Copo de 3

18 março 2009

Redoma branco 2005

Em prova coloco um branco que considero como um valor seguro, fruto da boa consistência que consegue apresentar colheita após colheita, e que se junta ao lote dos brancos que mais prazer me deram a beber nos últimos dias.
Informa o site Niepoort, que o Redoma branco é produzido a partir de vinhas de pequenas parcelas, muito velhas com mais de 40 anos. Estas vinhas situam-se a altitudes que variam entre os 400 e os 700 metros, enquanto a maioria das vinhas clássicas do Douro estão plantadas a baixa altitude, entre os 80 a 300 metros. Nestas vinhas encontramos uma mistura de castas tradicionais nas quais predominam Rabigato, Codega, Viosinho e Arinto.
A colheita de 2005, deu e continua a dar grandes alegrias aos apreciadores, neste caso o tempo que o vinho passou em clausura só lhe fez bem, o que já de si era bom tornou-se ainda melhor.

Redoma branco 2005
Castas: Rabigato, Codega, Donzelinho,Viosinho, Arinto e outras - Estágio: fermentação em barricas novas e usadas de Carvalho Francês, permanecendo em contacto com as borras finas por um período de 8 meses, sem fermentação maloláctica, com batonnage quinzenal -

Tonalidade amarelo citrino de toque esverdeado.

Nariz a apresentar uma expressão aromática bem vivaça e de delicada complexidade, onde a fruta madura e fresca (citrinos, pêssego, melão) se entrelaça em suaves nuances de tosta, fumo e fruto seco que a passagem pela madeira lhe atribuiu. Complementam tudo isto as notas de vegetal fresco, finamente recortado que combinam com uma mineralidade que domina todo o plano de fundo, mostrando no seu todo um conjunto de grande finesse aromática, com um ligeiro toque petrolado em fundo.

Boca de entrada fresca, com a fruta a recair mais na componente citrina e bem apoiada pela componente mineral. Um vinho com uma belíssima presença de boca, apresentando uma boa espacialidade, com um bom arredondamento de conjunto (a madeira contribui muito neste sentido), completando-se ao nível do resto da prova de nariz, com toques vegetais bem frescos e um final de persistência mineral.

É um branco de grande qualidade, a mostrar uma belíssima harmonia, aqui tudo se conjuga para uma prova de grande finesse, com uma fruta presente ao lado de uma acidez bem doseada com toque fino e mineral, tudo pronto a dar muito prazer a quem nele aposte neste momento.
17

13 março 2009

Covela Colheita Seleccionada branco 2005

Depois de já termos aqui falado do Covela Escolha, um branco de admirável pureza e frescura, é tempo de colocar no copo o Covela branco que teve passagem por madeira, o Colheita Seleccionada.
Muito sucintamente poderei dizer que vejo como este vinho em prova como a versão Outono/Inverno, mais contemplativo, bem mais sereno e a mostrar alguma frescura, com frutos secos e tosta, um ambiente mais acolhedor a quem se aproxima, enquanto que e o Escolha o encaro como a versão Primavera/Verão, muito mais extrovertido, fresco, belíssima dinâmica quer em nariz quer em boca, enérgico e arejado. São dois estilos cheios de classe e que apelam ao convívio de copos entre amigos.
Este 2005 aqui em prova mostrou-se um pouquinho introvertido no que respeita ao diálogo com a fruta, pelo que a não ser por esse ''pequeno'' detalhe a nota seria um pouco melhor.

Covela Colheita Seleccionada branco 2005
Castas: Avesso e Chardonnay - Estágio: Fermentação parcialmente feita em barricas, assim como estágio de 6 meses, com “batonnage” -13,5% Vol.

Tonalidade amarelo citrino de nuance dourada.

Nariz onde se sente de imediato a discreta presença de madeira onde estagiou. De qualquer forma é baseado na presença da fruta (citrino, tropical) ainda com frescura, que o vinho mais se mostra. Intensidade um pouco mais contida neste Colheita Seleccionada, a mostrar um perfil mais redondo e com ligeira untuosidade, fruto seco, fruta cristalizada e algum que outro toque petrolado.

Boca que junta a frescura desafiante com um conjunto que se sente redondo e muito harmonioso, a fruta marca aqui igual posição à tomada na prova de nariz, acompanhada de perto com fruto seco e leve tosta. A mineralidade aparece meio difusa entre a complexidade que sem ser grande, confere uma prova rica em detalhes, num final de boca com persistência mediana.

A madeira apesar de se mostrar suave, tirou-lhe parte da frescura e vivacidade que são por demais evidentes no Covela Escolha, apresentando-se como um vinho mais redondo, mais gordo e mais dengoso. Não o deixaria evoluir muito mais em garrafa, enquanto que o que apenas vê inox se adequa muito bem com marisco ou um peixe grelhado, este Colheita Seleccionada é um grande amigo de peixe no forno, com molhos onde a nata marca presença, como foi o caso.
15,5

11 março 2009

Guitian Fermentado em Barrica 2006

A familia Guitian, foi uma das pioneiras no que toca à aposta na casta Godello, uma casta que diga-se de passagem estava à beira do esquecimento, e que hoje em dia graças ao esforço de alguns produtores, brilha em mesas de todo o mundo.

É no município de Rubiá de Valdeorras (Ourense), que Ramón Guitian e José Hidalgo, compraram a Finca ''La Tapada'', situada a uns 550 metros de altitude sobre o nível do mar, e depois cultivaram em 1985, a variedade godello, após escolha criteriosa de um clone de maneira a obter a melhor qualidade possível. A adega é construída no mesmo local, em meados dos anos 90, e viria a dar o nome ao produtor, Bodegas La Tapada, embora seja mais conhecido como Guitian.

Situada na Denominação de Origem de Valdeorras que ocupa parte dos vales dos rios Sil e Jares, no Nordeste da província de Ourense, uma região menos húmida que o resto da Galiza, onde se combinam as influências Atlânticas com os ares Continentais, resultando um todo bastante propicio para o bom desempenho de duas das castas que mais alvoroço têm criado junto dos enófilos mais atentos, falo da branca Godello e da tinta Mencia.

Nos vinhos brancos deste produtor, a passagem por madeira é feita em carvalho americano do Missouri, com batonnage e um estágio aproximado de 6 meses. Na altura da vindima, pouco mais de 1 ha fica sem vindimar à espera do ataque da botrytis cinerea, do qual o mosto resultante integra o estágio em barrica, perfazendo aproximadamente 8 a 10% do total do lote final. Depois de fermentados, os vinhos são filtrados e estabilizados a frio. A colheita inicial foi em 1992, e desde então a fama tem rodeado todos os vinhos produzidos nesta casa, sendo este para muitos o grande branco de Valdeorras.

Guitian Fermentado em Barrica 2006
Castas: 100% Godello - Estágio: fermentação em barrica nova de carvalho americano e posterior estágio de 10 meses sur lie, e posterior envelhecimento em garrafa - 12% Vol.

Tonalidade amarelo palha dourado, de média intensidade com ligeiro esverdeado.

Nariz bem cheiroso, deita cá para fora muitas sensações de fruta fresca bem madura (pêssego, lima, limão, pêra, melão) ao lado de muita flor e erva aromática, quase que num clima primaveril. Imagine-se um campo em plena primavera, onde depois de um curto aguaceiro aparece o sol morno (aqui entra a baunilha e um ou outro torrado da madeira, o toque meloso e alguma calda da fruta que dele fazem parte, embora tudo isto muito bem entrosado com todo o conjunto) a despertar os aromas a flores e a ervas de cheiro, com aquele toque mineral em fundo, dado pelo solo molhado. A despedida é feita mais uma vez em redor da fruta, neste caso de um pêssego bem maduro a que damos uma valente dentada, enquanto o sol nos bate na cara.

Boca de corpo médio, boa acidez presente a conferir uma boa dose de frescura, passagem de boca com boa intensidade. Complementa-se muito bem com toda a prova de nariz, quer a nível da fruta, da frescura da mesma, da sensação de geleia a meio palato, da madeira bem integrada e que lhe confere um notável arredondamento, direi mesmo uma sensação de cremosidade suave que o torna fresco, roliço e sedutor. O final é mais uma vez dedicado à fruta bem madura e mais uma vez bem presente, numa bela persistência final.

Embora seja um belíssimo vinho, não o encontrei tão bom como por exemplo o exemplar de 2003, como resultado óbvio a nota ser um pouco inferior. Um vinho que se pode beber agora ou pode deixar a dormir durante vários anos sem muito problema, tem argumentos suficientes para tal. Direi que dentro de mais dois anos estará a entrar no seu topo de forma. Ganha claramente com algum tempo de decantação, dei-lhe meia hora para se espreguiçar, acompanhando bem de perto o seu acordar. O preço ronda os 18€.
16,5

10 março 2009

Covela Escolha 2006

Desde o séc.XVI que, no vale do Douro, no limite da "zona granítica" (região dos V. Verdes) e na fronteira com a região dos Vinhos do Porto, se situa a Quinta de Covela: belo anfiteatro exposto a sul, a baixa altitude e sobranceiro ao rio Douro. Tem um pé em S.Tomé de Covelas e outro em Santa Cruz do Douro (Tormes), lindíssimas freguesias deste "Baixo Douro" (in "O DOURO ILLUSTRADO", Visconde de Villa Maior, 1876).

Esta é possívelmente uma boa forma de apresentar a Quinta da Covela, comprada à Ramos Pinto pelo seu actual proprietário, Nuno Araújo.

A Quinta da Covela é composta por 34 ha, dos quais 19 ha são de vinha, envoltos por um micro-clima muito específico, rodeado de sobreiros e medronheiros, e assentes num solo franco-arenoso granítico, com afloramentos argilosos. Mais uma vez a natureza calcária a ser ''mãe'' de bons filhos. As castas que podemos encontrar vão desde a Touriga Nacional, Cabernet Franc, Cabernet Sauvignon, Merlot Noir e Sirah, nas tintas. E Avesso, Chardonnay, Chenin, Gewuerztraminer, Semillon e Viognier, nas brancas. De todas estas, a Avesso e a Touriga Nacional foram escolhidas como "traves-mestra" para os vinhos brancos e tintos. O objectivo de Nuno Araújo é:

«Produzir vinhos que tenham uma correcta expressão do terroir, sendo totalmente livres de químicos de síntese e assim privilegiando a protecção do ambiente, dos trabalhadores da Quinta e dos consumidores»

Desde o início, praticou-se na Quinta uma viticultura em regime de Protecção Integrada, posteriormente convertida para Agricultura Biológica (certificada ECOCERT); actualmente encontra-se em conversão para Bio-dinâmica. É fundador da Independent Winegrowers´Association, IWA e tem o mérito de ser o primeiro produtor português a ser aceite no prestigiado grupo ''Renaissance des Appellations'', liderado pelo guru da bio-dinâmica, Nicolas Joly.

Em 1992 foi engarrafado o primeiro branco Regional Rios do Minho, com marca Campo Novo (alterada para Quinta de Covela em 1994) e em 1994, engarrafado o primeiro COVELA tinto. Em prova o branco Covela Escolha 2006:

Covela Escolha 2006
Castas: Avesso, Chardonnay, Gewuerztraminer - Estágio: cubas de aço inoxidável - 13,5% Vol.

Tonalidade amarelo citrino de ligeiro retoque dourado.

Nariz muito limpo de aromas, mostra uma grande pureza na fruta madura e sumarenta (citrinos, tropical, melão, alperce) com muita qualidade e expressividade, ao lado de um bouquet floral (malmequer, rosas) pequeno mas bem composto. Sente-se um conjunto fresco, besuntado ao de leve com fina geleia, num predomínio mineral de segundo plano.

Boca que se apresenta ao nível da prova de nariz, complementa-se, a fruta marca mais uma vez grande presença num conjunto com acidez revigorante, sabores limpos e frescos, onde a mineralidade marca boa presença. Harmonioso, redondo e de boa espacialidade, passagem viva em final de bela persistência, seco e de nuance ligeiramente vegetal fresco/mineral.

Foi a última garrafa que tinha deste 2006, no mercado já se encontra o Escolha 2007 e vontade não me falta para comprar umas garrafas. É um branco refrescante, com plena harmonia entre mineralidade e fruta, e um grande companheiro para a mesa. Já foi provado em Magnum com excelente companhia de amigos e umas belíssimas ameijoas, o resultado é sempre de aplaudir. Um dos grandes brancos nacionais sem qualquer margem de dúvida e que passa muitas vezes despercebido sem o merecer.
16,5

09 março 2009

Andamos satisfeitos com os vinhos que bebemos ?

Como em tudo na vida, nada melhor do que fazer-se aquilo que se gosta, aquilo com que se sonha e que um dia se torna realidade.
É o poder dizer-se que se tem o trabalho que sempre foi desejado, a esposa que é o amor de uma vida, o carro com que sempre sonhou ou a casa que sempre procurou, é a sensação de felicidade plena que passamos grande parte da vida a tenta atingir, e por vezes não chegamos a concluir.

E no que toca aos vinhos que bebemos, será que estamos satisfeitos ? será que esses mesmos vinhos nos complementam e ajudam a ser felizes ?

Visto as coisas nos tempos actuais, com a enorme proliferação de marcas no mercado e a constante compra de variados vinhos por parte dos consumidores, leva a crer que é difícil dizer-se que se está satisfeito, não fosse essa mesma mudança encarada como um claro sinal de insatisfação.
E todos aqueles vinhos que consideramos valores seguros e continuamos a comprar ano após anos, será que esses vinhos são aqueles que sempre procuramos e que nos conseguem satisfazer plenamente ?
Será que o principal motivo que nos leva a provar tanto vinho, é sem sombra de dúvidas a procura da tal satisfação que ainda não conseguimos encontrar ? e no dia em que a encontrarmos o que acontece ?

Andam satisfeitos com os vinhos que bebem ?

07 março 2009

Dona Matilde 2007

A Quinta Dona Matilde, é uma quinta familiar localizada nas margens do rio Douro, e está entre as mais antigas e famosas Quintas da região. Com uma superfície total de 93 hectares, a quinta conta com 28 hectares de vinha de alta qualidade, todas classificadas com letra A - a mais alta classificação da Região Demarcada Douro.
É um projecto de Manuel Ângelo Barros e dos seus filhos (Filipe e Nuno) para produzir e comercializar vinhos DOC do Douro e Vinho do Porto de alta qualidade.
A empresa actualmente produz uma quantidade limitada de vinhos tinto e branco DOC Douro que comercializa sob a marca Dona Matilde, marca registada que pertence à família de Manuel de Barros desde 1927, ano em que o seu avô, Manoel Moreira de Barros (fundador do grupo Barros) comprou a quinta e em honra da sua mulher mudou o nome da Quinta do Enxodreiro para Quinta Dona Matilde.
Em prova desta vez o tinto Dona Matilde da colheita 2007:

Dona Matilde 2007
Castas: Vinhas velhas - Estágio: aprox. 12 meses barrica - 13,5% Vol.


Tonalidade ruby escuro de concentração moderada.

Nariz a apresentar-se com uma bonita cesta repleta de fruta (cereja, groselha, framboesa) toda ela muito perfeita e bem madura, que se vai completar com aquele aroma resinoso característico das estevas em plena serra. Qual papel de parede, o toque de madeira por onde passou, é realçado com toque de baunilha e leve cacau morno.

Boca com presença da fruta ao nível da prova de nariz, que escorre sumarenta, surge também o mesmo vegetal a recordar esteva, com ligeiro apimentado à mistura. Mostra uma ligeira secura a meio da boca o que é obra de alguns taninos por acomodar no devido lugar. Média espacialidade, com sentida harmonia e desembaraço no trato, num conjunto onde a madeira se mostra discreta mas bem integrada, resultando no seu todo um Douro de boa estirpe.

Conjuga a sua boa dose de elegância com a frescura da fruta, num todo harmonioso e de identidade bem marcada. Um Douro bem apetecível com um preço que deverá rondar os 8€.
15,5

05 março 2009

Château Rozier Grand Cru 2005

Recentemente no fórum da Revista de Vinhos, foi levantado um assunto que na sua essência questionava a qualidade dos vinhos estrangeiros que determinada superfície comercial escolhe, para vender como marca da casa, como por exemplo os Pingo Doce Dão ou Continente Alvarinho.
Desta vez foi a Tesco que escolheu (pelos visto não muito bem) um vinho oriundo de Portugal para vender com a sua marca, e que a ver pela prova do crítico britânico Jamie Goode, o vinho em causa é tudo menos representativo da qualidade dos vinhos que se fazem em Portugal. Neste caso falamos de um Touriga Nacional 2006 produzido pelo produtor DFJ Vinhos.
É óbvio que tal acontecimento não deve nem pode beliscar a imagem de um País produtor como é Portugal, deve sim penalizar apenas e só a imagem da cadeia Tesco pela má escolha que fez, e porventura penalizar o produtor em causa pelo desempenho menos bom do seu vinho.
Pessoalmente não me vejo a ir a uma qualquer superfície comercial em Espanha e comprar um Rioja Carrefour, quase que soa a vinho ''genérico'' tal como o ácido acetilsalicílico.
A questão pode também ela colocar-se noutros modos, qual a qualidade dos vinhos estrangeiros que podemos encontrar nas superfícies comerciais ?
Será que vale a pena apostar por exemplo num Château Rozier Grand Cru Saint-Émilion 2005, comprado nos 3 Mosqueteiros por 12€ ?
Falando um pouco da zona de onde este Rozier nos chega, é um vinho de Bordéus, mais propriamente de Saint-Émilion, onde a classificação é revista de 10 em 10 anos, sendo divididos em duas categorias, premier grand cru classe e grand cru classe.
Este Château Rozier foi fundado no séc 18 por Jean Saby, hoje em dia é gerido pela nona geração da família, os irmãos Jean-Christophe e Jean-Philippe Saby. São 23 ha de vinha com uma idade a rondar os 45 anos, espalhadas por 4 comunas da região, com solos onde predomina o calcário e argila, sendo o resultado final um blend de 90% Merlot e 10% Cabernet Franc.

Château Rozier Grand Cru 2005
Castas: Merlot 90% e Cabernet Franc 10% - Estágio: 12 meses em barrica (50% nova) - 13,5% Vol.

Tonalidade granada escuro de concentração média/alta.

Nariz de boa intensidade, onde surgem de imediato notas a lembrar frutos vermelhos (ameixa, cereja) e bagas, tudo muito fresco a ser acompanhado por um ligeiro aroma floral. Complementa-se com ligeira sensação de café expresso, baunilha e grão de pimenta preta em plano de fundo.

Boca a dar indicação de um vinho que sem ser denso ou muito estruturado, mostra uma boa amplitude. Confirma plenamente a prova de nariz no carácter frutado e na sintonia com a madeira, marcando mais uma vez presença a tosta e o travo apimentado. Conjunto bem balanceado, taninos bem integrados, fresco e a mostrar algum refinamento, em final de boca de persistência média.

Em jeito de conclusão sobre este vinho, poderia aqui discursar com uma daquelas certezas absolutas, tão em moda por outros lados, sobre o perfil de determinada região apenas e só, porque como não quer a coisa até provei umas quantas garrafas em casa de amigos e até achei o vinho semelhante em ligeiros detalhes. Poderia também falar com certezas baseadas naquilo que já li ou ouvi alguém dizer ao meu lado numa qualquer outra prova.
Optei apenas por me limitar a apreciar o vinho e a comentar independentemente da região de onde vem ou dos conhecimentos que tenha sobre a mesma. Penso que não se fica a conhecer (não confundir com ficar com uma vaga ideia de...) uma região nem um perfil da mesma, apenas por se provarem meia dúzia de vinhos. Fazem falta muitos anos e consequentes provas para que tal aconteça. Neste caso é essa falta de conhecimento que não me permite dizer se o vinho é dos melhores ou dos piores dentro da gama onde se enquadra, ou se é um fiel exemplo da appelattion de onde veio ou não.
Como vinho que é, deu prazer durante a sua presença no copo, harmonizou em grande estilo com um lombo de novilho assado com molho de cogumelos, e tendo em conta os 12€ que custou, só posso dizer que foi uma boa surpresa.
15,5

03 março 2009

Em cada enófilo mora um Dr. Victor Frankenstein.

Devido ao tempo que tenho dedicado a dois projectos que tenho em vista, foi notória alguma falta de actualização de conteúdos no Copo de 3, pedindo por isso as minhas desculpas a todos aqueles que lêem e participam aqui nesta casa.
Após este pequeno período sabático, estou de volta e pronto a dar mais corda do que já tinha antes, para breve está uma remodelação do espaço, mas a seu tempo irei dar notícias.
Poderia começar com um pequeno tratado de Pedologia acerca dos vários tipos de solos onde as vinhas se plantam, as suas diferenças, as suas características e até mesmo qual o contributo de cada um no produto final que é o vinho. Outro assunto possível seria o de dissecar até que ponto é que a Touriga Nacional como casta nobre de Portugal, se pode virar numa autêntica praga a fim de ''capar'' a identidade das regiões que usam e abusam dos seus serviços nos lotes finais.
Porventura nada destes temas me pareceu o suficientemente apetecível de abordar, ainda por mais quando nos dias que correm o que parece andar na moda são as coisas do passado, e como tal ficava lá muito sem muita graça falar de uma coisa actual.
Apetece-me falar do antigo, da velharia, da antiguidade, do vinho velho, daquele vinho que repentinamente ganhou destaque, parecendo que virou moda e anda a transformar tanto enófilo em autênticos Tomb Raiders nacionais.
Se alguém souber a partir de que idade é que um vinho começa a ser chamado de velho que me avise, enquanto isso dizia eu, os vinhos velhos despertam aquele lado da curiosidade mais mórbida que reside em cada um de nós. Não fosse a prova de vinhos velhos uma autêntica roda da sorte onde convenhamos que o factor sorte é preponderante na boa ou má garrafa que nos possa calhar, o que me leva a constatar que:

Em cada enófilo mora um Dr. Victor Frankenstein.

É uma comparação algo estranha, a de comparar um enófilo ao famoso Dr. que mora na obra de Mary Shelley, mas as vontades de um e de outros não deixam de coincidir.
Quantos de nós enófilos, não tentamos dar ou tentar encontrar vida num vinho que não a tinha ?
Imaginemos a cena em que um tal Dr. Frankenstein vai a uma garrafeira perto do seu castelo e vagueando por lá, resolve exumar umas quantas garrafas, sempre na esperança que dali consiga obter o seu máximo propósito... Vida.
Convida então os amigos, uns mais Doutores que outros, para presenciarem aquele memorável momento, afinal de contas são anos de dedicação à causa e que sem se esperar podem desmoronar-se num segundo.
Enquanto uns ficam incrédulos com os nomes daqueles espécimes que estão prestes a fazer parte do ritual, outros mais experientes reconhecem por entre feições enrugadas e degradadas pelo tempo, que afinal até já tiveram contacto com outras gerações dos ditos.
Igor o serviçal do castelo, prepara todo aquele festim com enorme regozijo, o seu amo e senhor pode brilhar naquela noite e nada pode falhar, pelo menos do que a ele lhe compete.
É logo à primeira tentativa que o primeiro oooooooooooooh se ouve na sala, a primeira descarga de energia teria sido o suficientemente forte como que para iluminar uma aldeia por uma semana inteira, apesar disso aquele espécime ficou tão inerte como chegou, nauseabundo e putrefacto, falou-se de imediato que o problema seria do mau estado de conservação.
A segunda tentativa seria bem mais animadora, desta vez a descarga de energia foi suficiente para que momentaneamente todos os presentes esboçassem um sorriso. Está vivo...
Aquele momento de jubilo colectivo estava espelhado no olhar comovido de Igor, afinal o seu amo e senhor, tinha conseguido o que muitos não esperavam.
Aqui e ali foram-se detectando pequenos sinais de vida, o suficiente para animar uns quantos convidados, mesmo os mais cépticos dos que estavam presentes reconheciam que naquele momento tal tinha sido possível. Mas tudo não passou de uns breves instantes, as vozes de euforia foram sendo caladas por um silêncio contagiante que invadiu a pequena sala, era mais que óbvio que algo tinha falhado no processo, tudo se estava a desmoronar... parecia que quanto mais aquele exemplar tentava respirar mais definhava, até que acabou por sucumbir no tempo.
Um dos convidados levantou-se e enquanto puxava de um cigarro perto da janela, explicava que o mal não seria do procedimento mas sim da família do exemplar, que outros por ele experimentados já tinham dados bons resultados e que seria apenas um problema do ano de nascimento.
Era a derradeira tentativa daquela noite fria e chuvosa, e quando já ninguém esperava um resultado positivo, eis que o milagre se deu para espanto de todos. Aquele que para muitos já estaria no eterno descanso vivia de novo, respirava e emanava suficiente frescura, a suficiente para que não fosse tropeçando à medida que se erguia no meio da sala, onde se aguentou firmemente durante todo aquele jantar.
No final todos os convidados falavam entusiasmados sobre aquele magnífico exemplar, que nunca iriam suspeitar que dali fosse possível tal coisa, e que o mais certo seria irem à procura de familiares.
Bem no final da noite enquanto Igor saltitando de jubilo, limpava o salão, o Dr. chamou Igor e sussurrou ao ouvido:
- Amanhã vais à garrafeira ao pé do castelo buscar os irmãos do terceiro exemplar, antes que os outros Doutores lá passem.

04 fevereiro 2009

Couteiro Mor Reserva 2004

Quanto tempo e dinheiro se perde na procura daqueles vinhos que realmente nos dizem algo e que de igual modo cumprem a árdua tarefa que é a satisfação num consumo um pouco mais casual, mas não tão simples quanto o que se exige no dia a dia ?
Poderia enumerar vários vinhos de várias regiões, mas vou optar por destacar apenas um dos muitos e de preço bem acessível, mas que é capaz quando se prova e bebe de nos fazer esquecer por completo o que custou (ronda os 8€ numa grande superfície comercial).
De facto os vinhos do produtor Couteiro Mor (Montemor o Novo - Alentejo) ou Sociedade Agrícola Gabriel F. Dias e Irmãs Lda. , são daqueles exemplos que convém seguir bem de perto porque raramente falham quer na qualidade apresentada quer no preço praticado.
Seja nos entradas de gama com os Couteiro Mor, passando pelo Colheita Seleccionada, Reserva até ao topo de gama Vale de Ancho, qualquer um destes vinhos é sempre uma escolha acertada, tendo em conta o preço pedido e o patamar onde se encontram.
Neste caso optei por abordar o Reserva, que por sinal é um dos mais recentes a sair para o mercado a par do Espumante.
O Reserva pertence ao grupo de vinhos que não tendo todos os encantos e recantos daquela complexidade que esperamos encontrar num topo de gama (alguns topos falham aqui redondamente), é sempre uma escolha que resulta em pleno para um jantar sem grandes pretensões onde se convidaram uns amigos e onde apetece beber algo com mais substância mas que não se transforme de imediato no alvo das atenções por parte dos convivas, é chato quando um vinho remete para canto os donos da casa.

Couteiro Mor Reserva 2004
Castas: Aragonês, Alicante Bouschet e Touriga Nacional - Estágio: 6 a 8 meses em carvalho francês - 14% Vol.

Tonalidade granada escuro de média/alta concentração.

Nariz de perfil maduro e redondo, com harmonia e ao mesmo tempo a mostrar intensidade, tudo assente numa boa dose de fruta (morango, amora, ameixa) com toque compotado. Melhora com o tempo no copo, a madeira por onde passou mostra grande entendimento com o conjunto, elegante, sóbrio e de sopro morno. Desperta para cacau, café, vegetal de cariz balsâmico ainda que ligeiro e alguma pimenta preta.

Boca de bom volume, mostrando-se desde já muito afinado, redondo e prazenteiro. A fruta marca presença, ao lado de uma frescura que se esperava sentir para que o vinho não caísse na tentação de tantos outros, o puro enjoo da fruta sobre madura. Este pelo contrário conjuga a boa fruta com as notas de café, cacau, especiaria e tostado no final. A despedida é firme e suave ao mesmo tempo, com cunho balsâmico tal como na prova de nariz.

É um vinho que pode ser bebido desde já com bastante prazer, diga-se de passagem que pela prova que deu e dá, não se deve guardar por muito mais tempo. Falta-lhe talvez um pouco mais de refinamento e classe, mas isso será algo que fica reservado para o topo de gama da casa, o Vale de Ancho.
Acompanhou muito bem umas migas com carne do alguidar. Foram produzidas 39956 garrafas, cabendo a esta o número 11811.
16

02 fevereiro 2009

Gravato 2006

Gravato 2006
Castas: 100% Touriga Nacional - Estágio: 1 ano de carvalho francês e americano de tosta média, mais 15 meses em garrafa - 14,5% Vol.

Tonalidade granada escuro de concentração média/alta.

Nariz de boa intensidade a mostrar uma Touriga Nacional algo fechada, dando apenas umas ligeiras amostras daquilo que encerra. Bem mais apoiado na jovialidade da fruta (silvestres, cereja) do que propriamente na componente violeta, das flores tão características da casta. Se estão ainda não desabrocharam, e encontram-se tapadas pela especiaria, cacau, e tosta. Não deixa de mostrar uma ligeira ponta de austeridade, banhada por boa dose de frescura. Tudo isto num conjunto que se mostra algo introvertido mas a dar uma boa prova neste momento.

Boca a mostrar um vinho bem estruturado, com boa espacialidade a sentir-se ocupada em pleno por fruta (bagas sumarentas, cereja) bem fresca e madura, bem amparada pela madeira por onde passou. Ainda por desembrulhar tudo aquilo que lhe vai na alma, mostra no momento um toque de cacau, bálsamo vegetal e um travo especiado de fundo. Tudo compacto e cheio de vontade de se esticar, mas para isso é preciso tempo em garrafa, confidenciam os taninos mais inquietos que por lá andam. A despedida é feita com final de boca médio/longo de boa persistência.

Um vinho a mostrar uma Touriga ainda com muita vida pela frente, apesar da boa prova que dá neste momento, é vinho que claramente vai precisar de crescer em garrafa. Ligeiramente diferente da primeira colheita 2004, parece no entanto mais promissor. Fiquemos por isso atentos.
16,5

01 fevereiro 2009

Quinta da Trovisca 1999

Quinta da Trovisca 1999
Castas: Touriga Nacional (30%), Touriga Franca (25%), Tinta Roriz (15%) Tinto Cão (5%), Tinta Barroca (5%) e outras (20%) - Estágio: 6 meses em carvalho francês - 12,5% Vol.

Tonalidade ruby escuro de concentração mediana.

Nariz revelador de fruta fresca bastante madura (frutos do bosque), ligeiro e tímido toque floral num conjunto afinado e elegante. Sente-se frescura condutora aliada a especiarias (pimenta preta) e vegetal (esteva). A madeira ainda que presente, está completamente integrada no conjunto, resultando um pleno de harmonia, ainda que sem mostrar grande dose de complexidade.

Boca de entrada fresca e frutada, juntando-se um leve toque vegetal a lembrar esteva, em conjunto fino de média estrutura. Boa dose de frescura presente durante toda a passagem de boca, num todo harmonioso, com leves notas fumadas em segundo plano com final de boca de persistência mediana.

O vinho tem uma bela dose de frescura presente durante a prova, conferindo alguma vivacidade a um conjunto afinado e elegante, conjugando muito bem a prova de nariz com a prova de boca. Os quase 10 anos de vida com que este vinho se apresenta, e com uns cada vez mais raros 12,5%, parece que não lhe fizeram grande mossa, resultando um vinho bem apetecível para se consumir neste momento.
15

Quinta Vale d´Agodinho Grande Escolha 2003

Quinta Vale d´Agodinho Grande Escolha 2003

Castas: Touriga Nacional (30%), Touriga Franca (25%), Tinta Roriz (15%) Tinto Cão (5%), Tinta Barroca (5%), Outras (20%) - Estágio: 8 meses em pequenas barricas de carvalho francês - 15% Vol.


Tonalidade ruby escuro de concentração média.


Nariz de boa intensidade, aromas maduros com fruta vermelha achocolatada, ao lado de toque compotado. No tom morno que apresenta inicialmente e dos seus 15% junta-se o toque vegetal com balsâmico juntamente a especiaria e baunilha, reveladores de uma barrica plenamente integrada com o conjunto que confere alguma profundidade ao aroma.


Boca de entrada fresca com a fruta a marcar presença de imediato, novas notas de compota, cacau e vegetal. Boa dose de elegância sentida durante a sua passagem, apesar de dar a sensação de ligeiramente adocicado, mostra perfil arredondado onde a frescura marca presença num final harmonioso de persistência média.


É um vinho que mostra um lado Duriense mais guloso e mais maduro, onde os 15% que apresenta não se notam no copo mas apenas ao final da noite ao levantar. Apesar do toque mais ''guloso'' o vinho não satura durante a prova como se poderia esperar, sendo bom companheiro para a mesa petisqueira.
15,5
 
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