Copo de 3: 2004
Mostrar mensagens com a etiqueta 2004. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 2004. Mostrar todas as mensagens

22 março 2016

Tinto da Talha Grande Escolha 2003 a 2010



Desta vez rumo à vila de Redondo, mais propriamente à Roquevale que fica na estrada para Estremoz entre Redondo e a Serra D´Ossa. A empresa possui duas herdades num total de 185 hectares, a Herdade da Madeira Nova de Cima vocacionada para a produção de tintos onde despontam os solos de xisto e a Herdade do Monte Branco com solos de origem granítica mais vocacionada para a produção de brancos, onde está sediada a adega. A empresa que hoje se assume como a segunda maior empresa privada do Alentejo, a produção ronda os 3 milhões de litros por ano e é liderada pela enóloga Joana Roque do Vale.

O mundo do vinho e Joana Roque do Vale sempre andaram de mão dada, desde a infância em Torres Vedras onde os seus bisavôs eram produtores. Após a revolução de Abril o pai de Joana, Carlos Roque do Vale decide mudar-se para a vila de Redondo para tomar conta das duas herdades do sogro (que em 1970 já tinha iniciado a plantação de vinha na zona de Redondo). A Roquevale iria nascer em 1983 de uma sociedade entre Carlos Roque do Vale e o seu sogro. O caminho de Joana estava traçado, o mundo do vinho era a sua segunda casa, daí até fazer o seu estágio curricular na Herdade do Esporão foi um ápice. Aprendeu com os melhores, como coordenador de estágio teve o engenheiro Francisco Colaço do Rosário e o enólogo Luís Duarte que já na altura era também consultor da Roquevale. Terminado o curso começou a trabalhar na empresa da família onde iria assumir pouco tempo depois a enologia da empresa.

Um produtor com marcas bem conhecidas dos consumidores onde se destacam nomes como Terras de Xisto, Tinto da Talha ou Redondo. O vinho agora em destaque foi durante largos anos considerado como o topo de gama da empresa, o Tinto da Talha Grande Escolha que nos mostra as duas melhores castas de cada colheita. A prova em formato vertical começou com o 2003 e foi até ao 2010, mostrando em todas as colheitas um vinho que encarou com naturalidade a passagem do tempo, sem sinais de desgaste ou velhice acentuada. Sempre com direito a passagem por barricas novas, durante as primeiras colheitas destaca-se a assídua presença da Touriga Nacional que ia intercalando com Aragones ou Syrah, daria lugar depois à Alicante Bouschet que combina com Syrah ou Aragones sendo 2009 o único que junta Touriga Nacional com Alicante Bouschet.



O que mais gostei foi o 2010 Aragonês/Touriga Nacional que mostra uma dupla em perfeita harmonia num conjunto cheio de vida com muita fruta madura, algum vegetal presente, tudo em perfeita harmonia. Amplo, guloso, exuberante com ponta de rusticidade, num bom registo fiel à região e a pedir comida por perto. Muito bom está o Aragonês/Alicante Bouschet 2008 que mostra um conjunto cheio e guloso, cacau, fruta sumarenta com pingo de doçura, tudo balanceado e fresco, bálsamo de segundo plano com muito sabor no palato, equilibrado e com taninos a marcarem ligeiramente o final. Seguido bem de perto pelo 2003 junta Touriga Nacional/Aragonês que sendo a primeira colheita mostrou-se em muito boa forma a juntar a uma fruta vermelha ainda madura uma bonita frescura de conjunto com bálsamo fino, couro, especiarias, tudo em corpo médio ainda com energia e final longo. O Tinto da Talha Grande Escolha 2009 junta Touriga Nacional/Alicante Bouschet, inicio com vegetal fresco e fruta madura e de apontamento mais doce, de início algum químico, tudo muito novo cheio de garra e bastante sabor, boa frescura mas final um pouco mais curto do que se esperava.

O Aragonês/Syrah 2007 é de todos aquele que menos conversa, cerrado com aroma químico de início, cacau, pimenta, fruta envolta em geleia, frescura a envolver tudo com boca saborosa, rebuçado de morango em fundo com balsâmico num conjunto bem estruturado com bom suporte e persistência. Um vinho com muito ainda para dar e que certamente está em fase de arrumações. Da colheita 2004 Syrah com Touriga Nacional saiu um tinto com fruta vigorosa, muita pimenta com chocolate de leite, arredondado e coeso, ligeiro vegetal de fundo. Mostra a fruta bem limpa e saborosa, cereja ácida, amora, bom de se gostar. Para o fim ficaram as colheitas 2005 Touriga Nacional/Aragonês que se mostrou de todos o vinho mais aberto e espaçado, tímido mas a mostrar o cunho Roquevale bem patente. Muito melhor na prova de boca, que se fosse de igual gabarito no nariz, seria um caso muito sério. Por fim o que menos gostei, o Syrah/Touriga Nacional 2006 que despejou no copo aromas químicos com vegetal acentuado, num conjunto agreste, muita nota fumada, rusticidade a fazer-se sentir. Ligeira frescura na boca com alguma fruta em corpo mediano e sem ter a mesma prestação que os outros irmãos de armas.

26 maio 2015

Colecção Privada Domingos Soares Franco Moscatel de Setúbal 2004


Nasceu na José Maria da Fonseca fruto de uma investigação que durou cinco anos de ensaios com quatro tipos distintos de aguardente: neutra, Cognac, Armagnac e 50/50 Cognac Armagnac. Resultado foi que prevaleceu a escolha no Armagnac pela subtileza, frescura, complexidade e harmonia que mostra durante a prova. O envelhecimento é feito em cascos de madeira usada, sem estágio posterior em garrafa pois não evolui após o engarrafamento.

Sem ter todo aquele porte mais denso e melado que os exemplares mais velhos e de categoria Superior, este Coleção Privada Domingos Soares Franco 2004 banhado em Armagnac mostra-se fresco e delicado, ao mesmo tempo que desperta o lado mais guloso. Muita tangerina, caramelo, alperce, tília, muito bem composto com um palato forrado de sabor, elegante e suavidade da fruta com caramelo e calda de laranja, acidez muito presente até final. Despedida longa e persistente, numa belíssima harmonia entre as sensações tanto do aroma como do palato. Para mim que sou guloso é parceiro ideal com uma torta de laranja. 94 pts

09 março 2015

Quinta dos Roques Encruzado 2004

Devemos celebrar o vinho enquanto tal, enquanto ainda nos transmite de forma eficaz e esclarecida a sua mensagem sem esquecimentos ou grande esforço. Os que o fazem dessa maneira, que parece simples, são os grandes vinhos, aqueles que sabem e aprendem com o tempo. Por vezes insistimos em escutar as palavras que já lá não moram, insistimos e inventamos, não por culpa do vinho mas por culpa nossa. Ora este Quinta dos Roques Encruzado de 2004, vai a caminho dos 11 anos de vida, é daqueles que merece ser escutado porque muito ainda nos tem para contar. É dito e sabido que a casta Encruzado (Dão) quando bem trabalhada, como é o caso, gosta de dormir uns bons anos antes de nos deliciar com todo o seu esplendor. 

Este 2004 mostra uma espetacular envolvência de nariz, complexidade numa onda de frescura com toque de mel, fruta bem madura e suculenta, ervas de cheiro, profundo e cativante, sério e a aguentar-se muito bem no copo. Boca a mostrar ligeira secura, fruta suculenta e fresca, tisana, rebuçado de limão, sensação de untuosidade e um pequeno apontamento de fruto seco no fundo, largo e persistente. Cativante, charmoso, a derradeira recompensa para quem sabe esperar. 95 pts

26 outubro 2014

Astrales 2004

O vinho que se segue foi comprado em leilão por uma ninharia e é na verdade um dos grandes vinhos com assinatura de Eduardo García, enólogo e filho do reputado enólogo Mariano García. As coisas ficam um pouco mais esclarecidas quando se colocam na mesa nomes pelos quais Eduardo García é responsável, como os San Román (Toro), Mauro (Castilla y León), Paixar (Bierzo) e claro está este Astrales na Ribera del Duero. O ano 2004 foi excelente, dos melhores que há memória na região nos últimos tempos, somando a tudo isto junta-se a mestria de quem sabe trabalhar os vinhos como poucos, o resultado só pode ser aquele que é provavelmente o melhor Astrales feito até hoje.

O vinho é 100% Tinto Fino de parcelas muito velhas com algumas a rondar os 80 anos de idade, estágio de 18 meses de barrica numa produção total de 39.000 garrafas. A marca de quem os faz sente-se desde o primeiro sorvo, destaca-se a harmonia entre força e elegância, o trabalho sempre muito refinado das madeiras que dão lugar a fruta de enorme qualidade/definição. Os morangos, amoras e cerejas bem envoltos em licor, notas de balsâmico, tabaco,  tosta muito suave, denso e profundo, grande e requintada complexidade. Na boca continua a festa, potência e frescura lado a lado, ainda com um ligeiro toque agreste em fundo. Muito longo, muito presente, muito prazer com harmonia e suavidade com a fruta sumarenta a marcar toda a passagem pelo palato, final fresco e prolongado. 93Pts

16 abril 2013

Quinta do Carmo Reserva 2004

Mais uma daquelas garrafas que habitava no lote dos esquecidos que tenho aqui por casa, literalmente nunca foi alvo de escolha para qualquer repasto aqui ou noutro lado qualquer. Um vinho que considerava controverso, quando foi apelidado de grande  nesse tempo achava-o demasiado fechado e pouco falador, depois de algum tempo vozes insurgiram-se que já estaria na fase de declínio, e o vinho naquela altura estaria numa fase menos boa, mais confusa e ora dava uma prova triste ou era uma maravilha. Esta sempre teve direito a condições de guarda muito perto do ideal, sempre foi mimada, embora sempre fosse preterida o que acabou por a deixar ali a um canto. O tempo passou e resolvi dar-lhe uma oportunidade, antes que fosse tarde demais.
A espera e a desconfiança revelaram-se sem qualquer nexo, está um senhor vinho este Alentejano (Quinta do Carmo) de sotaque Francês (Domaines Barons de Rothschild), que em muito honrou a nobre feijoada que o acompanhou. Elegância e complexidade definem este vinho, podemos somar a tudo isso a frescura que lhe percorre a alma, e que perdura no final de boca com uns bonitos tons balsâmicos, mas o vinho é mais que isso. Muita e da boa, a fruta nos toques vermelhos acompanhada de compota, vegetal seco, especiarias, muita classe, evolução para tabaco seco e toda aquela panóplia de aromas que constam dos manuais que indicam vinhos de grande gabarito, depois a fruta pode ou não mudar de tonalidade e a sua definição tal como a frescura do vinho ou concentração do mesmo. Na boca todo ele muito bem composto, carnudo mas ao mesmo tempo profundo, elegante, marca o palato com presença acetinada e fresca. Vinho que não cansa e convida a mais um copo e depois outro até que não fica nem uma gota no final da garrafa. 93 pts

01 abril 2013

Quinta da Leda Vinha do Pombal 2004

Photo by Miguel Pereira

Provado às claras, sem entraves nem qualquer coisa que lhe tapasse o nome ou a marca, simplesmente fez parte de um punhado de vinhos que foram dados a conhecer de forma clara aos olhos de todos os que os iam provar naquele instante. Este foi dos que menos me disse, esperava bem mais do que aquilo que me caiu no copo, simplesmente prostrado e sem grande graça. Os Quinta da Leda sempre fizeram parte dos vinhos do Douro que melhores momentos (aqui e aqui) me deram, o mesmo estava à espera que este especial de corrida de nome Vinha do Pombal me fosse proporcionar no instante da prova. 

Puro engano, o que encontrei foi algo parco de aromas, desgastado, demasiado limado e sem brilho, a finesse está presente mas não chega para grandes euforias, nada de maravilhoso portanto. O veredicto é que já devia ter sido despachado vai para alguns anos atrás, na boca com a fruta mais presente que no nariz, apesar das notas afinadas de especiarias que por ali andam soltas, o vinho tem falta de comprimento, largura qb numa presença muito sumida, bom de frescura e levemente seco no final. É um vinho em queda livre, falta-lhe sustento e garra para se poder agarrar ao que quer que seja, por mais tempo que lhe fosse dando no copo, apenas lhe aumentava a agonia, o contacto com o oxigénio sufoca-lhe a alma e tortura-me o pensamento sobre os fantásticos Leda que já bebi. 88pts

27 fevereiro 2013

Pintia 2004


Dando um saltinho até Toro (Espanha), região onde o Grupo Vega Sicilia se instalou com as Bodegas Pintia de onde saiu este Pintia 2004, vinho 100% Tinta de Toro (30-50 anos de idade média das vinhas) com 14 meses de barrica nova maioritariamente Francesa e posterior estágio em garrafa até altura da comercialização. É juntamente com todos os outros vinhos deste prestigiado grupo, um vinho de gabarito, uma referência da zona onde nasce e um vinho de enorme categoria. Com quase dez anos de vida, esperava portanto um conjunto mais desenvolvido e comunicador, ao que parece este está amuado, precisa de tempo e mesmo assim pouco muda. Um vinho que quando nasce é poderoso e que a sua prova se torna uma verdadeira batalha, sente-se a energia que os grandes de Toro emanam.

Ora neste 2004 quase com dez anos de vida esperava algo diferente, menos amontoado e mais dialogante.  Mostra inicialmente um travo químico a lembrar tinta de caneta, depois a madeira (tosta e baunilha) seguida de frutos do bosque bem sumarentos e frescos, bombom de ginja com tabaco e couro, fundo com toque de grafite. Coeso, apertado na complexidade, profundidade de aromas mas é de tempo que parece precisarg. Na boca (melhor que no nariz) é frescura embrenhada num conjunto com boa presença e passagem agradável no palato, harmonia a fazer-se sentir, fruta vermelha que se trinca acompanhada de especiaria, o final é longo e persistente. O preço desde vinho ronda quase sempre os 30€, o conjunto é todo ele de muito bom nível, pessoalmente esperava mais e melhor, um vinho mais pecaminoso, mais ao nível do que a casa mãe me tem vindo a acostumar noutros lados. 90 pts

19 fevereiro 2013

Quinta do Corujão Grande Escolha 2004

O vinho que agora falo será porventura um dos últimos moicanos da região onde nasceu, o Dão. Tudo o que lhe deu origem mudou de mãos, mudou-se o carril de pensamento e a filosofia de todo o projecto, desde a adega até às cepas tudo vai levar um reajustamento... o suficiente para nada ser como dantes. Um vinho de saudade, castiço e distinto, que o fazia destacar em grosso modo do pelotão de vinhos da zona, um grande vinho com anos de vida pela frente, uma grande escolha no acto de compra caso se encontre alguma garrafa à nossa frente. 

Fruto de um lote composto por Touriga Nacional, Alfrocheiro, Tinta Roriz e Tinta Amarela, é a sua tonalidade escura que se destaca mal cai no copo, depois é o esplendor aromático, fruta bem madura com frutos do bosque, bagas, pimentas, regaliz e leve floral, chocolate, balsâmico, folha de tabaco, tudo com frescura e boa concentração. Repleto e completo, harmonioso e equilibrado, no entanto nota-se alguma rusticidade. É na boca de boa estrutura, muita presença da fruta bem madura a explodir de sabor, bem balanceado e a complementar o que se apanhou no nariz, passagem no palato dominada por uma bela frescura, cheio de vigor e sabor com final apimentado e de boa persistência.

Feito para durar, para resistir ao tempo, feito para a mesa e para nos deliciar com os seus encantos, que são muitos. Dizem que não é um vinho das modas, que é vinho feito como já não se faz, vinho fora das cantigas modernas, curiosamente é vinho que virou moda falar-se dele, que de tantas vezes passar desapercebido passou a ser cobiçado. A vida tem destas coisas e deste já não há mais... 93 pts

11 julho 2012

Quinta do Infantado 2004

É um dos meus portos de abrigo no que a vinho tinto diz respeito, o Quinta do Infantado consegue mostrar-se como um Duriense de alma e coração, vinho feito com dedicação e esmero por um trio de gente fantástica como é o vigneron João Roseira e a equipa que o apoia Luís Soares Duarte e Fátima Ribas. Os vinhos do João são tal como ele vinhos temperamentais, no seu toque de irreverência mas sempre afinados e frescos, sem madeiras em força temos no copo vinhos que respiram o Douro que ele tanto gosta, é o Douro do João, sempre com aquela tendência gastronómica muito presente. É vinho que cheira e sabe ao que deve saber. A evolução em cave tem sido outro factor a ter em conta, os vinhos quando nascem dão boa conta de si, mas sabem contudo evoluir durante o sono da garrafa na nossa cave. Decidi no outro dia tirar o pó a um Quinta do Infantado 2004, mostrou-se em grande forma, afinado de aroma, fruta escura viva com ervas de cheiro, especiado qb com a madeira fina e integrada, debita algum chocolate de leite, boa frescura. Na boca iguala o nariz, em corpo mediano, passagem de boca prazenteira e saborosa, fresco com uma leve secura no final, centrado na fruta com madeira a amparar em final de boa persistência. Continua pois a dar uma bela prova... que se beba ou guarde-se ainda por um bom par de anos. 91 pts

Torre do Frade Reserva 2004

Desde a última vez que provei este vinho já passaram 4 anos, daquele conjunto raçudo e pujante o que se apresenta agora é um colossal amontoado de "coisas". O vinho que naquela altura já de si era pesado e abusava de uma madeira que tapava e ofuscava a fruta, surge agora com essa mesma fruta num plano pouco fresco, enfadonho e madurão com reminiscência para a compota. Com tudo isto a madeira ainda teima em andar por ali aos saltos com tostados que tornam o vinho pesado, chato e com pouca graça, apesar de um ligeiro bálsamo com especiarias ir surgindo e até consegue colocar ali alguma alegria (pouca) à prova. Depois o vinho começa a enrolar e a tornar-se repetitivo, pouco apelativo, na boca todo ele muito estruturado e compacto, amplo e redondo, com os 15% a tornarem-se pesados, sabor a tosta, já com arredondamento a fazer-se sentir, vigor e secura no final de boca que mostra ser longo. Um vinho que tinha tudo para ser feliz mas que acaba num final triste, enfadonho e igual a tantos outros... a fruta coitada não teve direito à frescura e à felicidade que devia, mas talvez nunca o tivesse sido e por isso foi preciso tapar o desgosto. 89 pts

08 março 2012

Alves de Sousa Reserva Pessoal branco 2004

Mais um branco a saltar para o copo, mais um dos meus favoritos desde sempre e que brilhantemente se impõe pela diferença, qualidade e perfil, neste caso o preço ajuda pois ronda os 18€. O Alves de Sousa Reserva Pessoal branco é um vinho diferente e muito especial, ao mesmo tempo desafiante e complicado para o apreciador mais incauto, não é vinho para todos pois não... é para aqueles que lhe sabem dar o valor imenso que tem e deixemos as pieguices de lado. Como dizia um amigo meu, é complicado explicar a grandiosidade deste branco por palavras, só provando se chega lá, menos complicado foi o encontrar parelha à mesa para o dito cujo. Neste caso e devido à complexidade aliada a uma boa dose de frescura não perdi muito tempo a pensar, é vinho para o Mar, bichos do mar com e sem casca, batata, cebola, salsa, caldo, redução, cozinhado lentamente para apurar o gosto, aquele toque de açafrão num misto de aromas e sabores que se conjuga "ao meu gosto" de forma genial com este branco, sim falo da caldeirada piscatória da zona Francesa de Provence, a belíssima Bouillabaisse que acompanhou a preceito este branco sério e estranhamente complexo.Curiosamente notei neste um pequeno afinar do estilo, mostrando um pouquinho menos aquilo que já foi noutras colheitas, o de 2005 mudou ainda mais, embora a filosofia por detrás seja a mesma há aqui um notório afinar da maquinaria.

Apresenta-se com 12,5%Vol., foi decantado uma hora antes e servido a uma temperatura que variou entre os 12ºC e os 14ºC , marca de imediato pela diferença pela tonalidade com laivos laranja que apresenta, não é tão "assustador" como por exemplo nas suas primeiras edições e até tem vindo a mudar essa sua faceta, mais adulto, mais afinado, direi que o fato cada vez lhe assenta melhor. Tudo começa num lote proveniente de vinhas velhas, adaptadas ao terroir, sem necessidades de estrangeirismos para se afirmarem, passa por madeira e depois deixa-se adormecer até chegar à nossa mesa, desmarca-se pela mesma diferença com que nos brinda no nariz, aromas frescos, limpos e fluídos, nada atabalhoado, flores amarelas bem vivas (azedas), aromas de infusão de flores, fruta amarela, tropical e citrinos, alguma laranja cristalizada com resinas a fazerem lembrar por algum instante um leve travo balsâmico e no fundo uma boa dose de mineralidade, a madeira pouco se dá por ela, contribui para suster o conjunto, arredondado sem nunca perder a frescura que é basilar no conjunto. Na boca é essa mesma frescura que guia durante toda a passagem, sente-se untuoso, fresco, carnudo, muito complexo e com boa amplitude, enche de sensações e sabores, fruto fresco e maduro em conjunto com algum fruto em calda, flores, mineral... a meio do palato um pouco de mel, depois é um prolongar de sensações durante largos segundos. Um autêntico rendilhado de sensações... 93 pts

21 dezembro 2011

Valbueña 5º Año Reserva 2004


Nome maior da estratosfera vínica Mundial, leia-se Bodegas Vega Sicilia, fundada em 1864 e com localização na vizinha Espanha na D.O. Ribera del Duero... ainda continuo nos vinhos que nascem no berço do Douro/Duero. Este foi servido novamente entre amigos e em grandioso jantar de Caça que organizo anualmente em Vila Viçosa... sempre regado com grandes vinhos e rodeado de grandes amigos, voltou a ser memorável mais um ano.


Não sendo um vinho barato, o efeito procura faz com que o preço suba quase sempre, mas com atenção consegue-se encontrar este vinho na casa dos 68-88€ o que por vezes é quase metade do preço que algumas lojas o colocam à venda em Portugal. Lamentavelmente continua-se a querer ganhar dinheiro à conta dos vinhos estrangeiros em Portugal, não em todos mas em alguns casos é mais que evidente... o mais grave é que se abusa da "ignorância" de quem compra e paga mais caro porque ou desconhece ou simplesmente o dinheiro não lhe custa a sair da carteira e não lhe interessa encontrar locais mais baratos. Dito isto prossigo com o vinho, um senhor entrada de gama que não fosse o seu irmão mais velho a elevar ainda mais a fasquia, seria um normal topo de gama em qualquer outra adega.
Resultante de um lote de Tinto Fino (90%) e Merlot e Malbec nos restantes 10% do conjunto, passa por barricas novas (60% Americano e 40% Francês) durante 16 meses, posteriormente passa a barrica avinhada (7 meses) para voltar a depósitos de madeira, antes do seu engarrafamento, com lançamento no mercado 5 anos após a colheita.

Não fosse o preço e seria vinho que gostaria de ter mais vezes no copo, a maneira como se desenrolou  durante todo o jantar foi algo de notável, um vinho que de inicio pede decanter, pede tempo para estender todo o seu bouquet, um vinho de perfil clássico, todo um senhor muito bem aprumado, a fruta fresquíssima com pureza e certeza, intenso e ao mesmo tempo suave, o resto é festa bem animada ainda com tempo pela frente, se bem que foi apanhado num belíssimo momento de forma. Aromas secos no fundo, algum chá preto com toques depois de mineralidade em fundo, café bem escuro com algo de cremosidade e continua a brincar e a dar que falar... com o ir e voltar da fruta bem madura e limpa, de enorme pureza.
É na boca que se confirma tudo o que foi dito, corpo médio/largo, com entrada fresca e a saber a fruta em enorme harmonia com o restante conjunto, madeira a dizer que vai amparar o jogo durante muito tempo, taninos calminhos com ligeiríssima secura e prolongado final... pede mesa, pede pratos ricos e apaladados... apesar de durar por mais uns bons anos. Perfil todo ele muito refinado, tudo o que mostra é de categoria, pode falhar apenas um pouco na complexidade ou na finesse do trato algo que certamente será matéria abordada pelos seu irmão mais velho, mas neste patamar está a marcar por isso mesmo, senhor do seu nariz e a não cansar e a convidar sempre para mais um copo... e o vinho é para isto que se quer. 94 pts

20 dezembro 2011

Quinta Sardonia 2004

No passado Sábado juntei aqui por casa, gente que estimo e que tenho o prazer de ter como amigos, para um Guisado de Javali  e optei por acompanhar com uma mini série de tintos 2004 em que a única regra que tive na escolha dos meus vinhos foi que todos os exemplares em prova tivessem tido algures uma nota superior ou igual a 17 valores, os vinhos e a prova será debatida mais lá para a frente... ou seja, quando calhar. Por agora apenas quero falar sobre aquele que considerei sem qualquer dúvida como o melhor em prova, vinho que pelo aroma se destacou claramente de todos os restantes... confirmando-se depois na boca. Afinal a qualidade sente-se quando sentada no meio da mediania. Destaquei este vinho em prova cega como não sendo de produção nacional, havia algo naquele aroma que não é normal aparecer por cá, nem nos nossos melhores vinhos... o tempo que ganhou na garrafa de um dia para o outro só veio confirmar que precisava de uma boa e larga decantação.

O resultado final foi estarmos perante um Quinta Sardonia 2004, projecto da sociedade Viñas de la Vega del Duero, nascido à beira do rio Duero em Sardón de Duero na Granja Sardón corria o ano de 1998, de seguida entra Peter Sisseck como consultor e da sua mão veio Jerôme Bougnaud na responsabilidade de enólogo e trabalho na vinha onde foi desenvolver estudo dos vários solos que encontrou, depois escolheu as variedades que achou melhor para cada tipo de solo e plantou nessas mesmas parcelas 17 ha de vinhedo com as castas (tinto fino, cabernet sauvignon, merlot, syrah, petit verdot e malbec ) apoiado na Biodinâmica

"No me interesa que la cabernet sepa a cabernet, sino que exprese el suelo calcáreo en el que se desarrolla, que sirva como vector de transmisión de su entorno" Jerôme Bougnaud

Esta colheita de 2004 com 15% Vol. que se mostraram perfeitamente integrados no perfil do vinho sem sequer se notarem durante a prova,  resultou num lote final de 36% Tinto Fino, 30% Cabernet Sauvignon, 20% Merlot, 5% Syrah, 5% Cabernet Franc, 3% Malbec e 1% Petit Verdot com 16 meses de repouso em barricas de carvalho francês, novas (45%) e usadas (55%), clarificado com clara de ovo e ligeiramente filtrado.
É no nariz que o encanto começa, o conjunto é luxuoso, muito envolvente na complexidade e frescura que emana com fruta muito pura e fresca aliada a notas de licor de cassis, balsâmico fino, notas de torrefacção, bela amplitude aromática, dá um gozo tremendo cheirar este vinho... que continua a evoluir no copo, especiado, alfazema, cacau, baunilha e muita frescura com a barrica sempre no suporte, fazendo dele também um vinho cheio. Na boca, em perfeita sintonia com o nariz, é amplo e saboroso, com muita fruta fresca e limpa a fazer-se sentir, quase que as bagas e os frutos do bosque nos rebentam na língua, à mistura um leve travo adocicado numa passagem de grande nobreza, requinte e , complementado com uma bela acidez de conjunto com belíssima presença e passagem, profundo com harmonia plena da madeira no conjunto em final apimentado e bem prolongado. O preço faz com que seja acessível, bastante até pois ronda os 30-35€. Enorme no seu estilo. 95 pts

PS: Já me esquecia, a ligação com o Guisado de Javali foi perfeita...

18 abril 2011

Arrayan Premium 2004


Há um produtor perto de Toledo que faz as minhas delícias nos vinhos que produz, para mim tem alguns dos varietais que se tornaram autênticas referências em Espanha, falo do Domínio de Valdepusa do Marquês de Griñon, com o seu Syrah, o Cabernet Sauvignon e o fantástico Petit Verdot. Faz algum tempo que me contaram que haveria um novo produtor ali perto que se estava a começar a destacar pela qualidade dos seus vinhos, foi desta maneira que numa das minhas caminhadas pelo que de bom vai despontando lá fora, alguns projectos "recentes" vão-me chamando a atenção e um desses raios de sol que me bateu no copo foi o das Bodegas Arrayán na finca "La Verdosa" com os seus 600 ha em que 23 são de vinha, en Santa Cruz del Retamar, Toledo. Este projecto nasce com o empresário José Maria Entrecanales e Maria Marsans na Finca "La Verdosa", convidaram o australiano Richard Smart e em 1999 começou-se com plantação das variedades que habitam nos vinhos desta casa, Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah e Petit Verdot. A primeira colheita seria comercializada no final de 2003 e até aos dias de hoje têm sabido impor-se de forma gradual com uma gama bastante consistente. O Rosado já aqui tinha sido provado na colheita de 200. , os varietais irei apresentar proximamente enquanto agora me foco no que era até pouco tempo o topo de gama desta casa, aqui na colheita de 2004, o Arrayán Premium.
O Premium é um lote das 4 castas tintas reinantes, aqui  com 55% Syrah, 20% Merlot, 15% Cabernet Sauvignon e 10 % Petit Verdot, com um estágio de 15 meses em barricas de carvalho francês mais 18 meses em garrafa antes de sair para o mercado, num preço que ronda os 30€.

Este Premium pertence à D.O. de Méntrida, tem uma bela intensidade no aroma com bastante fruta negra madura com toque doce, quase a babar-se mas com frescura suficiente em todo o conjunto, a complexidade sente-se e recomenda-se tal o prazer que nos dá andar a rodar e rodar o vinho dentro do copo, mostrando com tempo no copo toques de esteva e de bálsamo vegetal seguidos de especiarias, toque de compota pastosa e doce, algum lácteo que não incomoda mas ajuda à complexidade, depois a completar o ramalhete a barrica mostra-se em grande integração e apenas lhe dá notas de algum tabaco, cacau e tosta suave. Um vinho de puro prazer no nariz, em que os pilares são uma fruta fresca, limpa e gulosa mas ao mesmo tempo uma secura vegetal, tudo num conjunto que não se torna pesado em qualquer momento, mesmo os seus 14% mostram boa integração, sociáveis e prestáveis, vinho largo e profundo de aromas com uma boa percepção dos mesmos. Na boca temos frescura e ao mesmo tempo aquela secura vegetal, quase a fazer lembrar um chá preto, com especiaria num todo que se mostra harmonioso mas com garra e bem frutado. Muita cereja, bálsamo e tudo no reencontro do encontrado quando se cheirou... tem aquele toque de licor de ginja, arredondado o suficiente, mas com taninos a pedirem tempo, vai tão bem agora como daqui a um par de anos. Esta é a minha segunda garrafa, a primeira tinha sido aberta num enorme momento de enofília com dois grandes amigos, este por sua vez foi aberto num momento de celebração de uma união... foi um excelente Premium para acompanhar uns bifes de veado com vinagreta de frutos do bosque e batata sauté. 

Um vinho de puro gozo na mesa, em plena forma e um pouco mais domesticado na boca do que no primeiro contacto que tive com ele faz algum tempo. Há aqui claramente uma diferença, uma vontade de ter algo diferente ainda que vocacionado para o consumidor moderno, talvez mesmo um misto em que se mistura alguma rusticidade com a nova maneira de ser dos vinhos dos tempos modernos. O resultado final é amplamente motivador, vinho virado para a partilha, para a mesa e também para a guarda... 17 - 93 pts

11 janeiro 2011

Maria Mansa 2004

Depois de já ter falado aqui no Maria Mansa branco, e da surpresa que se revelou a quando da sua prova, eis que volto com a versão tinta do Maria Mansa. O produtor é a Quinta do Noval, situada na estrada que liga o Pinhão a Alijó, cerca de um quilómetro antes de Vale de Mendiz, a Quinta do Noval distingue-se pela beleza dos seus terraços. Proveniente de uvas de letra A dos agrestes socalcos do coração do Douro, de entre as castas típicas da região, predomina na sua constituição a Roriz, Touriga Franca e Touriga Nacional.

O resultado é um nariz de boa intensidade com aroma fresco com fruta madura em tons de frutos do bosque (amora preta) e fruta de caroço (ginja) ligeiramente compotadas e misturadas com cacau, esteva seca, apimentado com ligeiro balsâmico de fundo. Muito bem desenhado e a dar uma prova muito satisfatória

Boca equilibrada de mediana estrutura, arredondado e macio, com a fruta de qualidade a desfazer-se a meio palato, boa frescura de conjunto, novamente toques de cacau morno, secura vegetal e especiaria sem incomodar pois o vinho mostra uma leve sensação de cremosidade/conforto a meio. Harmonia com a prova de nariz num todo muito pronto a beber.

Um vinho em grande momento para ser consumido, talvez um pouco "Novo" Douro mas nem por isso deixa de dar prazer à mesa. É certamente uma aposta ganha para todos aqueles que dele se aproximarem, será difícil  resistir-lhe até porque o preço comedido ajuda à tentação, ronda os 8€. Curiosamente são vinhos pouco falados estes Maria Mansa, vinhos que não captam atenção dos holofotes da fama, não entendo a razão uma vez que a boa relação preço/qualidade é muito boa tanto no tinto como no branco. 16 - 90 pts

30 março 2010

CHEVAL DES ANDES 2004

O vinho que se segue foi uma das melhores surpresas que tive nos últimos meses. O prazer da descoberta, do conhecer novos mundos, leva a momentos de partilha entre enófilos, momentos em que vão sendo colocados vinhos em prova e onde alguns se destacam mais que outros... como em tudo na vida há bons e maus momentos, mas também temos os momentos de plena satisfação, aquelas alturas em que tudo parece parar à nossa volta e ali estamos nós com um sorriso aparvalhado a olhar para o que seja, neste caso era para uma garrafa de vinho... e que vinho, um Cheval des Andes 2004.
A origem do vinho em prova, Cheval des Andes, nasce de uma parceria entre dois nomes de prestígio a nível mundial, o Château Cheval Blanc (St. Émilion - Bordéus) e Terrazas de Los Andes, com a enologia a cargo dos seus enólogos Pierre Lurton e Roberto de La Mota. Enquanto o nome Cheval Blanc dispensa apresentações, deixo um pequeno lamiré sobre as Terrazas de Los Andes, que nascem nos finais de 1950, quando o produtor Moët & Chandon estabelece em Mendoza a sua primeira filial fora de França, a Chandon Argentina (veremos mais tarde que também tem uma no Brasil). Foi apenas em 1990 que as Bodegas Chandon se voltaram para a produção de vinhos de alta qualidade fora da linha dos espumantes, sob a designação de Terrazas de Los Andes. Localizado na região do Vale do Uco, no sul de Mendoza, nos contrafortes da cordilheira dos Andes, onde a altitude dos solos varia entre os 1060 e os 980 metros, compostos essencialmente por areia e pedra. Dos 38 hectares, 16 ha são de Malbec plantado em 1929, 20 ha de Cabernet Sauvignon e 2 ha de Petit Verdot. Como nota curiosa, o cavalo surge no rótulo, agora é uma questão de o conseguir encontrar.

CHEVAL DES ANDES 2004
Castas: 55% Malbec, 43% Cabernet Sauvignon, and 2% Petit Verdot - Estágio: 16 meses barrica - 13,5% Vol.

Tonalidade granada escuro, limpo e de concentração média/alta.

Nariz a mostrar um vinho de requintada complexidade, aromas limpos e com boa profundidade a prometer bastante desde a primeira aproximação. Destaca-se a maneira como a fruta limpa, fresca e madura (groselha, amoras, cereja), se envolve com uma barrica muito bem integrada, desdobrando-se em aromas florais (violetas), tosta, baunilha a conferir sensação de cremosidade, tabaco de enrolar, camurça, chocolate de leite, aroma a lembrar bolo de passas com rum e canela. Um conjunto muito harmonioso, capaz de durar e durar, durante toda a prova e mesmo durante toda a refeição.

Boca com entrada equilibrada, harmoniosa, bem estruturada e de corpo médio. Sente-se força mas ao mesmo tempo elegância, num todo muito afinado em completa sintonia com a prova de nariz, e que dá muito prazer beber. Boa amplitude, fruta madura e sumarenta com perfeita integração com a madeira, num toque morno de aconchego que se esbate na frescura da fruta. Novamente a especiaria, a ligeira sensação de bolo de passas com rum, bálsamo vegetal ligeiro, taninos finos e presentes a darem garantia de uma boa longevidade num vinho com final de boca elegante e de persistência média/alta.

É descrito como um Grand Cru do Novo Mundo, aliando toda a força e vigor do Novo com a elegância e requinte do Velho. É daqueles vinhos que é difícil não gostar, a boa complexidade que mostra ter, permite-lhe ir evoluindo durante a refeição, tornando-se um cesto de surpresa sempre que a ele voltamos para mais uma cheiradela. Tem muitos e bons modos, fruto da escola que frequentou pois claro, requerendo para ele alguma atenção pois é muito o que tem para dizer. Um daqueles vinhos que se vir à venda compre sem pensar duas vezes, o prazer está mais que assegurado. 17 - 93 pts

29 março 2010

Clos de los Siete 2004

É de Mendoza (Argentina) que chega o vinho em prova, fruto de um projecto chamado "Campo de Vista Flores" do qual Los Siete faz parte. Escolheu-se uma área de 850 hectares ao sul de Mendoza, solos de areia, barro, com calhau e onde apenas metade da área está plantada com domínio da casta Malbec com metade da plantação, Cabernet Sauvignon e Merlot arrebatam 17% cada uma e a Syrah 16%. A totalidade da área foi posteriormente dividida em sete parcelas, uma para cada um dos sócios (parece que já não são sete mas sim seis) com alta densidade no que a vinha diz respeito (5500 plantas por ha) sendo a vinha tratada com todos os mimos tal como se fosse em Bordéus. Cada um dos sócios tem a sua própria adega, vinha, e equipa enológica respectiva... mas é Michel Rolland que domina todo o conjunto e é também Michel Rolland que elabora o blend final utilizando vários lotes de cada um dos 7 produtores, uma maneira de aumentar a complexidade e individualidade a cada um dos vinhos em separado e que obviamente dá mais complexidade ao lote final.

Clos de los Siete 2004
Castas: 50% Malbec, 30% Merlot, 10% Cabernet Sauvignon, 10% Syrah - Estágio: 11 meses em carvalho Francês novo (2/3) e restante (1/3) em inox - 15,2% Vol.

Tonalidade ruby escuro de concentração média/alta.

Nariz cativante e de boa concentração, direi até de agrado fácil tal a maneira descarada como se mostra, num conjunto arredondado com boa intensidade, dominado grande parte do tempo por notas de fruta negra e vermelha (cereja, amora, framboesa) bem madura, alguma ponta de sobre maturação com compota que lhe confere doçura moderada. Madeira presente, baunilha, envolvência com alguma cremosidade mas muito mais para o lado da geleia do que do batido de Mocha, bem embrenhada com a fruta, fina complexidade com torrado, pimenta preta, leve terroso/mineral em fundo. Pelo meio e quase como coluna central, tem uma aragem fresca que contrabalança com o peso/doçura da fruta.

Boca com boa amplitude, peca a meu ver na falta de um pouco mais de profundidade (de igual modo no nariz) e mesmo de uma estrutura suficiente para amparar tanta fruta que se mostra aqui na mesma forma concentrada que mostrou no nariz. Compotas, especiaria, novamente fruta e cacau, com taninos a conferirem ligeira secura final num vinho que fica a meio caminho entre o equilíbrio e a força bruta, em final de boa persistência. Apesar da frescura não deixa de ter um pendor mais "adocicado" para o meu gosto, com o álcool a passar completamente despercebido ou direi maquilhado ?!?

É um vinho muito bem feito, muito apetecível e de fácil agrado pela forma provocante como se manifesta durante toda a prova, tem aquele perfil que muitos chamam de jammy. Contudo não me cativou o suficiente, tornando-se ligeiramente repetitivo passado algum tempo dentro do copo... este é a meu ver o mal destes vinhos, não conseguem ter uma conversa que dure toda uma refeição, cativam apenas durante o início mas passado 15 minutos já ninguém os consegue aturar. Merece a pena ser conhecido, ser provado e discutido entre amigos, para vinhos made by Rolland fico sem sombra de dúvidas com Château Le Bon Pasteur. 16 - 90 pts

22 fevereiro 2010

DOMAINE DE BEAURENARD Chateauneuf-du-Pape 2004

O Domaine de Beaurenard (Châteauneuf-du-Pape), está na família há 7 gerações, uma acta notarial datada de 1695 menciona "Bois Renard", que com o tempo se tornou Beaurenard. Nos dias de hoje são os irmãos Coulon (Daniel e Frédéric) que estão encarregados de manter a tradição da casa, seguindo as pisadas dos seus pais (Paul e Régine) e dos seus antepassados. Controlam 32 ha de vinha em Châteauneuf-du-Pape e 25 ha in em Côtes du Rhône Villages Rasteau AOC, saindo destes últimos os vinhos Cotes-du-Rhone e Cotes-du-Rhone Villages Rasteau. A agricultura é levada de maneira sustentável, e as uvas são escolhidas e colhidas à mão. Um produtor do qual já tive a oportunidade de provar alguns vinhos recentemente, alguns deles em conversa com um dos irmãos Coulon, neste caso com Daniel, que em conversa bastante animada mostrou a paixão com que dá a conhecer os seus vinhos. Já no meu recanto decidi por abrir um Domaine de Beaurenard Chateauneuf-du-Pape 2004, cujo preço rondou os 34€ em Portugal e que se mostrou após a prova um pouco alto para a qualidade. Mas que culpa tem um vinho que é vendido bem mais barato lá fora, ver o seu preço ser aumentado cá dentro e sabe-se lá porque razão ? Obviamente que o consumidor que quer provar, que quer beber, tem de pagar e calar quando a oferta é pequena e neste caso única, mas não se pense que foi barrete... nada disso. Se bem que com mais uns trocos prefiro muito mais apostar num Boisrenard (o topo de gama da casa) pois a ligeira subida de preço é compensada por um considerável aumento da qualidade.

Domaine de Beaurenard Chateauneuf-du-Pape 2004
Castas: 70% Grenache, 10% Syrah, 10% Mourvèdre, and 10% Cinsault e outras - Estágio: 12 meses em barrica - 14,5% Vol.

Tonalidade ruby escuro de concentração média alta.

Nariz coeso, com boa complexidade a mostrar fruta negra bem fresca e limpa (cereja, amora e groselha) com ligeira nota de licor de groselha a dar uma sensação adocicada muito ténue, especiarias (pimenta), tabaco, leve floral acompanha a madeira que embala todo o conjunto, diga-se que a madeira nem faz por se notar, está mas não está. Equilíbrio e harmonia de conjunto, leve tosta com sensação de vegetal seco e boa mineralidade em fundo, num todo elegante, algo arredondado com misto entre a frescura da fruta e o toque mineral de fundo.

Boca bastante elegante e de corpo mediano, guloso no sentido em que apetece beber, com boa frescura a balancear a leve doçura da fruta, tudo com uma boa intensidade juntamente com um bom comprimento no palato, especiarias (pimenta), tosta da madeira, tabaco, novamente o toque de licor de groselha, fundo entre o mineral e o leve bálsamo vegetal. Mostra ao mesmo tempo uns taninos que lhe dão vigor e auguram boa estadia em garrafa, por agora já se bebe com bastante prazer, tem presença, harmonia, boa espacialidade e final de persistência média.

A mais valia num vinho destes é maneira como permite uma fácil abordagem, fácil de gostar e com o conveniente de que se pode guardar sem problemas que envelhece ou sabe manter a postura durante mais alguns bons anos. Muito virado para a mesa, gostei bastante da maneira como se comportou com um assado de borrego. A qualidade é bem patente, apesar de não ser daqueles vinhos que nos enchem a alma, é sim um bom exemplar, direi mesmo uma compra segura no que a Châteauneuf-du-Pape diz respeito. Obviamente que o preço de compra pode afastar muita gente, mas para quem procura uma entrada firme e sem grandes gastos por este caminho, o exemplo em prova serve perfeitamente. 16 - 90 pts

28 janeiro 2010

TILENUS CRIANZA 2004

A casta em questão é a Mencía, a mais nobre da denominação Bierzo (Espanha), uma casta associada ao Camino de Santiago e aos seus "pelegrins". Na Galiza espalha-se pela região de Valdeorras (Orense) , Ribera Sacra, e estende-se até à província de León onde ocupa 2/3 do vinhedo da Denominação de Origem El Bierzo. Dá vinhos de tonalidade púrpura, de aroma intenso de delicado, digamos vinhos de nariz elegante com frutos vermelhos e com bom equilíbrio entre álcool/acidez, boa evolução em garrafa.
Para os mais distraídos esta é a mesma casta que no Dão se chama Jaen, onde curiosamente é raramente vista engarrafada a solo, apesar de ser uma das mais plantadas no concelho de Mangualde e também no concelho de Gouveia, sendo que neste último atinge uma percentagem próxima dos 90% de todas as castas tintas cultivadas. De maturação precoce e de generosa produção, torna-se sensível a zonas demasiado húmidas e férteis. Os vinhos enquanto novos, arredondam muito depressa, e diz-se que para envelhecer precisam da pujança da Touriga Nacional e da acidez da Alfrocheiro Preto, isto claro está se quisermos ter vinhos com vida longa.
O que será que se entende por vida longa ? Será que falamos de quantos anos... 5, 10, 15, 20 anos ? Recentemente tive oportunidade de beber um Tilenus Pagos de Posada 2001 e não lhe notei falta nem de pujança ou mesmo de acidez, encontrei sim um vinho que contraria simplesmente aquilo que por cá se vai dizendo. Ou só vamos ligar à Jaen quando estivermos todos saturados de Touriga Nacional ? Não se faz melhor porque não se pode ou porque não se sabe ? Felizmente há em Portugal alguns irreverentes que tentam contrariar tudo isto e tentam produzir no Dão, bons exemplares de Jaen, os quais vão ter destaque em breve no Copo de 3. Por agora coloco em prova um fiel exemplar da casta Mencía, das Bodegas Estefania, proveniente do município de Villafranca del Bierzo, vinhas com idades compreendidas entre os 60-80 anos, situadas entre os 600 - 700 metros de altitude. Foi com esta marca e com "este" crianza, que tive o primeiro contacto com a casta Mencía, foi este o responsável por querer conhecer mais vinhos, mais adegas da região, enfim, direi que foi um entrar com o pé direito e ainda bem que assim foi.

TILENUS CRIANZA 2004
Castas: 100% Mencía - Estágio: 12 meses barricas carvalho francês - 13,5% Vol.

Tonalidade granada escuro de concentração média/alta.

Nariz com aroma de boa intensidade, baunilha e fruta vermelha bem delineada e madura (groselha, framboesa) apresentado um ligeiro toque de fruta confitada em harmonia com aroma floral (lembra violetas e não é Touriga Nacional). A barrica mostra-se fina e muito bem integrada, combinando muito bem com um lado mais fresco que se faz sentir ao mesmo tempo que em segundo plano surgem aromas mais mornos como o couro, cacau, cravinho e toque fumado no final.

Boca com todos os seus atributos bem arrumados, direi bem estruturada, sabe a fruta vermelha bem madura acompanhada por leve apontamento vegetal. É um vinho que se mostra arredondado, macio, com a barrica em plena harmonia, o vinho mostra frescura, boa espacialidade e elegância. No fundo dá sinais que aguenta mais uns tempinho em garrafa, embora a prova que dá seja bastante satisfatória neste momento.

É daqueles vinhos que se deve tentar conhecer/beber, está muito bem feito, apelativo e capaz de agradar a um leque bem alargado de consumidores. Um vinho que gosta de comida, muito vocacionado para a mesa, para a chamada cozinha de tacho. Com um preço que ronda os 14€, é uma aposta mais que ganha para todos aqueles que pretendem conhecer um dos bons exemplares de Mencía sem ter de gastar muito €€€, ainda com a mais valia de que vai refinar um pouco mais em garrafa. 16 - 90 pts

21 maio 2009

Comenda Grande Reserva 2004

Comenda: benefício que antigamente era concedido a eclesiásticos e a cavaleiros de ordens militares (Ordem de Malta, Templários...), mas que actualmente costuma designar apenas uma distinção puramente honorífica. No passado, podia remeter ainda a uma porção de terra doada oficialmente como recompensa por serviços prestados, ficando o beneficiado com a obrigação de defendê-la de malfeitores e inimigos.

A Comenda que venho novamente destacar, situa-se perto de Arraiolos, vila famosa pelos seus magníficos tapetes, e pelas deliciosas empadas, mas também nos dias que correm pela qualidade dos vinhos que vê nascer, vinhos que dignificam a terra e as gentes, mas é mais propriamente em Vale do Pereiro, que se encontra o Monte da Comenda Grande de onde saem os vinhos Comenda Grande, nos cerca de 30 ha reinam nas castas tintas: Trincadeira, Aragonês, Alicante Bouschet, Cabernet Sauvignon, Syrah, Alfrocheiro e Tinta Caiada, e nas castas brancas: Antão Vaz, Arinto e Verdelho.
Depois de já aqui se ter provado toda a gama de vinhos produzidos pelo Monte da Comenda Grande, chega a altura de colocar em prova o primeiro topo de gama desta casa, o Reserva 2004:

Comenda Grande Reserva 2004
Castas: Alicante Bouschet (60%) e Trincadeira (40%). - Estágio: 18 meses em Tonéis novos de 1.000 Litros de Carvalho Francês e 8 meses em garrafa. - 15% Vol.

Tonalidade granada escuro de concentração alta.

Nariz perfilado às terras do Alentejo, fruta muito madura e de qualidade, morango, framboesa e ameixa, com vários toques compotados na companhia de especiarias doces (canela, cravinho) a contribuírem para uma fina dose de complexidade. É num travo morno, que a madeira ampara o conjunto, baunilha, tosta e cacau, disfarçando no final com toque de bálsamo vegetal, conferindo ligeira sensação de frescura, sem que os 15% incomodem muito.

Boca a apresentar-se corpolento e de boa espacialidade, fruta madura ao nível da prova de nariz. Sabe a tarte de framboesa e chocolate, com toques de canela pelo meio, e por cima tem uma pequenina folha de hortelã, que ao trincar dá uma sensação de frescura e ao mesmo tempo de bálsamo vegetal. Tudo isto a juntar com o chocolate, a fruta e os toques tostados da massa, num todo muito equilibrado e de boa persistência final.

Pede bons copos e uma prévia decantação para melhor se mostrar, ainda que vai ganhar bastante com o tempo de garrafa, por isso é deixar esquecido durante mais 2/4 anos que a recompensa será ainda melhor e maior. De resto a prova que dá de momento aponta para um perfil de fácil agrado, ainda que entroncado e ainda um pouco reservado, com preço a rondar os 17€.
16,5
 
Powered By Blogger Creative Commons License
This work is licensed under a Creative Commons Attribution-Noncommercial-No Derivative Works 2.5 Portugal License.