Copo de 3

18 março 2019

A magia das Talhas

O Vinho de Talha é e sempre será um vinho de um povo, um vinho sem terroir, sem castas associadas, acima de tudo é um vinho que carregou e carrega nele a história das gentes. Não fiquemos a pensar que é uma exclusividade nossa, puro engano, afinal este tipo de vinificação veio até nós no tempo dos romanos que a foram deixando um pouco por toda a parte, com eles trouxeram as videiras e a sua arte de fazer vinho, o Vinho de Talha. Esquecida por uns, revivida por outros, a tradição foi-se mantendo até aos nossos dias e não vou arriscar rigorosamente nada em afirmar que o boom do vinho estagiado em barro peca por tardio em Portugal, uma vez que na vizinha Espanha os ensaios e os vinhos lançados para o mercado estagiados em talhas/tinajas de barro já fazem soar as mais altas pontuações dos grandes críticos internacionais. 

Por cá resta-nos acordar do entorpecimento que vivemos, resta afinar arestas e limar conceitos, porque uma tradição não pode sucumbir perante interesses nem ser desvirtuada da maneira como tem acontecido em vinhos certificados onde as talhas em vez de pesgadas são revestidas a epoxi. A cantilena da maneira como o vinho é feita já é por todos mais que conhecida e debitada em playback vezes sem conta. A verdadeira arte por detrás do Vinho de Talha está ralmente nas Talhas, é no seu fabrico onde reside toda  a magia e sem elas, mas acima de tudo sem aqueles que durante séculos as criaram, hoje não teriamos Vinho de Talha nos nossos copos. Das mais pequenas às maiores com capacidades para 8000 litros e que chegam a pesar mais de uma tonelada, aos mais variados formatos conforme a zona de fabrico. Este é um documentário que invoca a memória de todos os que as fizeram e continuam a fazer, uma arte que felizmente não se encontra extinta e que como se pode ver pelo vídeo tem marcado gerações.


17 março 2019

Mamoré de Borba Reserva branco 2017


Se o Mamoré de Borba branco (Sovibor) já é um belo vinho, só podemos ficar satisfeitos quando nos cai este Reserva 2017 no copo, preço ronda os 16€. O lote é Arinto, Antão Vaz e Verdelho/Gouveio que passaram por barrica, dando untuosidade e alguma gordura ao vinho, um bocadinho mais de corpo e presença, mantendo a mesma frescura e elegância que o seu irmão mais pequeno. Precisa de comida por perto, dominado por aromas de fruta de pomar, muito alperce, tangerina, ligeiro floral a perfumar o resto do conjunto numa bonita complexidade. Renova a elegância na prova de boca, com uma boa estrutura e frescura que lhe dão alma e vida para durar largos anos em garrafa. Daqueles brancos para beber sem pressa, com uma sopa de cardos com bacalhau alimado. 91 pts

16 março 2019

Jerez & El Misterio del Palo Cortado

O que bebemos num copo de Jerez não é apenas o resultado da fermentação da fruta, é acima de tudo o peculiar sabor de um sítio mágico onde parece ter sido um local escolhido pelos deuses: Jerez, no sul de Espanha, onde o vinho é criado faz 3000 anos, um local de histórias, lendas e acima de tudo mistérios. Um desses mistérios, é também um vinho mágico: o Palo Cortado.


14 março 2019

Quinta do Cardo Grande Reserva 2014


Há nomes que nos conseguem meter a olhar para uma região face à força da qualidade e diferença dos seus vinhos mas também da qualidade do trabalho do seu marketing e da maneira como comunicam cá para fora aquilo que fazem. Nesta simbiose, que direi perfeita, encontra-se a Quinta do Cardo que orgulhosamente nos mostra o melhor que a Beira Interior nos tem para mostrar no copo nas mais variadas vertentes. O culminar de todo o trabalho surge quando se cria um topo de gama, aquele que enche a alma ao produtor quando nos serve um copo. 

Este é o Grande Reserva da Quinta do Cardo, criado a partir de Touriga Nacional, Tinta Roriz e Caladoc, 36 meses de clausura onde apenas os vinhos das melhores barricas foram escolhidos para o lote final. O resultado é um vinho de carácter bem vincado, notas terrosas com fruta vermelha fresca e ácida a despontar, esteva em flor, toque especiado com ligeira austeridade. Profundo ao mesmo tempo misterioso, daqueles que gosta de copos largos para se ir mostrando ao longo do tempo em que rodopia. Na boca o festim continua, perfil claramente a pedir comida, um cabrito no forno ou uma empada de perdiz fazem dele um vinho muito feliz, pela sua estrutura e longevidade, temos vinho para largos anos. Ronda os 30€ em garrafeira. 95 pts

11 março 2019

Paço dos Cunhas de Santar Vinha do Contador branco 2014


O Paço dos Cunhas de Santar (Dão) é uma construção de estilo da renascença italiana, mandado construir por Dom Pedro da Cunha em 1609. O vinho sempre ali teve direito a berço, mas foi em meados de 2005 pelas mãos da Dão Sul que sairam os topo de gama Paço dos Cunhas de Santar Vinha do Contador, com preço que na altura rondava os 15€ por garrafa. Com o tempo as coisas mudaram, o vinho aumentou a produção, mudou de rótulo e passou a ter um preço que ronda facilmente os 35€ em garrafeira. A qualidade essa está bem presente, num lote em que a base é Encruzado, apoiado na Malvasia Fina e no Cerceal branco com metade do lote a estagiar 12 meses em barricas. Um branco amplo, ainda cerrado de aromas com notas de pederneira, a madeira apenas o arredonda para dar lugar no meio à fruta madura com nota de pão torrado, citrinos variados. Grande elegância com frescura, complexidade com ligeiro fruto seco na boca dando a sensação de alguma untuosidade, que se esbate na fruta mais ácida. Um grande branco do Dão com muita vida pela frente. 94 pts

08 março 2019

Quintas de Borba 2016


O rótulo é recente e chamativo, na loja da Adega de Borba (Alentejo) o preço ronda os 4€ o que se justifica e de que maneira face à qualidade do vinho. O lote é feito com as castas Aragonez, Alicante Bouschet e Syrah, que passaram 8 meses em barricas novas mais 8 meses em garrafa. O resultado é um vinho guloso, com a fruta bem carnuda e suculenta ao comando mas rodeada de notas de especiaria, cacau e balsâmico. Equilibrado no seu conjunto, frescura com porte médio na estrutura que o suporta, dá uma prova de boca a pedir comida regional por perto. Dá prazer a beber e tal como o branco, pelo preço/qualidade é um valor muito seguro para aquele copo ocasional a acompanhar a refeição. 89 pts

Marquesa de Alorna Grande Reserva Branco 2015


Vamos até Almeirim desta vez não para a Sopa da Pedra mas para provar este branco muito especial da Quinta da Alorna e que se apresenta pelas mãos da enóloga Martta Reis Simões como topo de gama da casa. O preço ronda os 20€ por garrafa e o lote das castas que dele fazem parte é um segredo bem guardado, ficamos apenas a saber que o vinho tem uma passagem por madeira nova e usada durate cerca de 8 meses. O aroma é amplo e com toques untuosos de tosta embalados pela frescura da fruta amarela (pêssego, alperce) com um lado mais perfumado e floral a juntar-se ao tom mais amanteigado dado pela barrica. E é neste conjunto de prazer, envolvente, fresco e untuoso que conquista na boca, com grande harmonia e prazer no copo. Um belíssimo branco nascido nas terras Ribatejanas, a pedir por exemplo um bom peixe assado no forno. 94 pts

06 março 2019

Soalheiro Mineral Rosé 2018


No rótulo este Soalheiro Rosé avisa-nos que é Mineral, depois tem a irreverência de juntar Alvarinho com Pinot Noir e o resultado final é de estrondo, um dos melhores rosés que nos pode cair no copo e o preço ronda os 10€. É daqueles vinhos que mal provamos pensamos logo em arranjar espaço na garrafeira para ter umas quantas prontas para o Verão, mais que um rosé é um vinho de desfrute, daqueles que se bebe com prazer e que faz uma grande companhia à mesa. A fruta desfila, airosa com uma brisa fresca a austera de fundo, tem garra e secura, não facilita em nenhum momento mas é nisso que mora o seu encanto, naquele toque de rebuçado de morango e framboesa, com o extra mais citrino da Alvarinho. A harmonia está lá com a delicadeza e tudo o mais, gulodice pura que nos faz beber sempre mais um gole com bichos do mar na grelha ou um sushi mais requintado. 94 pts

28 fevereiro 2019

Graham’s Colheita 1969


A Graham´s não tem tradição neste tipo de Vinho do Porto, pelo que apenas ocasionalmente coloca lotes exclusivos e de pequena quantidade dos seus Colheitas. Para este 1969 Charles Symington provou cada um dos 21 barris e escolheu seis como excepcionais, que deram origem a pouco mais do que 712 garrafas. Aqui entramos no patamar da excelência tal a qualidade do vinho, capta no imediato a atenção pelo bouquet rico e perfumado, enorme elegância com notas de damasco, fruto seco (nozes), especiarias, tom de laranja cristalizada, madeira antiga encerada, amplo e profundo. Boca com muita frescura, envolvente e requintado, parece que nada falha, untuosidade que se prolonga num final macio e longo a invocar notas de especiarias e frutos secos. Um vinho luxuoso que na altura do lançamento tinha um preço a rondar os 350€, hoje pela raridade o preço será sem dúvida mais alto. 97 pts

27 fevereiro 2019

Murganheira Cuvée Especial Bruto 2006



Um dos espumantes que mais prazer me deu beber nos últimos tempo foi este Murganheira Cuvée Especial Bruto, onde a casta Tinta Roriz é vinificada em branco. O que se destaca nele é a finesse com que se mostra, uma grande entrega mas ao mesmo tempo uma delicadeza com bolha fina e mousse que lhe dá uma cremosidade quase aveludada. Pelo meio as notas de estágio, com biscoito e brioche, num conjunto a mostrar-se com muita classe no palato. O preço ronda os 22€ e mostra que podemos ter um grande espumante no copo sem ter de ir até França. 95 pts

26 fevereiro 2019

Kopke Colheita 1937

Quando um vinho desta idade e respetiva complexidade nos cai no copo apenas nos resta o silêncio para que ele nos conte tudo aquilo que lhe vai na alma. Neste caso é um grandioso Colheita datado de 1937, muito complexo cheio de bálsamos, fruta passa (figo, ameixa) bem definida, toque guloso a recordar mel de esteva, caramelo com frutos secos num tom mais de amêndoa, madeira antiga. Envolto numa boa frescura que lhe dá vida, numa boca a preencher o palato de requinte, untuoso com fruto seco, muito equilibrio num final muito longo e delicioso. É o vinho perfeio para um fim de noite tranquilo enquanto se conversa com os amigos. O preço ronda os 490€ por garrafa, tendo neste caso sempre muita atenção para comprar sempre o engarrafamento mais recente, onde a vida e frescura estão mais presentes. 95 pts

24 fevereiro 2019

Olho de Mocho Reserva 2016

A renovação continua a bom ritmo na Herdade do Rocim, sempre pautando pelo rigor e pelo bom gosto, desta vez tocou ao Olho de Mocho Reserva, nome da planta que surge no rótulo e também na vinha que recebe o seu nome, mudar de garrafa e também de rótulo. Para mim é aposta mais que ganha à primeira vista. Conquista no imediato pela sobriedade e imponente garrafa, sem esquecer que estamos a jogar num patamar muitas vezes complicado mas onde facilmente se encontram alguns dos melhores vinhos para ter no copo com relação preço/satisfação fantástica, este é um desses casos.

Consegue vir para casa por um preço a rondar os 15€, num tinto feito com Alicante Bouschet e Trincadeira, estagio em barricas de 500 L de carvalho francês por um período de 16 meses. Por aqui os vinhos já nos acostumaram a ter uma bela frescura que embala toda a fruta que surge em tons maduros, limpos e bastante delineada. O tempo vai limar tudo e fazer com que ganhe uma outra complexidade que por enquanto parece um tanto ou quanto adormecida. Sente-se um conjunto com força, frescura aliada a um toque vegetal/floral da Trincadeira e uma fruta mais gulosa que o vai marcando até ao final longo e persistente. Daqueles vinhos para beber sem pressa ou então com uma perna de javali no forno adornada com um ramo de cheiros, 
o melhor Olho de Mocho Reserva até à data. 93 pts
 
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