Copo de 3

27 fevereiro 2012

Quinta do Couquinho Grande Reserva 2007

Este vinho faz parte daquele grupo em que provando a primeira vez quando recém lançado no mercado, se entende que precisa de tempo em garrafa, não muito mas apenas o suficiente para que o binómio vinho/madeira fique mais harmonioso. Foi o que aconteceu com este Quinta do Couquinho Grande Reserva 2007, o nome não será novidade para o ouvido de alguns, fez parte do conjunto de vinhos dos Lavradores de Feitoria mas em 2004 decidiu-se envergar por um caminho próprio e eis que surge o projecto independente. A enologia fica a cargo de João Brito e Cunha (vinhos Ázeo) num vinho que me conquistou da primeira vez que tomei contacto com ele. Naquela altura a madeira dava mais nas "vistas" do que neste momento, em que tudo parece estar mais sereno e a possibilitar uma prova de elevado nível satisfatório... há coisas que gosto nisto dos vinhos e uma delas é sorrir após provar, quando tal acontece é sinal que o que ali está à minha frente me deixa feliz.

E como podem reparar a foto foi retirada de um site Wine-is que também se orienta à base de codes vínicos, parece moda e todos querem ter o seu, acabando por baralhar consumidores ou nem isso, pois a maioria nem sequer quer saber pois vivem na completa ignorância sobre o funcionamento dessas "coisas"... mas centremos no vinho que é bem mais interessante.

A prova foi mais uma vez cega, juntei um grupo de vinhos da mesma região, mesmo ano e resolvi provar e dar a provar a um conjunto de amigos interessados na coisa, por entre nomes mais ou menos sonantes dos ouvidos enófilos, este foi dos que mais agradou e ao ser revelado terá sido o que mais passou de mão em mão... pelo simples facto de ser o menos conhecido, o menos bebido e provado e até aquele que apenas se conhecia da altura em que dava nome a um vinho de um conjunto de lavradores de tal feitoria. Agora tudo mudou, afinal tudo muda, o vinho mostra-se como é, um Douro muito bonito, pleno de coisas boas, a fruta limpa e cheia de curvas com vigor necessário para se aguentar na passada do tempo, tem alma vincada, foi criado em lagar, foi mimado nas vinhas velhas que lhe deram origem, todo ele foi depois transformado com ajuda a nova tecnologia, um aliar antigo a novo que confere um perfil distinto. Depois são notas florais, fruta (cereja, ameixa, morango), camurça naquela sensação de aconchego e morninho, aroma profundo com boa dose de frescura, fresco, vigor, estrutura, harmonia, leve vegetal e especiaria a condimentar toda esta complexidade que se vai desenrolando no copo durante o tempo que rodopia no copo. A boca complementa a nota artística, grande entrada a saber a fruta bem sumarenta e suculenta, a madeira serve de base sem incomodar, boa amplitude, frescura, estruturado com final de persistência média/alta num vinho de puro prazer. Não será dos mais caros ou raros vinhos do Douro, mas é certamente dos que mais prazer me proporcionou nos últimos tempos... 93 pts

19 fevereiro 2012

Vértice Espumantes

O vinho espumante nunca teve tão bom aspecto como nos dias de hoje, aliás, o nosso espumante nunca esteve tão bom como está nos dias de hoje. No meio de tudo isto ainda há quem chame Champagne a tudo o que mostra ter "bolinhas" no copo, basicamente serve-se um espumante da Bairrada e ouve-se na mesa que o Champagne é muito bom... o que em muitos casos até é verdade porque a qualidade apresentada é nalguns casos superior ou igual a muito Champagne genérico. Também não deixa de ser verdade que chegou a um ponto em que os produtores a nível nacional entenderam que era bem ter no seu portefólio um espumante, enfim, se o vizinho faz eu não faço porquê ? E o boom foi-se dando um pouco de norte a sul, muita marca e em alguns casos pouca uva. Não querendo falar em casos pontuais e centrando apenas nos grandes casos que temos por cá, Murganheira será sempre aquele que se venera e logo atrás colocarei as Caves Transmontanas onde o Engº Celso Pereira (foto acima) elabora os Espumantes Vértice. Não vale de muito contar a história como tudo começou, interessa dizer que são Espumantes personalizados, sérios mas com leve toque de irreverência, o politicamente correcto no caso, mas que se transformam em parceiros de mesa de uma forma digna de registo.
Recentemente tive oportunidade de provar as novidades no que a espumantes diz respeito das Caves Transmontanas, o Vértice Rosé 2010, Vértice Cuvée 2009 e Vértice Millésime 2007:

O primeiro a que saltou a rolha foi o Rosé 2010, mostrou-se claramente o mais jovial e catita dos 3 em prova, muita frescura no aroma com framboesa, morango e cereja vermelha, perfeito para canapés ou num tempo mais quente a virar para a salada de rúcula com fio de azeite e salmão grelhado com "salsa" cocktail. Há por ali algo, leve herbáceo, que me inclina para o ligar com qualquer coisa à base de tomate, mas nunca agressivo, suave tal como a sensação de mousse que apresenta na boca, quem sabe umas finas fatias de mozarella fresco com tomate cherry e meia folha de mangericão... 
O vinho foi o primeiro a ser provado e servido posteriormente, nota-se uma dosage mais elevada no açúcar, mais gulosinho e como tal é quase sempre o favorito das senhoras, feito numa base de 75% Touriga Franca com Gouveio e Malvasia Fina, num preço que considero bastante apelativo de 10,80€. De todos os exemplares em prova talvez seja aquele que se mostra mais no imediato, mais descontraido e apropriado para a conversa informal entre amigos, independentemente de tudo gostei. 90 pts


De seguida foi provado o Vértice Cuvée 2009, um degrau acima do anterior, mais sério e um pouco mais complexo, sóbrio e a apontar para um serviço que implique estar sentado à mesa... as notas ácidas de maçã e o aroma que faz lembrar broas de manteiga,  mas é a vivacidade com que entra no copo que o faz destacar, tanto em nariz como em boca, ganha qualquer coisa com toque de fruto de polpa branca a fazer lembrar pêra. Embora mais sóbrio tem também aquele punch mais agreste e ácido da maçã que juntamente com a acidez lhe dá uma bela vivacidade durante o tempo que o temos no copo. Escolhi ligar o dito cujo com umas ameijoas à bulhão pato, que no final são regadas com um pouco de limão, acidez suficiente para aguentar as ditas cujas e uma refeição feliz e contente com um espumante de grande nível que a todos deliciou. Também tentei a ligação com Açorda de Bacalhau e ovo escalfado, desde que o Piso não seja fortemente carregado no alho a combinação torna-se bastante interessante. Aqui o lote muda substancialmente, às anteriores junta-se agora Rabigato, Gouveio, Viosinho e Códega, castas brancas  na ordem dos 68% enquanto o restante é Touriga Franca, preço a rondar os 10,80€. 91 pts


Para o fim ficou o melhor de todos, Vértice Millésime 2007, aquele que despertou mais atenções e paixões, de certo modo um Espumante que bate o pé a muito Champagne que custa o dobro ou mesmo o triplo... é bom que se tenha esta noção essencialmente na altura da compra, Moët & Chandon genérico ao pé deste parece gasosa com limão. Aqui a conversa é outra, nota-se desde logo que o aroma é mais complexo, sente-se fina e delicada cremosidade, chamem-lhe biscoito como vem nos manuais, depois um pouco de fruta fresca com fruta cozida, a frescura está presente no ponto certo, mais era exagerada e menos o vinho perdia a piada... mão de mestre portanto. Na boca é prazer e requinte, pelo preço a rondar os 15€ então é de comprar sem medo, bebe-se tão bem sozinho mas não lhe resisti em dar como acompanhamento uma Galinha de Índia com couve, receita tradicional em França que depois vai com o bichano ao forno em cima da couve e fica uma delícia e acompanhou lindamente com este espumante. O lote aqui é composto por Gouveio, Malvasia Fina, Rabigato, Viosinho e Touriga Franca, com as castas brancas a 65% e um preço que ronda os 15,5€. 93 pts

Terras do Avô Grande Escolha branco 2010


Este branco VQPRD Madeirense é produzido na freguesia do Seixal na costa norte da Ilha da Madeira, a partir da casta Verdelho da Madeira. Dá pelo curioso nome de Terras do Avô, e é produzido pela Sociedade Duarte Caldeira e Filhos - Seixal Wines, Lda. Com a enologia a cargo de Paulo Laureano e João Pedro Machado, foram produzidas e engarrafadas 3,300 garrafas na Adega de São Vicente, no dia 10-04-2011. Os originais rótulos foram desenhados pelo artista plástico madeirense Marco Fagundes Vasconcelos, com os verdes destinados aos brancos e os vermelhos aos tintos. Como já aqui tinha provado o branco, o recente lançamento é o Grande Escolha, a diferença é o rótulo redondo, com preço recomendado de 14€.

Abri a garrafa e depois da sua prova decidi testar à mesa, fui buscar uns mexilhões, que em panela com refogado de fina cebola picada, meio tomate picado e uma folha de louro, deixei aquecer e deitei lá para dentro os mexilhões com salsa fresca picada, sem barbas e com banho tomado, reguei com um pouco de vinho branco e tapei de imediato para apurar o sabor, saltitei um bocado os ditos para irem abrindo com o calor e tomando sabor, servi de imediato e a ligação foi acertada, sem ter puxado muito no sabor da "salsa" os mexilhões sabiam ao que deviam saber, com leve condimento que combinava de igual modo bem com a fruta que o vinho tinha para oferecer, a parte do vegetal fresco ligou com a salsa...
Antes disto a prova que tinha realizado tinha ditado que o que mais se destacou foi a componente mineral, o vinho tem quase um toque de maresia que depois se alia a uma suave fruta madura de cariz tropical. Depois são anotações de erva fresca, saudável e agradável herbáceo que ajuda a completar o ramalhete. Na boca complementa-se muito bem com a que encontramos no nariz, constante na frescura e na mediana intensidade que imprime no palato, novamente a fruta, a erva fresca e a mineralidade a dominar o final em conjunto nada exuberante que aposta claramente na sobriedade. Apreciei o estilo embora não o tenha achado assim tão superior ao 2008, pelo que mantenho a mesma nota. 89 pts

16 fevereiro 2012

Quinta Vale Dona Maria 2007


É insistentemente ano após ano um dos grandes vinhos de Portugal e nem com o surgimento de um hipotético superior CV se deixou vergar. Nascido e criado na Quinta que lhe dá o nome (Quinta Vale Dona Maria), pelas mãos de um dos maestros do Douro, de nome Cristiano Van Zeller. A marca surgiu algures pelo ano de 1996 ainda que em fase experimental, sendo a confirmação em 1997, desde então tem vindo a deliciar apreciadores por todo o mundo... num perfil ajustado a um Douro mais clássico mas com as afinações que a enologia dos nossos tempos permite, o resultado é um vinho fabuloso, o preço que ronda os 30€ não se pode dizer que é alto atendendo ao que encontramos no copo e à capacidade de evolução em garrafa.

Pegando neste Quinta Vale Dona Maria 2007, a garrafa foi aberta muito recentemente para acompanhar uma feijoada de lebre, nota-se de imediato um excelente trabalho de barrica com a excelência da fruta a tomar conta dos sentidos. É a partir de uma boa intensidade aromática que entramos num patamar de enorme complexidade e harmonia, denso e fresco, cacau com nota de tabaco seco, canfora com um arredondamento de grande nível, camurça e todo ele virado para aromas muito bem definidos, ainda com aquele travo seco e ao mesmo tempo balsâmico da esteva que tanto gosto. Na boca entra amplo, fresco, frutado, a madeira segura firme o conjunto, complexo, cheio de boas sensações com enorme profundidade e elegância num longo final de boca. O vinho durante toda a prova gosta de se rebolar no copo, gosta de tempo para brincar, de mostrar muito do que lhe vai na alma, mostrando uma evolução muito bonita no copo durante toda a refeição. Todo ele de perfil virado para a mesa, soa bem e sabe melhor, pois quando damos por nós já acabou... 94 pts

09 fevereiro 2012

NAIA 2010

No vinho há coisas assim, por mais que gostemos de uma marca as condicionantes do ano de colheita podem pregar rasteiras, este Naia é um dos Verdejo que mais gosto de beber e neste 2010 a coisa não se mostrou tão bem como já me acostumou em anos anteriores. Lá por Rueda (Espanha) manda a casta Verdejo, nos últimos tempos alguns vinhos têm pecado por deixarem um pouco de lado o perfil Verdejo e começarem a fazer lembrar Sauvignon Blanc... coisas que confundem, desvirtuam e fizeram com que me afastasse de algumas marcas. Na sua essência são vinhos conquistadores pela sua exuberância e frescura, com acidez viva e uma energética presença na boca, por norma não lhes dou descanso na garrafeira, é vinho para beber no pico do Verão com saladas, peixe grelhado e bichos do mar enquanto não sai o próximo... a última garrafa, o preço na casa dos 7,90€
Este Naia é claramente senhor do seu nariz, personalizado e talvez um bocadinho distante do que se costuma entender como um clássico da região, fora de exageros é muito bem afinado talvez até demais para aquilo que já vi nestes Naia, o aroma bem fresco com fruta madura e colherada de mel, toque verde do vegetal fresco marca também presença com fruta (maracujá, kiwi, lima) a ser completado pela mineralidade em fundo. Há por aqui um leve arredondamento, talvez conferido por alguma passagem por madeira ainda que leve, depois na boca o vinho entra com peso da fruta, ganha corpo, peso de uma fruta madura e redonda e tudo aquilo que já foi falado, sempre com frescura e travo mineral em fundo e enorme secura. Naquela noite resumiu-se a ser apenas mais um entre outros tantos... 89 pts

08 fevereiro 2012

Pousio branco 2010


Durante um momento olhei de raspão pelas prateleiras cheias de vinho de um hipermercado, olhei e reparei que por ali é rara a garrafa de vinho que não tem um selo, um prémio, uma recomendação ou medalha lá colocada... em alguns casos mais parece uma doença contagiosa que se propagou em n prateleiras. Presumo que com o aperto da crise a necessidade de vender o vinho seja mais que muita, a necessidade de mostrar que o vinho foi premiado ou que algumas pessoas que o provaram entenderam que aquele sim era uma grande pomada. A urgência com que "olham" para nós e nos pedem para as levarmos para casa mete dó, em alguns casos chega a ser confuso a quantidade de papelinhos colocados onde a tonalidade varia entre o ouro, prata, bronze e outras cores... ou seja, fica-se sem a noção do real valor do vinho mesmo que em termos de concurso. Noutros casos temos os vinhos de 20€ com uma medalha de ouro igual à mesma medalha que o vinho do lado que custa 3,90€ ... e lá fica o consumidor todo feliz porque compra um vinho mais barato mas que tem "a mesma qualidade" do outro, afinal a medalha era a mesma.
No seguimento de tudo isto olhei e reparei num branco do Alentejo com a Medalha de Ouro dos Vinhos Engarrafados do Alentejo, costumo dar importância à Talha de Ouro esse sim o único concurso em Portugal que faço questão de comprar todos os vencedores, mesmo que não compre tento provar. Mas desta vez foi apenas o vencedor dos Engarrafados e foi um branco de nome Pousio 2010, da Herdade do Monte da Ribeira, um lote de Antão Vaz, Roupeiro e Arinto. Não me chegou a bater nos 4€ pelo que veio comigo para casa... no copo logo de início torceu-me o nariz, dei-lhe tempo e ele agradeceu, a fruta com ananás e citrino bem maduro com alguma frescura, depois leve calda, um toque de vegetal seco que lembra palha, ganha com a subida de temperatura algum arredondamento em nariz, flores amarelas e pouco mais. Na boca um pouco melhor mas nada demais, fica como entrou, arredondado com fruta gorda, sem sumo fresco ou final que se diga sim senhor, no geral é um branco que mostra alguma frescura, de fácil abordagem, que não complica e que nos deixa à míngua no final, faltando-lhe uma melhor prestação na boca. Quando olho para a medalha só apetece dizer, nem tudo o que brilha é ouro... 86 pts

03 fevereiro 2012

Copo de 3 é a página de vinhos mais bem posicionada de Portugal.


Do outro lado do Atlântico chega um curioso artigo que tem por nome "Quem é quem... em Portugal, as páginas de vinhos mais visitadas", é da autoria de Óscar Daudt o responsável pelo maior portal brasileiro de vinhos, o EnoEventos. O autor decidiu elaborar aquela que é a primeira classificação das páginas portuguesas dedicadas ao vinho conforme a quantidade de acessos, tendo por base o site americano Alexa que informa a posição relativa de mais de 30 milhões de páginas em mais de 125 países do mundo. Para tal recolheu os dados que achou necessários entre 21 e 23 de Janeiro do presente ano e compilou tudo em 3 tabelas onde figuram os principais sites de vinho de Portugal, sites de produtores (103), sites e blogs de vinho (30) e finalmente associações e entidades oficiais (20).

Segundo o autor, a página relacionada com o vinho mais bem posicionada em Portugal é o blog Copo de 3, na classificação 659.648 , de resto no que a sites de produtores diz respeito destaca-se a Taylor´s na posição 1.160.137 e finalmente nas associações e entidades legais surge a ViniPortugal em 1.392.249. 

O autor realiza no fim um pequeno mano a mano com os melhores de Portugal e do Brasil, no qual destaco o único blog a entrar a jogo, Copo de 3 situando-se ainda assim no top 10 (7º lugar) tendo em conta a quantidade de visitas que os sites e blogs brasileiros têm, atendendo ao número de consumidores interessados que há naquele país. NOTA: Tudo isto é subjectivo e apenas diz respeito aos parâmetros tidos em conta pelo site Alexa, vale o que vale e podemos concordar mais ou menos tal como se concorda ou não com os parâmetros que se tiveram em conta em determinada prova de vinho, são tudo coisas que devemos encarar sempre com bons olhos porque é sinal que há gente que se dedica, que trabalha e que gosta daquilo que faz... quanto a mim, se o Alexa o diz porque vou contrariar ou dizer que não... siga a festa que há mais vinho que falar. 


27 janeiro 2012

Alumbro Godello 2009

Tudo começou como começa quase sempre, toca o telefone e do outro lado um amigo diz que esteve em Zamora e arranjou um vinho tremendo, tenho aqui uma garrafa para provares. Não durou muito tempo que o tivesse nas minhas mãos e a ser vertido no copo. Um completo desconhecido que me piscou o olho com aquele dourado brilhante de laivos esverdeados, enquanto isto lá para os lados de Zamora está o local onde foi produzido, a  MICROBODEGA RODRÍGUEZ MORÁN, micro porque neste caso se limita a uma garagem no mais puro sentido da palavra, onde o parque de barricas não passa das 4 unidades.
A história deste vinho começa com a história de um projecto unido pela paixão de um casal ( María Isabel Rodríguez e Juan José Moreno) em fazer bom vinho de forma ecológica. Pegaram em 3 ha  de vinhedo (Tempranillo, Godello, Palomino) com idades compreendidas entre os 10 e os 100 anos) em Villamor de los Escuderos e deitaram mãos à obra. O sucesso foi imediato, a maneira artesanal como os vinhos são ali produzidos, as transfegas são feitas com base no ciclo lunar, o vinho branco é estabilizado de forma natural ao relento, tudo muito simples e sempre com atenção para a qualidade final, leveduras indígenas e todo um rol de preocupações "caseiras" que afastam este puro Vigneron de grandes centrais de produção vinícola.
Em prova o seu primeiro lançamento, um Godello 90% com uma pitada de 10% de Palomino, mas cujo nome não pode conter Godello por questões burrocráticas... sendo assim passou apenas a chamar-se Alumbro blanco 2009 e esgotou em menos do que o diabo esfrega um olho.

O resultado final não é aquilo que se pode chamar um vinho fácil, não é e fica muito longe de o ser, é todo ele um vinho que precisa de tempo, de carinho e de saber ser compreendido. Para aqueles que esperam vinho pejado de aromas este não é o exemplo, para aqueles que procuram banhos de baunilha e manteiga este também não é o exemplo... mas então que vinho é este ? Acima de tudo é um vinho que transpira terroir, enorme energia positiva, foge ao que é feito em série e aos milhares e milhares de garrafas... bem visto as coisas é um vinho com Identidade muito própria.
É bom dar de caras com um branco que confunde e dá que pensar, em que aquele toque oxidativo dado pela Palomino confunde a malta, ai e tal não gosto já está a ficar passado... ou então o vinho não tem muito cheiro, ele ter até tem mas lá está, é preciso tempo e calma. É complicado, fechado e cheio de nervo, muito sólido e mineral, com fruta amarela e o seu floral... aqui comedido, sem espalhafato. Na boca é o palomino que se mostra logo em primeiro plano, massa-pão com leve amendoado, arredonda e enrola na língua para prolongar-se em final pleno de frescura e mineralidade. A secura que recorda um osso seco e que pede comida por perto, venha uma travessa de Ameijoas à Bulhão Pato. Dos brancos que mais me divertiu nos últimos tempos, continua em belíssima forma... agora vou esperar para provar o 2011 que entretanto chegou ainda por filtrar e estou em pulgas para o verter no copo. 91 pts

21 janeiro 2012

Beryna 2007

Ainda bem que nos dias que correm há quem se empenhe a fundo em demonstrar que em determinado local, naquela determinada zona com fama de vinho a granel, se pode fazer vinho de grande qualidade com base na casta local. Foi com esta vontade que surgiu o projecto Bodegas Bernabé Navarro, cuja base são as velhas cepas de Monastrell que enchem de alma os vinhos deste produtor localizado na D.O. Alicante.
O vinho em causa não é novo, já outras colheitas sairam para o mercado (o mais recente é 2009), mas da altura que o provei aquando do seu lançamento o vinho ainda estava fechado e com boa carga de austeridade, resmungão fechou a persiana e voltou-me voltar uns tempos depois... fiz-lhe a vontade e não me arrependi, dei de caras com um vinho mais refinado e que ganhou claramente clarividência nos seus atributos. 

O lote com castas a serem vinificadas por separado, é composto maioritariamente por 60% Monastrell e restantes 40% com Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah e Tempranillo, com 14 meses de molho em barrica de carvalho francês. O vinho mostra-se com um aroma claramente diferente ao "habitual", a madeira muito bem metida contribui com refinada complexidade, bom toque fumado a dar lugar a fruta toda ela de boa expressão, limpa e madura, em quantidade e em tons de fruta vermelha e negra com destaque para cereja e amora. Boa frescura, bálsamo, mato rasteiro, chocolate, pimenta preta e um ligeiro toque mineral de fundo. Consegue manter esta firmeza aromática durante bastante tempo, o tempo em copo só lhe faz bem tal como uma breve decantação. Na boca é bem fresco, a fruta surge de igual modo, o seu comportamento é harmonioso e similar ao que se encontrou na prova de nariz, cheio, acidez a contrabalançar o peso da fruta com o trabalho da madeira, num arrasto prolongado e consistente que termina com rasgo mineral. No final da prova fica-se com a ideia de que ainda vai durar algo mais, apesar de ter bastante afinação e dar uma prova substancialmente melhor do que quando saiu para o mercado... a espera compensou neste caso. Do outro lado este vinho é um caso sério de popularidade, a qualidade oferecida a um preço que ronda os  escandalosos 8,50€ e torna este vinho uma compra mais do que obrigatória. 92 pts 

18 janeiro 2012

Quinta da Costa das Aguaneiras 2007


Do sólido e requintado projecto dos Lavradores de Feitoria no Douro, é com cara lavada e englobado dentro dos Terroirs Lavradores de Feitoria que se apresenta o Quinta da Costa das Aguaneiras 2007. Este vinho já teve outro rótulo nos seus primeiros lançamentos, era mais discreto e menos apelativo, este agora é mais frontal e causador de maior impacto, tal com o vinho em si merecedor de uma prova muito atenta pois a sua qualidade assim o exige. 

É curioso que o barulho que outros fazem acaba por deixar vinhos como este um pouco esquecidos e fora do destaque que sem dúvida merece e merecem, afinal de contas todos procuramos vinhos com a melhor relação preço/qualidade possível, este é um desses exemplos cujo preço ronda os 18€.

O lote é composto por um domínio de 70% da Touriga Nacional, com 10% de Tinta Roriz e 20% de outras castas, passando por barrica nova e usada de carvalho francês.

O vinho conquistou-me pela qualidade de conjunto, pela forma como se mostrou com aquele toque vegetal mais agreste, mais raçudo e com nervo, fora de facilitismos que tanto abundam por aí... mostrou-se de aroma intenso com bastante fruta vermelha (amora, framboesa, cereja) bem limpa e madura, a barrica em plena integração sem qualquer beliscar de conjunto, aporta aromas com peso e medida, aumentando assim a complexidade e refinando o conjunto. Depois mostra aquele toque de Douro com vegetal do monte, andar pelas encostas a cheirar a esteva e o mato verde, leve baunilha e apimentado, floral presente com muita frescura à mistura. Boca muito feliz e de perfil gastronómico, amplo a mostrar vigor e energia, com boa profundidade e uma frescura a mostrar-se muito bem, dando ao vinho uma vontade de beber mais um copo, sente-se a boa doçura da fruta pura e limpa, sente-se a madeira que serve de encosto, sente-se aquele travo a pimenta preta, fresco e apimentado, e lá no fundo a secura de alguns taninos em final longo e persistente com um travo fresco e mineral. 92 pts

15 janeiro 2012

Ramos Pinto Collection 2009

Não se confundam, não estamos perante um Duas Quintas que certamente nos colocaria no copo um perfil clássico do Douro, neste caso estamos perante uma marca criada pela Ramos Pinto de nome Collection. O perfil é mais moderno, apelativo, jovem e provocador, pronto a conquistar com o glamour que os seus rótulos transmitem. O primeiro lançamento foi em 2005 ano do surgimento desta gama, são vinhos que se centram numa fruta muito expressiva, algumas vezes com um pingo de doçura da fruta a derrapar demais para o meu gosto. Neste caso o preço é também um enorme aliciante, consegue-se comprar a rondar os 11-13€.

Este Ramos Pinto Collection 2009 é fruto de um lote de 50% Touriga Nacional, 25% Touriga Franca, e 25% Mistura com 80% do vinho ficou em madeira e o restante em cuba por 18 meses. 
O aroma é todo ele de fruta escura muito madura, com capa média de geleia a envolver o conjunto, lembrando de inicio claramente o aroma de vinho do porto, durante a sua prova foram várias as pessoas que o relataram, o vinho foi-se mostrando bastante redondo e guloso, com boa complexidade de aromas que ganhou da barrica que o ampara. Todo ele devasso e expressivo, cheiroso e guloso, com  a frescura necessária e e bem colocada. Na boca é cheio, com a fruta muito presente a rebentar saborosa e madura, melhor a prestação na boca que no nariz, mais harmonioso, macio, especiaria e frescura em final de boa compostura. 

De todos os Collection até agora provados foi o que achei com a fruta mais pesada e até um pouco saturante, um vinho que aponto claramente para o consumo a copo fora da refeição e à conversa com amigos.  Não que seja "doce" que não é, o vinho tem a chancela Ramos Pinto, transpira qualidade embora não seja este o perfil que de momento procuro, quero vinhos mais serenos e com menos barulho dentro do copo, talvez numa linha mais Duas Quintas Reserva 1997 se é que dá para entender... 91 pts

12 janeiro 2012

Ultreia St. Jacques 2006


O caminho perdura na lembrança de todos aqueles que o escolheram, a marca de quem o percorreu fica para sempre gravada no tempo. A minha caminhada até Santiago de Compostela já lá vai, os sons, cheiros e sabores daqueles dias inesquecíveis marcou-me, fui arrebatado pela história e sabores das variadas regiões que percorri passo a passo. Cheguei ao fim mas parece que a porta não se fechou, a vontade de voltar é grande, não é fácil virar costas a algo que gostamos muito como é o caso. O livro Gastronomia en el Camino de Santiago, da autoria de Maria Zarzalejos é uma belíssima obra que se apresenta com capa dura, cheio de fotografias de grande qualidade com uma abordagem cuidada sobre as províncias por onde se vai passando, com detalhes sobre a história, monumentos, gastronomia, fala-se dos vinhos ainda que muito superficial sobre castas e sobre a especificidade de cada zona, tal como os seus costumes. O grande destaque vai para as receitas que foram recompiladas e colocadas em destaque em cada uma das províncias por onde se passa, direi que são as mais emblemáticas feitas à maneira antiga, tradicional, podendo sempre variar conforme a mão que as prepara mas o que ali está está muito bem e recomenda-se. O preço do livro ronda os 55€ mas com alguma pesquisa consegue-se encontrar a preço mais comedido.

A receita, Perdices montañesas, vem da mesma zona que o vinho em causa para a acompanhar, o Bierzo, uma zona cuja presença do vinho e da vinha em muito se deve ao Caminho, aliás a influência Francesa foi grande até pelo nome com que acabou por ficar baptizado Caminho Francês. A variedade tinta que por ali reina é a Mencía, em Portugal tem por nome Jaén embora os vinhos do outro lado sejam mais cotados a nível internacional e por sua vez bastante mais procurados. O vinho que abri para acompanhar as ditas perdizes foi um Ultreia St. Jacques 2006 (Bodegas y Viñedos Raul Pérez), da autoria do estrelado enólogo Raul Pérez. O vinho vai buscar o nome à palavra Ultreia, de forte significado entre peregrinos e com origem na Idade Média, que significa "em frente", St. Jacques é o nome da vinha de onde é produzido e também o nome do apóstolo (leia-se São Tiago). A vinha são apenas e só uns meros 3.2 ha e é velha, foi plantada em 1889.

O resultado final com 13,5%Vol é um caldo 100% Mencía que tem direito no final a um estágio de 8 meses em madeira. Se até aqui a coisa já prometia, todo o resto é obra de um mestre enólogo de nome Raul Pérez, talvez o nome mais sonante da enologia moderna em Espanha, o nome que todos querem ter no rótulo, principalmente quando o projecto é recente e convém que a coisa seja bem feita, Raul sabe-o fazer como ninguém... apoiando-se firmemente na ideia que os grandes vinhos nascem na vinha e é nisso mesmo que ele se destaca. O resultado são vinhos altamente cotados e reconhecidos mundialmente pela quase totalidade dos críticos de renome, essencialmente os do Bierzo que ele domina como poucos e onde imprime uma frescura e elegância notável à casta e respectivos vinhos. 

Este não é excepção, mostra-se de aroma limpo e perfumado, muito bem composto com uma fruta madura ( amora e framboesa) muito presente, alguma geleia, bálsamo subtil, cacau, ainda um tempero especiado pelo meio com nota de fumo, tudo em boa intensidade com toque de mineralidade. Na boca todo ele concentrado, densidade de sabores com fruta em destaque, depois é uma passagem com suavidade mas com alguma secura no fundo, é vinho que ainda tem mais algo que durar, que mostrar, dá sinais de que a sua complexidade ainda não está na máxima plenitude. A frescura que o embrulha com a qualidade da fruta e a fineza do trato é o que mais se destaca, um vinho que na altura não me custou mais de 7€, hoje em dia esgota rapidamente assim que chega ao mercado... é rateado e alvo de cobiça, um Mencía de grande qualidade. Se o vir não pense duas vezes, a compra e a prova valem cada cêntimo de prazer... esta foi a minha penúltima garrafa, em relação à que abri no ano passado com um
amigo, notou-se um ligeiro refinamento, vou guardar a última e ver como se comporta para finais deste ano. 92 pts
 
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