Copo de 3

29 setembro 2010

Fiuza Rosé 2009


A Fiuza que mora no RibaTEJO sempre acostumou o consumidor a vinhos com boa relação preço/qualidade, o seu rosé é fiel exemplo e mostra anos após ano uma consistência bastante assinalável, um bom sinal a quem o compra ano após ano. Esta recente colheita 2009 é feita a partir de Cabernet Sauvignon e Touriga Nacional, com 80.000 garrafas a serem lançadas no mercado com preço recomendado de 4,50€ à venda em garrafeiras e grandes superfícies. É um vinho indicado para o Verão mas que pessoalmente também o acho bastante agradável nos primeiros tempos do Outono, até porque alguns rosés mais estruturados ligam bem com pratos tendencialmente mais quentes.

Fiuza rosé 2009
Castas: Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon - 13,5% Vol.
Tonalidade rosado vivo e escuro.
Nariz com boa dose de fruta fresca e ligeiro drop de rebuçado, lembra morango e framboesa com vegetal seco presente a dominar o segundo plano. Não abunda na complexidade, fresco com leve sensação fumada em fundo.
Boca de boa estrutura com a frescura da fruta a dar o mote inicial, equilíbrio entre fruta/frescura/álcool, vegetal seco a dominar o segundo plano.
Um rosé de estirpe ribatejana sem grandes atributos mas que corresponde muito bem aos requisitos da mesa. Pelo preço e para o que oferece na prova é uma compra sensata. 14,5 - 86

26 setembro 2010

Vinhos do Alentejo em Lisboa...

Fui ontem ao evento Vinhos do Alentejo em Lisboa e se por um lado é sempre bom este tipo de eventos, por outro lado não gostei do espaço, local acanhado com gente aos encontrões, muito barulho e fico sempre com a sensação de não existir um número limite de participantes para aquele espaço... tipo discoteca ou restaurante... parece que ali é entrar até não caber mais, a segurança essa que se dane.

Optei por gastar grande parte do tempo na bela da conversa com produtores e amigos da causa que sempre respondem ao chamamento. Do que provei de brancos, notei que se está a perder aquele toque rebuçado, buscam-se alternativas ao "enjoativo" Antão Vaz e começam a aparecer outras aragens muito viáveis. No fundo, notei que os vinhos mostram-se mais secos, com mais acidez, mais interessantes, menos pesados e com menos madeira... longe vão os tempos do Dolium para barrar no pão. Assim por alto gostei muito do Terrenus, Arinto da Malhadinha, Ervideira Perrum, Esporão Verdelho, Amantis e de um Chardonnay penso que o Athayde do Monte da Raposinha.

No campo dos tintos, talvez fruto de uma enologia cada vez mais afinada, as vinhas também contribuem com uma maturidade cada vez maior o que dá melhores caldos e nota-se ou notei no que provei que a torneira das notas compotadas a rodos começa a fechar-se, vinhos com frescura, elegância e que não enjoam após o primeiro copo. Que se fuja daquela receita Nacional de um tal Touriga, não é solução nem sequer salvação.
A conversa estava bastante animada, o tempo para provar vinhos tintos foi curto, não resisti aos novos varietais da Malhadinha Nova, uma novidade com Cabernet Sauvignon sem pimentos, Aragonês cheio de morango fresco, Touriga Nacional macio e cheiroso e um pujante Alicante Bouschet, vamos brincar aos lotes ? Ali ao lado estava Arundel, um vinho que gosto particularmente mas o destaque aqui vai para o topo de gama, coisa pouca, também ele Alicante Bouschet que muito promete pela frescura, qualidade da fruta e estrutura que mostrou. Ainda constatei o excelente trabalho do Rui Reguinga com os seus Terrenus, parece-me que Portalegre começa a despertar do sono em que entrou sem entender a razão. Na mesa José de Sousa, aquele que era o Mayor deixou de o ser, perdeu a chama e encanto dos idos 94 e 97, a conversa que dá é outra o que pouco me agrada. O novo topo de gama daquela famosa casa chama-se J e achei um belo vinho, muito fresco com a fruta a socar o palato com força, envolvente fino e complexo para não falar na questão de que por força Mayor, parece que todo o vinho que dali sai por força tem de beijar o barro das talhas... falta saber se beija mesmo ou se não passa de vontade. Este novo topo de gama não achei que andasse lá muito de molho nas talhas como o pintam, conversa fiada para vender... sirva-se pois mais um copo que ele escorrega bem. O preço que me falaram será de 35€ na porta da adega, quando passar a esquina já estará mais caro certamente...

Pequeno mas temperado aparte, grande número dos produtores presentes já têm o seu azeite, dos que provei gostei bastante e os cuidados com a imagem deste produto é cada vez mais cuidada.

Siga a festa que o palco é curto...

19 setembro 2010

Pinhal da Torre Re-Loaded

No site da Pinhal da Torre pode-se ler Pureza, Elegância, Personalidade... colocarei também Frescura, pois foi tudo isso que encontrei nos vinhos que provei no passado Sábado quando me desloquei à Quinta de São João a convite do produtor... e que vinhos. A verdade é que depois de algum tempo no limbo, eis que o melhor da Pinhal da Torre está de volta e ainda bem, quem não se lembra do fantástico Quinta de São João Touriga Nacional 2000 ou do Quinta do Alqueve Syrah 2001 ?
Recebidos pelo Paulo Saturnino Cunha, que a falar dos seus vinhos transmite uma contagiante energia em que fica sempre aquela vontade de querer ouvir mais e mais sobre o que ele tem para nos contar. Produtor persistente na busca da melhor qualidade possível, luta com afinco por manter a tradição e não cair em demasia na tentação das modernices (vinhos extraídos ao limite barrados em madeira nova), pois ali naquele cantinho ribatejano nascem vinhos com raça, cheios de saber e de querer... direi vinhos com um carácter muito próprio, o mesmo que podemos encontrar na pessoa que dá a cara por este projecto familiar. Durante toda a prova deu para entender que ali se tenta fugir a um perfil cada vez mais massificado, são vinhos com uma maneira de estar muito própria, que apresentam uma invulgar acidez e taninos a prometerem boa evolução em garrafa, o filme é bom mas só começa quando todos estiverem sentados. A prova foi descontraída e com muita interacção entre convidados e responsáveis, com a gama de entrada Vinha do Alqueve a mostrar-nos vinhos frescos, jovens, descontraídos e com uma boa relação preço qualidade, todos eles a apresentarem já sinais muito próprios do perfil que marca todos os vinhos desta casa. Um Vinha do Alqueve Rosé 2009 que se mostrou seco, com fruto vermelho e leve rebuçado, perfil fresco e muito bem embrulhado em fina camada vegetal, Vinha do Alqueve branco 2009 bem fresco e citrino, acidez a dar boa dose de frescura num vinho de corpo mediano muito bem embalado para a mesa, Vinha do Alqueve tinto 2008 apelativo, frutado, simples, agradável e bem feito com leve vegetal em fundo na boca a mostrar-se pronto para consumo a acompanhar pratos de gastronomia tradicional.
Antes do Tradicional provaram-se os dois Quinta do Alqueve brancos, o Fernão Pires 2009 que tem sido elogiado mas que continuo a encostar ao lado para escolher o Chardonnay 2009, o primeiro muito mais cítrico, frutado, com acidez muito presente em perfil fresco, delicado e leve apimentado no final, já o segundo mostrou-se mais harmonioso, algo mais acolhedor derivado da leve passagem que teve por madeira, calda de ananás, suave e fresco. Na secção de tintos começámos com o Quinta do Alqueve Tradicional 2007, mais arredondado e cheio que o anterior tinto provado, nota-se novamente a fruta madura e limpa com vegetal seco em conjunto equilibrado e fresco. Salto na qualidade com o 2Worlds Reserva 2004, um vinho que junta a Touriga Nacional com a Cabernet Sauvignon, aqui com clara piscadela de olho ao mercado internacional, um vinho que é difícil não se gostar, sente-se uma ligeira extracção no peso que a fruta madura apresenta, especiaria e novamente a frescura, vegetal aqui mais contido e uma maior complexidade de conjunto, com frescura mediana na boca, macio, arredondado e fácil de se gostar e de levar à mesa. Provado ainda o novo 2Worlds 2007, deixou de ter a menção Reserva, mostrou-se um vinho em tudo na linha do 2004, porém tudo aqui a mostrar-se um pouco mais emaranhado e a precisar de tempo para se conseguir mostrar ao completo, vai portanto no bom caminho com uma prestação de muito bom nível.


Na gama Quinta de São João, a outra Quinta que faz parte deste projecto, provou-se o 2004 o 2007 e amostra do 2008. O 2004 mostrou-se o mais afinado, claramente o que mais gostava de rodar no copo, na seu fino bouquet de couro, pimenta, fruta em compota com canela, flores, frescura de boca com elegância e harmonia com nariz. Um vinho pronto a beber, coisa que o 2007 mostra bem menos, mais austero e fechado, algo duro com taninos a darem lugar a secura na prova de boca, boa envergadura, frescura e fruta, mas ainda a precisar de tempo, já o 2008 é muito promissor, talvez o melhor de todos os vinhos provados até aqui, uma dose muito boa de fruta com madeira a querer casar em estilo num conjunto que se nota fechado mas com pernas para andar.
Para último estavam guardadas as surpresas e que surpresas, primeiro os Quinta do Alqueve Syrah das colheitas 2007, 2008 e finalmente 2009 com duas versões, a barrica 9 e a barrica 12. O Syrah 2007 fez as minhas delícias, pleno de frescura com groselhas, pimentas, algum doce, complexidade, perfumado numa estrutura redondeada mas com vigor, harmonia e fruta preta madura. O 2008 seria mais fechado, menos pronto mas no mesmo caminho da glória... o que dizer mais de vinhos que se gostam. Já a prova das duas versões b9 e b12 foram o delírio, aqui o toque Australiano dado pelo enólogo consultor vem ao de cima, vinhos com aquele ar guloso, mokaccino, apimentado, mas ao mesmo tempo sério, com músculo, mas frescos e jovens sem saturar, um prazer ao serem bebidos e uma loucura quando se começou a imaginar e experimentar possíveis lotes com várias percentagens de um e de outro ali mesmo no copo. A acompanhar com muita atenção os novos Syrah da Quinta do Alqueve.
Foram colocados em prova também o Merlot e o Alicante Bouschet, gostei mais da prova que deu o Merlot, fresco, delicado, cetim com alguma secura vegetal (chá preto) e fruta bem viva com alguma doçura, que acompanhou lindamente uma Sopa da Pedra de Alpiarça graças a uma acidez muito presente que suportou a pujança do prato, o que irá ser deste Merlot ? Enquanto pensava nisto, lembrava-me das duas cuvées especiais que tinham sido provadas um pouco antes, ainda sem nome oficial foram tratadas por Cuvée Speciale e o Cuvée Royal. E se o primeiro já me tinha enchido as medidas pela elegância, amplitude contida com muita frescura, finesse e ao mesmo tempo limpidez de fruta, integração de barrica... o Royal foi a surpresa ainda maior, primeiro porque o vinho é um extreme de uma casta que nunca deu grandes vinhos estreme em Portugal, lembro de um ou outro que gostei muito mas até aos dias de hoje andava a 0, até ter provado este Royal que consegue ser sem grande problema o melhor exemplar a solo da Tinta Roriz em Portugal, direi um luxo de vinho. Acabei o almoço com o Quinta do Alqueve Colheita Tardia 2005, carregado na cor, aromas algo afagados pela plaina do tempo... sem grandes doses de açúcar mostra-se delicado e com suave frescura... muito agradável com um divinal Arroz Doce.
Em jeito de conclusão, os vinhos da Pinhal da Torre merecem e devem ser conhecidos por todos os amigos do vinho, não olham para uma região mas sim para uma vontade muito própria de um produtor, pelo convite que me foi feito deixo aqui os meus agradecimentos ao Paulo Saturnino Cunha e a toda a sua equipa pelo fantástico momento de enofília proporcionado.

28 julho 2010

Dão: The Next Big Thing

Este era o evento que faltava à região do Dão para mostrar de uma vez, todas as suas potencialidades enquanto região produtora se é que dúvidas havia. Um evento que viria a nascer não da cabeça das entidades que têm obrigação em fazer estas coisas... mas sim como uma iniciativa privada de um produtor da região, João Tavares de Pina que na sua Quinta da Boavista produz os vinhos Terras de Tavares. O espírito irrequieto de João Tavares de Pina sempre o levou à procura de mais e melhor para os seus vinhos, nunca descuidando nos detalhes, respeitando sempre o carácter das castas com que trabalha e procurando ao mesmo tempo mostrar algo de novo, que falarei mais tarde, mas sempre com o objectivo claro de obter vinhos de carácter inconfundível, feitos para durar como mostrou o Reserva 1997 e num estilo muito gastronómico. Foi este produtor que sozinho decidiu colocar o Dão às costas e fazer um evento que dignificasse toda uma região, um evento que incluiu 20 dos mais representativos produtores da região, que colocaram os seus vinhos em prova para um leque alargado de provadores nacionais e estrangeiros. As dormidas ficaram a cargo da Quinta da Boavista e da Casa de Darei e um agradecimento à Câmara Municipal de Penalva do Castelo que cedeu os transportes para toda a comitiva.

O dia escolhido foi 24 Julho de 2010 e a romaria dos convidados começou de véspera para encurtar caminho e estar o mais cedo possível no Solar do Vinho do Dão em Viseu. Na véspera já se tinham aberto umas quantas garrafas para afinar nariz, garganta e os indispensáveis blocos de notas. A jornada começou cedo, eram 8:30 da fresca manhã e estava eu e o Miguel a mergulhar na piscina da Quinta da Boavista... nada melhor para relaxar e preparar para a longa jornada que nos esperava.
A primeira prova estava marcada para as 10:00 horas e deveria contar com um número mais alargado de produtores, não fosse a inexplicável falta de comparência de alguns quando já tinham confirmado a sua presença, falharam pois a Quinta das Marias, Casa de Santar, Quinta do Corujão, Pedra Cancela, Quinta da Fata e a Quinta do Serrado que tinha as garrafas mas não tinha ninguém para as abrir ou falar sobre os vinhos. Pergunto se é esta a maneira correcta de se estar neste mundo pois se um evento desta natureza em que constavam nomes como Charles Metcalfe, Paul James White, Kathryn McWhierter, Yvonne Eistermann, Ilkka Sirén, Manuel Serrano e outros tantos nomes aqui de Portugal (bloggers e não bloggers), não serve para promoção então pergunto qual evento ou que tipo de coisa é que lhes serve... continuo a não entender. Estiveram presentes nesta prova os seguintes produtores, cada um com 3 vinhos em prova: Vinha Paz, Casa de Mouraz, Vinícola de Nelas, Quinta do Cerrado, Quinta da Vegia e Quinta do Perdigão. Destaco apenas alguns dos provados (em actualização):

Vinha Paz colheita 2008: espelha bem a sua região, cheiramos e dizemos que é um vinho do Dão, com carácter e boa complexidade, frescura a embrenhar-se no mato denso com fruta igualmente fresca e silvestre. Gosto disto e a boca acompanha, madeira discreta, amplitude média e alguma austeridade a meio palato num vinho com estofo para evoluir bem nos próximos tempos... a colheita 2000 aqui provada confirma. 90

Vinha Othon Reserva 2006: este vinho foi muito acarinhado por quem a ele se chegou e provou quando saiu para o mercado, na primeira vez que me caiu no copo não deu aquilo que eu tinha imaginado... enganou-me ligeiramente e foi melhorando com o tempo, mais e mais, numa delicada complexidade alicerçada numa boa dose de frescura com taninos presentes. Mostra-se mais pronto que o Reserva e um pouco mais sério que o Colheita. 91

Vinha Paz Reserva 2007: é claramente o mano mais velho do colheita, entenda-se mano mais velho como um vinho em tudo maior, seja complexidade, corpo, profundidade e no final a qualidade mostra-se aqui mais e melhor. Um vinho ainda muito fechado, duro, raçudo e cheio de frescura e apontamentos, a madeira ampara todo o trabalho, traves mestras que aportam outra classe ao vinho, tem tudo para ser um grande vinho do Dão... deste vou querer beber apenas daqui a uns bons anos. 93

O sol batia nas 13:00 horas, o calor já se fazia sentir e a fome apertava, o almoço seria servido pelo Chef Rodion Birca e estava marcado no pomposo Clube de Viseu com a participação especial do Conservatório Regional de Música "Dr José de Azeredo Perdigão", seria uma sessão com harmonização gastronómica e musical, contava com a presença dos produtores Casa de Darei, Quinta da Bica, Quinta da Boavista, Quinta da Pellada, Quinta dos Carvalhais, Quinta dos Roques, Quinta Fonte do Ouro e Quinta Vale das Escadinhas. Foram ainda solicitados à Direcção Regional de Agricultura e Pescas do Centro alguns dos históricos vinhos do Centro de Estudos Vitivinícolas do Dão. Depois do longo almoço, umas boas 4 horas de duração, ainda tivemos tempo de refastelar nos sofás em amena cavaqueira, recuperar forças com mais alguns vinhos que foram sendo colocados em prova pelos produtores já referidos.
O processo foi simples, por cada prato que nos era servido, eram colocados em prova 2 ou 3 vinhos acompanhados por uma peça musical. Farei um breve relato das sensações que tive essencialmente com os vinhos servidos e os pratos que os acompanharam.

O primeiro prato a ser servido foi Requeijão de Ovelha, Agridoce de Tomate e Agrião, acompanhado de dois brancos, Primus Reserva 2007 (91pts) e Quinta das Maias Verdelho 2009 (90pts). Ambos de muito bom nível, o Primus a mostrar os dotes que o lote confere quer à complexidade quer à finesse, mas sem grandes exuberâncias e algo mortiço no nariz. No lado oposto o Verdelho dos Roques, mais vivo e fresco, exuberância moderada num todo fino equilibrado e de fundo mineral. Na harmonização gostei mais do Verdelho, penso ter uma acidez mais capaz de ligar com o agridoce de tomate e agrião.

Com Sardinha Alimada com Pimento Confitado vieram mais dois brancos, um Casa de Darei Grande Escolha 2007 (91pts) e um Encruzado Quinta dos Carvalhais 1998 (89pts). O Carvalhais mostrou uma tonalidade a lembrar ouro velho, carregado de aromas cansados apesar de alguma frescura que lhe servia de muleta... mesmo assim ainda com um bouquet minimamente interessante para a nota não vir por aí abaixo. O Casa de Darei Grande Escolha 2007 foi uma boa surpresa, desconhecia, encontrei um branco fresco e muito bem estruturado pleno de fruta fresca e mineralidade, pederneira e vegetal fresco em dose mais pequena. Daqueles que gosta de passar uns tempos na nossa garrafeira. Aqui a harmonização não se deu visto eu dispensar a Sardinha, mas claramente apostaria no Darei.

No Folhadinho de Queijo da Serra, Mel e Alecrim foi a vez dos fatos de gala, entraram em cena os brancos do CEVDão 1971 (95pts), 1980 (92pts) e 1992 (90pts). Foi colocar a fasquia muito alta, indo a qualidade e o nível subindo à medida que a idade aumentava, por isso mesmo o 1992 foi aquele que achei menos interessante, toque apetrolado ligeiro, boca fina e muito delicado, poderei dizer apagado ? Já o 1980 se mostrou um pouco melhor, mais refinado apesar de delicado, mais volume e frescura quer em nariz quer em boca, mais vinho portanto. A vivacidade nota-se bem distinta. O melhor dos brancos seria o deslumbrante 1971, de aroma complexo e refinado, ceras, melado, fruta ainda com frescura, mineralidade e ligeiro petrolado em plano de fundo. Tudo muito harmonioso, perfumado e bom de se cheirar, durou no copo mais tempo do que muitos vinhos "rapazolas". Ligação disputada entre o 1980 e o 1971, com a frescura e envolvimento do 1971 a levar pela melhor.

Crocante de Morcela da Beira, Emulsão de Abacaxi e Redução de Balsâmico, com Touriga Nacional Quinta Fonte do Ouro 2008 (85pts) e Quinta da Bica Reserva 2005 (89 pts). Os dois vinhos que menos gostei, o Fonte do Ouro cheio de notas doces e achocolatadas, flores demasiadamente colocadas, satura e enjoa... dizem que é o perfil internacional a trabalhar, pessoalmente dispenso sem antes dizer que é um vinho bem feito mas que não me satisfaz. O Quinta da Bica é um produtor que acompanhei em colheitas mais antigas, agora com imagem reformulada o vinho mostra-se um pouco mais moderno mas ao mesmo tempo muito elegante, ligeiro, fresco... a provar com mais atenção para afinar a minha opinião.

Intervalo vínico com um Consommé de Codorniz, Croutôns de Gengibre e Ervas Aromáticas.

Almôndegas de Lebre, esmagado de Batata e Espinafres Frescos, ao que se juntou o Quinta da Falorca Garrafeira 2003 (92pts) e o Terras de Tavares Reserva 2003 (92pts). Dois pesos pesados da sessão, os dois ainda algo fechados e receosos de mostrarem o que lhes vai na alma, o Falorca a mostrar mais madeira, mais fruta madura, uma prova mais fácil e pronta enquanto o Terra Tavares um vinho com frescura e taninos a mostrarem que o caminho é manter-se na horizontal por mais um tempo. Qualquer um dos dois vinhos esteve em plena sintonia com o respectivo prato.

Arroz de Polvo, Ovo de Codorniz Escalfado e Emulsão de Coentros, com Tintos CEVDão 1970 (93pts) e 1971 (89pts). Aqui começamos a entrar na velha guarda, nos vinhos de culto e direi naqueles que ouvimos alguém dizer que provou e pensamos que nunca vai chegar a nossa vez... com sorte esta foi a segunda vez que tive oportunidade de os provar e ainda bem. Claramente melhor o 1970 do que o 1971, mais vivo com fruta fresca em muito bom plano, especiado, terroso, notas de madeiras velhas e tabaco, tudo muito delicado e harmonioso... repito-me em vinhos deste calibre. Já o 1971 mostrou-se cansado, aromas já de fruta passa, tudo muito seco e sem grande vida, mortiço no nariz como na boca... claramente um vinho que já teve melhores dias.

Lombinho de Bacalhau suado em Borras de Vinho e Migas, e o rei da tarde... CEVDão Touriga Nacional 1963. É para mim sem nenhuma dúvida o melhore exemplar de Touriga Nacional provado até hoje, esta garrafa mostrou-se muito mais afinada e em melhor forma que a quando da minha primeira prova deste vinho. Um hino ao Dão e à Touriga Nacional.

Encerrando o almoço com um desenjoativo Crocante de Pudim Abade de Priscos.

Durante a tarde, ou o que restava dela ainda tivemos oportunidade de provar mais alguns vinhos que os produtores convidados para o almoço colocaram à disposição. Nesta altura o descanso era imperial e poucos eram os vinhos que me apetecia verter no copo, conto um excelente Carvalhais Único, Quinta dos Roques Garrafeira 2003 e Roques Encruzado 2008, a conversa estava tão animada que quando me dirigia para provar os restantes vinhos eram quase 20:00 e era altura de voltar à Quinta da Boavista onde o evento iria encerrar com um jantar de convívio, vida dura portanto, que contou com a presença de todos os provadores convidados e dos produtores presentes no almoço. Um autêntico festim com que nos brindou o Cozinheiro João Tavares de Pina, durante o qual nos foi apresentando algumas das suas novas criações, um 100% Tinta Pinheira (Rufete) e um blend de Touriga Nacional com vinhas velhas mais conhecido por Kaos. Se o primeiro já era meu conhecido e bastante adorado, o segundo mostrou-se uma valente surpresa, um vinho cheio de vigor, frescura, complexidade muito boa num vinho muito perfumado e profundo, temos vinho para seguir com atenção quando sair para o mercado. Já o Tinta Pinheira é todo ele frescura, vegetal fresco com muita framboesa e cereja a escorrerem de maduras, quase que se trinca com a austeridade vegetal que tem no palato, embrenhado no mato rasteiro e na caruma de pinheiro, cheiros e sabores locais portanto... tem vindo a afinar mas tem taninos e acidez bem presente, essenciais para longa vida pela frente. Pelo meio ainda se teve a oportunidade de beber o Terras de Tavares Reserva 1997, o primeiro vinho que provei desta casa e que desde o seu lançamento me conquistou pela sua qualidade, está a dar uma prova de alto gabarito, madeira acertada com o compasso da frescura e da fruta, todo ele muito Dão sem extras desnecessários... mais uma vez um vinho que é bastante amigo da mesa, algo que todos nós devíamos ter em conta na hora da compra, porque o Dão é isto, vinhos amigos da mesa, vinhos que em novos se mostram fechados e algo duros mas que com a idade se tornam aveludados, frescos e muito elegantes com aquela tonalidade irresistível que os caracteriza. Por outro lado temos os vinhos de cariz mais comercial, dizem que mais ao gosto do consumidor, eu pessoalmente fujo cada vez mais de comprar vinhos com esse carimbo comercial, porque acho que a fruta deve ser servida madura, limpa e bem fresca, não com toques adocicados e toda ela besuntada de baunilhas e chocolates da madeira por onde passou, segue-se um grau alcoólico que quase sempre é estupidamente abusivo neste tipo de vinhos, para não dizer que o tempo passa por eles como uma rebarbadora, óbvio que há excepções mas por norma o álcool acaba sempre por derrapar para fora do copo e fica o caldo entornado. Quero convencer-me que o Dão leva o caminho dos primeiros vinhos, dos genuínos e daqueles que nos podemos e devemos orgulhar...


Um evento 5 estrelas, excelente convívio onde muito se riu, bebeu, aprendeu e conversou. No Domingo ainda havia um almoço com prova marcada na Casa de Darei, mas as saudades do meu filho com 2 meses eram mais que muitas e tive de voltar mais cedo para casa. A todos aqueles que conheci ou revi, com quem falei, ri e partilhei mesa durante estes 2 dias, os meus agradecimentos, em especial ao João Tavares de Pina e à sua família pelo fantástico acolhimento na Quinta da Boavista. João, um grande abraço de parabéns e que se repita... nós gostamos e o Dão agradece.

24 junho 2010

Coudoulet de Beaucastel Côtes du Rhône 2001

Para muitos apreciadores o Château de Beaucastel é considerado o grande ícone de Châteauneuf du Pape, localizado a 5km Sueste de Orange, no limite norte da appellation de Châteauneuf du Pape. Os 30 hectares da vinha de Coudoulet de Beaucastel ficam a este de Beaucastel, do outro lado da A7, a auto-estrada que serve de linha divisória e coloca este vinho na designação Côtes-du-Rhône, quando curiosamente beneficia do mesmo terroir que o seu irmão mais velho.
O Coudoulet é visto como o pequeno Beaucastel, e tem como o seu irmão mais velho a habilidade de envelhecer nobremente devido à alta proporção de Mourvedre - 30% no lote final, providenciando uma quantidade de taninos suficiente para resistir à oxidação, assegurando mais tempo de vida, com aromas a couro, tabaco e especiarias ao lote final. A Grenache contribui essencialmente com o peso da fruta madura e muito suculenta, Syrah e Cinsault trazem taninos e complexidade aromática. A vinificação é feita em separado com o casamento a dar-se apenas na altura de fazer o blend final, que passa depois durante seis meses em grandes toneis/foudres de madeira, sendo finalmente clarificado com clara de ovo.

Coudoulet de Beaucastel Côtes du Rhône 2001
Castas: Grenache 30%, Mourvèdre 30%, Syrah 20%, Cinsault 20%. - Estágio: 6 a 8 meses em tonel/foudres. - 14% Vol.

Tonalidade ruby escuro de concentração mediana.

Nariz de boa intensidade, bouquet aprumado e bastante harmonioso, limpo de aromas com destaque para a frescura da fruta negra (cereja, amora) que se mostra bem madura. O vinho vai abrindo calmamente e de forma harmoniosa no copo, com a madeira bastante discreta a amparar todo o conjunto. Notas de leve regaliz, couro, tabaco, vegetal seco a lembrar chá preto e especiaria em fundo. À boa complexidade junta-se também uma boa profundidade de aromas, num conjunto.

Boca
com estrutura firme e bem redondeada, passagem de boca muito prazenteira com frescura sentida, ligeira sensação de cremosidade dada pela barrica ao mesmo tempo que a fruta ao comando se vai desfazendo em conjunto com toques de especiaria, tabaco, regaliz e leve bálsamo vegetal que se complementa com alguma secura no final de boca, reveladora de alguns taninos por domar, a precisarem certamente de mais um tempinho em garrafa. Um vinho de boa amplitude, que sabe estar e evoluir, aguentando-se muito bem no copo durante toda a refeição.


Este faz parte do leque de vinhos que se tem de arranjar um cantinho na garrafeira para se ter umas garrafas bem guardadas, o investimento não é muito avultado pois o vinho em causa bem comprado deverá rondar os 15€ a garrafa. A produção é substancial e a procura não é tão grande quanto a que é alvo o Château de Beaucastel, mas estamos a falar de realidades completamente diferentes, até nos preços pois claro. Aqui temos uma excelente relação preço/qualidade, um vinho com boa capacidade de envelhecimento e que dá enorme prazer à mesa ou até mesmo a solo mas sempre acompanhado. Uma aposta bem séria e muito acertada este Coudoulet de Beaucastel, e quem avisa... 17 - 92 pts

Pico Madama 2006

De uma parceria resultante entre Bodegas Casa de la Ermita e Guy Anderson Wines, surge o super premium Pico Madama, nascido e criado no parque nacional El Carche. Desde a sua primeira colheita que este vinho tem sido bafejado por boas notas da crítica internacional, revelador de consistência e qualidade, aliando a tudo isto um preço que o torna irrecusável nos tempos que correm, é verdade, as cerca de 40.000 garrafas que são colocadas no mercado são vendidas a um preço que ronda os 10-14€. A evolução em garrafa promete ser boa, mostra taninos e acidez suficiente para tal, e apesar de tudo a prova que dá desde já faz com que seja quase irresistível conseguir guardar alguma.

Pico Madama 2006
Castas: 50% Monastrell e 50% Petit Verdot - Estágio: Monastrell 13 meses em Carvalho Francês e Petit Verdot 13 meses em Carvalho Francês - 14% Vol.

Tonalidade granada escuro de concentração média/alta.

Nariz de refinado bouquet que vai evoluindo com o tempo no copo, inicialmente com muita fruta (amora, framboesa, figo) madura, muito limpa e bem fresca, acompanhada por aroma de tosta, especiarias diversas, ervas do campo (lavanda, alfazema), tabaco de enrolar, chocolate after-eight e mina de lápis em plano de fundo. Muita harmonia num todo que apesar de todos os encantos ainda se sente algo preso, a precisar de tempo pois claro.

Boca com muito que contar, de entrada prazenteira, fresca e bem estruturada com uma boa espacialidade, cheio, amplo, novamente fresco, notas de bálsamo vegetal com toque morno de chocolate de leite, especiaria e fruto negro, muito fruto negro que se trinca e deita sumo doce, tabaco e fundo mineral, num todo profundo e complexo, sabe bem e com passagem muito harmoniosa... que apetece voltar a beber. No fundo alguma secura, taninos a pedir cama, tudo num final com uma bela persistência, pois para beber agora ou esperar mais um tempo... ganhamos nós e ele.

É difícil não se gostar deste vinho, ficar-se a pedir mais é o mais natural... nem que tenham de vir de fora mas arranja-me mais umas se fazes favor. É assim que acaba o jantar com mais uma das garrafas que me couberam deste vinho...vai na segunda e sempre agradou e encantou. Amigo da mesa, amigo dos amigos e amigo da carteira, quando se sabe o preço é a festa completa, afinal o muito bom pode ser barato e dar 14€ por um vinho assim compensa muito. Por cá tudo na mesma, reparei numa revista que foi lançado mais um vinho xpto a 50€ a garrafa...
17 - 93 pts

Bodegas Benjamín de Rothschild & Vega Sicilia

É a joint venture do momento e dá pelo nome de Bodegas Benjamín de Rothschild & Vega Sicilia.
Benjamin de Rothschild, accionista do Château Lafite, juntou-se às Bodegas Vega Sicilia para que em conjunto produzam um vinho de alta qualidade (terá um irmão mais pequeno) que entrará no mercado em 2012. O palco é a Rioja Alavesa, e o projecto já vinha sendo pensado faz 7 anos, tempo durante o qual se foram adquirindo em várias etapas, 40 no total, um total de 110 ha de vinha. Desde 2009 que contam já com uma adega alugada na qual se vão realizando alguns ensaios enológicos com objectivo de lançar o novo vinho em 2012, ano em que a nova adega estará pronta.
Com um investimento total de 26 milhoes de euros, para um prazo de 14 anos para se atingir como objectivo o melhor vinho possível, numa adega em que como será de esperar tudo seja do melhor. A convicção de que o resultado será brilhante vem das duas partes envolvidas, sendo que até aos dias de hoje já foram vinificados cerca de 120.000 kg de uva, produção que se irá repetir em 2010 e 2011 e seguirá crescendo até a qualidade atingir o ponto pretendido. Estima-se que sejam produzidas cerca de 300.000 garrafas por colheita.
Para notícia completa, ver aqui.

20 junho 2010

Ázeo Reserva branco 2008

Certos vinhos são tão interessantes que dispensam sempre qualquer tipo de apresentação, afinal de contas podemos dispensar escrever algumas palavras que apenas servem para encher e que se podem muito bem ir ler ao site do produtor. Desta maneira quem procura informação fica a conhecer não só o historial do dito produtor como também outros vinhos que ele produz, a história da quinta entre muitas outras coisas. Este é daqueles exemplos que não merece mais palavras que nos possam distrair do que mais interessa, a sua nota de prova:

Ázeo Reserva branco 2008
Castas: Vinhas Velhas e Viosinho - Estágio: passagem por madeira - 13,5% Vol.

Tonalidade amarelo citrino de concentração mediana.

Nariz fresco com toque de leve apetrolado, coeso e a mostrar uma muito boa presença mineral, algum vegetal e floral com fruta (citrino, tropical) bem madura e muita qualidade neste bouquet de delicada complexidade. A madeira aqui novamente muito bem, quase não se dá por ela, faz o papel que tem de fazer e confere aquele bafo que não chega a ser morno em segundo plano, uma leve tosta que lhe confere uma subtil cremosidade. Novamente é a frescura e aquele travo mineralidade que lhe toma as rédeas, com alguma especiaria pelo meio.

Boca de entrada bem fresca e com boa espacialidade, sintonia com a prova de nariz, presença de fruta e tosta num conjunto muito bem afinado e harmonioso no seu todo, com bela profundidade, acidez cítrica com fundo envolto em bela dose de mineralidade, em final longo e com boa persistência. Cheio e vigoroso, num todo muito agarrado à terra, ao terroir, às vinhas velhas que contribuíram para o seu nascimento.

É um Ázeo mais coeso, mais pleno de encantos e delicada harmonia mostrando-se um pouco mais sério dando a noção de que ainda se encontra em fase ascendente. A madeira um pouco mais presente, não muito e a fruta um pouco menos fresca mas mais sumarenta e uma complexidade que se mostra um pouco mais rica. Um belíssimo branco do Douro, muito sério e muito virado para a mesa. A produção não me parece ser muito grande e deve rondar as 2.000 garrafas com um preço que ficará a rondar os 18€.
17 - 93 pts

17 junho 2010

Ázeo branco 2009

Com o nascimento do Pedro Dinis, o tempo que dedicava ao Copo de 3 foi sendo cada vez mais reduzido, agora que as coisas estão mais serenas é tempo de voltar à actividade, voltar novamente a falar sobre aqueles vinhos que me vão chegando ao copo e que mais me chamam a atenção, tenho muita coisa de que falar e o tempo começa a ser pouco. O Verão está à porta, dia 21 mais precisamente, e começa a ser tempo para encostar os vinhos mais estruturados e procurar os vinhos mais leves, frutados e frescos. Falando em brancos com frescura/acidez, um dos que mais prazer me deu a provar nos tempos mais recentes, foi sem dúvida alguma o Ázeo branco 2009 (Douro), que agora aqui coloco em prova, um vinho da responsabilidade do enólogo e produtor João Brito e Cunha, que no seu projecto pessoal produz a gama Ázeo (bago de uva em latim). Um vinho feito com Viosinho e uvas de vinhas velhas onde predominam o Rabigato e Gouveio, provenientes de vinhas a 450m-500m de altitude na região de Alijó, Sabrosa e Porrais.

Ázeo branco 2009
Castas: Viosinho e outras - Estágio: teve passagem por madeira - n/d % Vol.

Tonalidade amarelo citrino de concentração média/baixa.

Nariz muito limpo, fresco e delicado, a delicadeza e frescura são mesmo o que mais marca este vinho, elegante, puro, ao mesmo tempo discreto e mineral, a fruta tem boa presença com citrinos, tropical, fruta de polpa branca com floral e uma leve calda com toques fumados, resultante da passagem que teve por madeira e que ampara harmoniosamente todo o conjunto.

Boca de entrada bem fresca, harmonia da fruta que se sente madura de boa qualidade e concentração, com uma acidez firme e refrescante, direi dominante ao lado do toque mineral. Tem uma boa presença na boca, boa dose de secura, muito limpo e com boa persistência, a madeira sente-se muito ténue, totalmente dispersa no espírito fresco que este vinho transmite.

Um vinho que se pode arranjar com um preço bem convidativo que ronda os 8€ numa boa garrafeira, um motivo mais que obrigatório para se ter este vinho por casa nos tempos de calor intenso. É certamente dos brancos que nos últimos tempos mais prazer me deu à mesa, belíssima dose de frescura, mineralidade, identidade e um polivalente amigo dos bichos do mar que foi bebido a acompanhar um arroz de polvo. 16,5 - 91 pts

08 junho 2010

Casa de la Ermita

A Casa de la Ermita (Espanha) nasce em 1999 a partir do projecto de uma família ligada desde sempre à agricultura. Situada em El Carche, serra com uma das montanhas mais altas de toda a região de Múrcia, faz também parte de um Parque Regional Protegido. Como símbolo para o projecto foi escolhida uma oliveira centenária que se encontra à entrada da adega, esta fonte de inspiração que une a tradição da agricultura de Jumilla com a moderna tecnologia utilizada na adega do produtor.

Jumilla é uma terra de sol e pouca chuva, os seus solos são rochosos e áridos, onde crescem vigorosas cepas, sendo a alma da região sem dúvida alguma a uva Monastrell, dominando cerca de 85% do vinhedo de Jumilla e a terceira mais plantada em toda a Espanha. Nesta DO os brancos são dominados pelas castas Airen e mais recentemente pela Macabeo, resultando em vinhos leves, boa dose de fruta, muito limpos, frescos e bem balanceados, em que a presença do Mediterrâneo faz-se sentir. Nos vinhos rosé temos a Monastrell, e nos tintos também domina a Monastrell complementada por outras castas como Merlot, Syrah, Cabernet-Sauvignon e Cencibel (Tempranillo). A área total de vinha na Casa de la Ermita ronda os 182 ha, dominando a Monastrell com 58,5 ha e como curiosidade na parcela experimental de 32 ha consta a Touriga Nacional.

A adega que funciona por gravidade, fica rodeada pelos vinhedos a mais de 700 metros de altitude, onde flora e fauna convivem livremente, contando com uma cave para 4.200 barricas de 225 litros. Os vinhos deste produtor que tive oportunidade de provar em prova horizontal revelaram acima de tudo uma boa relação preço/qualidade, com alguns exemplares a merecerem uma aposta quase obrigatória para um consumo diário ou mesmo para guarda a médio termo. São na sua essência vinhos frescos, onde a fruta mostra sempre um lado limpo e maduro sem nunca deixar de lado qualquer identidade mascarada por artifícios que pouco ou nada fazem falta e que na sua essência mostra um certo ar Mediterrânico.



Lista de vinhos provados com uns breves apontamentos (notas individuais a sair em breve):

Casa de la Ermita Branco (Viognier) 2008: Conjunto com boa intensidade, tudo muito arrumado e limpo, pêssego, alperce, pêra e ananás com toque melado/calda a dar leve sensação de untuosidade, floral e mineral. Na boca tem leve frescura e menos presença que no nariz, apesar da boa delicadeza e finura do trato. 88/100

Casa de la Ermita Joven Monastrell/Syrah 2008: Feito em exclusivo para a exportação, muito primário nos aromas, simples e directo, as castas envolvem-se e o resultado é um vinho de corpo delgado mas não franzino, com fruta adocicada, pimenta e alguma aspereza vegetal, num todo ligeiramente fresco. Um vinho que vai bem com carnes grelhadas e sardinhas. 85/100

Casa de la Ermita Monastrell Ecológico Crianza 2006: Diferente, assente em toques gulosos e frescos, muita fruta e muita harmonia, acaba por ser um vinho simpático e de fácil agrado. Perfeito para acompanhar as refeições do dia a dia. 88/100

Casa de la Ermita Petit Verdot 2005: Um dos melhores exemplares da casta em solo Espanhol, fruta fresca e madura, boa exuberância com algum exotismo num travo verdot com pimenta verde e bálsamo vegetal, leve envolvência de conjunto com boca de boa amplitude, frescura e taninos a darem corpo ao manifesto. 91/100

Casa de la Ermita Reserva 2004: Abre com tempo no copo, coeso e a mostrar uma boa complexidade, com madeira a dar muita coisa boa embrulhada na frescura da fruta preta e alguma compota. Amplo e bem estruturado, digamos que está no ponto, madeira e fruta em bom nível de entendimento, bálsamo vegetal, chocolate preto, frescura e um belo final. 91/100

Pico Madama 2006
: Um belíssimo vinho, estruturado e rico, pleno de harmonia com força de conjunto apoiado em boa madeira. Sente-se coeso, fechado mas debita já fruta madura com toques de boa intensidade balsâmica, conjunto fresco, complexo, guloso e cheiroso. Muito bem balanceado na boca, amplo, com algum vigor, chocolate preto, compota, frescura, taninos a dizer queremos dormir e longo final. Deste só não compra quem não quer... 93/100

Casa de la Ermita Monastrell Dulce 2006: Um vinho doce natural, uvas secas ao sol com passagem por madeira. O nariz é dominado pelos frutos do bosque maduros e muita compota, frescura, boas notas de especiarias doces (canela). Boca conjuga bem a doçura com a acidez, não é muito amplo, passagem harmoniosa e prazenteira em bom final. 90/100

07 junho 2010

Soalheiro Reserva... a excelência do Alvarinho com madeira

Falar em Alvarinho é sem dúvida alguma falar numa casta de excelência, os vinhos que produz são disso exemplo... e por incrível que pareça Portugal ainda não conseguiu de maneira eficiente mostrar essa enorme mais valia ao Mundo. Do outro lado, Espanha, os consumidores vão-se cada vez mais roendo de inveja quando provam grande parte dos nossos Alvarinhos, ainda por mais tendo em conta a relação preço/qualidade dos nossos exemplares. Mas se tudo isto se passa no Inox, a discussão sobre o Alvarinho com passagem por madeira, já teve a seu tempo os que antes afirmavam que a casta só tinha a perder com a passagem por madeira, os mesmos que nos dias de hoje tecem rasgados elogios. A passagem do Alvarinho por madeira confere aos vinhos outras nuances, enriquece o vinho quer a nível de aromas e mesmo de sabores e quando se consegue a plena harmonia entre fruta/madeira o resultado é uma maior complexidade, retirando-lhe alguma austeridade mas ao mesmo tempo tornando-os mais nobres e majestosos. Em Portugal a coisa já não é novidade, a casta Alvarinho tem sabido o que é fermentar ou mesmo estagiar em madeira e os resultados tem sido bastante animadores, em alguns casos até deslumbrantes.

A Quinta de Soalheiro é talvez a maior referência nos dias de hoje no que a Alvarinho diz respeito, os vinhos que tem lançado para o mercado nos últimos 5 anos tem conquistado tudo e todos, os preços ajuizados e poderei dizer democráticos, fazem com que chegue facilmente à mesa do consumidor, pois por uns meros 7,99€ pode-se levar para casa um dos melhores brancos produzidos em Portugal e tenho dúvidas que lá fora se faça um branco deste nível com preço semelhante. Afinal de contas são 25 anos a produzir Alvarinho, em Melgaço, com a primeira vinha a ser plantada em 1974 pelo pai de Luís Cerdeira, em que o primeiro vinho de marca Soalheiro saiu na colheita de 1982. A gama foi-se ampliando com o passar do tempo, com Espumante, Aguardente e mais recentemente aparece o Soalheiro Primeiras Vinhas acompanhado do Allo, do Soalheiro Dócil e o novo topo de gama da casa, o Soalheiro Reserva. Em todos eles algo se destaca e brilha, a pureza da fruta, aquela limpidez que nos ofusca com uma revigorante frescura assente em travo mineral. Contudo nada disto se perde no Reserva, em que o estágio por madeira em nada vai alterar o que de muito bom a Alvarinho tem para dar, vai sim melhorar e refinar todo o conjunto... num resultado final que o coloca directamente no Top 3 dos melhores brancos made in Portugal.

Quinta de Soalheiro Alvarinho Reserva 2006
Nariz elegante de boa/média intensidade, mostra frescura, relva fresca, citrinos e fruta de caroço, untuosidade fina, mineral fundo com alguma tosta/fumo. Boca com mediana amplitude, ligeira untuosidade compensada pela acidez, fruta fresca com travo vegetal em fundo mineral. 17 - 92 pts

Quinta de Soalheiro Alvarinho Reserva 2007
Nariz a mostrar vivacidade num conjunto fresco de refinada complexidade e profundidade, limpo de aromas, frutado (citrinos, tropical e fruto de caroço), erva fresca com madeira muito bem integrada, tosta suave tal como sensação de untuosidade, mineralidade dominadora de segundo plano. Boca de boa amplitude, harmoniosa, belíssima acidez com tudo muito presente e em grande sintonia com a prova de nariz, num branco de classe pura. 18 - 95 pts
 
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