08 Fevereiro 2010

Vinha de Saturno 2006

Segundo o que se pode ler no site da Dão Sul, a Herdade Monte da Cal é uma propriedade localizada em São Saturnino, perto de Fronteira, encontra-se no norte do Alentejo, com uma área de 100ha. Os solos são fortemente dominados pela argila com xisto à mistura e o clima muito quente no Verão, obriga a que a mão mágica do homem restabeleça o equilíbrio e abra caminho à harmonia e ao equilíbrio da natureza.
É da colheita de 2006 que a conversa se repete e em prova se coloca o novo topo de gama deste produtor por terras Alentejanas, baptizado com o nome da vinha que lhe deu origem, a Vinha de Saturno.
Como refere o rótulo, Saturno é o sexto planeta do Sistema Solar e, antes da invenção do telescópio, era o mais distante dos planetas conhecidos. A olho nu não parecia ser luminoso. O primeiro a observar os seus anéis foi Galileu em 1610; porem a baixa resolução do seu telescópio, fizeram-no pensar que se tratava de grandes luas.
É o segundo maior planeta do Sistema Solar, faz parte dos denominados planetas exteriores e o seu nome deriva do deus romano, Saturno.
Considerado como Deus da Agricultura e do Tempo, tem como dia consagrado o Sábado, que no tempo dos romanos seria chamado de dies Saturni, enquanto que os anglo-saxónicos chamavam de Saeterndaeg ou Saterndaeg, que iria derivar para o Saturday dos dias de hoje.
Tal como Saturno e as suas qualidades saturninas, será caracterizado pela escuridão, frio e peso.

Vinha de Saturno
Castas: Trincadeira, Aragonês, Alicante Bouschet e Baga - Estágio: 12 meses barricas novas de carvalho francês - 14,5%Vol.

Tonalidade granada escuro de concentração média/alta.

Nariz de aroma inicialmente fechado e com um ligeiro travo químico, pede que o deixem arejar no copo, surgem depois apara de lápis acompanhadas de bálsamo vegetal, especiaria e tosta da barrica a mostrar boa integração com a fruta que se cheira madura (cereja, amora, ameixa) de qualidade com compota bem fresca. Um conjunto que encerra uma boa complexidade, com segundo plano marcado por travo vegetal seco, onde tudo parece querer buscar ainda o melhor sítio para se mostrar, com fundo mineral.

Boca de estrutura coesa, amplo na presença e conquistador nas sensações que transmite. Equilibrado e sem devaneios, a frescura acompanha a prova de início ao fim, sente-se a fruta bem fresca com balsâmico, vegetal seco, torrados, chocolate preto, compota ligeira, especiarias e toque mineral fresco em fundo, mostrando boa persistência final, num conjunto que precisa de algum tempo para melhorar a prova que dá.

É sem dúvida um belo vinho, com uma garrafa que pelo seu peso quase que invoca o próprio Saturno. Um vinho que tem o seu toque muito pessoal fugindo um pouco da grande maioria dos vinhos da região. Agora ou daqui a uns anos, merece ser provado não a solo mas à mesa e em boa companhia. O preço deverá rondar os 35-40€.
17 - 91 pts

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04 Fevereiro 2010

Medalhas de papel

Começo este texto a propor um teste, vamos supor que durante uns tempos andaram a treinar para falar sobre determinado assunto durante 3 minutos, sucintamente apenas tinham que dizer o vosso nome a idade e onde moram, depois a determinada altura são encaminhados para uma sala cheia de público onde vão ter de dizer durante os tais 3 minutos o que aprenderam. Obviamente que os melhores desempenhos até vão ter direito a um prémio pois foram os que melhor disseram em tão pouco tempo. Agora imaginem que vão para a mesma sala, mas afinal já não são 3 minutos que vão ter de falar mas sim durante 1 hora. É nessa altura que a vossa conversa se vai tornar repetitiva, enfadonha e muita gente vai sair da sala por já não aguentar mais a ladainha do nome, idade e morada. Resolvem então aprender mais algo que dizer, para que da próxima vez que forem à dita sala, já irem prevenidos e caso vos seja dado mais tempo, já vão saber dizer o tamanho da rua, como são as casas, o número da porta... Voltam então à dita sala cheios de expectativas e para vossa surpresa apenas têm os tais 3 minutos, pelo que são apanhados de surpresa e de tão envergonhados que ficam nem sabem por onde começar, nesse mesmo dia acabou por vencer um dos tais concorrentes que só tinha treinado para os 3 minutos. Agora façam este exercício como se em vez de vocês, estivesse um vinho.

Um concurso de vinhos é essencialmente uma prova onde os provadores tentam provar o maior número possível de vinhos num tempo determinado que por norma é sempre limitado e reduzido. Ou seja, é quase uma corrida contra o tempo onde os vinhos vão sendo literalmente empurrados, espezinhados e esmagados uns contra os outros. Isto para não falar no provador e na saturação do mesmo após provar digamos, 25 vinhos de seguida. O provador tem que num tempo recorde, conseguir avaliar os vinhos que lhe vão caindo no copo, o que contraria e de que maneira aquela indicação de que alguns vinhos antes de consumidos precisam de algum tempo para melhor se mostrarem.
Mas então quem fica a ganhar com isto ? Focando apenas nos brancos, tintos e rosés, apenas e só os vinhos de gatilho rápido, muitos deles feitos para este "negócio" das medalhas e prémios, que raramente mostram grandes dotes quando provados com muito mais tempo do que aquele que foram feitos para durar. Sim é exactamente a conversa do tornarem-se monótonos, chatos, repetitivos, cansativos...
A realidade é que todo e qualquer vinho que beneficie de uma prévia decantação, e todos sabemos que há vinhos que 30 minutos é pouco para dito efeito, acabam por ser claramente prejudicados nestas orgias do vinho, que são os famosos concursos.
Das vezes em que fui júri, sempre me fez confusão aquela roda viva que se monta no vai e vem de vinhos, acabando quase por os ditos cujos nem terem o tempo necessário para se mostrarem. É sempre invocado que há muito vinho para ser provado e como tal não se pode perder muito tempo... somos olhados de lado se dedicamos mais tempo a um vinho do que o necessário para a ocasião. Ali não interessa se determinado vinho vai ganhar algo com o tempo no copo, ali o que interessa são os números finais, o que nós achamos que aquele vinho que ainda mal "comunicou" connosco, vale. E mais uma vez a pergunta surge, quem tem a ganhar com isto ? Os tais vinhos de concurso, os vinhos que se escarrapacham todos no copo, bombas de fruta e madeira, mas que numa mesa a sério nos saturam ao segundo copo ou acabam por ficar sem conversa passado os tais minutos para que foram preparados.

Obviamente que os vinhos medalhados não são maus vinhos por Natureza, são apenas vinhos que despertam um interesse momentâneo, o que não chega a ser suficiente para chegar a outros níveis que uma medalha de ouro supostamente teria que premiar. Tudo isto não quer dizer que não mereçam aquelas medalhas de papel que lhes são atribuídas, pelos menos tem o mérito pois foram os que melhor dissertaram durante aqueles breves minutos. No entanto e como tudo na vida, temos também os exemplares que não pertencendo à categoria do gatilho rápido, pela sua qualidade bem acima da média, conseguem amealhar sem grande espanto medalhas aqui e ali, lembrando aqueles atletas de alta competição, com qualidade reconhecida por todos, mas que vão a vários meetings apenas e só para se irem mostrando ao público.
Hoje em dia as medalhas e os prémios atribuídos são cada vez mais, há vinhos que num desespero de causa chegam a ter colados 3 e 4 papelinhos a dizer olhem para mim que sou um campeão do gatilho rápido, perdendo-se um pouco aquela noção do que é a verdadeira noção de excelência. Hoje em dia por dá cá aquela palha, aparecem vinhos medalhados em tudo quanto é prateleira de hiper ou garrafeira, o consumidor menos prevenido compra porque tem medalha pensando que o tal Ouro premiou a excelência enquanto vinho, puro engano. Afinal quantos vinhos desses que ostentam medalhas são na realidade Grandes Vinhos ?

Portanto se procura vinhos que no imediato, digamos nos primeiros minutos depois de abertos, lhe causem boa impressão, mas que depois são mais do mesmo e que seguramente nunca vão chegar ao tal patamar de excelência, aposte em força nas medalhas de papel.

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03 Fevereiro 2010

VALE D´ALGARES SELECTION branco 2008

O produtor Vale D`Algares lançou recentemente um novo segmento dentro do seu portfolio de vinhos. Denominado “Selection” este segmento situa-se entre o já conhecido Guarda Rios e o patamar mais elevado Vale D’Algares (Viognier). Numa primeira fase foi lançado o “Selection” branco, colheita de 2008, proveniente de uvas dos talhões que mais se destacaram no conjunto da vinha (9A+9B). Viognier e Alvarinho foram as castas que neste ano atingiram maior complexidade, elegância e frescura, características pilar desta gama “Selection”, um produto Super-Premium concebido pelo enólogo Pedro Pereira Gonçalves, produzido em solos argilo-calcários, sob um clima de influência Mediterrânico com influência do rio Tejo. Sujeito a uma colheita manual para caixas de 12 quilos, transportadas sob protecção de gelo seco, e vinificação em tapete de escolha de cachos. As castas – Viognier (55%) e Alvarinho (45%) – são sujeitas a prensagem 100% com engaço e fermentação alcoólica em barricas de carvalho francês (90%) e cubas de inox (10%). É comercializado nos pontos de venda a um P.V.P. recomendado de 8,5€.

VALE D´ALGARES SELECTION branco 2008
Castas: Viognier (55%) e Alvarinho (45%) - Estágio: barricas de carvalho francês com battonage, durante seis meses - 14% Vol.

Tonalidade amarelo citrino com dourado ligeiro em média concentração.

Nariz de boa intensidade, dominado por abundante fruta madura (pêssego, maçã verde, manga, lima, tangerina) acompanhada por tosta, algum melado, flores laranjeira, chá verde e mineralidade sentida em fundo. Boa frescura de conjunto, com toque de vegetal fresco, sentindo-se uma boa untuosidade dada pela barrica, com boa harmonia entre fruta/barrica/acidez num vinho que se sabe mostrar desde o início.

Boca de perfil bem estruturado, a mostrar desde logo um vinho fresco e com fruta bem presente em harmonia com leve cremosidade que confere algum arredondamento ao vinho. Além do bom volume na boca, tem também algum peso, jogando em pleno com o encontrado anteriormente na prova de nariz, sente-se a fruta bem madura, leve toque de calda, algum vegetal e travo mineral em pano de fundo, com final de persistência média/alta.

É um vinho também ele resultante de um lote improvável na região onde nasceu, digo improvável porque é fruto de uma casta estrangeira (Viognier) e de uma casta natural da região dos vinhos verdes (Alvarinho). Aqui o resultado é bastante satisfatório, destacando-se uma boa harmonia entre fruta/barrica/acidez/álcool, o vinho facilita e de que maneira a aproximação de quem o prova, mostra tudo o que tem e sabe manter-se assim durante o tempo suficiente para se terminar a refeição. É uma belíssima aposta, ainda por mais tendo em conta o preço que pedem por ele. 16,5 - 91 pts

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Monte da Peceguina branco 2008

Dando continuidade às provas de alguns brancos de 2008, rumo ao Baixo Alentejo mais propriamente à Albernoa onde fica situada a Herdade da Malhadinha Nova. É de lá que sai este Monte da Peceguina branco 2008. De invejável consistência qualitativa ano após ano, este vinho confirma-se como um valor seguro para o dia a dia com qualidade acima da média. O preço neste caso ronda os 7€, num vinho que se mostra mais apelativo e apetecível que outros de igual ou superior valor que podemos encontrar nas prateleiras.

Monte da Peceguina branco 2008
Castas: Antão Vaz, Roupeiro e Verdelho - 14% Vol.

Tonalidade amarelo citrino em rebordo esverdeado

Nariz de boa intensidade, cheira a pêssegos e alperces bem maduros e frescos, com algum ananás e citrinos. Complementa-se com a correspondente calda que lhe confere um suave toque melado, floral e travo vegetal fresco em segundo plano. Tudo bem delineado e muito aprumado, em conjunto fresco e harmonioso.

Boca de entrada fresca e frutada, gentil no trato, sentindo-se por vezes como que um certo arredondamento suave e frescura a marcar toda a passagem pela boca, com espacialidade mediana em boa persistência final.

O vinho de 2008 vem na linha do que esta marca nos tem acostumado, apesar de o álcool se apresentar algo exagerado, ainda que bem integrado, para o perfil de branco apresentado, falamos de 14% Vol. É um branco bastante aprumado, com a prova de boca a complementar a provar de nariz, revelando-se fresco e com certa dose de elegância. Transmite uma prova sólida e bastante coesa, num perfil que se torna muito apetecível nos tempos mais quentes. É um vinho que ganha bastante se consumido durante o seu primeiro ano de vida, com preço a rondar os 7€. 15,5 - 89 pts

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CRASTO branco 2008

É a segunda colheita deste vinho, nesta colheita de 2008 perdeu o Cercial (pelo menos na ficha técnica deixou de constar) e viu aumentar quase para o dobro a sua produção, foram 25000 garrafas em 2007 e agora em 2008 chegou-se às 41600 garrafas.

Crasto branco 2008
Castas: Gouveio, Roupeiro e Rabigato - Estágio: Inox - 12,5% Vol.

Tonalidade amarelo citrino de ligeiro toque esverdeado.

Nariz de boa intensidade, a variar entre uma fruta bem madura (citrinos, pêssego, fruta branca) em ambiente fresco com um travo de espargo verde, relva cortada e flores brancas. Um vinho que se mostra jovem e aprumado com certa dose de delicadeza, em final mineral.

Boca de corpo médio, bem estruturado com frescura a percorrer toda a boca, do principio ao fim. Sente-se a fruta madura presente ao mesmo nível do nariz, segundo plano com toque vegetal (espargo), a sentir-se alguma untuosidade que dá certa envolvência ao conjunto. O álcool nem se dá por ele, agrada bastante, um vinho que se bebe e torna a beber, com final mineral de persistência média/alta.

Segue a mesma onda/perfil da colheita anterior, embora com um pouco menos de chama quer no nariz quer na boca. Sente-se aquilo que se cheira, nada está escondido ou difuso, muito menos aglomerado, direi que o aroma está limpo e bastante "palpável". O preço ronda os 10€ num vinho que não nega a terra que o viu nascer, e claramente para se ir bebendo calmamente até à chegada da nova colheita. 15,5 - 89 pts

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01 Fevereiro 2010

Bétula branco 2008

A nota faz algum tempo que estava lançada, face ao que já tinha constatado noutras provas resolvi dar-lhe mais algum tempo, queria provar para comparar com a primeira impressão que me tinha sido transmitida, a verdade é que apenas me restava tirar a limpo uma pequena dúvida. Passado algum tempo, direi 2 ou 3 meses, voltei novamente a ele, coloquei o respectivo vinho em prova cega perante 4 amigos, todos eles presenças assíduas dos fóruns, blogs e eventos de cariz vínico que se fazem um pouco por todo o Portugal, para que provassem e numa tabela colocada à disposição, atribuíssem a nota correspondente. De início notou-se alguma tensão no ar, o vinho foi servido a temperatura adequada, dando o tempo necessário para que cada um dos provadores fosse tecendo as suas opiniões sobre o mesmo, no final e num pleno de harmonia as considerações de cada um dos presentes foram unânimes, a minha dúvida estava esclarecida. Durante largos minutos, discutiu-se sobre aquele vinho, se seria o mesmo que anteriormente já se tinha provado, aquele que alguns elogiaram e que ali não passava de apenas mais um entre tantos. Alguns dos que antes o elogiaram, estavam agora incrédulos, até a nota final era diferente... bem mais baixa do que antes tinha sido apregoado. Ainda voltámos a ele durante o resto da noite, as esperanças de que algo fosse melhorar ainda existiam... mas no final, nada de novo. O vinho em causa dá pelo nome de Bétula, surge na Quinta do Torgal (Douro), Freguesia de Barrô, margem esquerda do Douro e é da colheita de 2008.Vinhas plantadas em 2006, produção total de 3000 garrafas com a enologia a cargo de Francisco Montenegro (conhecido pelos seus belos vinhos Aneto), num lote 50/50 de Viognier/Sauvignon Blanc. Um lote improvável no Douro, talvez um risco em fazer um vinho com duas castas tão "mal" habituadas à dita região. O preço recomendado ronda os 14€, algo desajustado face à qualidade apresentada.

Bétula branco 2008
Castas: Viognier e Sauvignon Blanc - Estágio: Viognier (fermentado em barrica carvalho francês) e Sauvignon Blanc apenas em inox - 13,5% Vol.

Tonalidade amarelo citrino dourado em média/baixa concentração.

Nariz de parca intensidade e complexidade, não nos conquista nem com um aroma exuberante nem sequer com uma limpidez de aroma. Pelo contrário, o vinho mostra-se pouco comunicativo, com os aromas empilhados uns em cima de outros, não dando para entender muito bem as castas que dele fazem parte... sim com algum esforço ainda se chega lá, mas às cegas patinadela certa. Alguma fruta madura (maçã, pêssego, citrino) com toque vegetal fresco e mineralidade de fundo. Com o tempo em copo desdobra para um toque de calda de fruta (pêssego) e leve memória da madeira por onde passou.

Boca com entrada a mostrar uma ligeira untuosidade, a saber a fruta fresca e madura, maçã verde e novamente o pêssego com algum citrino, para depois descarrilar encosta abaixo, entre o vegetal fresco e o mineral e o vegetal fresco e o mineral... quebrando a meio... para voltar com travo de frescura em final médio.

Recentemente tive a oportunidade de provar alguns exemplares de Viognier e de Sauvignon Blanc dignos representantes de cada casta. Neles sempre foi visível o bom comportamento das castas, tanto a nível de aromas como a nível da prova de boca. O vinho em causa, apenas é um BOM vinho e não me lembrou minimamente esses tais vinhos que provei, nem tem que lembrar obviamente mas também não me lembra o Douro, nem as castas com que foi feito. Podem dizer que é um vinho mais virado para a mineralidade, para a secura, para o que entenderem, a mim não me convenceu minimamente, ficando a léguas dos seus primos ANETO. Um vinho atípico, sem despertar grandes emoções , sem identidade marcada...
15 - 87 pts

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28 Janeiro 2010

TILENUS CRIANZA 2004

A casta em questão é a Mencía, a mais nobre da denominação Bierzo (Espanha), uma casta associada ao Camino de Santiago e aos seus "pelegrins". Na Galiza espalha-se pela região de Valdeorras (Orense) , Ribera Sacra, e estende-se até à província de León onde ocupa 2/3 do vinhedo da Denominação de Origem El Bierzo. Dá vinhos de tonalidade púrpura, de aroma intenso de delicado, digamos vinhos de nariz elegante com frutos vermelhos e com bom equilíbrio entre álcool/acidez, boa evolução em garrafa.
Para os mais distraídos esta é a mesma casta que no Dão se chama Jaen, onde curiosamente é raramente vista engarrafada a solo, apesar de ser uma das mais plantadas no concelho de Mangualde e também no concelho de Gouveia, sendo que neste último atinge uma percentagem próxima dos 90% de todas as castas tintas cultivadas. De maturação precoce e de generosa produção, torna-se sensível a zonas demasiado húmidas e férteis. Os vinhos enquanto novos, arredondam muito depressa, e diz-se que para envelhecer precisam da pujança da Touriga Nacional e da acidez da Alfrocheiro Preto, isto claro está se quisermos ter vinhos com vida longa.
O que será que se entende por vida longa ? Será que falamos de quantos anos... 5, 10, 15, 20 anos ? Recentemente tive oportunidade de beber um Tilenus Pagos de Posada 2001 e não lhe notei falta nem de pujança ou mesmo de acidez, encontrei sim um vinho que contraria simplesmente aquilo que por cá se vai dizendo. Ou só vamos ligar à Jaen quando estivermos todos saturados de Touriga Nacional ? Não se faz melhor porque não se pode ou porque não se sabe ? Felizmente há em Portugal alguns irreverentes que tentam contrariar tudo isto e tentam produzir no Dão, bons exemplares de Jaen, os quais vão ter destaque em breve no Copo de 3. Por agora coloco em prova um fiel exemplar da casta Mencía, das Bodegas Estefania, proveniente do município de Villafranca del Bierzo, vinhas com idades compreendidas entre os 60-80 anos, situadas entre os 600 - 700 metros de altitude. Foi com esta marca e com "este" crianza, que tive o primeiro contacto com a casta Mencía, foi este o responsável por querer conhecer mais vinhos, mais adegas da região, enfim, direi que foi um entrar com o pé direito e ainda bem que assim foi.

TILENUS CRIANZA 2004
Castas: 100% Mencía - Estágio: 12 meses barricas carvalho francês - 13,5% Vol.

Tonalidade granada escuro de concentração média/alta.

Nariz com aroma de boa intensidade, baunilha e fruta vermelha bem delineada e madura (groselha, framboesa) apresentado um ligeiro toque de fruta confitada em harmonia com aroma floral (lembra violetas e não é Touriga Nacional). A barrica mostra-se fina e muito bem integrada, combinando muito bem com um lado mais fresco que se faz sentir ao mesmo tempo que em segundo plano surgem aromas mais mornos como o couro, cacau, cravinho e toque fumado no final.

Boca com todos os seus atributos bem arrumados, direi bem estruturada, sabe a fruta vermelha bem madura acompanhada por leve apontamento vegetal. É um vinho que se mostra arredondado, macio, com a barrica em plena harmonia, o vinho mostra frescura, boa espacialidade e elegância. No fundo dá sinais que aguenta mais uns tempinho em garrafa, embora a prova que dá seja bastante satisfatória neste momento.

É daqueles vinhos que se deve tentar conhecer/beber, está muito bem feito, apelativo e capaz de agradar a um leque bem alargado de consumidores. Um vinho que gosta de comida, muito vocacionado para a mesa, para a chamada cozinha de tacho. Com um preço que ronda os 14€, é uma aposta mais que ganha para todos aqueles que pretendem conhecer um dos bons exemplares de Mencía sem ter de gastar muito €€€, ainda com a mais valia de que vai refinar um pouco mais em garrafa. 16 - 90 pts

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27 Janeiro 2010

Clan Charco Las Animas Rosado 2008

Em seguida falarei de um vinho rosado, vindo das terras de Castilla e León (Espanha), mais propriamente da zona dos Oteros (Gusendos e Grajal de Campos). Elaborado com uma casta autóctone dessa mesma zona, ocupa hoje em dia uma área aproximada dos 3.000 ha de vinhedo em toda a região. Produzido pelas Bodegas Estefania (Tilenus), este Charco Las Animas Rosado 2008 provem de vinhas situadas a 900 metros de altitude com 50% das uvas com idade compreendida entre os 70-90 anos e os outros 50% de vinha com 11 anos, durante a fermentação o vinho teve uma breve passagem por carvalho francês, terminando em inox, com uma produção final de 1300 garrafas.
A aposta firme e convicta nas variedades autóctones de cada zona, é cada vez mais frequente em Espanha. Basta dar um pouco de atenção para reparar que por detrás de um mar Tempranillo moram vinhos bastante interessantes, cheios de personalidade e feitos com uvas que praticamente passam desconhecidas para a grande parte dos consumidores. Já aqui tinha dado o exemplo de uma jovem adega que aposta fortemente na casta Mencia para elaborar os seus vinhos, os resultados desse esforço têm vindo a ser recompensados com o merecido reconhecimento por parte da crítica espanhola e estrangeira desde a primeira colheita. Nota-se portanto que há uma preocupação por parte de quem produz e de quem começa a produzir, apostar na qualidade mas ao mesmo tempo na diferença com as uvas "nativas" de cada região, mesmo que ajudadas em menores percentagens por outras castas.
Em Portugal cada vez mais andamos a ser abafados sempre pelas mesmas castas, as ditas cujas quase que se tornaram imigrantes e os vinhos vão perdendo a identidade a bem do negócio, trocando-se a paixão pelo negócio puro e duro, importa vender seja de que maneira for, mesmo que isso implique recorrer aos facilitismos... é quase que fazer pintura por números, criatividade é quase nula, mudando-se apenas as cores sem que a coisa fique a destoar muito. Entendendo que se pode e deve dar lugar ao vinho de lote, mas são poucos os produtores em Portugal que apostam fortemente numa vinificação a solo das castas "nativas" de cada região, embora o regozijo seja enorme quando se diz à boca cheia que temos um património muito vasto. Porque razão não temos mais vinhos 100% de Jaen, Tinta Grossa, Tinta Amarela, Tinto Cão, Vital... Ou poderei perguntar porque razão as castas ditas "desconhecidas" lá fora resultam e cá dentro nunca se pode falar em varietal sem que alguém venha a correr criticar e dizer que falta sempre qualquer coisa, acidez, volume, complexidade, intensidade... ?
O vinho que se segue foi sem dúvida alguma um dos Rosados/Rosés que mais prazer me deu no ano de 2009, a produção é reduzida mas a qualidade, a polivalência que mostrou para a mesa e acima de tudo a forma diferente e divertida como se mostra na prova que dá, são motivos muito fortes para não se ficar indiferente a um vinho como este.

Clan Charco Las Animas Rosado 2008
Castas: 100% Prieto Picudo - Estágio: Fermentação com passagem por carvalho francês e inox - 13% Vol.

Tonalidade granada vivo a lembrar a romã.

Nariz de bela intensidade, ou digamos a cheirar muito e bem, com aromas que variam entre o vegetal fresco (rama de tomate, esteva molhada) com fruta vermelha (groselha, framboesa, cereja) e alguma tangerina bem madura e limpa, com algumas flores pelo meio. Ramalhete a mostrar-se sério e bem composto, frescura e a desenvolver um ligeiro toque fumado devido à passagem por madeira, que não chega nem de perto nem de longe a dar sinais durante a prova do vinho. Dá vontade de cheirar e de beber.

Boca com entrada a mostrar-se fresco, seco e de enorme polivalência à mesa. Sabe a cereja, framboesa e groselha madura, com um leve apontamento vegetal pelo meio, como se tivéssemos trincado ao mesmo tempo a rama da framboesa. Envolvente, macio, tem identidade marcada e ao mesmo tempo tem garra, apesar da ligeira goma de fruta vermelha, sabe a vinho e não a doce, que o rosé não é para saber a doce, com o final de boca a mostrar uma bela persistência.

É um vinho que dá muito prazer beber, é vinho para a mesa, para beber com os amigos. Foi assim que este vinho foi partilhado e bebido, com os amigos, todos gostaram, elogiaram, pedem onde se arranja mais para ter em casa. Este está entre os melhores do lado de lá, é claramente diferente, tem identidade, foge do receituário a que estamos acostumados, é como em vez de xarope para a tosse passarmos a beber uma tisana ou um chá. Acompanha saladas, pizzas, pastas, as mais variadas entradas, marisco, e até serve para ser bebido sozinho a pensar que os cerca de 8€ que custa, a produção ronda as 1300 garrafas, envergonharem tanto rosé "mal" feito em Portugal. 16,5 - 91 pts

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Bodegas Estefanía

É com enorme prazer que retorno a terras de Espanha e mais concretamente à D.O. Bierzo, onde reina a casta Mencia, introduzida pelos romanos faz mais de 2000 anos (a famosa Jaen no Dão). Curiosamente em Portugal são poucos os produtores que "ligam" a esta casta em extreme, inventa-se sempre a desculpa de que ou precisa de Touriga Nacional ou precisa de mais uma pitada de Alfrocheiro para... para nada. Basta provar os vinhos do lado de lá para se entender que a casta, quando bem trabalhada a solo (se calhar é isto que por cá não se sabe fazer) dá resultados de altíssima qualidade. E não se preocupem com o envelhecimento que é coisa que sabe fazer e muito bem.

Neste caso falo de um produtor que tenho tido o prazer de acompanhar desde que surgiu no mercado, e cuja empatia com os seus vinhos foi imediata. As Bodegas Estefania surgiram em 1999 quando os irmãos Frías realizaram o sonho de produzir vinhos mono varietais de alta qualidade.

A D.O. de Bierzo fica situada a Noroeste da Península Ibérica, num vale rodeado pelas montanhas que separam León, Galiza e Astúrias, contando na totalidade com 4500ha de vinhas velhas, com poucas parcelas a ultrapassarem os 2ha. As Bodegas Estefanía contam aqui com cerca de 40ha de vinhas, quase centenária, em Valtuille de Arriba e Pieros, situadas em ladeiras de grande desnível que apenas permitem a vindima manual.
Para além da produção de vinho D.O. Bierzo, consta também da produção vinho Ecológico, proveniente das vinhas situadas em Castillo de Úlver (nome do vinho), em Arganza, com uma altitude que varia entre os 550 e os 650 metros de altitude. Aqui a idade da vinha ronda os 15 anos, variando entre a Tempranillo e a Mencía (fruto de uma recente reconversão das vinhas de Tempranillo). Por outro lado e situadas a 836 metros de altitude, ficam as vinhas de Prieto Picudo, com idade a variar entre os 80-100 anos, e cujos vinhos resultantes são Vino de la Tierra de Castilla y León com marca de nome Clan.

É sem dúvida alguma, uma zona que merece ser conhecida pelos magníficos vinhos que tem vindo a produzir nos últimos anos, alguns considerados como dos melhores de Espanha e capazes de nobre evolução durante largos anos em garrafa. Neste caso temos um produtor que desde cedo se afirmou como um dos portos seguros no que a vinhos do Bierzo se trata, com a enologia a cargo do enólogo Raúl Perez.
A marca é Tilenus, e os vinhos são classificado como Joven, um vinho que assenta na frescura da fruta aliado às características muito próprias do terroir onde nasceu. O Roble tem uma breve passagem por madeira, a suficiente para lhe conferir alguma complexidade e amainar a força da fruta, com um pouco mais de harmonia surge o Crianza que se afirma como o estandarte deste produtor, um vinho delicado que conjuga de forma muito elegante barrica com a frescura da fruta. Por fim o Pagos de Posada, um belíssimo vinho, de enorme finesse, rico bouquet e onde parece que nada falha tal o prazer que nos transmite durante a sua prova, já o Piero... vinho de guarda por excelência, são poucas as palavras para o descrever tal como foram muito poucas as vezes que o tive no copo.

Provados mais recentemente (notas de prova colocadas brevemente):

Clan Charco Las Animas Rosado 2008 16,5 - 91 pts
Tilenus Roble 2006
Tilenus Crianza 2004

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25 Janeiro 2010

Niepoort Garrafeira 1931

Situadas na Rua Serpa Pinto, Vila Nova de Gaia, as caves da Niepoort servem de ginásio a todos os vinhos do porto deste produtor, é ali que os vinhos se colocam em forma até estarem prontos a sair para o mercado. As máquinas à disposição naquele espaço variam desde as madeiras, garrafas ou os peculiares demijons, sob batuta atenta do Masterblender, Sr. José Nogueira, cuja ligação familiar à Niepoort remonta já ao seu pai, e estendeu-se em 2006 ao seu filho. É neste mesmo local que a magia acontece, uma autêntica fábrica de sonhos engarrafados, seja no formato Ruby, Tawny ou Garrafeira.

"Eu diria que os 'Garrafeiras´ são os mais elegantes tipos de Porto, passam entre três a seis anos em madeira e depois são engarrafados em garrafões de vidro - dimijons - do século XIX. Este envelhecimento parece que lhes dá uma enorme elegância. Quando um 'Garrafeira' é bom, ... é fantástico!"
Dirk Niepoort

Desde que comecei a dar atenção ao mundo dos vinhos, algo que sempre me fascinou e fez parte dos meus desejos enquanto enófilo, foi poder provar um Garrafeira Niepoort. Por sorte esse ritual já se realizou por duas vezes, com uma estreia que para mim não podia ser melhor visto ter sido com o Niepoort Garrafeira 1977 (ainda por sair para o mercado), o ano do meu nascimento, e a mais recente prova foi também ela, um momento raro, com a abertura de um demijon de 1931.

Nos dias que correm, o estilo de Porto, Garrafeira, é um exclusivo da Niepoort, e pelos preços que atingem tendo em conta a raridade dos mesmos, tornam-se objecto de culto e poucos são aqueles que lhes têm acesso. Comprova a sua raridade as poucas vezes em que foi feito e se apontei correctamente todos os anos (caso falte algum é favor indicarem): 1931, 1933, 1938, 1940, 1948, 1950, 1952, 1964, 1967 e 1977 (este último ainda por sair para o mercado).

O Garrafeira Niepoort é sempre de um ano específico, tal como os Colheita, onde após um estágio em madeira que poderá variar entre os 3 e os 6 anos, o vinho é transferido para demijons.
Um demijon ou "demijohns", é uma espécie de balão de vidro que varia entre os 7 e os 11 litros de capacidade. Foram comprados pelo bisavô de Dirk Niepoort no séc. 19, tendo sido produzidos na Alemanha em Flensburg no século 18. É então nestes peculiares recipientes que o vinho irá estagiar por longos períodos, podendo chegar mesmo aos 50 anos, sofrendo assim uma lenta oxidação (é mais lenta em vidro do que em madeira). Quando termina o estágio, o vinho é decantado e posteriormente engarrafado em garrafas de 750ml, onde vai permanecer o tempo necessário até ser colocado à venda ao público.

Caracterizar um garrafeira pode não ser tarefa fácil, mas dos dois que tive a oportunidade de provar e embora lhes tenha encontrado traços similares, notei que por exemplo o 1977 pareceu ter uma tonalidade mais aproximada a um tawny velho, enquanto que o 1931 a tonalidade lembrava um pouco mais o estilo ruby no meio com tiques de tawny no rebordo. Direi mesmo que o Garrafeira combina o melhor dos dois estilos Ruby e Tawny, indo mais longe, talvez arrisque a dizer que por isso mesmo seja o estilo de porto perfeito. A eles, aos Garrafeira, fica sempre associado o famoso "cheiro a garrafa" derivado do longo contacto com o vidro, e os aromas daquele 31 acabado de sair do demijon é coisa que me ficará na memória.

Naquele fim de almoço, que já aqui relatei, tive a oportunidade de presenciar a abertura de um demijon Garrafeira 1931 da Niepoort, e de provar um vinho com 79 anos de vida acabado de sair do único reduto que conheceu no último meio século de vida, após passagem durante 4 anos em madeirasem, sem que tenha sido decantado ou engarrafo previamente, o que aumenta ainda mais a exclusividade do momento. Um registo que fica para a vida, quer pela emoção que sentimos naquele instante, quer pela raridade que o próprio acto envolve. O Garrafeira Niepoort 1931, mostrou-se delicado, fresco, com um bouquet de enorme finesse e elegância. A precisar de muito tempo para despertar no copo, mostrando uma boa intensidade de aromas, rebuscando um pouco de tudo, misturando fruta madura com fruta em passa, vinagrinho, especiaria doce, uma complexidade que parecia nunca mais querer acabar... uma autêntica caixa de aromas. Boca muito equilibrada, muito mesmo, frescura sentida, boa espacialidade e ao mesmo tempo a mostrar-se delicado. Com uma doçura não muito pronunciada, equilibrada pela frescura e por um final de grande persistência. Sei que por mais que queira escrever sobre este vinho, vai ser sempre pouco, a nota aqui é o que menos interessa.

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