice e untuosidade tanto no olhar como quando se prova. 
Por vezes dou por mim a sonhar que sou um produtor a mostrar a sua obra de arte aos convidados, aquela obra que não sendo "minha" acaba por ser um pouco... sinto-a como tal, nem que apenas como o responsável  por manter viva a memória daquele vinho e ir sendo gravada um pouco por todos aqueles que o tiveram no copo, na minha vontade quero sentir que assim tem acontecido.
Na realidade falo de um vinho feito à moda antiga, em adega velha, sem luxos nem modernices, as uvas foram vindimadas de uma vinha velha, daquelas meio perdidas em que o branco vai misturado com o tinto, com o Fernão Pires, o Castelão e outras tantas castas que não fazem parte dos contra rótulos modernos... coisas velhas. O ritual era o de sempre, a fermentação e o estágio eram da responsabilidade das talhas de barro, era ali que o branco e o tinto repousavam, fermentavam e se passavam a limpo, depois a talha era fechada e ficava à espera, sozinha mas nunca abandonada... o vinho de que falo é especial, durante a fermentação era abafado com aguardente vinica muito bem escolhida pelo seu dono, o resultado era e continua ainda hoje a ser mágico...
Toda a micro-oxigenação a que o vinho é sujeito devido à porosidade do barro, ao tempo que vai estagiando na talha que lhe confere um aroma e sabor tão característico, ao tempo que teima em perdurar na garrafa... o suficiente para quem quem o prova ficar na grande parte das vezes a cheirar e a olhar para o copo sem saber o que dizer... no final gostam, deixam-se perder no tempo a cheirar aquele fantástico bouquet que teima já com a sala vazia em ficar agarrado às paredes do copo, em que a frescura dos alperces e de fruta cristalizada com a oleosidade dos frutos secos se combina com o travo da talha antiga e de tantas outras coisas para apreciar devagar que este gosta de gastar tempo nestas coisas. Um vinho que faz parte de uma memória, da minha memória, um vinho que apenas sirvo aos amigos mais especiais e em que apenas me dou ao luxo de beber dois cálices ao ano, num perfil claramente dominado pelo caminho da oxidação positiva que maravilhas exerce nos Porto Colheita, elegante, cheio, complexo e amigo da boa mesa, conversador imortal e apesar da idade ainda pleno de vivacidade, assim é este vinho, assim era o meu amigo.

26 novembro 2011

Cave climatizada, vale a pena ?

Se há problema que quase sempre acaba por bater à porta do enófilo é a falta de espaço para guardar tanta garrafa que se vai juntando... por vezes fico a pensar que se reproduzem entre elas tal a quantidade que se vai juntando sem que dê conta, criando com isso uma inevitável falta de espaço a que se junta também a falta de condições ditas ideais para uma guarda minimamente satisfatória que não envolva vinho debaixo da mesa da cozinha ou algures na sombria despensa ao lado das batatas e cebolas. Das duas uma, ou se tem a sorte de ter um espaço condigno e que desenrasca a malta ou então é preciso pensar noutra solução em que quase sempre envolve a compra de uma cave climatizada... foi pela segunda que optei.

Vai para uns 3 anos vi-me obrigado a comprar uma cave climatizada para guardar os meus melhores vinhos na casa onde moro em Lisboa, na verdade com o calor a bater no Verão e o frio do Inverno as garrafas estavam tudo menos seguras, muito menos estava eu que via o stock aumentar em número e em qualidade, a medida a tomar era urgente e decidi então tentar comprar uma cave que fosse mediana e cumpridora do que pretendia. Não entrei em loucuras de gastar muitos €€€€€ até porque tenho na casa do Alentejo uma cave natural que utilizo sem receios para longas guardas, quando quero um vinho melhor pego nele e trago para Lisboa onde fica aconchegado na cave climatizada até ao dia de ir à mesa. Aqui o preço foi factor preponderante, 270€ na altura e tive a sorte de aproveitar um belíssimo desconto numa dessas lojas habituais de electrodomésticos e decidi-me por uma Samsung, não sei ainda a razão mas simpatizei com a marca,  ficou instalada na sala de jantar, silenciosa e com 3 temperaturas possíveis e reguláveis, opção brancos, tintos e outra para configurar à nossa escolha. Se funciona ? Funciona lindamente para o propósito que foi comprada, sem problemas, os vinhos não têm reclamado nem tenho notado que tenha saído algum vinho com problemas por lá ter estado guardado, pessoalmente fico mais descansado porque sei que quando quero beber um vinho à temperatura correcta basta abrir a cave e escolher o que me apetecer... acontece é que neste momento já tenho lista de espera para o condomínio. 

25 novembro 2011

Quinta de Pancas Grande Escolha 2005

Gostar de vinho e do mundo que gira à sua volta como eu gosto tem de implicar gostar de comida, de cozinhar, de estar horas de roda de um fogão para preparar um almoço ou um jantar e encher a mesa de amigos enófilos... dá-me um prazer imenso quando assim acontece, até porque a mesa da sala é grande e sente-se sozinha com pouca gente à sua volta. No pequeno aparte que se pode e deve fazer aqui para a gastronomia, falando de forma simples, uma das coisas que tenho dedicado algum tempo é a compra de alguns livros dedicados ao tema, investir em livros sempre foi algo que nunca achei descabido e ver crescer a nossa biblioteca com assuntos que gostamos é sempre agradável. 

Lembrei-me no outro dia enquanto folheava este exemplar, porque razão não falo eu nos livros que tenho e gosto, sobre os pratos que mais prazer me dão, porque não falar do que vou cozinhando para acompanhar cada vinho ? Dentro dos livros que vou comprando, destaco o The Food & Cooking of Portugal da autoria do Chef Miguel Castro e Silva, nome que dispensa grandes apresentações, um dos melhores chefes que temos em Portugal e que fez como não podia deixar de ser, um belíssimo trabalho num livro acerca da nossa gastronomia com 65 clássicos de Norte a Sul. Numa altura em que cada vez mais faz falta uma boa promoção do que é nosso, do que de melhor temos para oferecer, este livro é a imagem de que tal é possível e abre uma janela para o mundo, totalmente em Inglês mas que se entende perfeitamente. Gosto muito, na altura nem foi caro, agora o preço subiu ligeiramente e está nos 19,58€... um livro que recomendo pois não se limita a ser apenas e só um livro de receitas pelo que não se torna enfadonho, as fotografias são muito boas, apelativas e como seria de esperar todas as receitas tem o toque do chef que brilhou no Porto e agora se encontra em Lisboa no Restaurante Largo.
  
Foi com base numa das receitas do livro, Empadas de Galinha, que me aventurei na minha receita de Empadas de Arraiolos e escolhi um vinho que me encheu por completo as medidas, o Quinta de Pancas Grande Escolha 2005. Mas esse vinho já saiu para o mercado vai para algum tempo dizem alguns, pois já, mas é nestas coisas do saber esperar e não andar a beber tudo à pressa com medo de morrer e deixar vinho para os que cá ficam, que eu vou teimando em guardar aqueles que acho que precisam de tempo para espairecer, serenar a alma num sono tranquilo, este foi um desses casos até porque quem é que não se lembra dos fantásticos Pancas Special Selection Cabernet Sauvignon da década de 90 e o bem que se davam com o tempo em garrafa ?
A Quinta de Pancas fica em Alenquer (Estremadura/Lisboa) e a fama dos seus vinhos já vem de longe... depois de uns anos no limbo parece que voltou aos bons velhos tempos a que nos tinha acostumado. E assim foi, o vinho mostrou-se numa enorme fase da sua vida, ainda com anos pela frente mas a dar uma prova de enorme qualidade, se falar do preço então é mais um daqueles vinhos que deveriam ser presença mais que obrigatória na garrafeira de verdadeiros enófilos. Num lote composto por Touriga Nacional (30%), Cabernet Sauvignon (40%) e Petit Verdot (30%) que foram 20 meses a banhos em barricas novas de carvalho francês. 
É um vinho de cor escura, cheio de detalhes, com classe e elegância, algo musculado,  mas a fruta fresca e bem madura liga-se muito bem com a madeira, alguma compota, pimenta preta em boa dose, algum Cabernet presente com pimento do bom, não se atrapalha nem faz atrapalhar... desenvolve muito bem no copo. Na boca mostra-se profundo, denso e saboroso, harmonia e novamente elegância... bem estruturado, chocolate preto, fruta madura, vegetal e apimentado no final de boca bem longo e persistente... conjugando frescura com sabores frutados e harmonia com a prova de nariz. Um vinho cheio que dá prazer, o preço é um dos motivos que leva a ser alvo de cobiça pois anda na casa dos 19€... não sendo propriamente barato não chega a valores astronómicos de outros nomes da nossa praça que em qualidade se equivalem. 92 pts

23 novembro 2011

Flor de Nelas Selecção 2009


No outro dia fui ao Pingo Doce e passei na parte da garrafeira, de notar que algumas delas estão bastante bem artilhadas com coisas muito interessantes como por exemplo Vinha Formal 2008 ou Meruge 2005. Mas naquela altura a vaguear pelas inúmeras marcas das diferentes regiões, estrangeiros incluídos, dei por mim a pensar se conseguiria trazer comigo um vinho minimamente interessante apenas com uma moeda de 2€ ... depois de muito vasculhar encontrei um Flor de Nelas Selecção 2009 (lote de Touriga Nacional, Alfrocheiro, Tinta Roriz e Jaen). O motivo da compra foi mais que óbvio, ainda com o Reserva 2008 da mesma marca na memória nem sequer deu para pensar muito, peguei na garrafa e foi o meu vinho para o jantar, umas divinas Iscas de novilho cortadas bem finas com a respectiva batata cozida.
Corri algum risco pois iria precisar de um tinto que não se fosse deixar suplantar pelo poderio do fígado salteado em azeite, com toda a marinada a que foi sujeito anteriormente entre louro, alho, vinho branco um colher de café de mostarda e uma pinga de vinagre. 
E mais uma vez fiquei contente com a compra, uma vez que o vinho esteve à altura, na onda do Reserva embora adequado ao preço praticado, menos complexidade, menos qualidade, menos vinho... por 1.98€ não será obviamente de pedir milagres.

É o chamado vinhito simpático, todo ele bem certinho e direitinho, direi como anda na moda, gastronómico, sem falhas ou quebras, frutinha madura com ponta adocicada, sem remorsos, depois umas delicadas notas florais com sensações de barrica que aconchegam o conjunto, nos finalmente um toque daquele vegetal característico dos vinhos daquela região, na boca afinado e com bela frescura, fruta presente e leve secura... mais um que pede comida por perto, tem bom final de boca com frescura, todo ele com certa dose de elegância. Notei que melhorou ligeiramente no copo com alguns minutos decorridos pelo que uma passagem para decanter logo que vá ser servido será boa ideia. Há melhor por este preço ? 87 pts 

21 novembro 2011

Pinhal da Torre Unplugged 2011

No ano passado por alturas de Setembro escrevia-se por aqui, depois de uma fantástica visita, que no site Pinhal da Torre se pode ler Pureza, Elegância, Personalidade... coloquei na altura a Frescura e acrescento este ano... a Classe. Porque foi o que encontrei nos vinhos que provei no passado Sábado quando me desloquei à Quinta de São João a convite do produtor. 
Na verdade é Paulo Saturnino Cunha que nos recebe, que nos transmite aquela contagiante alegria de mostrar com enorme orgulho os vinhos que produz, um querer sempre mais e melhor que tem vindo a dar os seus mais que merecidos frutos, lutando contra tudo e contra todos para se colocar onde merece estar, como produtor dos grandes vinhos do Ribatejo e entre os grandes produtores de Portugal. Ano após ano tem vindo a afinar e refinar aquilo que produz, com a vontade de ajustar e cortar em algumas marcas e centrar atenção em novos rótulos, os vinhos vão ganhando novas formas, novos perfis sabores e aromas, mora ali um refinar das qualidades do terroir Ribatejano que Paulo Saturnino tão bem conhece, um auspicioso triunfar no copo de todos os apreciadores para que sem tabus olhem para um vinho do Ribatejo como algo grande e de muito bom. E o Paulo Saturnino Cunha e toda a sua equipa estão de parabéns porque se confirma mais uma vez que o caminho trilhado por eles é o do sucesso e o da qualidade entre os grandes... vinhos com raça, cheios de saber e de querer... direi vinhos com um carácter muito próprio, o mesmo que podemos encontrar na pessoa que dá a cara por este projecto familiar.

Tudo começou com uma ligeira e animada (como sempre) visita às instalações, é da praxe conhecer os cantos da casa, conhecer métodos de vinificação, que ali se utiliza a pisa a pé tradicional em vez dos modernos lagares de inox automatizados. É bom ver e saber que ali se trabalha com afinco, é bom saber que as paletes que por lá estavam apilhadas já tinham destino traçado e faziam parte dos muito % que este produtor vende para fora, é a exportação que absorve a grande maioria dos vinhos ali produzidos, parece pois que lá fora sabem dar o valor mais que merecido a estes vinhos enquanto cá andamos meio perdidos e distraídos com outras coisas.

A prova dos vinhos começou nos brancos, antes dizer que os vinhos começaram nas últimas colheitas a centrar-se numa fruta bem limpa e muito presente, sem excessos mas o suficiente para não passarem simplesmente ao lado por falta de apetite enófilo. Dito isto o primeiro vinho provado foi o Quinta do Alqueve Fernão Pires 2010 com direito a um dos três rótulos que o produtor criou para brindar a fauna local, neste caso com uma Popa, o que mais gosto e com direito a surgir aqui ao lado em destaque. Um branco directo nos aromas, muito cítrico com travo de alguma relva fresca e mineral fino em fundo, na boca repete com boa acidez e presença característica de uma casta que nunca foi de falar muito, 88pts. Depois surgiu o Quinta do Alqueve Chardonnay 2010, a meu ver com aromas à casta mas mais tímido do que é normal encontrar nesta casta, gostei mais do provado no ano passado, aqui este não tem passagem por barrica, o aroma fica algo perdido tal como na boca... bebe-se mas prefiro o anterior, uma questão de gosto pessoal nada mais 87pts. O último branco foi o 2Worlds 2010 já com direito a passagem por barrica, num conjunto em que se ganhou mais complexidade, fruta aqui mais expressiva com limão e laranja, mineral leve com toque da barrica a aconchegar o conjunto, bom traço quer na presença de boca quer no final e sem dúvida o melhor dos três brancos. 89pts

Entrando no campo dos tintos começou-se com um Quinta do Alqueve Reserva 2008, a prova dos tintos iria ser sempre em crescendo, começamos num vinho que nos apontava para fruta preta madura com caroço, sem excesso de maturação o que é logo bom sinal, um conjunto jovem frutado com toque fumado e bom balanço, frescura e alguma secura na boca com bom final, direi sem ofensa que se trata de um vinho correcto, mediano e que dá uma prova bastante agradável com boa aptidão gastronómica (como todos os restantes) 89pts. Próxima paragem no Quinta de São João 2008, ganhou mais na tonalidade e ligeiramente na concentração, o vinho mostra-se bem também ele com bastante fruta madura, chocolate de leite e boa frescura, afinado e prazenteiro com bom final de boca ainda que com alguma secura no palato a pedir comida por perto. 89pts.
Sem quebras nem paragens, saltou o Quinta do Alqueve Touriga Nacional 2008, com pujança e alguma austeridade a fazer-se sentir com vegetal seco e ligeiramente no perfume, a fruta mais escura e viva, bem limpa por sinal, com boca ampla, fresca e muito sabor a fruta e a especiarias, secura presente dos taninos em final decente 90ptsQuinta do Alqueve Touriga Nacional/Syrah 2008, onde o Syrah se destaca claramente, depois de provado o Touriga antes, a diferença que se nota aqui é o Syrah a trabalhar... num todo muito bem conduzido e conseguido tanto na complexidade de nariz como de amplitude na boca, frutaria escura, pimenta preta, chocolate preto tudo isto num conjunto de bela postura, elegância e final. 91pts. Quinta de São João Syrah 2008, um belíssimo vinho, conquistou-me pela sobriedade com que se bandeou no copo, bela complexidade num todo com especiarias, fruta escura com limpeza e um sensual doce natural, a barrica em forma sem estragar ou incomodar a conversa, harmonioso, boa profundidade e espacialidade quer em nariz e boca, alguns taninos a darem que falar mas nada que o tempo não resolva, a beber agora ou depois... com atenção e amigos por perto. 91pts


No meio da conversa fomos sendo informados das novidades, das vontades e mudanças que os vinhos do Pinhal da Torre vão sofrer nos próximos tempos/colheitas, alguns rótulos que vão ser descontinuados, outros apenas vão surgir quando a qualidade do ano assim o justificar. Dito isto foi altura de provar os novos ensaios de alguns dos próximos vinhos da casa, começando por um interessante Quinta do Alqueve Touriga Nacional 2009 que conta com uma ligeira percentagem de Merlot, nota-se aqui um pequeno salto qualitativo em relação ao 2008, um vinho mais apurado e com uma maior definição durante toda a prova 91pts, tal como todos os novos vinhos provenientes de amostras, nos quais destaco um promissor Quinta de São João Syrah 2009, que conquistou pela qualidade que debitou durante toda a prova, um dos que mais gostei, a fruta sente-se de excelente qualidade, muito viva e fresca, barrica na dose certa, amplo, harmonioso, roliço e fresco ao mesmo tempo, muito bem estruturado. Daqueles vinhos que é um prazer enorme ter à mesa, mas a precisar de tempo em garrafa 92pts. Foi provado ainda um ensaio a que foi chamado na altura de Quinta de São João Grande Reserva 2009, um vinho que apesar da sua belíssima estrutura se mostra fresco e ligeiro, harmonioso e bastante agradável, sem complicar em nada, é daqueles que convém estar muito atento assim que estiver no mercado para se comprar uma caixa e ir abrindo uma de vez em quando, o prazer está garantido em dose alargada... uma delícia 93pts. Acabou-se a prova com o futuro lote do novo Special 2009, um vinho que dispensa apresentações tal a qualidade, finesse e maneira como conjuga elegância com vigor, força e frescura mas ao mesmo tempo fácil de beber e no modo como se comporta à mesa, não cansa e convida sempre a mais um trago tamanha a qualidade com que nos presenteia, na senda do 2008, embora provando lado a lado durante o almoço eu tenha gostado um pouco mais deste 2009 94 pts.
Termino com um especial agradecimento ao Paulo Saturnino Cunha e a toda a sua equipa pelo fantástico momento que me proporcionaram e também dar os parabéns pela excelência que os seus vinhos começam a atingir... olhos bem abertos porque a coisa promete.
 
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