Copo de 3

13 maio 2009

Adega de Pegões Colheita Seleccionada branco 2008

Voltando a repetir o que aqui já foi dito, este branco é insistentemente colheita após colheita, um dos vinhos brancos que melhor relação qualidade/preço apresenta no mercado nacional.
Produzido pela Cooperativa Agrícola de Santo Isidro de Pegões, é daqueles vinhos que independentemente do ano de colheita, se compra sem pensar muito, aliando a um preço sempre sensato e de certo modo ''controlado'', apesar de nos últimos tempos ter tido alguns ajustes onde se notou um aumento de produção, um preço ligeiramente mais alto e uma alteração no lote final em que deixa de constar a Pinot Blanc.

Adega de Pegões Colheita Seleccionada Branco 2008
Castas: Chardonnay, Arinto e Antão Vaz - Estágio: 4 Meses nas pipas onde fermentou com Batônnage - 12,5% Vol.

Tonalidade amarelo citrino com leve toque dourado.

Nariz a apresentar-se fresco e limpo de aromas, boa dose de fruta onde a vertente tropical (ananás, maracujá, banana) se mistura com notas de citrinos e algum pêssego. A fruta parece ficar suportada por um fio de geleia que lhe confere um toque agridoce, notas florais (laranjeira) marcam presença. Madeira (baunilha, tosta) menos presente do que era costume nas últimas colheitas, que aparece com tempo de copo, mostrando novamente um belo de conjunto, revelando-se harmonioso e com uma delicada complexidade, com final a mostrar-se fresco e mineral.

Boca com entrada fresca e frutada, sente-se algum arredondamento, resultante da passagem por madeira, resultante uma maior envolvência e equilíbrio de todo o conjunto. Baunilha e suave untuosidade marcam a passagem de boca, com ponta vegetal sem incomodar muito em final de boa persistência e de cariz mineral.

A conversa que tenho tido ultimamente com um amigo destas andanças vínicas, levou a formular uma ligeira opinião sobre este vinho, pois apesar da indiscutíel apetência que continua a demonstrar, tem vindo a mudar ligeiramente nos últimos dois anos. Talvez se deva a um possível aumento da produção, talvez se deva à saída da Pinot Blanc que antes contribuia com 25% do lote final, talvez se deva às próprias colheitas... independentemente de tudo isto, este vinho subiu o preço no Pingo Doce passando agora a custar bem mais de 3€ quando se comprava a menos (pouco mas menos). Vamos esperar que a sua evolução não seja tão precoce como a anterior colheita, com uma nota final a revelar ajuste, tal como tem sofrido o vinho em si.
15,5

Serras de Azeitão branco 2008

Serras de Azeitão branco 2008
Castas: Fernão Pires, Arinto e Moscatel - 13% Vol.

Tonalidade amarelo citrino com leve toque esverdeado.

Nariz de perfil fresco com intensidade mediana, mostrando-se jovem e a despontar de imediato para uma boa combinação entre frutas bem frescas e com boa maturação (alperces, laranja, limão, ameixa branca). Tudo isto aliado a um toque guloso e adocicado (ainda que ligeiro), prontamente socorrido por uma aragem bem fresca de forro vegetal/floral, rematando num suave toque mineral em fundo.

Boca a apresentar um vinho de corpo algo delgado, com presença da fruta, na mesma onda da prova de nariz. Acidez presente confere frescura que contrabalança com alguma doçura mais atrevida que poderia surgir do Moscatel. Passagem correcta e sem grandes percalços ou esquecimentos, acabando num sumido toque mineral de fundo.

Duas coisas mudaram neste vinho, o preço que dificilmente se encontra em prateleira abaixo dos 2€ e também a mudança a nível de castas, saindo a Chardonnay e entrando a Arinto.
Parece que com a troca de castas, o vinho perdeu alguma da chama que apresentava na anterior edição, para ficar mais delgado mas ao mesmo tempo com aromas mais centrados no campos dos citrinos, mais limonado e com mais acidez.
Perdeu encantos é certo, mas não é por isso que deixa de ser uma aposta fiável.
14,5

08 maio 2009

Devil's Lair Fifth Leg red 2001

Conhecidos pela maneira fácil como agradam a um alargado leque de consumidores, os vinhos do Novo Mundo (neste caso Austrália) já tiveram melhores dias, pelo menos é o que se vai lendo e ouvindo nos cantos e recantos da net.
A verdade é que a fórmula que parecia mágica, e em certa dose até o foi e ainda parece continuar a ser, acabou um pouco na velha história em que o feitiço se volta contra o feiticeiro, e hoje em dia o perfil dos ditos vinhos é mais que conhecido e rebatido, afastando consumidores que se mostram cansados do que lhes é colocado no copo.
Apesar de tudo, são vinhos que tem a lição bem estudada, onde o seu principal objectivo é agradar ao maior número possível de consumidores, com entradas de gama muito competitivos a nível de preço/qualidade/quantidade produzida e até imagem e marketing associados.
Dentro deste panorama apostei num Australiano proveniente de Margaret River (Oeste Australiano), do produtor Devil´s Lair.
Deve-se o nome deste produtor ao nome de uma caverna/gruta situada em Margaret River, onde foram encontrados fósseis alusivos ao Diabo da Tasmânia.
A marca Fifth Leg, surge em 1996, e simboliza o espírito livre e independente de estar na vida, quase como que um tributo ao trabalho que ali se tem desenvolvido.

Devil's Lair Fifth Leg red 2001
Castas: Cabernet Sauvignon, Shiraz (Syrah), Merlot - Estágio: 12 meses em carvalho Americano e Francês - 14% Vol.

Tonalidade granada escuro de concentração média.

Nariz a mostrar-se muito centrado na fruta madura (seja em bagas ou em ameixa e cereja), sumarenta e de qualidade, mediana concentração, com alguma frescura mas sempre com a sensação da colherada de compota gulosa mas sem estar carregada de açúcar. Para retocar o conjunto temos as especiarias (canela, pimenta preta) que também surgem embora discretas, casando todo o perfil com uma ligeira tosta e cacau derivado da madeira. O vinho só de cheirar é apelativo e tem aquela inegável ponta de gulodice.

Boca de entrada correcta, suave e directo, mediano na sua postura, mostra mais uma vez um conjunto onde a fruta é rainha com os retoques da madeira, especiaria, geleia e cacau a dar aquela sofisticação a nível de complexidade. Completamente pronto a ser bebido, com final mediano mas prazenteiro.

É um vinho de puro gozo, na boa ascensão do termo onde se goza de uma prova descomplexada mas com qualidade. Acompanhou muito bem um Spaghetti alla Carbonara, se bem que seria bom companheiro de uns bifes com molho de pimenta.
A fórmula do Novo Mundo parece que continua firme e funciona lindamente, o impacto inicial é cativante e prende o consumidor mais incauto, digamos que o gozo é mais do que momentâneo. É que depois da primeira garrafa ficamos com a sensação de já termos visto aquele filme em algum lado e a vontade de repetir fica um pouco deixada de lado, mas mesmo assim não deixa de ser um filme... perdão, um vinho ''engraçado'' com preço a rondar os 14€.
15,5

07 maio 2009

Vertente 2004

Antes de haver diálogo, era apenas e só nesta vertente que o consumidor de menores recursos financeiros se podia aproximar do Mundo Niepoort.
Tudo começou quando surgiu no mercado faz alguns anos, um efémero Quinta de Nápoles da colheita 2000, que daria lugar no ano seguinte à marca Vertente.
Nesta vertente de provar e analisar as coisas como elas são, digamos que a vertente é sempre a subir, revelando colheita após colheita um mais e melhor refinamento global e até mesmo de ideal. Uma vertente bem duriense que dá muito prazer subir, conquistadora e com um abraço revelador da qualidade dos vinhos desta casa.
Proveniente dos vinhedos da Quinta de Nápoles com cerca de 20 anos e de vinhas velhas próximas do Pinhão, eis o Vertente 2004.

Vertente 2004
Castas: Tinta Roriz, Touriga Franca, Tinta Amarela, Touriga Nacional e outras - Estágio: 12 meses em barricas de carvalho francês - 13,5% Vol.

Tonalidade ruby escuro de concentração mediana.

Nariz a dar entrada com a fruta vermelha (bagas) bem presente e madura, com ligeira sensação de adocicado (compota), num todo que se mostra largo de horizontes (leia-se com alguma profundidade nos aromas que apresenta). Tem refinamento na complexidade que apresenta, deambulando pelo toque especiado das pimentas, chocolate negro, fumado e lá no final um ligeiro socalco de mineralidade (talvez proveniente do chão pedregoso da dita vertente).

Boca na mesma sintonia da prova de nariz, com a presença da fruta em grande sintonia com a madeira por onde a mesma passou. Ganha com isso alguma cremosidade/aveludado, na boa espacialidade e frescura que apresenta durante toda a passagem de boca. Complementam a prova ao mesmo nível que da prova de nariz, as pimentas, o chocolate preto e o toque de mineralidade.

É um Douro de perfil mais moderno, não direi novo mundo mas com aquele toque que o torna muito actual e bastante apetecível.
Mostra-se bem mais pronto a beber que a restante gama Niepoort (tirando o Diálogo), com um preço a rondar os 15€.
16

18 abril 2009

Vinum Callipole 2009

Vinum Callipole 2009

Numa iniciativa d´ O Copo de 3, decorrerá no próximo dia 2 de Maio, nos Claustros do Convento dos Capuchos, em Vila Viçosa, o evento Vinum Callipole 2009, com a participação de alguns produtores de vinho, a nível nacional.
Altas Quintas, Quinta do Zambujeiro, Herdade das Servas, Gravato, Herdade do Portocarro, S.A. Vale de Joana, Granacer, Casal Figueira, etc...

Um evento em que poderá provar e ficar a saber um pouco mais acerca dos vinhos produzidos em Portugal... assim como, e de um modo informal, falar com produtores, enólogos e responsáveis, sobre os vinhos presentes, o que têm no mercado e as novidades que estão para aparecer, assim como outras surpresas.
VINUM CALLIPOLE – 2009

2 Maio | 15h – 20h
Claustros do Convento dos Capuchos Vila Viçosa

Entrada: 5 €
Copo Schott Din Sensus incluído

PROVA ESPECIAL ''Portalegre Década de 90''
Em prova alguns dos grandes vinhos da Coop. de Portalegre, com os anos 1990, 1991, 1994, 1995, 1996, 1997, 1999 e como bónus o Cinquentenário, o que não exclui a entrada de outros vinhos da região da mesma década.
Preço de inscrição 30€ (inclui entrada no evento e copo de prova)
5 Lugares disponíveis...

Linha de Informação: 967 344 226
Apoios: ViniPortugal, Confraria do Pão, Queijaria Monte da Vinha, Schott Zwiesel e Alug`Aqui

06 abril 2009

Tapada de Coelheiros tinto 2004

A excitação enófila tomou conta de Portugal nos últimos anos, fruto de uma maré de novidades que colocou os apreciadores de vinho numa autêntica roda viva, querendo provar o máximo possível dos novos aromas e sabores que inundaram o mercado.
Hoje em dia a coisa parece que anda mais calma, os aromas que antes eram novos tornaram-se quase que triviais e novos aromas e sabores são cada vez mais difíceis de encontrar e o consumidor tem vindo a acalmar no que toca à sua avidez enófila de conhecer tudo e todos.
Dá-se nova ''febre'' e eis que do nada se aponta para os vinhos do passado, e o novo motivo de conversa passam a ser os ''vinhos velhos'' , capazes de nos transportar para outra dimensão de prova e conhecimento, onde evidentemente os aromas e sabores são novamente diferentes do que se andava a provar nos últimos tempos com os amigos.
No meio de tudo isto, foram ficando algumas marcas que de certa forma foram sendo ultrapassadas, colocadas de lado, face a um interesse que deixou de morar naqueles rótulos. Vinhos que conquistaram lugares de destaque e respeito, foram preteridos pelas novidades ou pelos vinhos mais velhos... quase que pairam no limbo do que se pode chamar Clássicos.
O vinho que agora coloco em prova é um fiel exemplo de um produtor com nome consolidado no mercado, terá sido mais falado em seu devido tempo e terá os seus fieis seguidores nos dias de hoje, mas na roda viva do dia a dia quase que desapareceu de circulação. Nome respeitado em muita mesa, o Tapada de Coelheiros foi daqueles vinhos que sempre segui com respeito e admiração, nome grande do Alentejo, invocou a glória com um excelso Garrafeira 1996.
A verdade é que também eu me deixei levar pelas febres das novidades e me fui afastando destes vinhos, os preços ''puxados'' não ajudam. O último exemplar que me lembro de ter bebido foi o Tapada de Coelheiros tinto da colheita 1999, voltando às provas deste clássico alentejano agora com a colheita de 2004.

Tapada de Coelheiros tinto 2004
Castas: Cabernet Sauvignon 50%, Trincadeira 25%, Aragonês, 25% - Estágio: 12 meses em casco de carvalho francês (30% novo) e 12 meses em garrafa - 14% Vol.

Tonalidade ruby escuro de concentração média.

Nariz de boa intensidade, a mostrar-se com fruta vermelha bem madura envolta em especiarias do reino das pimentas e o toque vegetal fresco a recordar pimentos, não dos verdes mas sim pimentão, daquele que se esfrega no aroma a carne maturada que exala ao de leve. Complementa a sua passeata com uma brisa de tosta, reveladora de um trabalho de madeira de grande nível (norma a que nos acostumou esta casa) sempre vigiada de perto por um bálsamo vegetal, fresco e tonificante, mas sem excessos.

Boca acima de tudo a mostrar um vinho elegante, com espacialidade controlada e ao mesmo templo com ligeira delicadeza. Assenta na frescura da fruta vermelha com toques de tosta, mais uma vez sentimos sintonia entre a prova de nariz e a prova de boca, mostrando um conjunto fino e aprumado. Complementa-se com vegetal fresco, novamente nas pimentas e em nuance de cacau semi-frio, prolongando-se num final de boca médio/longo.

É daqueles vinhos intemporais, fora de modas ou de tendências. É dono do seu nariz, mostrando-se sério e muito bem feito, mas ao mesmo tempo sereno e conquistador. Depois de o provar, fico a pensar em qual será o motivo que leva o consumidor a andar atrás de vinhos cheios de efeitos especiais, quase que adeptos do tunning vínico, quando temos por preço semelhante vinhos de qualidade e com aquela identidade que muitas vezes procuramos e teimamos em não encontrar.
16

05 abril 2009

Baltasar Gracian Tempranillo Viñas Viejas 2003

Do produtor BODEGAS SAN ALEJANDRO (D.O. Calatayud) , uma cooperativa fundada em 1962, composta actualmente por 350 sócios e 1100 ha (variando entre os 750 e 900 metros de altitude, onde castas como Garnacha, Tempranillo, Macabeo, Merlot, Syrah e Cabernet marcam presença) com uma produção total média de 4.600.000 Kg, situada em Miedes, na província de Zaragoza, no vale de Perejiles, a 758 m. de altitude.
O nome da Cooperativa vem do nome de San Alejandro, cujos restos mortais se encontram depositados no Convento das Reverendas Concepcionistas Franciscanas, e cujo rótulo se inspira no relicário venerado pela confraria mais antiga da terra, situado na Igreja de San Blas.

O resultado são vinhos apetecíveis e bem feitos, onde se alia um toque de modernidade com algo do passado e onde se joga com preços e imagem sempre atraentes. Recordo que o vinho em prova não passou dos 7€.
São vinhos que sempre encontrei prontos a consumir após saírem para o mercado, mas que costumam melhorar nos primeiros 2 anos de guarda, apesar do exemplar em prova já ter passado o tempo recomendado como de consumo óptimo (seria neste caso 2007)... ou seja, o vinho entrou na fase descendente e convém aproveitar enquanto é tempo. Foi o que fiz...

Baltasar Gracian Tempranillo Viñas Viejas 2003
Castas: 100% Tempranillo - Estágio: 10 meses em barrica - 14,5% Vol

Tonalidade granada escuro de concentração média/baixa com ligeiro toque atijolado no rebordo.

Nariz a mostrar aquilo que já se esperava, um vinho onde os aromas tocam quase sempre nos planos secundário e terciário. A fruta vermelha algo espaçada, mistura-se com compotas, toque de baunilha com queima da tosta, algum envernizado. Sente-se no seu todo um conjunto que a nível da expressividade mostra já algum desgaste.

Boca melhor que a prova de nariz, o vinho mostra ainda alguma vivacidade, com toques de fruta e compota da mesma. Acidez ainda que curta percorre o vinho por completo, balanceando com a tosta e algum caramelo que se faz notar no fundo. Pouco mais tem que dizer, a espacialidade é mediana e o final de boca médio/baixo.

Claramente na fase descendente da sua vida, já esteve muito melhor, mas obviamente não é vinho de grandes guardas. Fico aliviado por não ter mais nenhum exemplar destes em agonia na minha garrafeira.
14

03 abril 2009

Herdade do Meio - Cabernet Sauvignon/Syrah 2004

Dou seguimento às provas dos vinhos do produtor sediado em Portel, Casa Agr. João & António Pombo, S.A -Herdade do Meio.
Vasculhando na imensidão da net e à falta de um site funcional do produtor, fica-se a saber que dos seus quase 70 hectares, 25 são vinha, explorando mais 130 em concelhos circundantes.
O sucesso da produção e, principalmente, escoamento dos vinhos da Herdade do Meio estão espelhados nestas expansões, tendo passado das 300 toneladas iniciais (2003) para 670 toneladas (2004), 1.200 toneladas (2005) e, finalmente, 2.000 toneladas (2006).
Para a produção dos vinhos utilizam as castas tradicionais portuguesas tal como, Aragonez, Trincadeira, Touriga Nacional, Alfrocheiro para os tintos. Já a casta Antão Vaz é utilizada nos vinhos brancos. Utilizam igualmente castas francesas «de perfil internacional», como Cabernet Sauvignon, Syrah e Pinot Noir.

Herdade do Meio - Cabernet Sauvignon/Syrah 2004
Castas: Cabernet Sauvignon e Syrah - Estágio: 12 meses barricas carvalho francês - 14% Vol.

Tonalidade granada escuro de boa concentração.

Nariz de aroma maduro com boa intensidade, onde a fruta negra (amora, framboesa e ameixa) marcam presença com colheradas cheias de compota. Mostra-se com alguma complexidade que lhe confere um pouco mais de classe, não é um vinho dos imediatos e vale a pena acompanhar o seu levantar (ainda que curto). É com toques de chocolate de leite ligeiramente abaunilhado, vegetal fresco não muito sentido mas presente e boa dose de especiaria (pimenta preta). Capaz de cativar o mais incauto e distraido, está pronto a dar prazer num belo conjunto aromático que alia duas castas guiadas pela mão sábia do enólogo António Saramago.

Boca com boa estrutura, vinho a dar boa conta de si tal como se mostrou na prova de nariz, que complementa muito bem. A passagem na boca é repartida pela presença da fruta madura, com boa concentração da mesma, e entre vegetal fresco que guia pelo meio de notas de especiaira, toque de cacau, café e tosta. Alguns taninos rabinos com espacialidade média, num final de boca de boa persistência.

É daqueles casos que se apresenta com substancia, apesar do blend ser pouco Alentejano, tem no seu todo um toque de compadre que não o faz destoar da zona que o viu nascer. Um belo casamento das duas castas num vinho pronto a beber e a dar prazer.
16

02 abril 2009

Herdade do Meio Virtuus 2004

O Projecto Rota do Fresco consiste na criação de um sistema de visitas a uma selecção de exemplares de pintura mural das capelas, ermidas e igrejas dos cinco concelhos abrangidos neste momento pelo projecto (Alvito, Cuba, Portel, Viana do Alentejo e Vidigueira), com o intuito de divulgar, preservar e revitalizar esse património integrado. Para isso, foram criadas diferentes Rotas e Experiências temáticas subordinadas à matriz da pintura mural alentejana – os “frescos” – nas quais pode aceder a património arquitectónico usualmente fechado, assistir ao vivo às tradições etnológicas, provar a gastronomia regional e perceber a paisagem envolvente. A Rota do Fresco, tem por base a extensão cronológica e espacial deste tipo de revestimento arquitectónico no conjunto destes cinco concelhos, que constitui um excelente exemplo da variedade e da qualidade desta forma de decoração e de catequização religiosa no nossoPaís, bem como do papel particular da região Alentejana na difusão deste género artístico, desde o século XV até aos inícios do XIX. Outro ponto comum a estes cinco concelhos ao nível da pintura mural, é a necessidade em quase todos os exemplares, de uma intervenção de conservação e restauro, bem como de uma intervenção estrutural ao nível dos próprios edifícios que albergam as pinturas.

Incluído na Rota do Fresco de Portel, encontramos o produtor da Herdade do Meio, que não sendo muito recente, é daqueles casos em que se apostou fortemente no mercado a quando do seu aparecimento. Se por um lado a sua imagem sempre foi apelativa, os preços altos que foram sendo praticados desde inicio retiraram muita vontade de compra a um grande número de consumidores. Das tentativas de aproximação aos vinhos, posso dizer que nunca saí satisfeito, um pouco pela qualidade mas mais pelo preço que sempre considerei demasiado alto. Recentemente numa promoção louca da feira de vinhos do Continente (ano passado) os vinhos deste produtor tiveram um desconto que direi, escandaloso, visto ter rondado os 70%, o que sem muitas dúvidas e cheio de vontade em tentar conhecer um pouco melhor estes vinhos de Portel, me levou a comprar alguns exemplares dos quais a primeira prova recaiu sobre o Virtuus 2004

Herdade do Meio Virtuus 2004
Castas: Selecção de uvas de castas tradicionais alentejanas - Estágio: 12 meses em barricas de carvalho francês e americano e mais 12 meses em garrafa - 14,5% Vol.

Tonalidade ruby escuro de concentração média.

Nariz mediana no que toca à intensidade de aromas, marcada pela fruta que alterna entre frutos vermelhos e negros (ameixa, amora, framboesa).
Um vinho que aparenta um lado fresco onde as notas de cacau, especiaria e tabaco, se afastam por alguns momentos ao deixar emergir como que rompendo pelo meio, uma ligeira sensação de químico (envernizado), seguida de frescura balsâmica.

Boca de entrada frutada e ligeira frescura com macieza subtil, alguma elegância, mostrando-se menos complexo do que poderia sugerir pela prova de nariz, tendo notável quebra na sua performance.
A secura que mostra derivada dos taninos secos que imortalizados irão ficar ver o tempo passar, irredutíveis no seu lugar. Parece que é na boca que mostra o seu lado mais vegetal e agreste, tem um ligeiro envernizado que quase dando a sensação de estarmos perante outro vinho.

O vinho não custou mais de 5€ numa promoção arrasadora levada a cabo pela feira de vinhos do Continente no ano passado... digo arrasadora porque este vinho anda nos 12€ euros na actualidade e penso já ter visto a algo mais. É um agarra e larga que pelo menos a mim não me convence, pois se nos tenta agarrar pelo que mostra no nariz com alguma ponta de diferença, na prova de boca quebra ao nível do que mostrou em nariz, dando sinais de uma outra faceta onde alguns imortais taninos secos fazem questão de se mostrar. O preço fica por isso mais uma vez desajustado face à qualidade apresentada.
14,5

26 março 2009

Covela Escolha Palhete 2007

Aproveitei este post para falar do tempo, coisa sem interesse e que muitos podem pensar... é para passar o tempo sem dizer nada que se aproveite, o que também não deixa de ser verdade.
Mas a verdade é que o tempo tem estado muito bom, o calor que se vai fazendo sentir, já convida à esplanada, já apela pelo vinho fresco e frutado, começamos a querer encostar os vinhos mais estruturados e pesados para outras alturas, outras estações... outros tempos.
Esta é uma fase de mudança nos gostos dos enófilos, começam a ficar esquecidas e guardadas aquelas garrafas que nesta altura entram na fase menos boa, quase que o vinho adivinha e se resguarda, é dar lugar aos novos dizem as garrafas mais velhas, e nós aceitamos o sábio conselho e procuramos aqueles vinhos que mais se adequam a um tempo descontraído, fresco mas ao mesmo tempo morno, a Primavera.
Com tudo isto quero falar de um Rosé que provei recentemente em muito boa companhia, a prova durante o almoço tinha sido longa e luxuosa, o tempo já dava horas e os minutos avisavam insistentemente que o jantar estava na mesa. Escolhi um vinho que já conhecia, um Regional Minho (que fica ali entre Douro e Minho) feito à base de Touriga Nacional, Cabernet Franc e Merlot. Dá pelo nome de Covelha Escolha Palhete 2007 e a prova que deu foi assim:

Covela Escolha Palhete 2007
Castas: Touriga Nacional, Cabernet Franc, Merlot - Estágio: estágio em cubas de aço inoxidável, a temperatura controlada - 13,5% Vol.

Tonalidade aproximada à romã madura.

Nariz de delicada complexidade a mostrar muita fruta vermelha, onde se destaca claramente o morango, aquele morango grande e rechonchudo, sumarento e cheiroso, ainda com o toque da rama verde e fresca. No segundo plano mostra que tem mais uns ligeiros retoques, mineral, fumo, embrulhando-se tudo numa bela dose de frescura.

Boca de entrada fresca e de imediato a dar uma sensação convincente de que temos aquilo que esperamos e tantas vezes fica por encontrar. Sabor de concentração moderada a recair novamente na fruta madura, sem qualquer ponta de doçura maçadora, antes pelo contrário o perfil é sóbrio, estruturado quanto baste, mantem-se em grande harmonia. É novamente o morango e um pouco de framboesa, boa espacialidade, passagem fresca com a tal rama do morango a ser trincada nas pontas, apimentado e em final de bela persistência.

Foi servido a 10ºC onde se mostrou um pouco fresco demais, deixando subir para os 12-13ºC onde me pareceu mostrar tudo aquilo que lhe ia na alma. Sente-se no seu todo um vinho fresco, muito ponderado na maneira como se manifesta mas que dá muito prazer durante a prova. Não é o perfil mais jovial, este é bem mais indicado para carnes ou peixes grelhados, e quem sabe uma pizza carbonara. Se o vir não o deixe escapar, é sem sombra de dúvida dos mais sérios rosés que temos em Portugal.
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Silverlake Sauvignon Blanc 2006

Após aquele instinto de cozinhar algo rápido para jantar, mas que ao mesmo tempo até se vai pensando com o que acompanhar dito prato, eis que dou por mim a vaguear no meio das garrafas para escolher um branco que se apresentasse com um mínimo aceitável de acidez, sem passagem por madeira e com perfil a recair mais nos ventos tropicais.
Encalhei num branco encalhado, pelo ano de colheita (2006) pensei eu que ''Já devias ter ido...'' mas dando o benefício da dúvida , como convém sempre dar, lá lhe saltou a tampa... modernices.
A bem dizer, até gosto da gulodice que alguns Sauvignon Blanc apresentam, mais os do novo mundo (este veio da Nova Zelândia) que se perdem em espampanantes aromas de espargos, xixi de gato e até mesmo aquela mousse irritante de manga madura que enjoa muita gente.
Este nem foi dos mais caros, custou cerca de 8€, o que é bom ao comparar com os exemplares Sauvignon Blanc made in Portugal que têm sempre mais de Blanc do que propriamente de Sauvignon.

Silverlake Sauvignon Blanc 2006
Castas: 100% Sauvignon Blanc - Estágio: n/d - 13% Vol.

Tonalidade amarelo limão com laivo esverdeado

Nariz de aroma a entrar no panorama claramente de frutos tropicais maduros e frescos, que deriva para mousse de manga naquela sua ligeira cremosidade, com fundo fresco de espargos verdes acabados de cortar. Tem uma ponta de mineralidade, tudo em conjunto arrumado, com mais exuberância que complexidade.

Boca com entrada fresca, a puxar novamente aos encantos da fruta, aqui já um pouco apagada, com o vegetal fresco (relva cortada) a manifestar-se de igual maneira. Está integro, com harmonia, e ainda mostra ares da sua graça.

Ora lá está, é isto que se espera de um branco acessível face ao preço, proveniente do novo mundo. Mostrando aquele toque de diferença, do que estamos acostumados, caindo depois na mediania entre iguais. Mostrou que deve ser bebido enquanto é novo e que o stock deve ser renovado ao fim de cada ano. É um daqueles casos que serve para mostrar aos amigos que se tem vinho de muito longe e que na Nova Zelândia até nem fazem mau vinho.
Por mim vale a pena ter um ou dois exemplares para acompanhar um prato de tendência mais oriental ou mesmo os devaneios mais condimentados.
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19 março 2009

Quinta do Francês 2006

Estive no vai não vai para colocar como título para este vinho, uma surpresa que veio do Sul, pois foi do soalheiro Algarve que me chegou este, Quinta do Francês 2006.
Um tinto que durante a prova revelou ser uma boa surpresa e que sinceramente não estava à espera face ao desempenho que outros tantos vinhos Algarvios já me tinham acostumado.
Ainda bem digo eu, pois este exemplar conseguiu algo que outros até aos dias de hoje ainda não conseguiram, o ficar com a vontade de o voltar a provar.
Este vinho Regional Algarve, vem de Odelouca River Valley, que não fica nos Estados Unidos e muito menos na Austrália, afinal de contas, tudo começou quando um médico francês, Patrick Agostini, decidiu converter uma encosta da Ribeira de Odelouca em paisagem vinhateira.
Foram 6,5 hectares que se tiveram de desmatar e drenar, para que naquele solo de xisto ácido, fosse plantada a vinha, composta apenas por castas tintas (Cabernet Sauvignon, Syrah, Trincadeira e Aragones). Em sete longos anos, só conseguiu uma produção experimental de 4.000 litros, porem esta ainda se encontra aquém das exigências de Patrick Agostini.
Em lançamento no mercado, encontra-se a colheita 2006 (aqui em prova), para dar lugar lá mais para Junho à colheita de 2007.

Quinta do Francês 2006
Castas: Cabernet Sauvignon, Syrah, Trincadeira e Aragones - Estágio: 16 meses em carvalho francês novo e 6 meses em garrafa - 13,5% Vol.

Tonalidade granada escuro de concentração média/alta.

Nariz a mostrar-se num pendolo que vagueia entre uma nuance de fruta madura (cereja, ameixa e alguma groselha) e o vegetal fresco (rama de tomate). O vinho parece andar num pequeno reboliço ou direi mesmo um pouco inconstante no que toca ao aroma, mostrando-se ao mesmo tempo algo delicado e sem grandes exuberâncias. Consegue transparecer um toque químico que se funde nos tiques da barrica, a baunilha ligeira e um floral (lavanda ?!?) que anda a brincar ao esconde-esconde. Tudo enrolado e muito bem encaminhado por uma frescura que aqui se mostra regada por especiarias (pimentas).

Boca de entrada fresca, dando as mesmas sensações que na prova de nariz, o herbáceo que não se mostra de forma exagerada, marca a sua presença ao lado de uma acidez que lhe confere frescura e percorre toda a boca de princípio a fim.
A tosta, o fumo, a harmonia que consegue mostrar sem um corpo desmesuradamente cheio ou pesado, com alguns taninos vivos a saltitar por ali. Final de bela persistência, com a frescura e o vegetal fresco a dizerem adeus.

É um vinho que ganhou claramente com o tempo que passou no copo, a decantação foi benéfica seja dito. O vinho aparenta mostrar-se numa fase onde ainda se está a conhecer a si próprio, revelando arestas por limar aqui e ali, uns taninos mais rebeldes ou a mistura entre químico e vegetal, são exemplo disso mesmo. Será muito curioso ver como vai evoluir daqui para a frente. No que toca a gastronomia arriscaria sem receios num casamento com uma feijoada de búzios. Gostei.
15,5
 
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