Copo de 3: 1964
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18 fevereiro 2016

Caves São João

Blend-All-About-Wine-Caves Sao Joao-Logo caves são joão Frei João, a Bairrada das Caves São João Blend All About Wine Caves Sao Joao Logo

A história das Caves São João é longa e rica em detalhes, tudo começou com o nome Sociedade dos Vinhos Irmãos Unidos, fundada em 1920 por três irmãos viticultores da Bairrada: José, Manuel e Albano Ferreira da Costa. Durante largos anos prosperou a venda a granel, tendo sido apenas a partir de 1950 quando se juntou Caves São João à denominação da firma. Mas apenas em 1959, já com os descendentes de um dos fundadores, Alberto e Luís Costa nos comandos das Caves, iriam surgir as marcas que lançaram as Caves São João para o estrelato – o Frei João (Bairrada) e o Porta dos Cavaleiros (Dão). Alberto e Luís Costa eram exímios negociantes de vinho, sabiam como poucos escolher e comprar os melhores lotes, direi mesmo que souberam como poucos criar e educar grandes vinhos que ainda hoje perduram e mostram com galhardia toda a potencialidade das duas regiões que abraçaram, o Dão e a Bairrada.

O Dão - Porta dos Cavaleiros

Sem possuírem qualquer vinha no Dão, eram escolhidos e comprados os melhores lotes e na colheita de 1963 surgiram os primeiros Porta dos Cavaleiros, tanto o Colheita como o Reserva Seleccionada. Uma marca que tal como a sua congénere na Bairrada, teve o dom de quase “criar” um perfil a que hoje associamos de Clássico a cada uma das regiões. De notar que os Reserva Seleccionada mostram mais frescura que os Colheita, devido a que as uvas dos Reserva eram provenientes dos contrafortes da Serra da Estrela num perfil mais fresco a que se poderá apelidar de “Dão Serrano”, enquanto os Colheita as uvas eram provenientes de zonas mais baixas e porventura mais quentes. Sobre os Reserva Seleccionada sabe-se que o vinho passava quatro anos nos enormes depósitos de cimento e posteriormente mais um ano em garrafa. Vinhos sabiamente educados e de traçada clássica, sérios com toque acetinado tão característico que nos mostram aquilo que a região pode e deve fazer.

Visitar as Caves São João e ter o prazer de contemplar mais de um milhão de garrafas que resistiram à passagem do tempo é uma rara oportunidade para os apreciadores. Esta foi uma prova que ficou na memória, em tudo especial até pelo facto de alguns vinhos não se encontrarem já disponíveis para venda face ao reduzido número de garrafas existentes, estes vinhos em prova vão surgir posteriormente com post individual. O primeiro vinho foi o Porta dos Cavaleiros 1964, este branco com 51 anos é arrebatador em todos os sentidos. Notável a evolução no copo, claramente a precisar de decantação. Inicialmente algo preso e contido, a mostrar alguma rezina, desenvolvendo uma complexidade notável com destaque para a fantástica acidez que envolve e segura todo o conjunto. Profundo, floral com nota de cera, untuosidade com fruto seco e ainda alguma fruta madura de caroço. Boca com muita frescura, mostra garra e nervo, grande presença e profundidade, sério, educado, a untuosidade que mostra ter combina em grande com a frescura que refresca o palato terminado longo e persistente.

Dando entrada nos anos 70 onde curiosamente são poucos os vinhos das Caves São João que me têm ficado na memória, salvo erro o branco Reserva de 1973 em Magnum e o tinto também Reserva 1975. Este Porta dos Cavaleiros branco 1979 não fugiu à regra, cordial a mostrar-se com vida, fruta já em passa, mineralidade com alguma secura de final de boca. Nos brancos da década de 80 o melhor de todos é o Reserva 1985, este Porta dos Cavaleiros Reserva branco 1984 é um grande branco em idade adulta, mas se comparado peca pela falta de garra tanto na boca como no nariz onde mostra menos frescura e acutilância ou limpeza de aromas. De resto goza de uma belíssima harmonia de conjunto, conjugando a sensação de untuosidade com acidez e presença da fruta ainda vivaz e madura.

No campo dos tintos a entrada não poderia ser melhor, o Porta dos Cavaleiros Reserva 1966 é a meu ver o melhor de todos, afirmando-se como um dos melhores vinhos de sempre da região. Pura classe num vinho de compêndio, cheio de caruma e pinhal, muito bosque, frutos silvestres, cerejas, folha de tabaco, eucalipto, couro. Puro veludo num tom que combina austeridade com a gulodice de um vinho cheio de vida e frescura, longo e com final persistente. De passagem pelos anos 70 foi provado o Porta dos Cavaleiros Reserva 1974, novamente o que menos brilhou entre os tintos, com a região bem evidenciada no perfil e a dar uma prova de muito bom nível. Perdeu em poder de afirmação mostrando-se mais delgado e espaçado tanto em complexidade aromática como em presença de boca.

Termino com o segundo melhor tinto, o Porta dos Cavaleiros Reserva 1985, que é um dos que mais prazer me tem dado nas últimas vezes que o tenho tido no copo. Literalmente é daqueles vinhos que está num momento muito alto da sua vida, conjuga toda a frescura da fruta com a complexidade que apenas o tempo consegue oferecer. Por entre os aromas a pinhal e bosque, cogumelos, terroso ligeiro, abre para fruta madura e suculenta, tudo embalado em enorme frescura, limpo com caixa de charutos, especiarias variadas. Na boca é acetinado e ao mesmo tempo vigoroso, com a fruta a explodir de sabor, muita personalidade com ampla presença, profundo e final persistente. Um grande vinho do Dão e do Mundo.

A Bairrada das Caves São João - Frei João


O vinho cujo perfil se poderá afirmar como o mais clássico de toda a Bairrada, o Frei João. Para tal convém reavivar a memória e recuar aos idos anos 50 onde a dupla, Luís e Alberto Costa decide começar a seleccionar, comprar e envelhecer vinhos de grande qualidade nas caves da empresa. É desses vinhos que surgiram marcas emblemáticas como os Porta dos Cavaleiros em 1963, ou em 1945 o primeiro Caves São João Reserva Particular. Em 1960 iria surgir o primeiro Bairrada, o Frei João cujo nome serve de homenagem ao frade carmelita Frei João Baptista (Convento de Santa Cruz do Buçaco) um dos primeiros a plantar vinha na região.

Os primeiros Frei João teriam como origem lotes comprados pelos dois irmãos, junto a produtores da região sendo as Adegas Cooperativas de Mogofres e Cantanhede dois dos principais fornecedores na altura. O Frei João Reserva, ainda em garrafa Borgonhesa, iria nascer na colheita de 1963 e teria o condão de afirmar o seu perfil como o mais clássico de toda a Bairrada. Factores como a tipicidade e a importante consistência geográfica dos lotes adquiridos ano após ano foram determinantes, tal como uma vinificação onde a fermentação com engaço era uma realidade contribuíram para a afirmação ao longo das décadas de um perfil clássico, representativo do melhor que se fazia em toda a região. Nos anos 70 de certo modo assistimos a uma revolução que se manifestou no perfil dos vinhos, na mudança de garrafa do Frei João para bordalesa ou até na própria região com a demarcação da Bairrada em 1979. Em 1972 é adquirida a propriedade Quinta do Poço do Lobo, que com produção própria começa a dar o seu contributo para os lotes aos quais se junta cada vez com maior presença lotes provenientes da zona de Vilarinho do Bairro.

Um passeio pela história de um ícone da Bairrada, apenas possível realizar nas Caves São João, um local mágico que nos dá este enorme privilégio de poder provar vinhos com mais de 40 anos em perfeito estado de conservação, que não mostram sinais de decadência ou cansaço e que a prova que dão proporciona verdadeiros momentos de glória com alguns dos melhores vinhos que se fizeram em Portugal e no mundo.

Frei João Branco 1966: A caminho do meio século de vida com uma complexidade fantástica, muito fechado e a pedir decantação, sério com frescura e profundidade, limpo com rezina, tom melado, vegetal, fruta branca, boa untuosidade com fruto seco a fazer-se notar. Boca com grande frescura a ligar com untuosidade ligeira a envolver o conjunto sempre muito coeso, tenso e com final a mostrar uma surpreendente austeridade mineral.Para durar. 95 pts

Frei João Branco 1974: Uma enorme surpresa, arrebatador a todos os níveis e fico com a sensação que terá sido dos melhores da Bairrada provados até à data. Aroma de enorme complexidade, flores amarelas, notas meladas, fósforo, vegetal, aqui o tom de frutos secos menos intenso e mais fino. Boca envolvente com a acidez muito viva, fruto de polpa branca presente e com vivacidade, longo e persistente, amplo, profundo a mostrar garra e a afirmar a sua presença. 96 pts

Frei João Branco 1990: À primeira impressão o que se pode dizer é que o tempo não passou por ele, tenso, nervoso, cheio de garra com notas de resina e esteva, fruta branca ainda presente. Muita energia, com uma acidez acutilante numa passagem de boca saborosa mas tensa, a mostrar-se ainda austero e com muita vida pela frente. 93 pts

Frei João Reserva 1966 (magnum): Um vinho que é obrigatório conhecer e provar. Um tinto enorme que exala Bairrada por todos os cantos, dono de grande complexidade onde a fruta (cerejas, framboesas) ainda surge com ligeiro apontamento maduro acompanhada de licor… delicioso, cacau, caixa de charutos, chá preto a dar sensação de secura. Boca de luxo, amplitude, frescura, nervo, grande presença e passagem com frescura e fruta, muita classe em final longo e apimentado. 97 pts 

Frei João Reserva 1980: Um belíssimo tinto cheio de frescura e jovialidade, ampla complexidade marcada pela fruta redondinha e ácida (bagas silvestres, mirtilos) com toques caruma, caramelo, café, esteva, coeso, amplo e muito estruturado, cheio de vigor mas com grande finesse. Boca com sabores vincados, fabulosa acidez, longo final e quase que ficamos a mastigar a fruta. 94 pts

05 junho 2014

Quinta do Noval - Colheitas de sonho


A Quinta do Noval é uma das grandes casas de Vinho do Porto, que não só produz o mais famoso Vinho do Porto Vintage, o lendário "Nacional", como é também a única casa cujos vinhos de topo são exclusivamente single vineyard (i.e., "Quinta"). A história da Quinta do Noval remonta a 1715, altura em que o seu nome surge pela primeira vez nos registos. A área total de cento e quarenta e cinco hectares, que domina o Vale do Pinhão (Cima Corgo), constitui a essência e a alma da Quinta do Noval. Em 1894 (após a devastação causada pela filoxera) a Quinta foi comprada pelo ilustre comerciante António José da Silva. Da Silva deu uma nova vida à Quinta do Noval, com a replantação dos cento e quarenta e cinco hectares de vinha (classificada com letra A), com porta-enxertos americanos. Em 1925, uma muito pequena parte de vinha no coração da Noval (dois hectares) foi selecionada para a tentativa de manter a vinha indígena Portuguesa em porta-enxerto Português (Nacional) como um experimento. O primeiro vinho a ser produzido e vendido resultante destas jovens vinhas foi o Quinta do Noval Nacional Vintage 1931, considerado o mais sensacional Porto do século XX.

O trabalho de António José da Silva foi continuado pelo seu genro, Luiz Vasconcelos Porto, que geriu a empresa durante 30 anos, tendo-se aposentado em 1963. Autor de um vasto programa de inovações, transformou os antigos socalcos estreitos em socalcos mais largos, característica distintiva da Noval, com as suas escadas caiadas de branco.
O estêncil nas garrafas foi pela primeira vez introduzido pela Noval em 1920, tendo sido também pioneira no conceito de Tawnies com indicação de idade (10, 20 e 40 anos) e a primeira casa a lançar um late-bottled vintage: 1954 Quinta do Noval LBV.

Em anos excecionais, determinados lotes de vinho com grande potencial de envelhecimento são postos de lado e colocados em barricas. Apenas em determinado momento a Noval decide engarrafar parte dessas Colheitas. O resto é mantido em barricas onde o vinho irá ganhar toda uma nova dimensão em fases posteriores do seu envelhecimento. Os Porto Colheita da Noval são verdadeiras raridades, combinam requinte e elegância, sendo a expressão máxima dos Tawnies com idade e tal como um Porto Vintage assumem as características específicas do respetivo ano de colheita. A legislação exige um estágio mínimo de sete anos em casco, embora na Quinta do Noval apenas sejam comercializadas após 10 a 12 anos de envelhecimento.

António Agrellos, o diretor técnico da Quinta do Noval desde 1994 e um dos grandes "Wine Blenders" do vinho do Porto, conduziu-nos num fantástico passeio pelos Colheitas da Quinta do Noval.

Quinta do Noval Colheita 2000
Mostra toda a classe de um Tawny jovem e cheio de vida, com espírito adolescente, que nos conquista pela energia e presença. Exibe uma boa complexidade, com um bouquet intenso e bem definido, fruta cristalizada, nozes e tabaco, num conjunto jovem, fresco e revigorante. Complexo e doce no palato, fresco e preciso, revela uma estrutura elegante e um final harmonioso e persistente. 92 pts

Quinta do Noval Colheita 1995
Um tawny a caminho da fase adulta, numa nova dimensão com aromas mais evoluídos e de maior complexidade e profundidade. Bem definido nos aromas, mostra uma bonita complexidade, caramelo, frutos secos (nozes e avelãs), especiaria doce, fruta cristalizada (laranja, limão, damasco). Corpo médio, elegante, untuosidade e boa acidez, tudo num final longo e persistente. 93 pts

Quinta do Noval Colheita 1976
Um vinho temperamental que nasceu na era do Punk Rock. Envolto em rebeldia, é certamente o vinho mais exótico da prova ao melhor estilo Ramones. Hey! Ho! Let's go! - The Anthology. Muito boa complexidade, caixa de charutos, resina, frutas secas e caramelo. Medianamente encorpado e persistente na boca, suave como seda, apresenta nuances de especiarias num longo final. 95 pts

Quinta do Noval Colheita 1971
A saudade exprime um sentimento muito próprio quando sentimos falta de algo de que gostamos. Este é um daqueles vinhos que deixa saudade. Pura sedução, dominado por uma encantadora complexidade, especiarias, caramelo, passa de uva e frutas cristalizadas. No palato é de uma enorme riqueza e elegância, tem uma frescura fantástica que o envolve com notas de especiarias num final longo e persistente. Um vinho fantástico. 98 pts

Quinta do Noval Colheita 1964
Tal como em 1964 as admiradoras de bandas como Beatles ou The Rolling Stones saltavam e gritavam de entusiasmo, ao provar este vinho apeteceu-me fazer exatamente o mesmo. Intrigante e ao mesmo tempo conquistador, mostra-se dominado por uma refinada complexidade, aroma delicado e pleno de harmonia, com notas de nozes, passa de uva e da madeira velha onde estagiou. Apeteceu-me ficar toda a tarde a cheirar este vinho. Boca de grande nível, quase veludo, cheio e saboroso, com enorme frescura para a idade que tem e com um final muito longo. Espectacular. 99 pts

Quinta do Noval Colheita 1937
O ano de 1937 foi marcado pela coroação do Rei George VI de Inglaterra, data em que a ponte Golden Gate (São Francisco) foi também inaugurada e J. R. R. Tolkien publica 'The Hobbit'. Apenas um vinho como este poderia estar à altura de tamanhos acontecimentos. Estrondoso tawny velho a mostrar uma fantástica complexidade, fruto seco, grande definição, especiarias, marmelada, caixa de tabaco e madeira velha. Palato luxuoso, com uma belíssima acidez. Tudo muito equilibrado com camadas de sabor que nos guiam num final interminável e sedutor. 97 pts

Original publicado a 30 abril 2014 in Blend - All about wine
 
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