Copo de 3: 2006
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27 fevereiro 2019

Murganheira Cuvée Especial Bruto 2006



Um dos espumantes que mais prazer me deu beber nos últimos tempo foi este Murganheira Cuvée Especial Bruto, onde a casta Tinta Roriz é vinificada em branco. O que se destaca nele é a finesse com que se mostra, uma grande entrega mas ao mesmo tempo uma delicadeza com bolha fina e mousse que lhe dá uma cremosidade quase aveludada. Pelo meio as notas de estágio, com biscoito e brioche, num conjunto a mostrar-se com muita classe no palato. O preço ronda os 22€ e mostra que podemos ter um grande espumante no copo sem ter de ir até França. 95 pts

22 março 2016

Tinto da Talha Grande Escolha 2003 a 2010



Desta vez rumo à vila de Redondo, mais propriamente à Roquevale que fica na estrada para Estremoz entre Redondo e a Serra D´Ossa. A empresa possui duas herdades num total de 185 hectares, a Herdade da Madeira Nova de Cima vocacionada para a produção de tintos onde despontam os solos de xisto e a Herdade do Monte Branco com solos de origem granítica mais vocacionada para a produção de brancos, onde está sediada a adega. A empresa que hoje se assume como a segunda maior empresa privada do Alentejo, a produção ronda os 3 milhões de litros por ano e é liderada pela enóloga Joana Roque do Vale.

O mundo do vinho e Joana Roque do Vale sempre andaram de mão dada, desde a infância em Torres Vedras onde os seus bisavôs eram produtores. Após a revolução de Abril o pai de Joana, Carlos Roque do Vale decide mudar-se para a vila de Redondo para tomar conta das duas herdades do sogro (que em 1970 já tinha iniciado a plantação de vinha na zona de Redondo). A Roquevale iria nascer em 1983 de uma sociedade entre Carlos Roque do Vale e o seu sogro. O caminho de Joana estava traçado, o mundo do vinho era a sua segunda casa, daí até fazer o seu estágio curricular na Herdade do Esporão foi um ápice. Aprendeu com os melhores, como coordenador de estágio teve o engenheiro Francisco Colaço do Rosário e o enólogo Luís Duarte que já na altura era também consultor da Roquevale. Terminado o curso começou a trabalhar na empresa da família onde iria assumir pouco tempo depois a enologia da empresa.

Um produtor com marcas bem conhecidas dos consumidores onde se destacam nomes como Terras de Xisto, Tinto da Talha ou Redondo. O vinho agora em destaque foi durante largos anos considerado como o topo de gama da empresa, o Tinto da Talha Grande Escolha que nos mostra as duas melhores castas de cada colheita. A prova em formato vertical começou com o 2003 e foi até ao 2010, mostrando em todas as colheitas um vinho que encarou com naturalidade a passagem do tempo, sem sinais de desgaste ou velhice acentuada. Sempre com direito a passagem por barricas novas, durante as primeiras colheitas destaca-se a assídua presença da Touriga Nacional que ia intercalando com Aragones ou Syrah, daria lugar depois à Alicante Bouschet que combina com Syrah ou Aragones sendo 2009 o único que junta Touriga Nacional com Alicante Bouschet.



O que mais gostei foi o 2010 Aragonês/Touriga Nacional que mostra uma dupla em perfeita harmonia num conjunto cheio de vida com muita fruta madura, algum vegetal presente, tudo em perfeita harmonia. Amplo, guloso, exuberante com ponta de rusticidade, num bom registo fiel à região e a pedir comida por perto. Muito bom está o Aragonês/Alicante Bouschet 2008 que mostra um conjunto cheio e guloso, cacau, fruta sumarenta com pingo de doçura, tudo balanceado e fresco, bálsamo de segundo plano com muito sabor no palato, equilibrado e com taninos a marcarem ligeiramente o final. Seguido bem de perto pelo 2003 junta Touriga Nacional/Aragonês que sendo a primeira colheita mostrou-se em muito boa forma a juntar a uma fruta vermelha ainda madura uma bonita frescura de conjunto com bálsamo fino, couro, especiarias, tudo em corpo médio ainda com energia e final longo. O Tinto da Talha Grande Escolha 2009 junta Touriga Nacional/Alicante Bouschet, inicio com vegetal fresco e fruta madura e de apontamento mais doce, de início algum químico, tudo muito novo cheio de garra e bastante sabor, boa frescura mas final um pouco mais curto do que se esperava.

O Aragonês/Syrah 2007 é de todos aquele que menos conversa, cerrado com aroma químico de início, cacau, pimenta, fruta envolta em geleia, frescura a envolver tudo com boca saborosa, rebuçado de morango em fundo com balsâmico num conjunto bem estruturado com bom suporte e persistência. Um vinho com muito ainda para dar e que certamente está em fase de arrumações. Da colheita 2004 Syrah com Touriga Nacional saiu um tinto com fruta vigorosa, muita pimenta com chocolate de leite, arredondado e coeso, ligeiro vegetal de fundo. Mostra a fruta bem limpa e saborosa, cereja ácida, amora, bom de se gostar. Para o fim ficaram as colheitas 2005 Touriga Nacional/Aragonês que se mostrou de todos o vinho mais aberto e espaçado, tímido mas a mostrar o cunho Roquevale bem patente. Muito melhor na prova de boca, que se fosse de igual gabarito no nariz, seria um caso muito sério. Por fim o que menos gostei, o Syrah/Touriga Nacional 2006 que despejou no copo aromas químicos com vegetal acentuado, num conjunto agreste, muita nota fumada, rusticidade a fazer-se sentir. Ligeira frescura na boca com alguma fruta em corpo mediano e sem ter a mesma prestação que os outros irmãos de armas.

05 novembro 2015

Caves da Montanha

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Ainda pela Bairrada, o passeio encerra com a visita a um dos maiores produtores da região, as Caves da Montanha (Anadia). A produção anual ronda o milhão e setecentas mil garrafas, tendo actualmente cerca de 2 milhões de garrafas guardadas nas longas caves subterrâneas das quais cerca de vinte mil supera os vinte e quatro meses de estágio em garrafa. Em Portugal o espumante de qualidade nem sempre foi uma realidade, é algo que tem vindo a crescer e a afirmar-se junto dos consumidores na última década. Nunca por cá se bebeu tão bom vinho como nos dias de hoje, é uma realidade, mas a somar a tudo isto também é verdade que a Bairrada se assume cada vez mais como a região onde produzir espumante fará mais sentido.

Fundadas em 1943 por Adriano Henriques, a empresa tem passado de pais para filhos estando actualmente na quarta geração com Alberto Henriques ao comando. Apesar do leque de ofertas se estender um pouco por todas as regiões com os mais diversos produtos é nos espumantes da Bairrada que a meu ver mora a alma deste negócio. A equipa de enologia composta por António Selas e Bruno Seabra, juntamente com Alberto Henriques têm sabido encontrar o rumo certo e juntos têm dado o seu contributo para um renascimento da região da Bairrada. Para este refresh de toda uma região, muito tem contribuído a Comissão Vitivinícola da Bairrada na pessoa do seu dinâmico presidente José Pedro Soares. Mas todo este assunto é merecedor de um artigo próprio, por agora o que interessa destacar são os espumantes que se provaram nas instalações das Caves da Montanha. 

O primeiro de todos foi um Montanha Grande-Cuvée Baga 2009, nascido num ano considerado de excelência pelo produtor. Um espumante que mostra um perfil mais clássico se assim se pode chamar, combina notas de alguma evolução com a frescura da fruta madura, notas de biscoito e ligeiro fruto seco. Boa presença de boca, com a fruta a marcar presença em quantidade e sabor, muita frescura com elegância e final de boa persistência. Um espumante com energia suficiente para acompanhar pratos de maior temperamento.

Em 2008 surge a primeira referência do Montanha Grande-Cuvée Chardonnay-Baga, todo ele cheio de frescura no nariz, com leve biscoito e notas de pêra, muita fruta associada à casta Chardonnay com leve fermento. Boa exuberância de conjunto, mousse fina e elegante com acidez a limpar o palato num espumante de fácil harmonia à mesa. 

O Montanha Real Grande Reserva 2009 é o topo de gama, sai quase de dois em dois anos e mostra-se nesta colheita com um blend de Chardonnay, Arinto, Pinot e Baga. Aroma com cocktail de frutas, ligeiras notas de biscoito, alguma geleia, muita frescura e vigor. Boca com envolvência que preenche o palato, frescura com sensação de cremosidade, final seco e prolongado.


Para o final ficou o A. Henriques Edição Especial 70 Anos Bruto 2006, um espumante feito à base de Chardonnay, Arinto e alguma Baga, que combina muito boa frescura com notas da passagem do tempo. Envolto numa delicada e muito fina complexidade que combina aromas de polpa branca da Chardonnay , os travos mais citrinos da Arinto, com a Baga a conferir robustez ao conjunto. Em fundo notas de biscoito com tisana, algum pão torrado num conjunto complexo que na prova de boca se mostra bastante elegante combinando ligeira cremosidade com a boa frescura da fruta. Brilhou a acompanhar um leitão assado à Bairrada.

06 abril 2014

Casal Sta. Maria Ramisco Colares 2006

Enquanto se deambula pelas supostas virtudes de castas alheias em formato de novo messias, vai-se deixando de lado e esquecido todo um vasto património que de tão rico, leva gente importante lá de fora a dizer que Portugal é algo de fantástico e único. E enquanto "o meu é que é bom" e "a finesse mora lá fora" há zonas esquecidas em Portugal que lutam contra a pressão e sufoco dos tempos modernos. Haja pois gente com paixão, com vontade, pessoas que apostam em vinhas perdidas que se contorcem em terrenos de areia, tudo ali perdido no meio de luxuosas e recentes moradias na zona das Azenhas do Mar. E depois é toda uma lição, um ir contra regras que se pensam ser lei imposta pelo mercado e por um tal consumidor inventado por sabe-se lá quem, que supostamente sabe e manda em tudo.

Aqui o que nos salta à vista é um tinto 100% Ramisco de 2006 do Casal Sta. Maria (Colares), um  vinho com oito anos que apenas agora é lançado no mercado, um atrevimento para alguns e continua pela tonalidade que mostra, longe das excessivas concentrações da dita "moda". Bouquet repenicado de coisas boas, madeira exótica, fruto vermelho muito limpo e ácido, cerejas e ameixas, complexo, húmus, travo verdasco em fundo e resultante do 30% engaço que levou. Acidez alta que lhe dá uma frescura de muito bom nível, a mesma que faz as delícias a acompanhar com pratos mais pesados, a fruta saboreia-se na boca, palato requintado e elegante com bom nervo a indicar que ainda tem muitos anos pela frente. Custa 25€ vendido em caixas de três garrafas. 93 pts

08 dezembro 2013

Domaine des Baumard Quarts de Chaume 2006

É um dos segredos mais bem guardados no que a vinho doce diz respeito, nas vinhas de Chenin Blanc plantadas ao longo do rio Layon (Loire), fica um local muito especial, a appellation Quarts de Chaume. É daqui que sai o topo de gama do Domaine des Baumard, num local com condições favoráveis ao desenvolvimento da Botrytis, aqui na colheita 2006. Famoso e ao mesmo tempo controverso o Domaine des Baumard conseguiu com este vinho criar um verdadeiro monstro sagrado com poucos rivais à altura, basta provar o 2005 para se entender aquilo que falo. Um vinho que podendo ser bebido no imediato vai durar e ganhar bastante com o tempo em garrafa, o prazer esse está mais que garantido com  todo o detalhe e rendilhado associado às mãos de um dos grandes mestres. Paga-se um preço a rondar os 45/50€ depende da colheita em causa por uma garrafa de 0.75cl que vale cada cêntimo tendo em conta a excelência com que nos presenteia.

Delicado e preciso, fruta muito pura e madura (alperce, pêssego, clementina, manga) envolto em calda fina e cheio de frescura com toque evidente de botrytis, flores, enorme complexidade de fino rendilhado, invoca sensação de untuosidade. Apetece cheirar uma e outra vez sem parar, na boca entra macio e envolvente, conquistador com sabor e frescura, guloso, lascivo, harmonia e finesse, mineralidade a dominar o pano de fundo. Muito puro, muito singelo mas com belíssima presença de todas as suas componentes onde dá primazia a uma fantástica harmonia de conjunto. Bebe-se até ao fim da garrafa, ficamos a olhar para os amigos e sorrimos, olhamos para o copo e despejamos a última gota, grande vinho. 95 pts

20 setembro 2013

Quinta do Cardo Síria 2006

Foi ao vasculhar por entre a garrafeira que encontrei este branco, olhei para o ano de colheita sorri e pensei que só ali poderia estar por esquecimento... um esquecimento com sete anos. O vinho terá sido comprado na altura pelo motivo de estar na moda, porque se falava e muito, era tema recorrente de conversas entre os seus admiradores com grandes dissertações sobre os seus peculiares aromas de tangerina. Hoje em dia é apenas mais um entre tantos, engolido pela voracidade de um mercado alimentado pelo factor novidade.
Foi escolhido entre outros para ser atirado para o meio da arena, as minhas expectativas eram poucas ou nenhumas, certamente seria mais um a ser trucidado por aqueles que lhe estenderam o copo. Para surpresa minha e espanto de mais uns quantos presentes o vinho safou-se com grande estilo, direi que surpreendeu pela graciosidade que ainda lhe percorre a alma. Decadente com toques de natural oxidação, mostra toque apetrolado com capacidade para cativar momentaneamente onde se junta fruta (citrinos) macerada, mel e flores amarelas. Prova de boca com boa frescura, untuosidade mediana na passagem com fruta melada e fresca em sintonia com nariz. No final não deixa de ser curioso que gostei mais deste vinho neste estado do que quando em novo. 89 pts

12 abril 2013

Vinha Othon Reserva 2006

Volto a falar de um "filho do Dão", volto também a falar dos vinhos Vinha Paz e por mero obra do acaso volto aqui a falar sobre a primeira colheita de um dos seus vinhos, desta vez o Vinha Othon, uma pequena parcela de vinha com mais de 50 anos onde dominam as tradicionais castas do Dão. A conversa até pode desviar para qual a razão pela qual não se fala mais neste produtor, porque não se fala mais nos vinhos do Dão ?
Mas adiante, este Othon não é a primeira vez que o provo, nunca o vi e não será agora que o vou ver como um vinho tão sério ou marcante, muito menos com a durabilidade do Reserva. Aqui reina a tranquilidade associada a uma enorme harmonia (talvez demasiada pelo que pagou a fava com o tempo que lhe passou por cima) e prontidão, um verdadeiro equilibrista no fio da navalha. A prova é sem dúvida alguma charmosa, a tal prontidão e aprumo que mostrava pouco tempo depois de sair para o mercado pagou-se caro, hoje está mais que domado e toda aquela filigrana que tinha esbateu-se. A curiosidade neste caso remete para que enquanto este começa a despedir-se da plateia, lá ao fundo outro está em aquecimento para brilhar alto e colher enorme quantidade de aplausos, chama-se Vinha Paz Reserva 2005. 88 pts

15 março 2013

Quinta do Monte d´Oiro Reserva 2006

Irrita-me solenemente quando abro um vinho do qual espero uma prova grandiosa e a única coisa grandiosa que apanho é uma desilusão, mais uma vez voltou a acontecer e desta vez com um vinho do qual não esperava. Acho que a mudança de rótulo o afectou profundamente, o mesmo aconteceu ao seu primo Aurius 2006 aqui comentado. 

Começa mal, apesar de delicado o aroma é frouxo, quase apático, sente-se frescura e delicadeza mas ao mesmo tempo algo rapado, como se uma plaina (o tempo talvez) por ali tivesse andado a alisar os aromas. Pouca expressão, fruto (cereja) delicado e colocado num amontado de "coisas", alguma hortelã-pimenta e especiarias, tudo trivial e banal, não se sente a fagulha da excelência nem a qualidade de um fruta que sobressaia com esplendor no conjunto. Na boca melhora ligeiramente, a fruta belisca o palato, especiaria, tudo em modo moderado sem grande exaltação, harmonia e muita subtileza mas de igual modo sem grande classe ou coisa que o faça despontar de uma mediania que o assola. O que mostra torna-o igual a tantos outros, as sedas e os cetins que alguns a seu tempo lhe encontraram já foram, a evolução fez das suas e o vinho ficou tolhido. Durante o jantar fui tentando entender o que este vinho tinha para me contar, pouco, à mesa as opiniões não variavam, é um vinho triste diziam. Fui obrigado a concordar. 88pts

06 fevereiro 2013

Aurius Quinta do Monte Doiro 2006

Para os lados de Alenquer, fica a Quinta do Monte d´Oiro, produtor de renome no panorama vínico nacional cujo proprietário José Bento dos Santos é a cara do projecto. Deixando as apresentações para mais tarde, foco-me apenas num vinho que ali foi produzido, o Aurius tinto 2006 elaborado a partir das castas Touriga Nacional, Syrah e Petit Verdot. Estagiou durante 15 meses em garrafa e entre 16 e 18 meses em barricas 100% novas de carvalho francês.

Não bebia este vinho desde a altura em que o seu rótulo era outro, lembro-me que naquela altura o bebia com muita satisfação, hoje estranhamente o vinho não de encontro ao que eu esperava dele, talvez culpa minha porque esperava mundos e fundos de um vinho que não foi talhado para tal. O problema mete-se quando o preço sobe quase ao patamar dos 20€ por garrafa, quando os aromas não se mostram frescos nem mora por ali uma frescura que venha salvar a honra do convento. Se o que tinha estava suspenso, então o que apresentou nada mais é que um amontoado de cheiros e sabores, desgastado, toque morno e sem grande vivacidade. Apesar de tudo, mostra-se melhor na prova de boca, um pouco mais de energia, talvez a última chama antes do adeus final. 

Foi provado antes e servido depois com uma tajine de borrego e ervilhas, um prato tipicamente marroquino que alguns irão encontrar as normais semelhanças ao que por cá se costuma fazer, por exemplo pelo Alentejo. O vinho portou-se à altura e cumpriu o seu destino. 89 pts

Photo by http://soupurb.wordpress.com

06 janeiro 2013

Dominio de Tares Cepas Viejas 2006

É feito em Espanha, na região denominada Bierzo pelo Domínio de Tares e é fruto da selecção da casta Mencía em vinhedo velho (neste caso mais de 60 anos). Vinho de boa consistência e um costumeiro das escolhas acertadas daquela região, o seu preço ronda quase sempre os 10/14€ e encontra-se com facilidade em lojas online. Falar da casta Mencía é quase sempre um exercício que nos leva a invocar/associar à casta que mora ali ao lado, no Dão Lusitano, a Jaen. Enquanto a casta em solo nacional teima em ganhar protagonismo digno de um registo ao mais alto nível, do lado de lá os vinhos elaborados com a Mencía têm ganho a pulso uma posição entre os grandes de Espanha e nisto em muito contribuiu o nome Palacios, provar a sua gama é a melhor forma de entender aquilo que aqui escrevo. 
Debruçando-me neste exemplar, o vinho aplaudiu a prévia decantação a que o submeti, saltando cá para fora toda a sua delicada complexidade, apoiado no carácter frutado da casta aliada ao bom trabalho de barrica.Vertido nos copos resulta um vinho muito agradável, acompanha bem uma conversa de amigos, fresco, com fruta madura e bem sólida, toque de fumeiro com leve esteva no fundo. Pelo meio alguma gulodice com cacau e regaliz presente. Boca com cacau na entrada, apimentado com travo das bagas que rebentam na boca, enrola e torna-se redondo, guloso e fresco, boa presença que invoca o bálsamo vegetal e as bagas silvestres, passagem sem arestas no palato num final longo e persistente. 
Tão fácil de gostar e de beber. 92pts

29 outubro 2012

Quinta Sardonia 2006

Volto de novo ao Quinta Sardonia, desta vez o 2006, mais uma vez bebido em ambiente festivo com gente boa à sua volta, grandes vinhos são para ser homenageados desta forma. A apresentação deste projecto já foi feita a quando da prova do 2004, aqui. Sobre este em particular pouco mais a dizer, o ano quente 2006 fez-se sentir, do que me lembro do anterior este 2006 mostra-se mais morno, mais redondo embora igualmente explosivo e intenso, apesar de mais controlado. Claramente menos fresco que o 2004, mais doce e menos frescura, a subtileza dos aromas continua presente, complexo e muito pronto a beber, direi no ponto de marcha. Trincam-se as bagas sumarentas, aromas de cacau, café expresso, leve bálsamo e plena integração de uma madeira plena de harmonia com creme de baunilha. Na boca é desfrute pleno, um regozijo de macieza com fruta madura e sumarenta, envolvida em especiarias doces, boa estrutura com corpo médio e final longo. É um belíssimo vinho mas que não chega ao nível do 2004, mantem intacta a sua apetência e vontade de brilhar ao mais alto nível no copo e na mesa, a chanfana de vitela não apresentou qualquer queixa. 93 pts

30 maio 2012

El Picón 2006


O El Picón é o topo de gama do produtor Pago de los Capellanes, situado na Ribera del Duero (Espanha), é daqueles vinhos raros e muito caros, acima dos 100€, a qualidade está muito lá por cima e o prazer que dá nem se fala. Sim este é dos tais que provoca sorrisos nos rostos até daqueles que são menos dados a estas coisas da prova, afinal a excelência quando existe é facilmente detectada por todos. Na sua origem está a parcela de vinha que lhe dá o nome, a mais especial e também a mais pequena com 2ha onde a uva Tinto Fino brilha a seu belo prazer. É 100% Tinto Fino, 26 meses em carvalho francês mais afinação em garrafa com líquido por filtrar, resultantes num dos grandes vinhos da nova geração nascida em solos de Espanha.

Se há coisa que aprecio num vinho por mais modesto que seja, é a definição dos seus aromas e sabores, não me basta um qualquer atabalhoado de coisas que parece terem caído por ali de rompante... nada de açucarados ou soalhos flutuantes, fujo de tudo isso, o que procuro é o que se encontra em vinhos como este, um Full HD. Vinhos onde é a fruta, a bela da fruta que deve ser sempre a principal protagonista, com ou sem madeira, brilha com enorme definição, a frescura e a delicadeza apesar do grande envolvimento, dominam a prova. Madeira essa coisa que muitos insistem em utilizar para tapar buracos é aqui sabiamente manobrada, está mas não está, contribui mas sabe que deve deixar a fruta brilhar... porque a essência de um vinho é a fruta e não a madeira por onde andou. Por momentos fez-me lembrar dois vinhos muito especiais, ambos Touriga Nacional, um nascido no Dão, um Touriga Nacional 2001 da Quinta da Bica que nunca chegou a ver a luz do dia, o outro um Touriga Nacional criado pelo mestre Mariano Garcia lá para os lados de Zamora. Dois vinhos fantásticos com um elo em comum com este aqui agora relatado, a definição de uma fruta fresca e bem madurinha, com todo o restante conjunto em grande harmonia e complexidade, cheios de fibra mas suaves no palato, ao mesmo tempo com raça, profundos mas delicados.

Na senda do El Nogal 2005, este está num degrau acima em tudo, mais complexo e mais profundo, aromas mais definidos, todo ele mais denso e com tudo de superior qualidade, destaca de inicio muita fruta preta do bosque (amora, framboesa) sólida e fresca, depois num toque de graça algum floral perfuma todo o conjunto seguido de especiaria fina (canela), tabaco e algum regaliz em fundo. Tudo ainda a pedir tempo, vinho que se sente fechado, com nervo e garra, gira no copo e vem ao de cima alguma caruma de pinheiro num fundo mineral. Na boca é complexo, sedoso, denso, os sabores vincados com enorme harmonia e frescura, final muito longo e persistente. Tem ainda muita vida pela frente,  podendo beber-se desde já é vinho que vai evoluir nos próximos dez anos sem grande problema. O preço é elevado, paga-se a procura e a exclusividade, nisto o El Nogal tem sem dúvida melhor relação preço/qualidade, quanto ao El Picon é um vinho de excelência que não deixa ninguém indiferente... 95pts

21 maio 2012

Quinta do Vale Meão 2006


A dias de ter sido lançado um novo Barca Velha em que grande parte da uva que lhe deu origem é da Quinta da Leda, antes era da Quinta do Vale Meão. Ora é dessa mesma Quinta que após cortar o cordão umbilical com a Casa Ferreirinha se começou a engarrafar com marca própria no ano 1999 (já lá irei a seu devido tempo), por agora falarei apenas do Quinta do Vale Meão 2006, um bom vinho do Douro fruto de um ano menos bom que teve como consequência um vinho algo fora de tom... pelo menos do que tenho provado não vi que este 2006 fosse de grande brilho. Com o decorrer das colheitas, o lote de castas presentes foi diminuindo e vimos desaparecer a Tinto Cão e a Tinta Amarela, sendo quase sempre assente na Touriga Nacional, Tinta Roriz, Touriga Francesa e Tinta Barroca.

Neste 2006 é a Touriga Nacional que domina no aroma seguida de Touriga Francesa e as duas Tinta restantes em igual percentagem. Todo ele é fácil de gostar, é o Vale Meão com mais gordura de todos, o mais balofo e redondo, anafado com fruta gorda, sumarenta e viscosa, baboso de geleia e cacau, a barrica já bem integrada com muita especiaria doce, está mais do que pronto a beber. Tem boa intensidade e complexidade, mas torna-se muito óbvio, sedentário e nada espevitado. Na boca apesar da frescura que mostra ter, falta-lhe a energia dos outros anos, não deixa de ser um vinho que enche o palato, redondo com muito sabor a marcar presença mas abaixo do normal, falta energia e nervo, aqui é mais bolos, chocolate e esteva seca. Mostra harmonia, muita prontidão, muito facilitismo. Esta foi a terceira garrafa que bebi do 2006 e de todas foi a que menos me disse, falha como Meão se comparar com anos como o 2001 ou 2005 e recentemente o 2009, para mim nem devia ter sido lançado para o mercado, acho que mais valia um grande Meandro do que um pequeno Meão. Não vale os cerca de 60/70€ que já vi pedirem por ele. 91 pts e a descer...                     

12 janeiro 2012

Ultreia St. Jacques 2006


O caminho perdura na lembrança de todos aqueles que o escolheram, a marca de quem o percorreu fica para sempre gravada no tempo. A minha caminhada até Santiago de Compostela já lá vai, os sons, cheiros e sabores daqueles dias inesquecíveis marcou-me, fui arrebatado pela história e sabores das variadas regiões que percorri passo a passo. Cheguei ao fim mas parece que a porta não se fechou, a vontade de voltar é grande, não é fácil virar costas a algo que gostamos muito como é o caso. O livro Gastronomia en el Camino de Santiago, da autoria de Maria Zarzalejos é uma belíssima obra que se apresenta com capa dura, cheio de fotografias de grande qualidade com uma abordagem cuidada sobre as províncias por onde se vai passando, com detalhes sobre a história, monumentos, gastronomia, fala-se dos vinhos ainda que muito superficial sobre castas e sobre a especificidade de cada zona, tal como os seus costumes. O grande destaque vai para as receitas que foram recompiladas e colocadas em destaque em cada uma das províncias por onde se passa, direi que são as mais emblemáticas feitas à maneira antiga, tradicional, podendo sempre variar conforme a mão que as prepara mas o que ali está está muito bem e recomenda-se. O preço do livro ronda os 55€ mas com alguma pesquisa consegue-se encontrar a preço mais comedido.

A receita, Perdices montañesas, vem da mesma zona que o vinho em causa para a acompanhar, o Bierzo, uma zona cuja presença do vinho e da vinha em muito se deve ao Caminho, aliás a influência Francesa foi grande até pelo nome com que acabou por ficar baptizado Caminho Francês. A variedade tinta que por ali reina é a Mencía, em Portugal tem por nome Jaén embora os vinhos do outro lado sejam mais cotados a nível internacional e por sua vez bastante mais procurados. O vinho que abri para acompanhar as ditas perdizes foi um Ultreia St. Jacques 2006 (Bodegas y Viñedos Raul Pérez), da autoria do estrelado enólogo Raul Pérez. O vinho vai buscar o nome à palavra Ultreia, de forte significado entre peregrinos e com origem na Idade Média, que significa "em frente", St. Jacques é o nome da vinha de onde é produzido e também o nome do apóstolo (leia-se São Tiago). A vinha são apenas e só uns meros 3.2 ha e é velha, foi plantada em 1889.

O resultado final com 13,5%Vol é um caldo 100% Mencía que tem direito no final a um estágio de 8 meses em madeira. Se até aqui a coisa já prometia, todo o resto é obra de um mestre enólogo de nome Raul Pérez, talvez o nome mais sonante da enologia moderna em Espanha, o nome que todos querem ter no rótulo, principalmente quando o projecto é recente e convém que a coisa seja bem feita, Raul sabe-o fazer como ninguém... apoiando-se firmemente na ideia que os grandes vinhos nascem na vinha e é nisso mesmo que ele se destaca. O resultado são vinhos altamente cotados e reconhecidos mundialmente pela quase totalidade dos críticos de renome, essencialmente os do Bierzo que ele domina como poucos e onde imprime uma frescura e elegância notável à casta e respectivos vinhos. 

Este não é excepção, mostra-se de aroma limpo e perfumado, muito bem composto com uma fruta madura ( amora e framboesa) muito presente, alguma geleia, bálsamo subtil, cacau, ainda um tempero especiado pelo meio com nota de fumo, tudo em boa intensidade com toque de mineralidade. Na boca todo ele concentrado, densidade de sabores com fruta em destaque, depois é uma passagem com suavidade mas com alguma secura no fundo, é vinho que ainda tem mais algo que durar, que mostrar, dá sinais de que a sua complexidade ainda não está na máxima plenitude. A frescura que o embrulha com a qualidade da fruta e a fineza do trato é o que mais se destaca, um vinho que na altura não me custou mais de 7€, hoje em dia esgota rapidamente assim que chega ao mercado... é rateado e alvo de cobiça, um Mencía de grande qualidade. Se o vir não pense duas vezes, a compra e a prova valem cada cêntimo de prazer... esta foi a minha penúltima garrafa, em relação à que abri no ano passado com um
amigo, notou-se um ligeiro refinamento, vou guardar a última e ver como se comporta para finais deste ano. 92 pts

06 janeiro 2012

Herdade das Servas Touriga Nacional 2006

Escrevo sobre um dos produtores que tenho tido o prazer e privilégio de seguir desde que surgiu no mercado, as ligações ao mundo do vinho na família Serrano Mira vem de longe, mas os dois irmãos, Carlos e  Luís, decidiram que queriam um projecto só deles, fazer as coisas à sua maneira e avançaram com a Herdade das Servas bem perto de Estremoz. Nunca escondi que sou amigo dos donos, o enólogo Tiago Garcia embora mais novo que eu andou na mesma escola e ali na Herdade das Servas sempre fui muito bem recebido, o bem receber é norma naquela casa. 

Em 2003 lançaram um excelente Touriga Nacional, a evolução do mesmo até aos dias de hoje tem sido notável e arrisco a dizer que foi o melhor Touriga Nacional das Servas até à data, pena já ter poucas garrafas, mas nota-se que a enologia também tem vindo a refinar com os anos e com a experiência acumulada, ganharam muito com a subida do enólogo Tiago Garcia de residente para principal, um reconhecimento mais que meritório de um profissional que a solo tem seguido um rumo que eu gosto, vinhos menos pastosos, menos carregados, mais frescos e harmoniosos, afinal é o rumo natural da vida a pender para a harmonia e serenidade. Em 2006 um ano dito menos bom, ali também se fez Touriga Nacional, o mesmo que agora falo, um vinho que arrisco dizer foi o quebrar de um elo que ali morou, o rótulo também mudou... sim o novo Touriga 2008 é diferente e encaixa no que já disse lá atrás e falarei dele noutra altura.

No seguimento das anteriores colheitas é um vinho pujante e concentrado, sem cair em exageros que o possam tornar em algum momento enjoativo. No primeiro instante mostra toda a sua força e energia, fruta negra fresca e bem madura (leve toque doce da mesma), compacto, madeira ainda a dizer que não arranjou lugar para se acomodar, liberta bálsamo com toques de baunilha que se misturam com ligeira violeta e pimenta preta em fundo. Na boca é um vinho cheio, vigoroso e com estrutura sólida que lhe dá largos anos de vida, taninos ainda presentes sem incomodar grande coisa se acompanhado de comida de bom tempero, tipo feijoada de javali ou ensopado de lebre, com a intensidade a que já nos acostumaram os vinhos desta casa, sabor marcado pela fruta com alguma pimenta, bálsamo novamente e a madeira bem mais acomodada juntamente com a frescura necessária em final longo e persistente. O preço penso que não deve andar longe dos 15€ para um vinho que apesar de dar uma bela prova neste momento, vai certamente melhorar um par de anos em garrafa. 92 pts

08 abril 2011

Quinta do Couquinho 2006


A Quinta do Couquinho situa-se no Douro Superior, nome associado aos Lavradores de Feitoria no ano de 1999 com um vinho do mesmo nome que na altura tanto prazer me deu a beber. Nos dois anos seguintes as uvas foram direccionadas para o nascimento de uma nova marca e que para ela contribuíram durante duas colheitas, o Grande Escolha 2000 e 2001, depois os donos da Quinta do Couquinho entenderam que deveriam seguir os seus próprios passos com marca própria. Em 2004 tinham já a sua adega própria, contando com 12 ha de vinha, a enologia fica a cargo do enólogo João Brito e Cunha, assessorado por Vitor Rabaçal.

Assim de memória conto pelos dedos os vinhos de 2006 que gostei, a culpa foi de um ano vitícola em que elevadas temperaturas se fizeram sentir principalmente durante a maturação. Este 2006 cujo lote é composto por Touriga Nacional, Tinta Roriz e Touriga Franca, teve um estágio efecturado em barricas novas e usadas de carvalho francês de 225 litros durante 12 meses, terminando com 14,5% Vol.
O patamar deste vinho situa-se muito bem nivelado, tanto a nível de qualidade como de preço praticado, estes são os valores sólidos e consistentes, vinhos que não nos deixam pendurados antes pelo contrário, no final da refeição quando já não resta nem mais uma gota, pode-se dizer com satisfação... dever cumprido.

No aroma mostrou-se moderado na intensidade, fruta fresca com cerejas e ameixas levemente compotada e com toque morno a meio, algum cacau e pimenta preta, aqui a registar-se o toque quente da maturação da uva, com esteva em flor no segundo plano em que mostra boa frescura. Afinado, harmonioso com a madeira muito bem integrada com leve fumado em fundo, num Douro que se faz sentir embora de perfil mais moderno, mais imediato mas muito apetecível. Na boca entra com muita fruta, algo doce e arredondado, taninos finos com toque vegetal em boa espacialidade e final de boca em boa persistência.

Resulta portanto uma prova de muito bom nível, o vinho tem uma grande harmonia entre a prova de nariz e a prova de boca, algo arredondado e harmonioso, com boa evolução no copo ainda que sem grandes entusiasmos. O preço ronda os 12€ o que não fazendo dele um vinho barato confere com o habitual para este patamar de qualidade. 90 pts

20 fevereiro 2011

Nora da Neve 2006

Em Portugal os brancos feitos da casta Alvarinho com passagem por madeira é algo digamos recente, excluindo os casos pontuais que existem, o número de produtores que o faz com grandes resultados conta-se pelos dedos de uma mão, do outro lado da fronteira nas Rias Baixas esta prática já não é digamos, recente, e os Albariños com fermentação em barrica têm surgido sempre como vinhos raros e caros, em que são sempre o topo de gama da casa.
Da adega rodeada por vinhas com panorâmica para o Rio Minho, solos pobres e arenosos, altitude inferior a 300 metros, próximas ao mar e ao mesmo tempo ao rio. São 14 hectares de vinha da casta Alvarinho, em que os solos são compostos por uma original mistura de cascalho com granito, os vinhos da última colheita nunca se engarrafam antes do mês de Março seguinte, sendo objectivo claro das Bodegas Viña Nora comercializar vinhos jovens e não recém nascidos. Um dos grandes desafios foi a elaboração de um vinho, como o Nora da Neve, fermentado integralmente em barricas de carvalho francês. Com este vinho presta-se homenagem à tradição dos antigos Albariños que permaneciam em barrica até ao segundo ano de vida, e ao mesmo tempo, apresenta-se uma alternativa moderna na gama da mais alta qualidade de brancos de Espanha. Não é certamente daqueles vinhos de fácil abordagem ou que todos vão adorar, este Nora da Neve 2006 precisa de atenção e dedicação, precisa de copos à altura para melhor o podermos entender, um 100% Alvarinho com 7 meses de banhos em barricas de carvalho francês cujo preço ronda os 21€.

Aroma a precisar de espairecer, precisa de algum tempo no copo, o que se nota logo de início é uma oxidação positiva e no bom sentido com a barrica a dar notas da sua presença em boa integração com o conjunto. É com algum tempo que o vinho se vai mostrando, fino e elegante, com fruta madura (polpa branca, citrinos, tropical ligeiro) um pouco desgastada na frescura e intensidade quer pelo tempo quer pela madeira, vegetal e floral seco (louro, flores brancas), pinhão, manteiga de avelã e fumados em fundo.

Boca de entrada calma e com boa amplitude, muito esclarecido no que tem a mostrar e a dar, acidez fina e firme que serve de fio condutor para toda a passagem de boca, com a madeira a servir de pano de fundo, no meio desfilam as frutas (citrinos, polpa branca) em suave calda na maneira que parece conferir alguma untuosidade. O final é longo e persistente.

Primeiro estranha-se, depois entranha-se e quando queremos mais já não há. É assim este Nora da Neve, um Alvarinho luxuoso recheado de coisas boas de grande qualidade, a complexidade em copo faz dele um vinho telúrico e amigo de boa conversa à sua volta. Será certamente um bom exemplo de como a passagem por madeira confere à Alvarinho uma nova complexidade e mantém parte da frescura tão necessária para o vinho não perder interesse. A fruta aliada a um conjunto recheado de coisas boas, de cheirar e de provar... 17 - 92 pts

10 fevereiro 2011

Mauro 2006

Alguns graçolas gostam de dizer à boca cheia que eu sou uma pessoa que defende muito o vinho Espanhol... ora como se assumir o que se gosta fosse um enorme pecado ou mesmo um acto de infidelidade vínica para com o vinho feito em Portugal. Afinal de contas, Enófilo que se preze deve gostar de todos os bons vinhos independentemente da sua região, casta ou país, eu assim o continuarei a fazer, assumindo sempre os que mais gosto.   Dito isto vou falar de um vinho feito do outro lado da fronteira, feito por um dos grandes senhores do vinho, não só de Espanha mas do Mundo, um nome que aprendi a respeitar desde muito cedo, os seus vinhos são exemplares e tudo respira qualidade. O nome das Bodegas Mauro, criadas por volta do ano de 1980, é sinal de prestígio e de Castilla y León (ficam à porta da D.O. Ribera del Duero), também sinal de modernidade e de vinhos feitos com mestria pelas mãos de Mariano Garcia. O vinho que comento é a entrada de gama deste produtor, um blend de Tempranillo com Syrah, vinificação das castas em separado e estágio entre 12 a 14 meses em barricas novas de carvalho francês (75%) e americano (25%).

Num aroma de mediana intensidade, em que primeiro mostra fruta vermelha e negra (morango, amora, framboesa) madura e de suave frescura com ligeira geleia das mesmas, tudo delicado e muito apetecível. Envolve-se com toques de regaliz, a madeira mostra-se muito afinada e refinada, em grande entrosamento com todo o conjunto e sempre de grande qualidade, apanágio desta casa, baunilha, charuto, café em grão e leve apimentado no fundo. Pelo meio parece saltitar um ligeiro apontamento de bálsamo vegetal que confere ao conjunto uma graça suplementar, mas tudo isto embrulhado com mestria embora sem uma complexidade que se destaque em demasia. Ficamos como que à espera de um pouco mais.

Boca com entrada frutada, melhor aqui que no nariz, passagem calma e harmoniosa com ligeira secura a meio palato, corpo médio com boa largueza de ombros, frutado e fresco com embate especiado e vegetal em fundo, acompanhado por toque de café torrado.

O resultado final não terá sido o mais esperado, pelo que conheci de outras colheitas esperava algo mais na forma como se mostrou, notei uma quebra no que a complexidade diz respeito, fiquei preso naquela falta de indefinição que o vinho mostrou pois quer ser e não mostra maneiras de o ser... até pelo preço que pedem por ele, nada barato são 23€ em garrafeira. Depois deste Mauro vem o VS que custa o dobro (45€), e no topo da casa espreita o Terreus cujo preço aponta para o dobro do preço do VS, (90€) portanto sempre em crescendo tanto em preço como em qualidade. Fiquemos contentes pois então, que pelos tais 23€ ou menos, há vinhos feitos em Portugal que dão muito mais prazer a beber. Este marchou em beleza com um assado de borrego, ninguém se queixou mas também não deslumbrou. 16,5 - 91 pts

12 janeiro 2011

Quinta da Ponte Pedrinha 2006

Revisito os vinhos da Quinta da Ponte Pedrinha, de Maria de Lourdes Mendes Oliva Nunes Osório, situada na Região do Dão, entre Seia e Gouveia. A sua vinha, implantada em solos graníticos desde há mais de 30 anos, tem raízes profundas nesta Quinta, os hectares de vinha que oferecem vida aos seus vinhos dão contornos de rara beleza à paisagem circundante. A tecnologia associada à vinificação levou à construção de uma adega à altura dos pergaminhos dos vinhos que sempre aí se produziram. Desta vez falo do tinto da colheita 2006, produzido a partir das castas Touriga Nacional, Alfrocheiro Preto e Jaen, foi estagiado em meias pipas de carvalho francês. Lembro-me deste tinto na ida colheita de 1997 quando ainda era João Portugal Ramos o seu enólogo, depois perdi-lhes o rasto, recentemente vieram até mim, já com nova roupagem, o branco foi provado juntamente com o tinto, os topos de gama optei por lhes dar mais tempo para se acomodarem um pouco mais à garrafa, prefiro provar vinhos cordatos no trato do que abruptos e sem modos. 

De nariz em mediana intensidade, cordato com um travo doce com esteva, bosque, algum vegetal seco a lembrar chá preto e toque de fruta do bosque com leve compota a mostrar-se também presente.

Na boca entra com alguma frescura, sente-se o Dão mas um pouco desnorteado, talvez o tempo lhe esteja a pregar partidas, sente-se algum curto no final. O vinho bebe-se bem mas sente-se algo curto, talvez fruto de um ano rasca para fazer bom vinho. Não fiquei desapontado pois num ano mais sorridente a coisa estará certamente mais aprimorada, o preço simpático não chega aos 5€, mas gostei bem mais do branco. 14,5 - 86 pts 

04 outubro 2010

Schloss Schönborn Riesling Brut 2006

Numa jornada enófila que fiz na companhia de dois amigos, Pingas no Copo e Pingamor, parou-se em Muge na loja da Casa Cadaval com o objectivo de tentar arranjar o afamado varietal Trincadeira Preta de colheitas mais antigas, convém avisar os mais desatentos que a Casa Cadaval costuma colocar vinhos de anteriores colheitas à venda na sua loja a preços sensatos, o que é sempre bom para o consumidor. Infelizmente o vinho que procurava estava esgotado, resolvi passar os olhos pela restante gama de vinhos existente na loja. Deparei-me na altura com um conjunto de 4 espumantes de nacionalidade alemã. Este facto explica-se facilmente pois a Casa Cadaval é gerida pela Condessa von Schonborn, irmã do Conde von Schonborn que gere os destinos dos vinhos Schloss Schonborn (Rheingau). Na loja podem-se comprar todas essas 4 referências sendo que o Pinot Blanc seja exclusivamente vendido como parte de um pack, optando por comprar o Riesling Brut Vintage 2006, cujo preço rondou os 12€.

Schloss Schönborn Riesling Brut 2006


Tonalidade amarelo dourado de média concentração e bolha média de boa persistência

Nariz de boa intensidade, aroma fresco com fruta madura (alperce, lima), sente-se um suave aroma a gás de isqueiro, com toque de mel e algum fruto seco em fundo. Muito agradável de cheirar, tudo bem embrulhado em mineralidade conseguindo manter a boa forma durante bastante tempo.

Boca onde se faz sentir uma agulha fina, todo ele se mostra bem fresco, acidez bem presente com frutado de início no toque de limão, alperce num conjunto que mostrou média estrutura, algo redondo com secura sentida no final, perdendo ligeiramente algum refinamento e vigor com o tempo no copo, mostrando uma boa persistência final.

Foram poucos os contactos que tive com espumantes feitos à base da casta Riesling, dos que provei este foi sem dúvida o melhor de todos. Com o tempo que passou por ele mostrou que a evolução foi positiva o que lhe conferiu uma fina e delicada complexidade, refrescante e bastante agradável de se cheirar e beber. Uma verdadeira surpresa que deu vontade de voltar a provar muito em breve. 91 pts
 
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