Copo de 3

05 outubro 2015

Ramos Pinto – Duas Quintas 25 anos de História

A casa Ramos Pinto foi fundada em 1880 por Adriano Ramos Pinto ao qual se juntou o seu irmão António. Numa casa onde a inovação e a mentalidade empreendedora sempre andaram de mãos dadas, destaca-se para o caso o nome de José Ramos Pinto Rosa que executou em conjunto com o seu sobrinho João Nicolau de Almeida o importante projecto da selecção das cinco castas recomendadas para o Douro, tanto para Vinho do Porto como para vinho de mesa. Inspirado no seu pai, Fernando Nicolau de Almeida, criador do Barca Velha, João Nicolau de Almeida cedo entendeu que parte do segredo seria juntar uvas de altitude (mais acidez) com uvas de maior maturação, provenientes de cotas mais baixas. Desta forma juntaram-se as uvas da Ervamoira (150m de altitude) com Bons Ares (600m de altitude), o nome pois claro seria Duas Quintas e após alguns ensaios seria lançado pela primeira vez com a colheita de 1990.
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Vinhas de Ervamoira – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados
O Duas Quintas foi à época uma inovação e um desafio que uniu às mais modernas técnicas de vinificação os tradicionais lagares, num projecto pensado de raiz e mais uma vez pioneiro na região e catalisador do surgimento de um “novo Douro”. Em 1991 iria surgir o Duas Quintas Reserva e em 1992 o Duas Quintas branco. Ao longo de 12 vinhos fomos tomando pulso aos 25 anos de História que a mestria de João Nicolau de Almeida nos ia traduzindo em vinhos e palavras.
Num breve apanhado pelos vinhos que mais me marcaram a prova começou com um magnífico Duas Quintas branco 2000 apresentado numa bela e esguia garrafa renana, decantado e servido o vinho no imediato deixou todos literalmente boquiabertos. Uma combinação entre frescura e toques de lápis de cera, com tisana e flores onde a fruta combina alternadamente entre a frescura e os toques mais untuosos da geleia. É daqueles vinhos que apetece beber e ter em casa mais umas quantas garrafas guardadas. Ao seu lado foi apresentado o Duas Quintas branco 2014 que mostrou toda a genica da sua juventude, quiçá irreverente onde dá para antever que o seu futuro também será de grande categoria.
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Duas Quintas 1990 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados
Demos entrada nos tintos, com o primeiro de todos, aquele que foi o início, o Duas Quintas 1990. Um vinho muito bonito, cheio de vida e onde a fruta parece rejubilar de alegria com tanto morango e framboesa fresca, muita energia com aromas terciários de muito bom-tom, cantos bem arredondados mas cheio de finesse e com uma presença de boca de fazer inveja. Um clássico em toda a linha tal como o eloquente Duas Quintas Reserva 1991 que foi o primeiro Reserva e teve a capacidade de elevar o patamar da qualidade muitos furos acima do que existia para a época na região.
Da colheita de excepcional qualidade, 1994, surgiram em prova os dois tintos. Comparando o Duas Quintas 1994 com o 1990, mostrou-se a meu ver melhor e com mais presença da fruta, algum vegetal num todo muito equilibrado. Já o Duas Quintas Reserva 1994 num perfil clássico de um grande tinto do Douro, nobre e cheio de carácter, muito complexo a combinar a frescura da fruta com um toque de caramelo de leite, uma delícia.
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Os vinhos em prova – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados
O final da prova seria com os vinhos do novo milénio, tal como o branco também o Duas Quintas Reserva 2000 mostrou ser um colosso a caminho do estrelato, denso, coeso e com muita frescura, tudo em grande onde só o tempo o poderá domar. O último vinho, Duas Quintas 2013 é bastante tentador, amplo de aromas com bonito perfume, tudo muito novo e cheio de energia, dentro do carácter e perfil que os vai guiando nesta fantástica viagem que começou em 1990.

03 outubro 2015

João Portugal Ramos, Vinhos

João Portugal Ramos licenciou-se em Agronomia pelo Instituto Superior de Agronomia em 1977. Estagiou no Centro de Estudos da Estação Vitivinícola Nacional de Dois Portos, após o que iniciou em 1980 no Alentejo a actividade de enólogo-gerente da Cooperativa da Vidigueira. Sairia passado pouco tempo, passando pela Casa Agrícola Almodôvar onde em 1982 ganha o prémio de Melhor Vinho na Produção com o tinto Paço dos Infantes 1982. Daria o salto para a Adega Cooperativa de Reguengos de Monsaraz onde ajudou a criar a marca Garrafeira dos Sócios. A partir da experiência acumulada, João Portugal Ramos constituiu no final da referida década a sua primeira empresa de nome Consulvinus com o objectivo de dar resposta às inúmeras solicitações de vários produtores, no seu percurso de glória criou alguns dos míticos Tapada do Chaves, Quinta do Carmo ou Cooperativa de Portalegre. A partir de 1989, a Consulvinus alargou a sua actividade para além do Alentejo, chegando ao Ribatejo, Península de Setúbal, Dão, Beiras, Estremadura e Douro.
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A Adega © Blend All About Wine, Lda
Em 1990, João Portugal Ramos plantou os primeiros cinco hectares de vinha em Estremoz, onde vive desde 1988, dando início ao seu projecto pessoal. A construção da adega em Estremoz, no Monte da Caldeira, iniciou-se em 1997, tendo sido ampliada em 2000. O sucesso e os prémios acumulados pelos “seus” vinhos ao longo da sua carreira valeram-lhe o reconhecimento nacional e internacional como um dos principais responsáveis pela evolução dos vinhos portugueses. Fruto da sua mestria têm nascido alguns dos grandes vinhos de Portugal, muitos deles ainda feitos em talha, vinhos que fazem parte da história e que têm tido a capacidade única de marcarem tanto percurso enófilo como foi o meu caso. Os exemplos são vários e na sua quase totalidade, incluindo os da década de 80, ainda mostram uma invejável forma na hora da prova.
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A gama de vinhos © Blend All About Wine, Lda
Muito recentemente face aos pedidos do mercado investiu nos Vinhos Verdes, já antes tinha no Douro juntamente com o enólogo José Maria Soares Franco criado o projecto Duorum. Passados 13 anos sem lançar uma nova marca de vinho alentejano, tirando os topos de gama, criou a marca Pouca Roupa com um enorme sucesso de vendas. Como tem vindo a ser hábito e não podia ser de outra forma, são os consumidores a ditarem o sucesso deste nome incontornável da enologia.

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Vila Santa Reserva 2012 & Vila Santa Reserva 2009 © Blend All About Wine, Lda
Na mais recente visita à adega e em animada conversa com o Engº João Portugal Ramos, foram colocadas em prova as mais recentes colheitas no mercado com um destaque para os brancos de 2104 que brilham alto fruto de um ano de excepcional qualidade. Foi proposto logo de início provar lado a lado a colheita mais recente com uma colheita anterior onde se começou pelo Vila Santa. O Vila Santa tinto nasceu na colheita de 1991, na altura ainda feito em talha, afirmando-se desde muito cedo como uma das grandes relações preço/satisfação existentes em Portugal. A qualidade assegurada colheita após colheita num perfil que tendo sofrido os necessários ajustes mas onde se tem sabido preservar o “estilo” Vila Santa que tanto prazer dá quando em novo como o 2012 ou mesmo com uns anos em garrafa como tão bem se mostrou o 2009.
De seguida provamos os Quinta da Viçosa, a meu ver os vinhos mais irreverentes do produtor e que nos oferecem a cada colheita o blend das duas melhores castas. Em prova o Quinta da Viçosa 2012 (Aragonês/Petit Verdot) e o 2011 (Touriga Nacional/Cabernet Sauvignon). Nota-se acima de tudo o cunho bem pessoal do enólogo, o espaço de destaque que a fruta ganha, limpa e sempre fresca, desempoeirada e inserida num conjunto sempre com bastante vigor, o tal vigor que permite sem exageros prolongar todos os seus vinhos numa linha de tempo muito acima da média. Quanto aos vinhos, o 2012 ainda muito vigoroso, demasiado novo o que me faz inclinar para o 2011, aquele travo de Cabernet Sauvignon a fazer lembrar Bordéus conquista-me no imediato, embora os dois ainda muito novos e a precisar de tempo em garrafa. Para estes dois tintos a escolha seria óbvia, carne de porco ou novilho com bom tempero, ligações com javali, veado ou caça grossa serão sempre vencedoras.

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Marquês de Borba Reserva 2012, Estremus 2001 & Quinta da Viçosa 2007 © Blend All About Wine, Lda
A fase final da prova contou com a presença daquele que é um dos “novos” clássicos do Alentejo, o Marquês de Borba Reserva que desde que saiu pela primeira vez na colheita 1997 conquistou por direito próprio lugar entre os grandes vinhos da nação. A evolução deste vinho é algo notável, comprova-se provando o 1999 que está num momento de forma magistral e ainda com muita vida pela frente. Terá sido este 1999 o melhor de todos até à data para o seu criador, eu irei juntar ao 1999 o 2012. Embora o 2013se encontre em momento pré-escolar a prova que dá é de um vinho ainda na fase de arrumos, tudo muito espalhado, muita caixa por abrir, precisa de tempo. Enquanto isso o 2012 já se mostra algo mais esclarecido, dá mostras de um conjunto luxuoso ao qual não se consegue ficar indiferente. A envolvência entre fruta/madeira confere um elevado grau de sensualidade e elegância ao vinho, no palato confirma tudo o que tem vindo a ser dito. Por esta altura são os pratos mais nobres e delicados que brilham, uma Perdiz Estufada é o casamento perfeito.
Para o final fica aquele que é de momento o topo de gama do produtor, o Estremus 2011, ainda que se tenha tido um vislumbre do que será a sua nova edição. Mas é no 2011 que as atenções se prendem com razões de sobra para que tal aconteça, o vinho que nem sequer nasce em vinhedo velho é um monumento de classe e raça. Muita finesse com a fruta num patamar de definição e frescura muito acima da média, no fundo sente-se a pujança e nervo de um grande vinho, um gigante adormecido com muitas alegrias para dar nos tempos futuros. A prova que dá esbarra numa saudável austeridade no palato, os tais taninos que ainda não se acomodaram, no nariz a cada rodopio no copo a complexidade vai-se desenrolando. Mais uma vez a enologia de João Portugal Ramos a conseguir lançar um vinho grandioso, como tem sido seu costume ao longo das últimas três décadas. Uau.

Publicado em Blend - All About Wine

01 outubro 2015

Adega da Cartuxa - No Reino do Pêra Manca

Passados quase 15 anos voltei à Adega da Cartuxa, ali paredes meias com o Mosteiro da Cartuxa onde vivem desde 1598 os monges Cartuxos. A Adega da Cartuxa, propriedade da Companhia de Jesus, foi nacionalizada após a revolução liberal do século XIX e adquirida em 1869 por José Maria Eugénio de Almeida. Apenas em 1950 a adega viria a ser modernizada por Vasco Maria Eugénio de Almeida, conde de Villalva, tendo entrado para os bens da Fundação em 1975. Foi a partir dessa altura que se começou a encarar a produção vinícola, com plantação de novo vinhedo entre 1982 a 1985, numa perspectiva completamente diferente, com ligação desde o início à Universidade de Évora através da equipa na altura chefiada pelo saudoso Engº Colaço do Rosário, a quem os vinhos do Alentejo muito devem. Foram marcantes as colheitas dos finais dos anos 80 como o Cartuxa branco 1987 estagiado em madeira em destaque ou em 1990 com o surgir do primeiro Pêra Manca tinto.
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Adega da Cartuxa © Blend All About Wine, Lda
Os motivos que me levaram a afastar dos vinhos da Cartuxa prendem-se com as evidentes mudanças de perfil que os vinhos começaram a sofrer com a entrada de uma nova equipa de enologia. Com isto viria um reformular dos rótulos e o meu total afastamento dos vinhos que deixei de encarar com a mesma paixão que então tivera muito por causa do Pêra Manca 1995, aquele que é o vinho mais marcante do meu percurso enquanto enófilo. Passado tanto tempo seria altura de voltar a tomar contacto mais de perto com a realidade vínica que hoje é criada na Adega da Cartuxa. As expectativas não saíram furadas, os vinhos saíram daquela fase confusa após mudanças na enologia, certamente que foram precisos algumas colheitas para assentar o perfil desejado com os necessários retoques.
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Tonéis © Blend All About Wine, Lda
Todos os vinhos provados mostraram um nível muito acima da média, a atenção apesar de tudo o que foi provado ficou centrada apenas nos Cartuxa que terminam em apoteose com os vinhos comemorativos dos 50 Anos, para atingir a apoteose com os Pêra Manca. O Cartuxa branco 2013 resultante de um lote de Arinto e Antão Vaz, destaca-se pela boa frescura e pureza da muita fruta madura (citrinos, pêra, ananás) num conjunto algo tenso com uma passagem de boca muito saborosa e séria, tudo no sítio, com uma acidez cítrica a tomar conta do final. No copo ao lado já estava o Pêra Manca branco 2012 a mostrar uma muito boa exuberância com um certo arredondamento, bonita evolução com tempo de copo que o teve e bastante. Harmonioso e envolvente, enche a boca de sabor e classe, frescura tem a suficiente que abraça todo o conjunto de forma equilibrada de maneira a que não temos por ali pontas soltas. O trabalho de madeira está nesta altura completamente integrado, um novo perfil que me agradou neste belíssimo branco.
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Os brancos © Blend All About Wine, Lda
A grande surpresa estaria guardada para o final da prova com um vinho que em conjunto com outros foi criado para comemorar os 50 anos da criação da Fundação Eugénio de Almeida por Vasco Maria Eugénio de Almeida. O Cartuxa 50 Anos branco 2012 é um branco cujo lote de vinha velha com as castas Arinto, Assario e Roupeiro fermentou com curtimenta completa durante 25 dias. Se tivermos em conta os vinhos que fizeram história nesta casa sempre foram no seu aparecimento autênticas irreverências perante o consumidor menos atento, desta vez a provocação surge logo pela tonalidade com nuances alaranjadas. O vinho tem uma complexidade fantástica, um ramalhete de aromas distinto, muito limpos de fruta madura, laranja, limão, ervas de cheiro, anis, muito cativador e diferente de tudo o resto, pelo meio junta-se a frescura que a tem e em muito boa conta, peso e medida.
Com um nível muito alto colocado na mesa era altura de mudar a tonalidade da prova e os tintos tomaram conta do palco. A conversa inicia com o enólogo Pedro Baptista a apresentar o Cartuxa 2012, que nos mesmos modos da versão branco vê centrar todas as suas atenções na qualidade e pureza da fruta madura, a remeter para aquele perfil mais clássico a que esta zona do Alentejo nos acostumou. Ainda cheio de vigor cheio de especiarias com apontamento vegetal, na boca replica a prova de nariz, amplo e atrevido a espicaçar os sentidos com muita vida e uns taninos marotos ainda por polir no final de boca. O salto que se deu foi em direcção ao Cartuxa Reserva 2012 a mostrar-se mais sério como seria de esperar, embora mantendo a toada clássica, juntando a energia do Alicante Bouschet com a generosidade do Aragonez, alguma gulodice com notas de alcaçuz, fruta madura num conjunto com frescura embora se mostre mais polido e com maior envolvimento. No palato é saboroso mostrando-se num patamar acima do anterior, uma diferença que se sente a todos os níveis.
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Os tintos © Blend All About Wine, Lda
O culminar da prova de tintos seria atingido com a apresentação do Cartuxa 50 Anos tinto 2011 onde a Alicante Bouschet brilha em conjunto com a Syrah. Este vinho em tudo especial mostra-se denso, escuro, misterioso e com uma complexidade que se vai desenrolando no copo de forma fantástica. A fruta carnuda e sumarenta aparece fresca, bem delineada, um deleite para os sentidos, a explodir de sabor no palato em conjunto com algum herbáceo, cacau entre outros. Um verdadeiro colosso com anos de vida pela frente que fez as minhas delícias preenchendo os mais altos requisitos. Fantástico. No copo ao lado estava o expoente máximo da Adega da Cartuxa, nascido pela primeira vez em 1990, o Pêra Manca tinto 2010. Sem comparações possíveis com o vinho anterior, diametralmente oposto pois aqui o que comanda é a finesse e harmonia de componentes, tudo numa toada de pura classe com frescura e fruta de grande gabarito. Diga-se que é dos que se bebem com imenso prazer, sem cansar e apetece sempre mais um copo e outro até que a garrafa fica vazia. É a todos os níveis um grande vinho, que se soube reencontrar no caminho das estrelas e mostra-se ao melhor nível a que a marca me tinha acostumado.

Terras da Gama Reserva 2012

O Terras da Gama Reserva 2012 apresenta-se como sendo o topo de gama deste produtor, cujo preço por garrafa oscila entre os 10/15€ garrafa. Um vinho Ribatejano, agora Tejo, feito a partir de Touriga Nacional e Alicante Bouschet, cheio de fruta muito madura com ameixa e frutos do bosque, ligeiramente especiado com aconchego morno da barrica a envolver um conjunto apelativo e convidativo. Com uma prova de boca cheia de sabor onde a fruta mostra ter ligeiro apontamento doce, alguma compota, novamente as especiarias em corpo estruturado com cantos arredondados. Final de boca com boa persistência num vinho fácil de gostar que mostra ter a acidez suficiente para acompanhar uma lasanha no forno. 90 pts

29 setembro 2015

Os Amphora da Herdade do Rocim

Um sonho que se tornou desejo, uma vontade que se tornou realidade, é assim que surge, entre Vidigueira e Cuba, a Herdade do Rocim. Este produtor de vinho do Alentejo, conta com uma propriedade de 100ha, adquirida em 2000 pelo empresário de Leiria,José Ribeiro Vieira, a pedido de uma das suas filhas e também enóloga, Catarina Vieira.
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Adega do Rocim, Herdade do Rocim © Blend All About Wine, Lda
A herdade foi alvo de trabalhos de reestruturação e qualificação durante 6 longos anos, incluindo a plantação da maior parte da vinha que hoje totaliza 60ha, repartidos por 40ha de castas tintas e 20ha de castas brancas. O projecto teve como ponto alto a edificação de uma adega perfeitamente enquadrada na paisagem e onde se destaca o enoturismo e a sua capacidade para acolher as mais variadas iniciativas culturais.
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O interior © Blend All About Wine, Lda
Nos dias de hoje a  Herdade do Rocim afirma-se como um dos grandes produtores sediados no Alentejo, contando com uma equipa de três enólogos composta por Catarina VieiraPedro Ribeiro e Vânia Guibarra. Por ali nada é deixado ao acaso e fruto disso é o detalhe e o bom gosto que tomaram conta daquela Herdade situada bem perto da Vidigueira. Nota-se que em toda a gama de vinhos e produtos comercializados há um detalhe e um carinho que os envolve, até na maneira como são dados a conhecer, nada é deixado ao acaso, novamente um mundo de pequenos mimos dirigidos por uma mão feminina, a mão da produtora Catarina Vieira.
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A gama de vinhos © Blend All About Wine, Lda
A gama de vinhos tem vindo a crescer, os rótulos têm vindo a sofrer os necessários ajustes meramente estéticos, tal como os vinhos que têm vindo a sofrer as necessárias afinações de perfil mostrando-se melhores a cada colheita que passa. Dos brancos aos tintos, mostram-se acima de tudo com frescura, cativantes, com uma fruta nada pesada e sempre com um perfil a mostrar boa harmonia entre as suas componentes sendo também todos eles muito gastronómicos. Vinhos que mostram o quanto enganados andam aqueles que afirmam que no Alentejo os vinhos não têm frescura ou que não sabem perdurar no tempo. A Herdade do Rocim faz parte do lote de produtores que têm vindo a mostrar uma vontade e um saber desmistificar todas essas mentiras ditas vezes sem conta. E dessa mesma vontade têm surgido nos últimos tempos algumas novidades, como um Espumante ou mesmo o Touriga Nacional e o Alicante Bouschet em modo varietal. Poderia também enaltecer o Rosé da linha Mariana ou tecer rasgados elogios ao colossal topo de gama, Grande Rocim.
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Talhas © Blend All About Wine, Lda
Mas para mim os vinhos que mais me marcaram foram os Amphora, um branco e um tinto, nascidos e criados nas famosas talhas alentejanas. São vinhos único, que carregam a alma e a identidade de toda uma região. Estes vinhos são a imagem do seu criador, o Sr. Pedro, o feitor da Herdade do Rocim e que trata as talhas por tu. Certamente que as conhece desde menino e se viu crescer lado a lado com aquela arte. E foram estes dois vinhos que me catapultaram para um passado que já não volta, são afinal de contas estes vinhos de tão simples, que por vezes se tornam grandes e tão complexos. Naveguei nos aromas, nos cheiros que invocam recordações, naquela vontade que nos fica de servir e beber mais um copo sem causar cansaço algum e sempre com um sorriso na cara. O mesmo sorriso que vi na cara do Sr. Pedro enquanto conversávamos.
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Herdade do Rocim Amphora branco 2014 © Blend All About Wine, Lda
Amphora branco 2014, tal como o tinto, é feito da forma tradicional e não tem qualquer contacto com inox ou madeira. Feito a partir de Antão VazPerrumRabo de Ovelha e Manteúdo, a diferença começa pela tonalidade que lembra a cor do latão, depois é toda a panóplia aromática que com o tempo de copo faz toda a diferença. Num misto de resina e vegetal, a fruta madura aparece limpa e rodeada de flores, tudo fresco e convidativo, misterioso e cativante. Na boca conquista pela forma simples e refrescante como acaricia o palato, sabe impor-se mas ao mesmo tempo convida sempre a mais um trago.
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Herdade do Rocim Amphora tinto 2014 © Blend All About Wine, Lda
Amphora tinto 2014 leva no lote as castas AragonezTrincadeiraMoreto e Tinta Grossa. Uma tonalidade aberta de tom rubi com a fruta (frutos do bosque, morango, ameixa) muito presente envolta num fino véu de barro. Em pano de fundo alguma resina, toque fumado, cacau em pó. Muita frescura num perfil que não cansa, cativa pela simplicidade, pela alegria com que se manifesta e se dá a conhecer. Encerra nele a simplicidade de um povo e o abraço morno de uma terra. No palato é o sabor da fruta, termina com ligeira secura e aquele travo a barro seco ao mesmo tempo que pede por comida e que nos sentemos a falar com ele.

Publicado em Blend - All About Wine

25 setembro 2015

Paulo Laureano Bucelas branco 2014

Mais uma prova que nasce fruto da partilha que a amizade proporciona, neste caso fruto da boa surpresa dos amigos que vieram de longe até à minha terra natal. Um dos vinhos que foram abertos foi este branco que o enólogo Paulo Laureano cria na região de Bucelas, tal como faz no Chão do Prado, estágio em inox com Arinto/Esgana Cão e preço em garrafeira a rondar os 6€. Não é dos brancos que mais me entusiasmou, encontrei pouco Bucelas comparando com outros valores seguros que a região coloca no mercado, mas a ter em conta que o Bucelas precisa de tempo em garrafa para melhor se mostrar, é um vinho nervoso e que nos primeiros tempos gosta de ficar pensativo. 

Servido fresco foi-lhe dado todo o tempo do mundo e por mais que queiramos há coisas que não mudam, o vinho neste caso não mudou e ficou estático e linear tal como se mostrou no primeiro instante. Delicado com aromas de frutos citrinos frescos e folha de limoeiro, algum nervo e chispa mineral. Na boca domina a leveza e pouco mais que isto, quiçá os nervos ainda lhe tomem conta da alma mas no que mostrou pareceu-me algo acomodado e sem capacidade de cativar no imediato. 88 pts  

19 setembro 2015

Portugal : Wine & Lifestyle


Portugal : Wine & Lifestyle
(By the Book, 2015, 35€)

Foi recente o lançamento deste livro da autoria de António Homem Cardoso e Margarida de Magalhães Ramalho junto da editora By the Book. A concepção de todo este projecto foi de Rita Soares, a cara mais conhecida da Herdade da Malhadinha Nova. Na sua ideia o objectivo principal é oferecer Portugal como um dos melhores destinos de enoturismo do Mundo, para complementar a ideia criou-se um site e um programa de divulgação.

O livro apresenta-se em formato bilingue (Português/Inglês) pois apenas assim faria sentido e combina o conceito de lifestyle com o mundo do vinho, levando o leitor numa viagem de sonho recheada de grandes fotografias do reputado fotógrafo e também autor, António Homem Cardoso.

É em todos os aspectos um excelente cartão de visita internacional daquilo que Portugal tem para oferecer e arrisco a dizer que talvez seja por cá filho único neste seu conceito muito próprio que nos transporta sempre com muito charme e elegância por locais de muito bom gosto, entre o hotel e o restaurante, a adega e o spa. Das parcerias que foram estabelecidas resultaram cerca de 20 locais a conhecer e visitar como por exemplo a Quinta do Ameal, Aliança Underground Museum ou a Quinta de Sant´Ana. 

Quer o texto quer as fotografias são de encher o olho, dando a sensação que somos transportados para aqueles espaços, ficando no final a vontade de querer visitar para ficar a conhecer melhor todos aqueles locais. O livro encontra-se à venda em livrarias e no site da editora com preço a rondar os 35€.

16 setembro 2015

António Madeira Vinhas Velhas branco 2013

aqui tinha falado acerca do António Madeira com o seu primeiro vinho, sendo agora motivo de interesse este seu primeiro branco, da colheita 2013, que resultou em pouco mais do que 600 garrafas fruto do trabalho de precisão e da vetusta idade das cepas cuja produção é bastante reduzida. António chama-lhe vinho de terroir, obviamente não poderia estar mais de acordo pois o vinho mostra um carácter tão diferenciador que apenas de aquele local poderia nascer um vinho assim. O António Madeira branco 2013 tem de delicado o que tem de profundo, denso e com uma bonita austeridade mineral que lhe domina os fundos. A fruta mostra-se limpa, pura, arrebitada e bonita, cheirosa com alguns ramalhetes de flores das giestas ali do campo. É daqueles vinhos que precisa de atenção, até de uma decantação prévia para que se mostre em condições, tal como no palato vincado pela força e austeridade do granito, muito boa acidez com a fruta a aconchegar. Sente-se alma e nervo, sente-se que temos aqui vinho para muitos anos, temos aqui um grande vinho do Dão. Perfeito a acompanhar peixes nobres de carne delicada ou simplesmente para apreciar em companhia de grandes amigos. 94 pts

14 setembro 2015

Vale dos Ares Alvarinho 2014


Oriundo da Região dos Vinhos Verdes produzido por Miguel Queimado (MQ Vinhos) com enologia de Gabriela Albuquerque. É um Alvarinho que não se deixa cair em tentações levianas, não peca nem pelo excesso de exotismo nem pela falta de afirmação, mora ali na rua do meio. Mas o morar na rua do meio não significa que seja descaracterizado, nada disso, é todo ele bem-apessoado, senhor do seu nariz, mostra-se sério e convincente envolto numa bonita e fresca fragrância. Elegante e harmonioso, fresco e convidativo, melhora com algum tempo de copo, com uma prova de boca fresca e marcada pela fruta, equilíbrio e uma estrutura firme embora flexível pelo que o vinho parece que se molda ao nosso palato, muito por causa da batonage a que foi sujeito. Nada a dizer pois claro a não ser como alguém disse à mesa… Deste já não há mais?  91 pts

11 setembro 2015

Marquês de Marialva Arinto Grande Reserva 2012

É o novo topo de gama branco da Adega de Cantanhede e apenas foi engarrafado em 2014. Escolha-se um copo largo que este é um branco que gosta de se espreguiçar enquanto desenvolve todos os seus encantos, criando empatia no imediato. A passagem por barrica não se faz disfarçar, mas é a fruta que nos conquista, cheirosa e bem fresca, muito bem delineada com apontamentos de limão, lima, laranja em geleia. Amplo, com muito boa complexidade a cativar a cada rodopio no copo com a casta sempre presente. Na boca é coeso, amplo e fresco, com ligeiro toque untuoso a embalar um conjunto que mistura a fruta fresca e sumarenta porem delicada com uma ligeira austeridade mineral de fundo. Um belo vinho com preço a rondar os 12€. 92 pts

Marquês de Marialva Reserva Arinto 2013


Sob a batuta do enólogo Osvaldo Amado surge este Arinto da Adega de Cantanhede que foi vencedor do 4.º Concurso de Vinhos e Espumantes Bairrada, onde 30% do lote fermentou em barrica nova. O resultado é um branco que nos cativa pela maneira como combina a frescura da fruta (lima, toranja) com leve vegetal, num perfil bem vincado e abraçado pela ligeira sensação de untuosidade que a madeira lhe confere. Fundo algo tenso e mineral, num vinho com passagem de boca prazenteira e saborosa. Mediano de corpo, não tão vigoroso como faria supor pela prova de nariz, mas com bastante frescura e um final seco. Um pouco acima da qualidade que a anterior colheita aqui se tinha mostrado. O preço ronda os 6,90€ em garrafeira. 90 pts 

10 setembro 2015

Quinta do Ortigão Reserva 2010

Um Regional Beira Atlântico criado na Quinta do Ortigão pelo enólogo Osvaldo Amado, o vinho estagiou 9 meses em barricas novas de carvalho Português. O resultado é um tinto muito apelativo, convidativo e fácil de se gostar. Com tudo muito bem arrumado nada destoa nem fica fora de contexto, fruta madura e saliente com toque de arredondamento conferido pela madeira. Na bonita complexidade que tem, acrescenta ainda um ligeiro travo vegetal na companhia de especiarias em fundo. Na boca o pendor gastronómico destaca-se ao primeiro sorvo, uma saudável e ligeira ponta de austeridade com fruta a explodir de sabor num final longo com boa dose de especiarias, onde a frescura está bem presente. Preço em garrafeira a rondar os 5,90€ 90 pts
 
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